Intervenção no Rio: O que eu acho

Exército

Vamos para uma semana de intervenção militar no Rio.  Até agora nada mudou.  Curiosamente no dia em que a intervenção foi decretada eu testemunhei um arrastão no local que passo todo dia para voltar do trabalho.  Pois bem, temos uma semana disso e nada mudou.

A primeira coisa que essa intervenção demonstrou foi a incompetência de Michel Temer.  Após um decreto desses o que você espera é que no dia seguinte a sua publicação a cidade amanheça com tanques nas ruas, soldados espalhados por todos os cantos, pontos estratégicos ocupados, prisões…  Nada disso aconteceu.

Temer decretou a intervenção e nomeou para interventor um general que estava voltando de férias.  O cara esperava voltar, tomar um café, ler as notícias e aos poucos voltar ao seu trabalho, pegou uma baita furada.  Ele sequer tem um plano, passou essa semana elaborando o plano.  Claro que essa semana que o Estado maior passou planejando, os bandidos também passaram planejando.  E agindo.  Conseguindo mais armas, escondendo armas etc.  Graças ao Temer perdemos o elemento surpresa.

O que o exército vai fazer?  Bem, a melhor forma de se derrotar o inimigo é privá-lo de seus recursos.  Vai ser preciso evitar que armas e munições cheguem aos bandidos.  A  maneira de se fazer isso vai ser buscando e isolando os morros.  Por isso, quando reclamarem desse tipo de imagem:

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Sinto muito, é um mal necessário.  Crianças são cooptadas pelo tráfico e numa mochila de uma dessas crianças pode passar uma pistola, um estojo de munição e partes de um fuzil AK-47, a arma preferida do nosso inimigo.

Quando se diz que o Exército não tem experiência nesse tipo de operação esqueceu que os militares passaram mais de 10 anos no Haiti fazendo exatamente isso.  O Haiti nada mais é que uma favela gigante.  E a Minustah foi muito elogiada por todos.  Se o Exército fizer no Rio o mesmo que fez no Haiti estamos bem servidos.

Vai resolver o problema todo?  Acho difícil.  Só ocupação militar não vai resolver.  Vai ao menos melhorar.  É preciso um esforço conjunto de toda a sociedade, não só das forças de segurança.  É preciso por exemplo cortar os meios de financiamento do tráfico.

Legalizar as drogas?  Dependendo da droga até vá lá.  Legalizar a maconha parece um caminho, se você fuma um baseado você só fica mais devagar, se fumar direto você vira um retardado, o álcool te deixa doidão, se você beber muito arruma cirrose.  Nada muito diferente.  Basta proibir dirigir sob efeito de maconha, fazer campanha “se dirigir não beba nem dê um tapa na pantera” e tudo bem.  Mas drogas como o crack não devem de maneira alguma serem legalizadas dado o risco delas.

Mas engana-se que legalizando as drogas e tirando o comércio dos traficantes, eles irão tirar carteiras de trabalho e mandar currículos.  Bandidos já arrumaram outras fontes de financiamento:  Roubo de cargas, ataques a caixas eletrônicos…

Por isso é preciso esforço de todos.  Não adianta criticar a violência se você compra produto de roubo de cargas.  Enquanto as drogas são proibidas, ao comprá-las você está financiando o tráfico e toda a estrutura de violência.

Eu acredito no que fez Rudolph Giuliani em Nova York:  É preciso ter tolerância zero com os delitos.  Desde o camelô ilegal da esquina que transmite a sensação de insegurança até os grandes traficantes.  Com o combate aos pequenos delitos, as pessoas se sentem mais seguras e os grandes acabam por ser igualmente combatidos e inibidos.  E para isso é necessária a colaboração de todos.  Se isso não ocorrer, o exército só vai enxugar gelo.

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SOS tem um carro solto no espaço

Starman

Uma vez na outra empresa que trabalhei pegamos um projeto de um sistema de tratamento de água que consistia de quatro tipos de tratamento onde você poderia operar com eles em série, em paralelo e em diversas ordens para determinar qual a melhor combinação de tratamentos para pegar uma água de processo de refinaria e transformar em água de reuso.

A automação daquilo foi um pesadelo.  Tínhamos umas 160 portas digitais e mais umas 40 analógicas.  Basicamente líamos vazão, pressão e temperatura e tentávamos controlar isso comandando válvulas e inversores de frequência.  Apenas para isso o PLC era um armário lotado de cartões.  Fazer aquilo funcionar era um inferno, era um sistema trifásico, as unidades ficavam fora de fase e quando ligávamos o negócio parecia uma árvore de natal sem fazer absolutamente nada do que queríamos que ele fizesse.

Passei muitas horas para fazer aquela coisa funcionar.  Fiquei vários dias até as 23 horas no trabalho com o cara da elétrica e da automação (e por vezes apartando brigas entre eles).  No final aprendi bastante sobre controle e automação graças a coça que levamos desse equipamento.

É por isso que hoje quando eu vejo um piloto automático de um avião eu consigo pensar como aquilo funciona, recebendo dados de velocidade, altitude, atitude, arfagem e rolagem do avião, além de dados externos como os radiofaróis ou o sistema de ILS e atuar sobre as superfícies de controle e motores e assim fazer o avião voar e até pousar sozinho.

A automação de carros é bem mais complicada porque embora você tenha um eixo a menos (até 06/02/2018 carros não voavam), o número de variáveis a controlar é bem maior por causa de outros carros e da estrada.  Por isso estamos chegando lá em termos de carros autônomos, mas ainda não chegamos.

