Todos nós precisamos nos entreter. Deixe cada um com o que gosta

Poster copa

Eu achei que todo o mimimi com a Copa do Mundo acabaria em 2014.  Afinal, agora não vamos sediar uma copa tão cedo, o dinheiro que gastaram nessa copa é russo, e como foram os custos e gastos do governo não é mais problema nosso.  Mas não.  Os fiscais de gosto alheio continuam a todo vapor nas redes.

O que me assusta nesse tipo de gente é que eles são hipócritas sem perceberem.  Eu fico vendo as pessoas reclamando que Copa é pão e circo, que enquanto torcemos pela seleção os políticos fazem isso e aquilo mas…  Elas também procuram forma de se entreter!  Seja com Netflix, com outros esportes ou mesmo com futebol dos clubes.

Elas não estão erradas.  Se você ficar o tempo todo dizendo que enquanto as pessoas falam de copa a violência no Rio aumenta, que enquanto você torce pelo Neymar os deputados estão te roubando, entre outras besteiras, das duas uma:  Ou você fica paranoico ou um chato.  E ninguém quer conviver com nenhuma das duas.

O que parece que essas pessoas, talvez inconscientemente talvez não, é regular o tipo de entretenimento que é válido.  E o que é válido é aquele que eles gostam.  Não gosta de festa junina e vai ter uma? “Que absurdo, o Rio violento desse jeito e vocês querem fazer festa?” Flamengo vai jogar no maracanã? “Vai mengão! Segue o Líder!”  Seleção vai jogar na copa? “absurdo torcer pra esses milionários, não me representam!”

Peguem leve.  Todo mundo sabe da violência do Rio, da corrupção, da falta de médicos, remédios, transporte, educação, do péssimo salário dos professores…  Mas não dá pra pensar nisso o tempo todo!  A hora de pensar nisso vem daqui a pouco, quando iremos às urnas.  Como estavam postando no Facebook, o Neymar não tem culpa das pessoas esperando atendimento médico no corredor do hospital.  A culpa disso é do político que, oh, surpresa, você elegeu!  Se você votou numa pessoa porque ela te prometeu um cargo, ou lhe deu um saco de cimento, um churrasco ou o que for, bem, a culpa é sua não do Neymar.  Então não o culpe por isso.

O esporte é uma válvula de escape.  Seja torcendo pela seleção ou pelo seu clube, é um momento para você desligar um pouco desse monte de problema.  Deixe as pessoas torcerem para o que quiserem.  Eu pessoalmente acho a Copa do Mundo o torneio maior e não ligo muito para o brasileirão.  É meu gosto, se você está chateado porque o seu campeonato parou, azar o seu, o meu só volta em quatro anos.

E quem não gosta de futebol?  Ok, não goste.  Quer boicotar a seleção? Boicote. Quer torcer pra Argentina? Torça, afinal o país é livre. Aliás vale lembrar que durante o regime ditadura militar, torcer contra a seleção era considerado antipatriótico e você poderia acabar fazendo uma visitinha à boate do DOPS.  Deixe cada um com seu gosto.

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Outra confusão no país, outra balela de intervenção militar.

Intervenção 2

Toda vez que dá confusão no país alguém aparece com a ideia da tal intervenção militar.  Isso nunca vai a lugar nenhum porque os militares tem mais neurônios do que as pessoas que pedem isso e não querem entrar nessa furada.  Mas é engraçado como os eufemismos vão se acumulando para tentar tornar a ideia mais palatável.

Falou em militar sempre alguém lembra de ditadura.  Agora tá na moda dizer que não houve ditadura no país e que o que tivemos foi um regime militar (eufemismos).  Aí para defender um novo golpe intervenção militar sacaram essa ideia:

Intervenção

Vamos ver como esse raciocínio é idiota?  Nem é difícil, vamos lá:

“Intervenção militar não é governo militar” Bem, a intervenção que eles defendem é os militares removendo o presidente, dissolvendo o congresso e tem uns que querem até demitir os ministros do STF.  Como eles não são anarquistas, alguém tem que ocupar o vácuo de poder o que seria uma junta militar.  Oh, militares no governo, isso quer dizer que temos um…  Governo Militar!

