O dia em que um macaco que não era o Tião salvou o Rio

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Se você está no poder e pretende manter esse poder, uma coisa interessante é ter um inimigo.  Um inimigo externo tende a unir toda a população em torno de sua liderança, superando diferenças menores.

Bush filho estava na pior em seu primeiro mandato.  Sua ineptidão e os fracos resultados da economia jogaram sua popularidade lá embaixo.  Dificilmente seria reeleito.  Mas aí veio o 11 de setembro e mesmo o mais ferrenho dos democratas sabia que era um momento de união nacional em torno do poder legitimamente estabelecido e assim Osama Bin Laden e o Taliban tornaram-se o inimigo perfeito, garantindo a Bush inclusive a reeleição.

Às vezes o tiro sai pela culatra.  A ditadura militar argentina já vinha sendo muito questionada internamente, pois a vida dos argentinos não andava boa e poderia não andar se você questionasse o governo.  A última carta na mão da junta militar que governava o país era o patriotismo inerente aos argentinos e o comandante Galtieri apelou para isso dizendo que iria recuperar o território argentino e invadiu as Malvinas.

Só que um inimigo bom para você se manter no poder é um inimigo que possa ser vencido.  A Argentina resolveu arrumar encrenca com a Inglaterra porque achava que, dada a distância e o fato de não haver nada de importância estratégica nas ilhas, os ingleses deixariam pra lá. Só que lá na Grande Ilha da Bretanha, existia uma dama que conhecia essa cartilha de arrumar um inimigo e aceitou de bom grado o presente argentino.

O que deu errado para Galtieri funcionou para Margareth Thatcher que garantiu reeleição por ter lidado de forma brilhante com a questão argentina. Já a derrotada junta militar argentina viu a oposição a seu regime crescer e a ditadura ter seus anos encurtados.

A ideia de se ter um inimigo é ótima para governantes que seguem as regras como Bush e Thatcher, para ditaduras é essencial.  E claro, não ser burro como os argentinos e escolher um inimigo que você possa vencer.  Aqui no Brasil os militares para tomar o poder escolheram os comunistas.

O comunismo era um excelente inimigo para os militares brasileiros. Estávamos com a Guerra Fria a todo vapor, a qualquer momento mísseis nucleares começariam a cair, seria o fim do mundo e tudo por culpa daqueles comunistas soviéticos.  Isso era verdade para o mundo, mas domesticamente, apesar de haver muitos comunistas, eles não tinham condições de executar um golpe de Estado.  Mesmo assim, os militares deram um golpe para impedir que os comunistas dessem um golpe.  Funcionou mas não por muito tempo, pois o próprio argumento dos militares era assumir por um curto período e logo devolver o país à democracia.  Os militares legalistas, entre eles o presidente  Castello Branco, desejavam isso.

Só que os militares estavam divididos. Havia uma turma muito forte que era a linha dura que achavam que deveriam ficar no poder por tempo indeterminado.  A linha dura eventualmente venceu a disputa interna dos militares e por isso nossa ditadura acabou durando até meados dos anos 80.  É ótimo ser do alto escalão de uma ditadura.  Você pode fazer o que quiser e ninguém vai saber pois a imprensa está censurada. Quando hoje dizem que não havia corrupção é que na verdade ninguém podia noticiar isso. E se alguém eventualmente falasse a respeito, a boate do delegado Aranha estava de portas abertas.  Mas você precisa manter um inimigo para justificar sua ditadura.

Os movimentos comunistas que lutaram contra a ditadura não eram mocinhos. Nos sonhos deles, eles pretendiam vencer a ditadura militar para então implantar a ditadura deles. Só que isso só nos sonhos deles mesmo pois eles eram grupos pequenos, desorganizados, desestruturados e que sequer conseguiam coordenar entre si para ganhar mais força.  A Guerrilha do Araguaia era uma prova disso.

De fato, a ditadura brasileira deu aos comunistas brasileiros mais importância do que eles mesmos achavam que tinham.  O país comunista mais próximo ao Brasil é Cuba que não tinha condições de apoiar uma tomada de poder no Brasil.  Nem mesmo a União Soviética teria, pois tudo o que eles podiam fazer atravessar o Atlântico eram submarinos e ICMBs, nenhum muito útil para conquistar um país.  Dependendo dos esforços internos, o Brasil tinha chance zero de ser comunista.

Mas os comunistas se organizaram em guerrilhas, as forças contrarrevolucionárias estavam na iminência de marchar sobre Brasília, seu vizinho pode ser um comunista, denuncie!  Estamos espionando você para o seu bem, e toda essa paranoia era corroborada por dezenas de atentados, assaltos a banco etc que ocorriam nas cidades.  Nem todos eram culpa dos comunistas.

Comunistas assaltaram bancos, sequestraram aviões para ir para Cuba entre outras coisas, mas bandidos normais também assaltaram bancos e, como comunista não serve nem pra fazer seu próprio trabalho, os militares davam uma ajudinha nos atentados terroristas.  O mais famoso desses foi o atentado do Rio Centro, mas houve um que se levado a cabo poderia custar até milhares de vidas inocentes.