Um choque que você toma quando chega na faculdade de engenharia é que o curso de Física I é basicamente a física que te deu dor de cabeça no ensino médio e no vestibular.  Mas agora ela está piorada.  A segunda lei de Newton não é mais F=ma simplesmente.  Um problema clássico para te mostrar como o buraco é mais embaixo era o lançamento de foguetes.  Isso porque foguetes vão perdendo massa ao longo de sua subida, isso é significativo, não dá pra desprezar como você fazia no ensino médio, e agora a Força, ou impulso do foguete pode até ser constante, mas a aceleração não, pois a massa está variando.

Conforme você avança em seu conhecimento você vê que tem a resistência do ar, efeitos de compressibilidade, arrasto, sustentação, a temperatura influencia em basicamente tudo o que existe no universo.  Mas ver foguetes e aviões voando sempre me deixou maluco e é por isso que eu fiz engenharia.  E não, é impossível ficar indiferente ao que a SpaceX fez ontem.

Desde que eu soube que eles existiam, passei a acompanhar seu progresso.  Eu não conseguia acreditar que eles iriam lançar um foguete e pousar o primeiro estágio para reutilização.  Eu acho a ideia genial, a economia de custos é brutal, mas nunca tinha sido feito.

Fazer um foguete pousar é perigoso, ele desce escacetado do céu, você tem que reduzir a velocidade com os motores dele e arrasto aerodinâmico, orientar um charuto para ficar de pé com o vento querendo que ele faça justamente o contrário além de guiá-lo precisamente para o local de pouso.

É muita para controlar, são muitas variáveis para ler e muitos atuadores para comandar, em tempo muito curto, com velocidades supersônicas.  Por isso, até achei que a SpaceX conseguiria eventualmente pousar foguetes.  Mas não sem várias tentativas mal-sucedidas.

Eles não só conseguiram em menos tempo que eu pensei como começaram a pousar foguetes em balsas, onde o movimento do mar passa a ser mais uma variável.  Só de pensar na tonelada de sensores, variáveis, atuadores, códigos já me causa uma ereção.

“Não pode ser melhor” pensei.  Pode.  Imagina fazer isso três vezes.  Controlar a trajetória, velocidade e comportamento de um foguete que depois se divide em três, ao invés de descartar os foguetes usados, manobrá-los para pouso além do que sobrou continuar subindo para a órbita terrestre.

O Falcon Heavy basicamente começa como um foguete e termina com quatro foguetes sendo três para pousar na Terra e o quarto indo embora para fora da Terra. Tudo controlado, medido, atuado e informado.  Ver o lançamento funcionar é ver o engenho humano no seu melhor.

Essa coisa vai nos levar a Marte.  Graças a ela os custos para lançamentos serão menores.  Como haverá competição, os custos devem ficar menores ainda.  Ir ao espaço vai ser viável.  Talvez esse voo tenha sido o voo de Zefran Cochrane retratado em Star Trek.  Estamos lançando as bases para nos tornarmos uma espécie multiplanetária.

Como legado, o Falcon Heavy levou um carro, um Tesla.  Esse carro vai ficar orbitando o Sol lá pela altura de Marte.  Ele foi com um manequim astronauta de motorista e uma cópia do Guia do Mochileiro das Galáxias, importante para se viajar pelo espaço.  Subiu em grande estilo, tocando David Bowie e vai deixar os alienígenas ou arqueólogos do futuro completamente perdidos sobre o que diabos é aquilo.

Apenas pessoas de mente limitada não dão importância ou criticam o que vimos ontem.  A única chance que temos de sobrevivermos como espécie é sair do nosso mundo e seguir para as estrelas.  Ontem vimos isso ficar mais perto.

 

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A outra rede quer corrigir o Papa. Estão atrasados, aqui no Twitter já o mandamos ler a Bíblia.

Papa-Francisco

Dia desses me chamou atenção um post no Facebook que compartilhava uma carta que mandaram ao Papa Francisco. A carta, em tom grave mas utilizando-se de eufemismo como sempre fazemos para dar más notícias, chama-se “Correção Filial” ou Correctio filialis de haeresibus propagatis, mas na verdade uma galera se juntou e fez uma carta de 25 páginas para basicamente dar uma bronca no Papa.

Assinam essa carta 40 clérigos católicos e leigos eruditos.  Essa turma, da qual não questiono a competência ou o conhecimento de nenhuma delas, está insatisfeita e acusa o Papa Francisco de propagar heresias em sua Exortação Apostólica “Amoris laetitia”.  Eles dizem que o Papa Francisco se aproximou das ideias de Martinho Lutero sobre o casamento e divórcio e que estaria permitindo que católicos vivam em adultério.  Pode ser.  Mas vamos pensar um pouco:

O casamento católico é indissolúvel.  Você pode se divorciar de sua esposa ou marido no civil, mas perante Deus, segundo a doutrina da Igreja, você está casado com aquela pessoa até que a morte os separe.  Se por um acaso você se separar da pessoa com a qual se casou na igreja e passar a se relacionar com outra, você está em adultério.

Adultério é pecado mortal.  Vivendo em adultério você fica afastado dos sacramentos da Igreja.  Não pode comungar por exemplo.  E se morrer, terá uma passagem de primeira classe direto para o inferno.  Isso claro, segundo a letra da lei.  Não sabemos se as coisas são bem assim.