“Governo Militar não é Regime Militar” hum…  Bem, com os militares no poder tendo acabado com o congresso e com o STF eles precisarão de um arcabouço jurídico para o que vão fazer.  Eles precisam por exemplo dizer o que eles querem que nós façamos e deixamos de fazer.  Não dá para usar a Constituição porque ela não permite a dissolução do congresso.  Em 1964 eles usaram do Ato Institucional.  Eles vão precisar de algo parecido para instituir seu modo de governo.  Aí você vai no dicionário e procura para a definição de Regime e… “conjunto de regras ou de disposições legais; regimento.”

“Regime Militar não é Ditadura Militar”  Senão vejamos:  Se chegamos até aqui estamos em um cenário de exceção.  Para poder dar um jeito no país os militares não podem ter pessoas questionando seus métodos.  Isso atrapalha, precisamos faxinar o país, não tem nada pra ver aqui cidadão, circulando.

Eles podem querer restringir o Twitter porque contas como a do Lei Seca são antipatrióticas ao informar sobre as blitz.  O Whatsapp pode ser usado por bandidos para conspirar contra a segurança nacional, portanto não é uma boa ideia ter esse serviço subversivo funcionando por aqui.  Logo irão querer controlar a mídia para impedir que a mesma espalhe “fake News” confundindo os cidadãos.

Eles podem por fim dizer que até outubro é pouco tempo para arrumar o país e as eleições previstas terão que aguardar mais um pouquinho.  Da última vez foram 22 anos.  Aí vocês sabem como se chama um regime onde não tem oposição, liberdades individuais e censura aos meios de comunicação né?

Problema dessa coisa de intervenção militar é que você sabe que começa como disse a Padmé:  Com aplausos.  Mas você não sabe como termina.  Pelo pouco que sei de história sei que não devo invadir a Rússia no inverno nem dar ultimato de rendição a gregos.  Com relação a regimes militares, vamos dar uma olhada:

O Zimbábue é comandado há 36 anos por Robert Mugabe que liderou uma revolta contra o Apartheid. O motivo era nobre, tanto que ele teve que executar uma série de opositores e o país não está estabilizado até hoje para que ele possa deixar o poder. O Zimbábue hoje tem uma das maiores taxas de inflação do mundo e é um dos poucos lugares do mundo onde a expectativa de vida diminuiu.

Na Líbia nos anos 60 governava uma monarquia opulenta enquanto o povo passava fome. Uma intervenção militar liderada por Muamar Gadafi deu cabo da nobreza e instituiu um novo regime que durou até recentemente.  Durante seu regime liberdades foram suprimidas e você não podia ter outra religião que não fosse o islã.  Em 1994 ele radicalizou no islã e instituiu a xaria.  Se você acha que é ruim ser mulher no Brasil, tente ser uma num país desses.  O governo de Gadafi caiu em 2011 e hoje a Líbia é um salseiro danado com uns 200 grupos lutando pelo poder.

Por fim um país cujo nome não vou revelar possuía um governo corrupto.  Esse governo estava fazendo o povo ficar cada vez mais pobre mesmo tendo o país imensas reservas de petróleo.  Insatisfeitos com a corrupção uma junta militar liderada por um proeminente coronel fez uma intervenção e esse oficial assumiu o poder.  Esse oficial foi reeleito em eleições questionáveis e morreu de câncer.  Seu sucessor está no poder até hoje e o país se encontra em um buraco econômico e social servindo como exemplo do que o Brasil poderia se tornar.

Há mais experiências com ditaduras militares do que com o comunismo.  Mas há uma coisa em comum entre eles:  Ambos não funcionam.  Crianças, não usem drogas.

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Greve dos combustíveis, falta de caminhoneiros e abundância de idiotices

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Nada mais no Brasil escapa a idiotice da militância dessa guerra de Coxinhas x Petralhas.  A greve dos caminhoneiros não poderia ser diferente com ambos os lados querendo tomar posse do movimento.

Os caminhoneiros querem basicamente uma redução de custos para o trabalho deles. Tudo num caminhão é caro e o frete não é.  Diesel, pneus, pedágio…  Tudo custa uma grana.  Um gasto inesperado numa viagem pode acabar com todo o lucro que você teria naquele frete.  Alguns querem valor mínimo para o frete, o que destruiria a concorrência.  Essa é uma das coisas que eu discordo deles.

