Motores 1000

Eu normalmente quando estou revoltado eu meto o pau aqui no Blog.  Mas o resultado acaba sendo posts enfadonhos que não trazem nada de útil a sociedade.  E aí o Blog fica sendo mesmo depositário de minha diarréia cerebral.  Mas vamos acrescentar o conhecimento falando de motores.

Em 1993 o país estava a beira de uma crise.  A inflação galopava, o Collor destruiu nossa economia, houve uma abertura para a importação de automóveis e nossas fábricas, que não estavam prontas para enfrentar a concorrência dos importados e isso ameaçava inúmeras demissões.

O problema é que o país não consumia carros.  De fato, quem podia comprar carros então?  Apenas os ricos, e estes estavam comprando carros importados, de qualidade muito superior aos nossos.  Mas a indústria automobilística precisava funcionar.  Daí, o então presidente Itamar Franco teve uma idéia brilhante:

O carro popular.  O governo decidiu dar isenção de impostos para carros com baixa cilindrada (até 1000cc) barateando seu preço.  Assim, as montadoras venderiam carros mais baratos e o povão poderia comprar carro.  Itamar inclusive fez renascer o Fusca, devido a um pedido especial do próprio presidente.  Tanto que a nova série de fuscas produzidos ficou conhecida como “Fusca Itamar”.

A jogada foi brilhante.  Com a entrada do plano Real e a estabilização da economia muita gente pode comprar carro.  O dólar barato (menos que um real) dava gasolina barata e peças baratas.  O carro popular fez um sucesso danado.  A proporção de carros com motor de 1000cc (ou 1.0) entre os carros novos vendidos no Brasil chegou a ser de 70%.

O motor 1.0 para funcionar por si só já incorporava algo importantíssimo:  A mudança de materiais.  Agora, o bloco do motor era feito em alumínio, substituindo a pesada liga de ferro dos seus antecessores.  Como o motor é pouco potente, o ideal é que ele tenha que levar pouco peso.  O próprio motor já é algo bem pesado (se não acredita, assista a uma operação de retirada do motor).

Os motores mais potentes, 1.6 e demais perderam espaço naquela ocasião, mas o poder aquisitivo do brasileiro subiu, muita gente tinha carro 1.0 e não estava satisfeita, queria trocar por modelos mais luxuosos, ao mesmo tempo já se tinha crédito para isso.  Tanto que hoje, a porcentagem de motores 1.0 entre os carros vendidos no Brasil já corresponde a menos de 50%.

O problema é que motor 1.0 foi feito pra carro pequeno.  Mas as montadoras se aproveitam da isenção de impostos (que ainda vigora) para lançar carros maiores e mais luxuosos com essa motorização.  O povo, mal informado, vê carros bem equipados e baratos e compra.  Mesmo porque, para grande parte de quem compra carro, o que menos pesa na compra é o motor.

Isso gera um problema.  Os carros ficam mancos.  Dos modelos em linha no Brasil, apenas o Ford Ka, a Fiat Uno e o GM Celta possuem porte para seus motores 1000.  O Gol G4 também se enquadra.  No entanto, todas as montadoras lançam modelos maiores e mais equipados para motores que não deveriam estar nesses carros.  Mas tem isenção de impostos, daí as montadoras aproveitam e o consumidor se dá mal.

Ao se comprar um carro, a primeira coisa que você precisa ver é o dinheiro que você tem para comprar esse carro.  Daí você vê o que te atende.  Mas, uma coisa que sempre terá que te atender é:  O carro precisa andar.  E subir.  E o consumo você quer que seja baixo.  E tudo isso que você precisa de um carro já lhe dimensionarão o motor.

Qual o problema com os motores 1.0?  Bem, o motor de um carro é responsável por puxar o carro e as pessoas que estão nele com suas bagagens, bombear o óleo para sua própria lubrificação, bombear a água para resfriá-lo e tocar o ar condicionado se você tem um.  Isso é uma tarefa hercúlea para o pobre motor.