Uma vez passei por uma situação bem constrangedora porque eu, frequentador da Igreja Católica, acompanhei o rito de sucessão de João Paulo II, afinal, foi a primeira vez que eu vi a troca de Papa.  Como sabemos, o bondoso Karol Wojtyla foi sucedido pelo alemão Joseph Ratzinger (Bento XVI) que durante o pontificado de João Paulo II, conforme descobriu da pior maneira Leonardo Boff, era um cão de guarda em defesa da doutrina católica.  Pois bem, eu namorava uma garota cuja mãe não morava mais com o pai dela, morava com outro cara.  Com a notícia da eleição do novo Papa, o Fantástico dizia que ele era extremamente conservador e que isso dificultaria a vida de católicos em segunda união, como o caso dela, que seriam tratados como adúltero.

“Então eu sou uma adúltera?” Ela me perguntou.  Tecnicamente era, mas chamar sua futura sogra de adúltera não é muito saudável para seu relacionamento.  Preferi ficar quieto e mudar o assunto para o jogo do Fluminense.

Talvez o Papa Francisco esteja indo além do que essas pessoas conseguem enxergar.  Talvez o Papa, ao invés de milhares de páginas de código canônico e doutrina, tenha ido para algo mais simples:  Os Evangelhos.  Ser Cristão é, em essência, ser um imitador de Cristo.  E o melhor lugar para se saber o que Jesus fez está nos Evangelhos.

Jesus não curtia muito exatamente o tipo de pessoas que esses 40 estão bancando:  Os fariseus e os doutores da lei.  Estudar as escrituras, os documentos da Igreja é muito legal e é por isso que eu não ousaria questionar os argumentos deles.  Mas quando se faz isso, é preciso tomar o devido cuidado de não se perder a essência de tudo isso e se tornar um Fariseu, impondo fardos ao povo, fardos esses que talvez nem eles mesmos queiram carregar.

A questão do casamento me intriga bastante. Segundo a Bíblia, apenas um pecado não tem perdão, que é a Blasfêmia contra o Espírito Santo (Mc 3, 28-30).  Dentro da Igreja Católica para obter o perdão de qualquer pecado é bem simples:  Arrepender-se dele e confessar a um sacerdote.

Tráfico de drogas? Sim. Aborto? Também. Homicídio? Basta ir ao padre da esquina confessar e estará perdoado.  Todos esses pecados são mortais, te dão uma passagem  para o inferno, mas o ato de se confessar cancela seu voo para as trevas.  Isso também vale para o adultério.  O problema é que quando você está morando com outra pessoa que não a que você se casou, ao voltar para casa depois do padre, você volta a cometer o adultério.  Isso acaba tornando esses casos numa situação de pecado imperdoável.  Os traficantes e assassinos podem ir para o céu.  O cara que cometeu um erro ao casar com uma pessoa e depois só quer ser feliz, esse não.

Eu contei nesse blog a história da senhorinha nas Bodas de Ouro.  É justo viver assim?  Por conta de uma decisão errada na juventude você tem que ou condenar sua vida terrena ou sua vida eterna?  Antigamente as mulheres aceitavam maridos babacas como fardos na vida.  Hoje, elas não querem mais e estão certíssimas nisso.  Vamos ferrar a vida de pessoas que apenas querem ser felizes?

A Igreja precisa acompanhar isso.  Não é banalizar o casamento ou qualquer outro relacionamento e aceitar a ideia vigente em que relacionamentos são como as muambas que compramos no Ali Express que se deu um problema é melhor jogar fora e comprar um novo do que tentar consertar, mas também admitir que há coisas que não tem conserto e que as pessoas não podem ser condenadas a viverem infelizes ou sozinhas por algo assim.  O Papa Francisco sacou isso e resolveu dar alguma direção nesse sentido.

Talvez os caras que queiram corrigir o Papa estejam certos.  Mas eu sempre penso que, se Jesus nascesse nos nossos dias e começasse hoje sua pregação, ele andaria com essas pessoas ou com aqueles que as religiões se esforçam por excluir?

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Relatório do Cenipa, coincidências e Teori(a) da conspiração

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Após um ano do acidente que vitimou entre outras vítimas o ministro Teori Zavascky, o Cenipa, órgão da Força Aérea Brasileira responsável pela investigação de acidentes aéreos divulgou seu relatório com as conclusões da investigação.  Para desespero dos teóricos da conspiração não veio nenhuma conclusão maluca.

Em algum momento toda investigação cai na célebre frase de Sir Arthur Conan Doyle:  “Quando você elimina o impossível, o que sobra, por mais improvável que pareça, só pode ser a verdade”.  Quando se investiga acidentes aéreos a mesma coisa é válida.  O pessoal do Cenipa sabe disso e aplica esse princípio sempre que tem um acidente pela frente.

Apesar do acidente ser com uma aeronave pequena, um King Air, o acidente chamou atenção de todo um país por causa do passageiro ilustre que morreu.  É um prato cheio para teóricos de conspiração pois o ministro estava a cargo da investigação mais famosa da história do país.  Será que assassinaram o ministro?

O Cenipa respondeu categoricamente:  Não.  O relatório, fruto de investigação minuciosa comprovou que tudo na aeronave funcionava perfeitamente atendendo a todos os comandos do piloto.  Não houve nada externo atingindo a aeronave, portando ela não foi abatida.  A conclusão é que o principal fator foi a desorientação espacial do piloto.

“sempre culpam o piloto, afinal ele não pode se defender não é?” seria o que o teórico da conspiração perguntaria.  Infelizmente nesse caso sim.  Primeiro que acidentes aéreos (sigam o @avioesemusicas) nunca ocorrem por um só motivo.  É sempre uma conjunção de fatores.  Aviação é uma coisa tão segura que existem inúmeras barreiras de segurança e para que um acidente ocorra todas precisam ser rompidas.  Para que todas as barreiras caiam são necessárias uma conjunção de fatores.

