Eins Zwein Drein

Venho tentando manter uma meta de ao menos um post nesse blog decrépito por semana.  É óbvio que não tenho conseguido. Ia escrever o que eu penso sobre a prisão de Lula e a política brasileira, mas é um assunto tão batido.  Um dia coloco o que eu penso.  Hoje achei mais legal contar causo.

Suíça

De todos os poucos lugares que fui até hoje, o que mais tenho vontade de voltar é a Suíça (Paris também, aquela torre Eiffel me deve uma coisa, mas isso é material para outro caso).  A Suíça é tão organizada que parece que é fake.  Eles se arrumam para mostrar isso, mas por dentro são tão zoneados quanto o Brasil.

A Suíça não faz parte da União Europeia, mas a fronteira é atravessável de qualquer jeito.  Apesar de haver um posto, diferente das outras fronteiras europeias em que você só sabe que mudou de país se prestar atenção na placa, não vi ninguém nesses postos.  Tinha que passar a 10km/h mas não tinha quem me parar.

As estradas suíças são um tapete, mas as francesas também são.  Mas você percebe que mudou de país quase que instantaneamente.  O relevo muda, a paisagem fica mais montanhosa, a estrada mais sinuosa e mesmo as fazendas que você vai cortando mudam o estilo.

Uma coisa que eu aprendi sobre as rodovias suíças é que as rodovias francesas possuem pedágio, as belgas e holandesas não que eu tenha visto e as suíças possuem algo que fizemos no Brasil há muito tempo:  Selo pedágio.

A história foi assim:  Lá pelo fim dos anos 80 o governo brasileiro acabou com a cobrança de pedágio (chamava-se taxa rodoviária única) e instituiu esse selo.  Cada carro para rodar na estrada deveria ter esse selo colado no para-brisa.  Você poderia comprar um selo para cada mês ou comprar um anual.  Se seu carro tivesse sido fabricado até um ano tal o selo era triangular.  Se fosse mais novo o selo era retangular e mais caro.  Caminhões e ônibus tinham que usar um por eixo.  Era isso aqui:

selo pedagio

Eu tive vários selos pedágios não porque eu ou meu pai tivéssemos carro, mas sim porque o patrão dele tinha e ele me dava os selos vencidos do mês passado que iriam para o para-brisa do “meu carro” (minha cama).  Os suíços fazem a mesma coisa com um selo anual que custa 40 francos suíços. Esse selo gourmet chamado vignette:

vignette-suica

Se a polícia suíça te pegar numa estrada rodando sem isso você é obrigado a comprar o selo por 40 Francos e pagar uma multa de mais sei lá tantos Francos. Na hora, em cash, sem chororô.

Meu problema é que eu entrei na Suíça com um carro alugado na Inglaterra que obviamente não tinha esse selo.  E eu só descobri que precisava disso quando cheguei a Zurique.  E achei 40 Francos muito caro para usar a estrada só na volta, e decidi arriscar.  Eu não havia visto uma viatura policial no caminho, isso ocorreria na volta.  Nunca a fronteira com a França foi tão longe e ainda teve um acidente na estrada onde as viaturas policiais já haviam chegado.  Pra minha sorte o acidente era no outro sentido e os suíços não tem o péssimo hábito de parar para ver a desgraça alheia.  Acho que não fui multado.  Já havia sido multado em Londres e em Paris, seria legal manter a coleção.

Mas Zurique é uma cidade sensacional.  Não parece um dos grandes centros financeiros do mundo, assim como Washington não parece a capital do país mais poderoso do mundo.  Tudo bem que quando você chega nos arredores de Zurique você passa por um labirinto de viadutos e túneis com placas em alemão onde se não fosse pelo GPS eu estaria rodando lá até hoje.

Parei o carro em frente ao hotel quando a noite já ia alta e na calçada tinham uns caras de cabeça raspada e mal encarados fumando cigarros.  Achei que apanharia assim que descesse do carro porque todos me olharam, é o preço a se pagar por andar de Peugeot com o volante do lado errado num país onde os caras andam de Mercedes e BMW.  Mas eles não me fizeram nada.

Depois de feito o Check-in botei o carro no estacionamento do hotel e fui ver o que se tinha para fazer na Suíça no dia seguinte.  Meu hotel era bem localizado, de modo que a pé fui até a rua mais cara do mundo, a Banhofstrasse que mostra bem o seu estilo com suas joalherias, lojas da Prada, Rolex, Omega (faltou loja da Apple) e a única coisa que pude comprar foi chocolates e tomar o café da manhã na Sprüngli.  Essa rua termina no lago de Zurique que tem uma vista linda de onde você consegue ver o topo das montanhas ainda com neve.

O entorno do lago tem uma estação de barcos de onde se chega a várias outras cidades no país e um parque bucólico onde ficam patinhos nadando, alguns cisnes e as pessoas aproveitam para curtir o dia, passear com crianças, cães, fazer piqueniques…

A limpeza de todos os locais é impecável.  Praticamente todo suíço fuma, mas não há uma guimba de cigarro no chão.  Eu imagino que seja lúdico do hábito de fumar dar um peteleco na guimba para longe quando se termina, mas os suíços ou não fazem isso ou são todos bons de basquete.  As pessoas comem nas mesas no entorno do lago, e após a refeição recolhem todo o seu lixo e depositam na lixeira mais próxima.

Uma coisa que desapontaria os defensores de porte de arma é que os únicos suíços armados que vi na vida não estavam na Suíça, suas armas eram lanças e eles usavam roupas engraçadas. Os suíços são muito tranquilos e apesar deles terem armas em casa, ninguém sai de Rambo pela cidade com fuzil na bandoleira.  Eles simplesmente não precisam.

O povo suíço é educado, as pessoas se respeitam, vi muitos muçulmanos, mulheres de véu islâmico tinha uma até de Burca, as pessoas não estão nem aí.  Os transportes não possuem roleta, as pessoas pagam a passagem porque sabem que tem que pagar e não sujam as ruas porque não é pra sujar as ruas.  O trânsito suíço é famoso por essa educação, e devido a essa educação quase não ocorrem engarrafamentos.

A noite encontrei uma pizzaria em frente ao hotel que nas reviews desses sites de viagem disseram que tinha um cara lá que falava cinco idiomas entre eles o português.  Cheguei lá e perguntei por ele.  Era um turco que falava turco, francês, inglês, alemão e português.  Ele me atendeu muito bem, me recomendando uma boa cerveja suíça.  A cerveja é comum, devia ser a Brahma de lá, tanto que vinha no latão.

Em Roma, aja como os romanos.  Eu comi a pizza e tomei três latões.  Ele me cobrou duas.  Informei que eram três.  O turco corrigiu a conta, eu paguei e agradeci o atendimento.  Aqui na Bananolândia o garçom provavelmente me agradeceria por corrigir a conta para mais, mas lá isso é natural.

Na manhã seguinte foi o dia de sair de Zurique e pegar a estrada contando os minutos para chegar a Basel e a fronteira com a França sem ser parado pela polícia.  Essa eles me desculpem, mas o selo pedágio eu soneguei.

 

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
Esse post foi publicado em Diários de Viagem e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

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