O estopim para toda essa revolta?  Sucessivos aumentos nos combustíveis.  Praticamente diários.  Combustível tá caro?  Sim está.  Estamos em um péssimo momento onde o barril de petróleo subiu e o dólar também.  Isso impacta nos combustíveis.

A gasolina no Brasil por exemplo está com preços alinhados com o mundo.  Segundo o Global Petrol Prices o Brasil tá na meiuca da tabela.  Nossa gasolina é mais cara que nos EUA, mas é mais barata que em Cuba, Chile, Zimbábue, Nova Zelândia…  A gasosa no Brasil custa em média US$ 1,17 litro (R$ 4,28).  No posto em que normalmente abasteço, se tivesse gasolina estaria vendendo a mesma por R$ 4,95 ela custaria US$ 1,35.  Ainda no meio da tabela e mais barata que na Polônia, Zâmbia e Reino Unido.

“Ah coxinha bateu panela agora aguenta!”  O que Dilma fez nos preços da gasolina era insustentável no longo prazo.  A Petrobrás estava comprando gasolina mais cara e vendendo mais barata para as distribuidoras de modo a manter os preços baixos.  Com isso o caixa da Petrobrás estava sendo drenado.  E nem foi a Dilma que inventou isso, em 1998 para se reeleger Fernando Henrique manteve o Dólar próximo de R$ 1,00 ao custo de queimar as reservas cambiais brasileiras. Isso quase quebrou o país e quando chegaram os boletos, FHC foi lá bater na porta do FMI.  Se os preços da gasolina tivessem se mantido naquele nível, a Petrobrás estaria quebrada hoje.

“Viu, então foi a roubalheira do PT que quebrou a Petrobrás!” Não seja um mimimilenial.  A Petrobrás é roubada desde sua fundação. Foi roubada pelo PMDB, pelo PT, pelo PSDB, pelo PRN, pelos militares…  Todo mundo tirou sua casquinha dela.  E não só partidos políticos.  Empresários e funcionários roubam a empresa quase que diariamente.  A Petrobrás por si só é um poço de ineficiência e só se mantem porque não dá pra perder dinheiro com Petróleo.  A única razão da Petrobrás ainda existir é ela ter o monopólio no Brasil porque tudo o que ela tem que fazer sai mais caro que as outras companhias.

“Tem que quebrar o monopólio e deixar outras empresas entrarem” com certeza. Isso deve melhorar o refino e distribuição.  Mas não espere os preços caírem.  Estamos na média do preço mundial lembra?  Empresa privada não vai entrar pra perder, elas querem lucros, estão certas nisso e por isso o preço será esse.

Quer um jeito para baixar o preço dos combustíveis?  Baixe os impostos.  Mas aí o buraco é mais embaixo.  A constituição foi moldada para que o Brasil seja o tal Estado de bem estar social.  Num mundo ideal seria como aqueles paraísos socialistas (eu sei) como a Noruega, Finlândia, Dinamarca…  Mas você sabe, aqui é Brasil e bem estar social é só para parlamentares, juízes e funcionários públicos.  O povão que se dane e pague a conta.

Garantir bem estar social implica em gastos.  E gastos altos que serão bancados por impostos.  Se funcionasse seria ótimo, mas quando você precisa do SUS e vai numa escola pública você vê que não é assim.  Tanto é que você paga escola particular e plano de saúde para o filhinho do juiz.

A forma de baixar impostos seria uma reforma séria nos gastos dos três poderes.  É preciso cortar sem piedade diversas mordomias que todos os poderes possuem.  São bilhões de reais gastos por mês com coisas que os brasileiros normais utilizam seus salários para pagar.  Esses parasitas também deveriam pagar de seus já polpudos salários.

Isso nunca vai acontecer porque o objetivo do brasileiro médio não é acabar com esses privilégios.  É ter esses privilégios.  Por isso tem tanto concurseiro, gente vendendo voto em troca de cargo, gente se candidatando…

E claro, essas coisas ninguém vê porque é melhor acusar o petralha ou o coxinha de todos os males quando ambos são culpados e nada vai mudar no país enquanto a mentalidade for essa.  E na boa?  Não vai mudar.