Para proteger as aeronaves da operação com tempo ruim existem proteções.  A regra de voo visual (VFR) só é válida até determinadas condições. Abaixo dessas você não pode voar visual, é obrigado a voar por instrumentos (IFR).  Aeroportos mais simples como o de Paraty só permitem operações visuais, o que significa que se as condições estiverem abaixo do permitido para voo visual, ninguém deveria pousar ou decolar lá.  O fato do piloto tentar fazer isso sob condições abaixo da VFR rompe uma das barreiras de segurança.

Mas por que ele faria isso?  Uma vez eu ia para Campo Grande saindo do Santos Dumont com uma conexão em Congonhas. Devido ao mau tempo, o voo saindo do Rio atrasou, apertando o tempo de conexão em Congonhas.  Chegando lá colocaram a aeronave naquela remota escrota a 100 metros do portão mas que te obrigam a pegar o ônibus, mais uma trapalhada da TAM que nos manda ficar na aeronave para depois mandar desembarcar, me fez perder o voo.

A TAM não tá nem aí pra mim.  Tive que correr atrás de uma remarcação em um voo que saía de Guarulhos e depois do transporte para lá custeado pela companhia aérea.  E a TAM só fez isso, acredite, porque a lei a obriga.  Senão ela no máximo me pediria desculpas pelo transtorno.  É a mesma coisa de quando o ônibus atrasa ou passa antes da hora.  Na melhor das hipóteses o motorista te pede desculpas.

Já a aviação executiva é outra história.  Enquanto um piloto da TAM é um motorista de ônibus (sorry aviadores) um piloto executivo é um motorista particular.  No caso da aviação, os motoristas de ônibus estão sujeitos a regras mais rígidas e, se ele atrasar o voo, não decolar ou alternar para outro aeroporto, no máximo vai ouvir passageiros se queixando, mas ele nem vai ligar para isso.  Fez seu trabalho.

Um piloto executivo leva o cara que paga seu salário praticamente o tempo todo.  O piloto do jatinho do Neymar tem que levar o Neymar para onde ele quiser quando ele quiser.  É o trabalho dele.  Se você não fazer isso sem um bom motivo, o Neymar demite você.  Por isso esse tipo de piloto sofre uma pressão extra.

Segundo o Cenipa apurou, o dono da aeronave, que estava a bordo, não interviu na condução do voo, e não era de hábito dele fazer isso.  Isso era ótimo.  Mas o piloto, segundo o mesmo relatório, era muito zeloso e detestava errar e fracassar (me identifiquei).  Portanto, é possível que para ele seja inaceitável não levar seus passageiros ao destino.

Outro fator sobre o piloto é que ela experiente em fazer esse voo.  Conhecia bem o aeroporto de Paraty, fazia esse trajeto dezenas de vezes o que deve ter dado a ele uma confiança maior, e possivelmente já ter enfrentado condições meteorológicas semelhantes.

Esse aeroporto tem tanto problema com o tempo que havia até uma carta de aproximação por instrumentos não oficial, que o piloto não usava.  Conhecedor da área e veterano de operações, talvez o piloto tenha pensado “vai que dá” e arriscado.

Lendo o relatório do Cenipa (você também pode ler, é público) aprendi mais como funciona a desorientação espacial.  Em uma manobra de 2G seu corpo te engana e ao olhar para fora você acredita estar com uma inclinação menor do que realmente está e se não confiar nos seus instrumentos, você pode inclinar mais ainda a aeronave levando a um estol.  Voando sobre um terreno como a água, você perde também a orientação de distância e pode achar voando mais alto do que realmente está.  Em um aeroporto sem informação de pressão barométrica isso é bem perigoso pois o altímetro pode informar igualmente errado.

Assim, em respeito a memória das vítimas e a uma das poucas áreas onde o Brasil é um país sério, todo o gerenciamento aeronáutico, larguem as teorias malucas de lado.  O que aconteceu foi um acidente que acabou por vitimar uma pessoa proeminente no Brasil.  Era um acidente evitável, conforme o próprio Cenipa alega, se a cultura de se respeitar os limites do voo VFR fosse aplicada.

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A Taste of Armageddon

EminiarWarRoom

Em “A Taste of Armageddon” de Star Trek, a Enterprise chega a um planeta que está ha anos em guerra com seu vizinho.  Assim que descem ao planeta, a capital é atacada pelo planeta inimigo resultando em 500 mil baixas.  O líder daquele planeta ordena um contra-ataque imediato.  No entanto, apesar da sala de guerra mostrar um cenário de devastação, aparentemente nada aconteceu na cidade.  A Enterprise não detecta qualquer explosão na superfície do planeta.

Conforme o episódio avança (Vem Spoiler, mas estou falando de um episódio que foi ao ar em 1967, portanto tome vergonha nessa cara) o capitão Kirk descobre que a guerra entre os planetas se situa no campo virtual, com computadores se atacando e simulando destruição. Nenhuma arma real era disparada.  Contudo as baixas eram reais.  Se você estivesse na área de um ataque e fosse declarado morto, você tinha 24h para se apresentar a uma câmara de desintegração e ser executado.

Logo a Enterprise é vítima de um ataque virtual e toda a tripulação declarada como morta, devendo descer para o planeta e ser desintegrada. Kirk obviamente se recusa a entregar sua tripulação, o que provoca uma quebra no acordo entre os planetas o que fará com que o planeta inimigo ataque com armas reais.