Em junho de 1968 a linha dura já estava para vencer a disputa interna dos militares, mas precisava convencer a população de que sua presença era necessária.  Os comunistas do Brasil estavam sendo comunistas e não conseguiam fazer um atentado terrorista decente. Assim o vilão de James Bond, o brigadeiro João Paulo Burnier, chefe de gabinete do então ministro da Aeronáutica Márcio de Souza Melo entrou em cena.

Burnier, linha dura e extrema-direita, esteve entre os comandantes da tentativa fracassada de golpe contra Juscelino Kubitschek em 56 e concebeu um plano malignamente mal:  Os “comunistas” executariam atentados em série, de modo a causar mortes, danos, choque e pavor na população que clamaria por vingança e caça aos culpados, o que seria o pretexto perfeito para um recrudescimento no regime umas 20 vezes pior do que ocorreria meses depois no AI-5.

O plano era usar forças especiais para sabotar e destruir instalações vitais da infraestrutura do Rio de Janeiro, ícones capitalistas e sequestrar pessoas queridas e importantes que não tinham ligação com o regime militar.  Assim ele pretendia explodir a represa de Ribeirão das Lajes, deixando boa parte do Rio de Janeiro às escuras, executar atentados a bomba contra as lojas Sears, ao Citibank e a embaixada dos EUA (o que melhor para culpar comunistas do que atacar coisas americanas?), sequestrar e jogar de um avião sobre o Atlântico diversas personalidades, das mais diversas como JK e seu rival Lacerda, o Cardeal Dom Helder Câmara entre outros e a cereja do bolo:  Explodir o Gasômetro.

Gasômetro

Toda a estrutura do gasômetro. Imagina isso explodindo.

O Gasômetro ficava na Zona Portuária do Rio, em São Cristóvão e era a maior estrutura do tipo no mundo.  Era capaz de produzir 180 mil metros cúbicos de gás manufaturado por dia, e seus três tanques enormes supriam toda a demanda de gás encanado da cidade.  Operou de 1911 até 2005.

A tropa escolhida para executar os atentados era o Para-SAR, unidade de elite da FAB especialista em resgates que muitas vezes são além das linhas inimigas e por isso, são ótimos combatentes.  Assim em 12 de junho de 1968, o comandante da unidade o Capitão Sérgio Macaco não pode passar o dia dos namorados com sua digníssima para se encontrar com o Brigadeiro Burnier ouvir seu plano maligno.  O gasômetro deveria ser explodido na hora do rush quando as pessoas estivessem indo trabalhar, para que a onda de choque e a explosão causassem danos ao maior número de pessoas possível, e quem conhece o Rio sabe que a maior parte da população passa por ali para ir e voltar ao trabalho e aquelas ruas estão sempre engarrafadas.  Estimativas colocavam o número de mortos em mais de 100 mil. Seria o maior atentado terrorista da história.

Sérgio Macaco respondeu assim a seu comandante:  “Não. Não concordo. E enquanto eu estiver vivo isso não acontecerá. (…). Não me calo e darei conhecimento de tais fatos ao ministro.”  O que se seguiu foi uma discussão ríspida e acusações de motim.  Sérgio Macaco levou o caso a imprensa o que provocou uma saia-justa nos militares.  O Brigadeiro Burnier negou a ideia do atentado até sua morte em 2000, mas Pedro Macaco tinha toda a sua tropa como testemunha.  Mas como você nunca ouviu falar em explosão no Gasômetro, Sérgio Macaco teve sucesso em impedir esse atentado.

Sérgio Macaco, que na verdade se chamava Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, foi preso por desobedecer ordens, respondeu a inúmeros processos na justiça militar, sendo absolvido em todos e foi transferido para a Groenlândia Recife onde acabou reformado compulsoriamente pelo AI-5. Pegaram leve com ele pois ele tinha costas quentes. A conselho do Delegado Aranha, ninguém nunca mais tocou no assunto.  Sérgio Macaco depois teve o direito de pedir benefício na Lei de Anistia de 1979 no que recusou, pois ele não poderia ser anistiado uma vez que não cometeu crime. Sérgio Macaco queria voltar a ativa e ter direito as promoções que conseguiria se ficasse na ativa. Esse caso foi parar no STF que deu ganho de causa ao oficial em 1992. Mas o decreto para lhe dar a patente de Brigadeiro ficou na mesa do Presidente Itamar Franco até 1994 e Sérgio Macaco não teve tempo de curtir seus dias de Brigadeiro.  Morreu em 5 de Fevereiro de 1994.

Esse caso serve pra mostrar que o mundo não é preto e branco, há todo um espectro no meio.  Também para mostrar que a ditadura no Brasil não foi boa e que eles não mediam esforços para permanecer no poder.  Mas ao mesmo tempo uma força que nos deu um plano tão nefasto também nos deu um herói para impedir que o mesmo fosse executado.

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Sérgio Macaco posa para o jornal na frente do que deveria destruir

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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