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A onça, maldita onça

Onça

Nós somos um país abençoado.  Aqui utilizamos o sistema métrico. Todos os nossos quilômetros, metros, centímetros, gramas, toneladas, litros, graus Celsius…  Tudo faz sentido.  É simples converter de uma unidade para outra.  Quando vamos a coisas mais complicadas como pressão, tudo ainda continua fazendo sentido.

Mas existe um lugar onde as unidades não fazem sentido. Se você quer medir coisa pequena você usa a polegada.  Coisas um pouco maior, o pé, o do rei não o seu.  Se crescer mais você pode usar a jarda, essa mesmo, do futebol americano.  E se for maior ainda, tem a milha se estiver em terra e a milha náutica se estiver no mar ou no ar.  As relações entre elas são completamente insanas.  E quando vamos medir áreas onde brota o Acre que sei lá, 1 Acre deve ser a área do estado do Acre se ele existisse, ou as vazões em pés cúbicos por segundo.

É um mundo tão louco que eles tem uma unidade chamada onça.  O que era pra ser apenas um belo felino de grande porte típico da América do Sul cuja espécie mais famosa é a pintada também é uma unidade de medida.

A onça como unidade de medida aparece em “A Arte da Guerra” de Sun Tzu.  Ele dizia que na campanha ideal você tem mil onças de prata.  Imaginei que a onça era uma unidade de peso.  É pior, a onça é uma unidade de volume:

Primeiro dia meu em Nova York.  Fazia 32 graus Fahrenheit.  O céu azul, o sol brilhando e aquele termômetro na rua marcando 32 na rua lhe davam vontade de sair de bermuda e camiseta como se fosse para um passeio em Copacabana.  Mas isso seria um suicídio.

Aprendi que grande parte dos nova-iorquinos andam com um copo de café nas mãos.  Isso surte dois efeitos:  O café te aquece no frio de 32 graus e o copo mantem suas mãos quentes.  Assim, em Roma, aja como os romanos, fui eu atrás do café mais famoso de Nova York:   Starbucks.

Starbucks é um nome muito legal, me lembrará eternamente a Kara Thrace.  É um nome que não justifica o café que eles fazem.  Eis que fui provar.  Tinha que escolher o café e o tamanho.  Escolher o café foi fácil, o problema foi escolher o tamanho.  Tinha uma tabela lá com os volumes.  Em onças.

Lá estavam o small, o regular, o large e o extra large. Ao lado os volumes em onças.  Acho que por causa do livro de Sun Tzu eu achava que a onça seria algo parecido com o quilate ou seja, algo muito pequeno e portanto o small e suas 5 onças seriam um cafezinho e eu não gosto de cafezinho.  Não dá nem pra sentir o gosto do café.  Pedi um extra large.

Esqueci que os americanos gostam de tudo grande.  O Extra Large veio com cerca de 700ml de café.  Se o café americano fosse como o brasileiro eu passaria os 10 dias que passei nos EUA acordado.  Mas como o café deles é bem mais fraco, não fez nem cosquinha.  Ao menos saí na rua como um legítimo nova-iorquino com um copão de uma coisa quente na mão.  E bebi todo o café.  Depois desse só bebi mais um café na Starbucks, mesmo tendo uma em cada esquina.  Tinha a Lucky Star no meu hotel que servia um café melhor e mais barato.

Ah sim, e uma onça americana vale cerca de 29,5ml.

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A Rede Social dos Voadores

Mapa voo

Vivemos num mundo de redes sociais.  Incrivelmente nenhuma literatura ou filme de ficção científica foi capaz de prever redes sociais.  Temos o Facebook para você mostrar que é muito feliz ou muito triste, o Twitter pra reclamar de tudo, o Instagram para você ser vaidoso e o Google+ que serve para você não ir lá.

Há várias outras em menor escala como o Twitter chinês.  O próprio Tinder pode ser considerado uma voltada para a putaria assim como o Whatsapp para se espalhar mentiras. Eu descobri uma que achei bem mais legal e, bem, como toda rede social não é útil, mas é divertido.