Os planetas fizeram um acordo para travarem uma guerra virtual, pois uma guerra real resultaria em danos ao ecossistema, as estruturas, mutilações, mortes lentas, corpos putrefatos na lama e todas as coisas legais que a guerra traz.  O que eles basicamente fizeram foi eliminar da guerra os horrores e torna-la insípida.  A recusa de Kirk põe os planetas novamente diante da possibilidade de uma aniquilação real.

Star Trek sempre funcionou por trazer uma humanidade que deu certo confrontando problemas de uma humanidade que não deu certo.  Hoje em dia as pessoas se comportam como os planetas em guerra do episódio.  Nos isolamos em nosso mundo e nos relacionamos com as pessoas através exclusivamente do mundo virtual e isso torna as relações insípidas.  Podemos desprezar pessoas como se fosse simplesmente manda-las a um desintegrador.  Ela morrerá sem dor.  Não é bem assim.

Quantos valentões de teclado você já viu?  São pessoas que você só sabe que são assim pois sabem que a pessoa do outro lado não tem como reagir.  Acham que o dano que elas causam não é sério. E mais, não é fácil falar coisas desagradáveis na frente das pessoas, mas mandar pelo Whatsapp é totalmente indolor.

Hoje em dia acabamos por nos relacionar mais com as pessoas por computador do que pessoalmente.  Seja pela distância, pela praticidade ou pela timidez, é bem mais fácil falar via aplicativos ou computadores. Isso tem um lado bom, acabamos por conversar mais com as pessoas, mas tem um lado ruim:

Dar más notícias ou falar coisas desagradáveis por aplicativos é mole.  Brincar com sentimentos alheios é mole.  Vejam o Tinder:  Usar o Tinder é basicamente como ir naqueles restaurantes chiques onde você vai no aquário e escolhe a lagosta que quer comer.  A diferença é que no Tinder a lagosta também tem opinião.

Mas num aplicativo desses, você não está vendo pessoas.  Está vendo opções para algo rápido.  Se o que a outra pessoa quer é isso ou não, isso não é problema seu.  Não sou contra o Tinder, se isso existisse alguns anos atrás, a quantidade de mulheres que eu beijei seria muito maior.  Mas que facilita a tratar as pessoas como nada, isso facilita.

Brigar, discutir, humilhar…  é tudo insípido quando feito por um aplicativo de conversa como o Whatsapp.  Você não vê a reação da pessoa, não sabe o que ela sente e nem quer saber.  Não é da sua conta.

Não vendo a reação da outra pessoa é como o planeta que apenas ataca por computador.  Ele matou meio milhão de pessoas, mas não as viu.  Não há pedaços de corpos espalhados, pessoas carbonizadas, gente moribunda implorando por ajuda, hospitais abarrotados de gente sem esperança…  As pessoas vão bovinamente para o desintegrador.

Ao brincarmos com pessoas nos aplicativos fazemos o mesmo.  Não vemos o que estamos fazendo, não vemos os danos.  Achamos que, da mesma forma que nós estamos nos sentindo, a pessoa do outro lado também está.  Nem sempre estará.  Eliminando a possibilidade de ver o dano que estamos causando, elimina de nós também a empatia, a compaixão, duas das coisas que mais nos fazem ser humanos.

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Esse cara vai ser presidente. E a culpa será de quem menos gosta dele.

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O mundo vem guinando fortemente para o conservadorismo.  O Brexit venceu, Trump venceu, partidos de inspiração fascista que eram irrelevantes, agora ocupam cadeiras nos principais parlamentos europeus, etc.   Como e por que isso está acontecendo?

Em comum todas essas iniciativas conservadoras tinham o fato de não terem sido levadas a sério.  A candidatura de Trump por exemplo, começou como uma piada.  As pessoas riram do cara que fala um monte de doideiras, e achavam que em algum momento a piada perderia a graça e pessoas sérias assumiriam dali.  Não foi o que aconteceu.  No caso do Brexit, muitos ingleses achavam que era só para dar um susto na União Europeia, mas eles voltariam a si logo depois.  Não aconteceu.

Há dois principais motivos para essas coisas terem acontecido.  A primeira é que as pessoas jovens e de ideias mais progressistas não vota.  E não é porque elas não podem, é porque elas não querem.  Acham que lacrar no textão do Facebook vale como um voto e que petição online vale mais que a Constituição.  Colocar x para “neutralizar gênero” é o ápice da inclusão.

Veja o Brexit:  Quem era a favor da saída inglesa da UE eram em maioria pessoas de mais idade

Os jovens eram contra.  Onde estavam os jovens no dia da votação?  Lacrando em algum lugar, menos na seção eleitoral.

A eleição de Trump?  Mesma coisa.  Trump teve 62.984.825 votos.  Hillary ficou com 65.853.516 votos e perdeu, é o sistema deles lide com isso.  Isso deu um total de 128.838.341 votos num universo de 200 milhões de eleitores.  E olha que lá, embora não seja obrigatório, é mais fácil de votar do que no Brasil, lá você tem dias para votar e nem precisa sair de casa, pode votar pelo correio.  Quem é que não foi votar?  O coroa republicano membro da NRA e fã de Nascar?  Ou a feminista de sovaco cabeludo lacradora do Face?  Mais provável a segunda.

O @cardoso vive dizendo que quem xílica não consome.  Pedem diversidade em filmes, quadrinhos, etc e quando são atendidos não assistem aos filmes e não compram os gibis.  Essa gente também não vota!  Já os conservadores sabem como as coisas funcionam, vão lá e votam.