Para entender, vamos pegar um exemplo:  Um carro bem vendido e típico que tem motor subdimensionado:  VW Fox 1.0 seu motorzinho lhe fornece 76 cavalinhos e um torque máximo de 10,7 kgfm.  Valores típicos para um motor 1.0 (e olha que eles evoluíram, os primeiros 1.0 ostentavam números bem piores).  Estou sendo bonzinho e usando os valores da montadora (normalmente quando outras pessoas medem, esses valores são menores).  O Fox no entanto pesa 1060kg.  Uma conta rápida nos fornece a relação peso/potência:  13,94 kg/cv (idêntica a do Red 5 – um Punto pesa 1200kg).

Essa relação é horrível, está entre os piores carros do país (o Fox 1.0 e o Punto 1.4 perdem para Ecosport 1.0).  Isso prova que ambos os motores estão subdimensionados.  Mas como o nosso assunto aqui é motor 1.0, vou meter o pau no Fox (o Punto fica para a próxima).

Isso indica que este carro para andar exige mais do seu motor do que deveria.  Exigir do motor significa que ele trabalhará em maior rotação.  Aí é que entra a grande enganação dos motores 1.0.  Explico:

Embora por ciclo de injeção o motor 1.0 consuma menos que um 1.4 ou superior pelo óbvio motivo do volume das câmaras de combustão ser menor, como ele gera menos potência ele acaba tendo que trabalhar em rotações maiores.  Isso significa mais ciclos de injeção, logo mais consumo.  Um Fox 1.0 com cinco passageiros e bagagem consumirá mais do que um mesmo Fox com a mesma carga com motor 1.6, pois este motor estará mais folgado trabalhando em rotações menores.

O pior problema está no torque.  Mais importante do que saber a potência de um motor é saber o seu torque.  Pois o torque lhe dá a dimensão da força transmitida às rodas e, portanto é ele que responde pela capacidade de subida de um carro, por exemplo.  Os míseros 10,7 kgfm do motor 1.0 fazem o carro sofrer pra subir.  O red 5 traz um torque de 12,5 kgfm.  Parece pouco, mas veja isso em uma ladeira.  Como também é o torque que dá a dimensão para o motor manter a velocidade, compensando as perdas por arrasto e atrito, dá para se ter uma noção de que o giro do motor irá mais além, pedindo mais consumo.

Se você pensa em acessórios a coisa piora.  O maior vilão deles é o ar condicionado.  O compressor do ar é operado por meio do próprio motor, tirando potência dada as rodas para entregar ao ciclo de refrigeração.  Se você liga o ar, ele rouba uns 5cv do motor.  Se o motor já lhe dá tão poucos…

Isso causa um perigo.  Você tem pouca potência e torque disponíveis.  Rodando em estrada, a boa prática de direção defensiva diz que você sempre tem que ter uma reserva de potência para efetuar uma ultrapassagem por exemplo (não é legal ficar muito tempo na contramão).  Com um carro 1.0 você gastará mais espaço para ultrapassar, o que lhe obriga a uma folga maior no tráfego oposto, e você precisa saber que, se precisar, não tem de onde tirar.

O motor 1.0 foi feito para carros urbanos e pequenos.  Ele andaria bem em um Smart, anda bem na Uno, no Ka…  O conceito de carro popular tem caído em desuso pois o brasileiro quer luxo no carro.  Portanto os motores 1.0 ficarão para carros pequenos mas bem equipados, para dois passageiros e crianças, e nenhuma bagagem.  E o uso desse carro deve ser essencialmente urbano.  Para uso em estradas e viagens, melhor escolher um motor maior.  Se você não quer carro pequeno como os que citei, desconsidere o motor 1.0.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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5 respostas para Motores 1000

  1. Pingback: Downsizing | Blog do Fernando

  2. roger disse:

    legal
    otimo!!!
    parabens!

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