O outro motivo são os moderados.  Militante não ganha eleição, mas pode perder.  Você não vai num acampamento do MST para falar para os sem terra fazerem uma marcha pela prisão de Lula.  Pelo mesmo motivo não vá a uma reunião de fãs do Bolsonaro falar que José Dirceu é um preso político.  Mas militantes são minoria.  A maioria dos eleitores são pessoas normais como eu e, espero, você que consegue ver o mundo mais do que o binário “fulano e partido são bons, os outros são ruins”.  Uma pessoa moderada procura ver todos os lados, mesmo que ela seja um pouco a esquerda ou a direita, não é fanática por uma pessoa.

E o que está acontecendo com os moderados?  Está ficando cada vez mais difícil defender os progressistas.  Embora não seja a favor da proibição, a tal exposição do Santander era uma boa porcaria.  Os caras criticaram uma ação policial que impediu um roubo a residência e terminou com 10 bandidos mortos!  O que eles pensam?  Que um cara com um fuzil na rua quer conversar?

Mas aí os caras chegam ao fundo do poço.  Defender idiotas que acham que escrever palavrão em hóstia é arte, vá lá, mas pedofilia?  Sim, não tem outra palavra, o que ocorreu no MAM de São Paulo foi isso.

Tem tara pra tudo, se esse pessoal quer fazer uma suruba num museu e conseguiram isso, ok sejam felizes.  Eu quero entrar para o Mile High Club.  Mas não envolvam crianças com isso!  “Mas a mãe tava junto” você pode dizer.  Bom, se os pais sempre soubessem o que é o melhor para os filhos não precisaríamos de conselho tutelar, certo?

Não proibiria que um monte de gente ficasse tocando num cara pelado.  Macaquinhos

(Não clique, NSFW, NSFL) é muito mais chocante.  Mas não envolvam crianças.  Proíbam sim a entrada de crianças nesse tipo de coisa.

Quando a esquerda defende essas coisas, pessoas moderadas como eu não querem ser confundidas com eles.  Isso me joga mais um passo para a direita.  Eu tenho sobrinhos, não tolero pedofilia em forma nenhuma.  E onde essas pessoas vão encontrar quem atenda seus anseios por ordem?  Pois é, no cara da foto ali.

“Ah, mas o MBL” qual é né?  Eles são especiais mas muito amados, mas mesmo um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes por dia.  E nessa vez eles estavam certos.

Se a esquerda continuar nessa coisa de defender criminosos e crimes, melhor começar a levar a sério a frase dos bolsomínions e Jair se acostumando.

Fontes:

Sou preguiçoso, o que não tá linkado veio tudo da wikipedia.

 

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A Exposição do Santander e o grande efeito Streisand

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As obras são em geral uma porcaria.  Mas ao menos o espaço é bonito

Todo mundo já falou bastante sobre a tal exposição do Santander lá em Porto Alegre. E acho que já até falaram por mim.  Querem proibir, querem liberar, e a polêmica chegou até o congresso.  Mas justamente isso que me chamou atenção:  Por que estamos falando tanto disso?

Era uma exposição local, não fosse o MBL gritar contra ela, quase ninguém saberia.  Brasileiro já não vai a museu mesmo, ninguém iria ver esse treco.  Mas o chororô do MBL provocou um grande efeito Streisand.

Não concordo com o que o MBL fez.  Nem eles mesmos deveriam concordar porque querer proibir a tal exposição deu a ela mais destaque do nunca.  Aposto que agora, onde ela for novamente montada vai ter fila de gente curiosa para ver porque tanta gritaria em torno dela.

“Ah, então você gosta daquela pouca vergonha?”  não.  Detesto arte moderna.  Muitas daquelas peças ali nem podem ser chamadas de arte.  Mas eu prefiro um mundo onde qualquer idiota possa dizer suas idiotices do que um mundo em que as pessoas tenham seu pensamento controlado.

“Vai mesmo deixar que escrevam palavrões em hóstias?”  Aquilo me incomodou.  Eu sei, como bom católico, que aquelas hóstias não estavam consagradas e portanto não passam de um pedaço de pão sem sal e sem fermento.  Mas eu sei para o que elas foram feitas, essas hóstias muitas vezes são feitas em conventos, quem as faz, faz com dedicação para a sua finalidade, serem utilizadas na Missa e para quem acredita, virarem o Corpo de Cristo.  Mal comparando (e serei excomungado por isso), seria o equivalente a, ao invés de você usar a Nutella para fazer doces ou comer com pão, você entrar em modo full retard, encher uma banheira com ela e tomar banho na Nutella.

“Então o que você acha disso?”  Uma vez o ônibus da minha rua estava imundo.  Então eu fui lá e escrevi “Cú” (com acento)  ao longo de todo o ônibus.  De proa a popa (eu sei) dois lados e também na traseira.  O ônibus ficou cheio dessa palavra.  Ficou tão feio que o motorista que pegou o ônibus na rendição recusou-se a dirigir aquele veículo cheio de palavrões e exigiu outro ônibus.

Isso faz de mim um grande artista contestador?  Não, foi só uma molecagem.  E o motorista era membro do MBL coxinha censurador?  Não, ele era só um motorista que gostava de um ônibus limpo.  Pra mim, quem escreveu palavrão em hóstia não passa de um moleque sem ter o que fazer.  Pior do que eu e o ônibus porque minha molecagem não custou dinheiro.

Eu adoro South Park.  Mas não gosto de um episódio em que uma imagem da Virgem Maria sangra.  Não deixei de gostar da série por isso, também não saí pregando boicote a South Park, simplesmente não assisto esse episódio.  Trocar de canal ou desligar a TV não dói.  Tem um episódio de South Park em que eles comparam a Igreja com a NFL e eu acho bem sacado.  Mas faço o simples ato de o que me desagrada eu simplesmente não assisto, não prestigio, não dou atenção.

Tivesse o MBL feito o mesmo, essa exposição passaria despercebida pelo grande público e o “ataque a moral e aos bons costumes” teria menor impacto.  Como disse, prefiro que qualquer idiota consiga se expressar do que outros idiotas controlando o pensamento.

 

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E a ONU decidiu que nossa gasolina não é tão gasolina assim

Caminhão Tanque

Parece propaganda e é um pouquinho, mas além do Shell, tá vendo aquelas placas vermelhas no caminhão? Falaremos delas nesse post

Quem anda na rua já deve ter notado que sempre que um veículo está transportando uma carga potencialmente perigosa, ele leva umas placas vermelhas indicando o perigo e uns números.  Esses números quase ninguém sabe o que é, mas eu sei, porque faz parte do meu trabalho!

Na prática, todo veículo transportando um produto desses leva duas placas, uma em forma de losango que indica que o sólido / líquido / gás é perigoso e qual o perigo, e outra retangular com uns números.  É essa que ninguém entende o que é.

Essas placas possuem simbologia própria e códigos específicos.  Vamos a eles.  Aqui um exemplo dessas placas:

Placas 01

A placa em losango só é vermelha se o produto for inflamável.  Quando você vê um caminhão da White Martins geralmente a placa é verde pois o gás que eles transportam não é inflamável.  Mas o inocente oxigênio ajuda bastante caso haja fogo por perto, como descobriram da pior maneira os astronautas da Apollo I.

A outra placa retangular, se chama painel de segurança e traz as duas informações relevantes:  Na parte de cima, os tipos de risco que a substância oferece, ou o tamanho da encrenca que você se meteu ao mexer com aquilo, e embaixo o produto envolvido.

O número de cima é uma combinação de riscos, podem ser até três algarismos, mas normalmente usa-se dois, são regulados por portaria da ANTT e cada número significa um tipo de brejo para o qual a vaca pode ir:

Algarismo Significado Opinião do Fernando
2 Desprendimento de gás devido à pressão ou à reação química. Não respire
3 Inflamabilidade de líquidos (vapores) e gases ou líquido sujeito a auto-aquecimento. Não faça isso 
4 Inflamabilidade de sólidos ou sólido sujeito a auto-aquecimento. É de boa, desde que não deixe a chapa esquentar
5 Efeito oxidante (intensifica o fogo). Cuidado com o O2.  Doses moderadas desse produto provocam o envelhecimento precoce dos tecidos. Grandes quantidades provocam explosões
6 Toxicidade ou risco de infecção. Biohazard
7 Radioatividade. Você terá filhos bem estranhos se ficar exposto a isso
8 Corrosividade. Pergunte ao William sobre percloreto de Potássio
9 Risco de violenta reação espontânea. Kabum!
X Substância que reage perigosamente com água (utilizado como prefixo do código numérico). Faça o que quiser, mas não jogue água.

O número de baixo indica o produto que está sendo transportado.  Ele segue uma tabela da ONU, ou seja, em qualquer país do mundo ao ver esse número você sabe o produto que está sendo levado.

A tabela da ONU é imensa, tem número pra tudo (tudo mesmo) .  As mais comuns no Brasil que você acaba vendo pelas ruas:

Código Produto
1202 Óleo Diesel
1203 Gasolina
1170 Etanol (anidro ou Hidratado)
1075 GLP (Gas de cozinha)
3256 Óleo Combustível
1223 Querosene (Inclusive o de aviação)
1072 Oxigênio comprimido
1049 Hidrogênio comprimido
3082 Biodiesel
1155 Éter Etílico

Existem vários outros rodando por aí, esses são os mais comuns.  Se ver algum bizarro e tiver curiosidade de saber, esse site aqui te permite fazer uma consulta rápida sabendo o número ONU do produto ou o nome do produto.

Pois bem, e o 3475 que está na placa do caminhão que abre esse post?  Consultemos a ONU:  3475 – Mistura de Etanol e Gasolina ou Mistura de Etanol e combustível para motores.

Segundo a resolução ANTT 5232/2016 agora toda gasolina com percentual de Etanol acima de 10% deve ser identificada com o número 3475.  O 1203 permanece para gasolina com menos de 10% de etanol.

Nossa gasolina hoje vem com 27% de etanol (25% no caso de gasolina premium).  Portanto, é de se pensar que quando mais de 1/4 de um produto é outro produto misturado, suas propriedades são alteradas a tal ponto que mereça ser chamado de outra coisa.

Vale lembrar que o álcool na gasolina é bom, nos permitiu parar de colocar chumbo tetraetila como elemento antidetonante na gasolina e assim evitar que todo mundo respirasse um treco altamente cancerígeno.  Mas o percentual de álcool que a gasolina leva hoje serve apenas para alegrar os usineiros.

Agora você sabe o que são aquelas placas nos caminhões tanque (vagões também usam) e quando estiver na estrada vai saber o que os caminhões carregam.  No caso da gasolina, se for 1203 o caminhão se destina a uma base de distribuição, se for 3475 ele provavelmente vai a um posto de combustíveis.

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Orphan Black ou como fazer ficção científica boa e barata

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Ilustração que resume o que você precisa saber sobre a série para começar a ver. Brilhantemente desenhado e diagramado por Nathalia

Não sou um grande fã de seriados.  Prefiro filmes.  Se eu não tinha paciência para acompanhar novela, também não teria para acompanhar séries.

Séries pra mim tem um problema básico que é intransponível:  Eu gosto de ver coisas explodindo, tiroteio, efeitos especiais.  Não dá pra fazer isso numa série.  Você vai gastar muito dinheiro, não vai ter retorno, a série será cancelada e você perde o emprego.  Uma vez eu vi que o que pessoal esperava das séries da Marvel feitas pela Netflix era um Vingadores por semana, sob pena da série ser ruim.  Confesso que eu queria sim um Vingadores por semana.  Para se ter uma ideia de como sou com séries, comecei a ver The Last Ship porque achei a história bacana e achava que era um filme.  Quando vi que era uma série, já era tarde demais.

Não quero dizer com isso que séries são uma merda, longe disso.  Eu mesmo vejo várias:  Estou vendo Black Sails, sempre assisti Star Trek, gosto de várias animadas (Simpsons, Family Guy, South Park…) e não tenho absolutamente nada contra fãs de seriados, desde que não me obriguem a ver essa ou aquela série.

Pois numa dessas, naquele catálogo imenso da Netflix onde eu não estava achando um filme para assistir naquele momento, e o algoritmo de sugestão da Netflix consegue ser mais pessoal que o do Facebook e  me apresenta uma tal de Orphan Black.  Produção canadense.  Ok, por produção canadense eu sempre penso nisso:

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Aos fatos:  A série começa com uma garota chegando à estação de trem e vendo outra se atirando na frente de um trem.  Eu, detalhista quando quero ouço que o trem vinha de NY, e vou eu ver se tem linha de trem entre Toronto e NY (esse trem existe e leva 13 horas de viagem). Com a particularidade que a garota era idêntica a ela, exceto pelo estilo de se vestir e cabelo.  Beleza, agora eu teria que ficar assistindo para saber porque a outra se matou e porque elas eram tão parecidas.

O roteiro é bem amarradinho, logo você descobre (isso não deve ser considerado como spoiler, você descobre no primeiro episódio) que as garotas são iguais porque são clones e mais, não tem só duas clones.  A partir dessa premissa você cai em uma grande história de brincar de Deus mexendo com o DNA, reprodução humana, human tunning e fanatismo religioso numa brincadeira que te leva a ver  um pouco de mitologia até revisitar clássicos da literatura de terror.

Os personagens são fortes, entre as clones tem de tudo:  a garota que chega na estação é a roqueira revoltada que depois de anos de sexo, drogas e rock and roll quer dar um jeito na vida.  A que se matou era policial, há mais clones, uma nerd de laboratório, uma típica mãe de subúrbio americano e a personagem mais louca que você vai ver em toda a série.

Os outros personagens que não são clones são um espetáculo a parte:  tem o irmão esquisitão, o maridão trouxa, a badass que quer resolver tudo na bala, e olha que só falei dos mocinhos.  Entre os vilões tem também de tudo, inclusive é claro, o vilão que você não sabe bem se é vilão.

Essa série fez um baita sucesso com lésbicas porque o par romântico principal da história é um casal lésbico.  Mas se você quer ver tórridas cenas de sexo entre elas, tire seu cavalinho da chuva.  Se você quer ver empoderamento e lacração esqueça também.  Elas formam um casal mas não dão a mínima para militância, apenas querem viver suas vidas.

Mas vamos falar do orçamento:  Apesar da série tratar de vários temas legais da ficção científica, não precisa de um grande orçamento.  Ora, todo mundo sabe o que é DNA e que ele é pequeno, portanto não precisa montar um nem de MM´s

A máquina incrível que você coloca um fio de cabelo e sai o DNA completo, sequenciado e mostrando se você é uma clone ou se aquilo é só pelo de gato instantaneamente, nada mais é do que um PC.  Talvez a coisa mais cara que a produção tenha alugado foi um helicóptero, mas isso nem de longe é demérito para a série.

Eu disse que eu quero um Vingadores por semana, mas eu sei que não dá para ter um por semana.  E para o orçamento a série se vira bem. Você não vê dinheiro faltando.  Ninguém inventou o tele transporte porque a grana não deu para fazer a nave auxiliar (mas a série tem um Scotty.  Ficção científica boa tem que ter um Scotty).

A série é tão austera que economiza até no elenco.  Para fazer as clones basta uma atriz.  Assim ela fica com o maior salário da folha, mas ainda é mais barato do que pagar 10 atrizes. E escalaram uma das boas.  A canadense Tatiana Maslany se supera batendo o escanteio e cabeceando para o gol.  Ela troca entre as personagens com naturalidade, inclusive com trocentos sotaques diferentes, do britânico ao ucraniano.

O baixo orçamento não é demérito para a série, pelo contrário é sua maior virtude.  Se dessem muito dinheiro para a produção, provavelmente inventariam rebimbocas da parafuseta e tirariam o grande trunfo que é uma boa história.  E com atores desconhecidos do grande público, mas extremamente competentes, a história acaba por te prender.

Não sei os números de audiência que a série tem, passa na TV normal na BBC America, nem o número de visualizações na Netflix.  Mas a série chegou a sua quinta e última temporada com fãs que realmente gostam e assistem aos episódios e por isso terá um final decente. Você não Sense8.

Quer assistir?  Netflix!  Todas as temporadas estão disponíveis.

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Poderia ser usado como divulgação da quinta temporada, mas o orçamento da série já tinha estourado e não contrataram a artista. Sabe quem? Acertou!

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