Na verdade eu descobri via vídeo do Lito do Aviões e Músicas.  Achei curioso que sempre que ele voava para algum lugar, um tweet era disparado com o voo que ele estava.  Antes que eu precisasse perguntar o que era aquilo, ele mesmo fez um vídeo explicando.  É uma rede que permite que você cadastre todos os voos que você já fez na vida.

Essa rede é o My FlightRadar24.  Era outra coisa, mas o pessoal do FlightRadar24 comprou essa rede e a integrou ao seu sistema de rastreio de voos.  Para mais detalhes veja o vídeo do Lito linkado acima e meu post sobre o FlightRadar24.

A medida que você cadastra seus voos o mapa vai sendo preenchido com as rotas que você já fez.  Isso é algo que eu sempre quis fazer, se tem algo que gosto de colecionar são viagens.  Assim, meu mapa já é bem respeitável e é a ilustração que abre esse post.  Mas ainda pode melhorar.

As possibilidades ao cadastrar os voos são bem ricas.  Você pode colocar o tipo de aeronave, o assento em que voou, a companhia aérea, o motivo do voo e até mesmo o prefixo da aeronave.  Isso claro mede o grau de fanatismo por aviação que você tem.

Conforme você incrementa seu acervo, estatísticas interessantes vão sendo geradas:  quantas toneladas de carbono você já jogou na atmosfera voando, quantas horas passou a bordo de uma aeronave, quantas voltas na Terra já deu, se a distância total que você voou já deu pra chegar à Lua ou mesmo ao Sol (mas se for ao Sol vá a noite e não esqueça de levar uma toalha).

As estatísticas legais também se estendem para os modelos de aeronaves e companhias aéreas onde você pode ver por voos e por distâncias.  Eu, por exemplo até agora, a aeronave que mais voei foi o Boeing 737-800.  A companhia aérea em que mais voei por sua vez, foi a Azul.  Quando você muda a unidade para distâncias, a aeronave em que voei a maior distância foi o Airbus A330-200 e a companhia aérea é a TAM (I will be deep in the cold cold ground before I recognize Latam), seguida de perto pela Gol.

Além disso dá pra ver os aeroportos que você mais visitou e os países por onde já esteve e os voos por cada país.  A página gera também estatísticas sobre a quantidade de voo por ano, os meses em que voou, permitindo ver que eu, por exemplo, viajo bastante em maio e meu dia preferido para voar é segunda feira.

Eu preenchi todo o meu histórico de voos, desde o primeiro com a finada Webjet em seus 737-300 até os voos futuros para a semana desse post.  Se você cadastra voo futuro e conecta o my FlightRadar24 com as outras redes sociais, assim que o avião liga o ADS-B ele dispara um tweet em suas redes avisando que você está naquele voo com um link para que seus seguidores possam acompanhar seu voo pelo FlightRadar24.  Quando o avião pousa, ele dispara outro tweet avisando que você pousou.  A informação como o prefixo e o modelo da aeronave acabam sendo atualizados automaticamente a medida em que essas informações são recebidas pelo FlightRadar.

Meu mapinha está bem legal, mas espero melhorar ele cada vez mais acrescentando mais pontos a ele.  Já dei três voltas na Terra e a meta agora é chegar na Lua.  Depois a gente dobra a meta.

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Eins Zwein Drein

Venho tentando manter uma meta de ao menos um post nesse blog decrépito por semana.  É óbvio que não tenho conseguido. Ia escrever o que eu penso sobre a prisão de Lula e a política brasileira, mas é um assunto tão batido.  Um dia coloco o que eu penso.  Hoje achei mais legal contar causo.

Suíça

De todos os poucos lugares que fui até hoje, o que mais tenho vontade de voltar é a Suíça (Paris também, aquela torre Eiffel me deve uma coisa, mas isso é material para outro caso).  A Suíça é tão organizada que parece que é fake.  Eles se arrumam para mostrar isso, mas por dentro são tão zoneados quanto o Brasil.

A Suíça não faz parte da União Europeia, mas a fronteira é atravessável de qualquer jeito.  Apesar de haver um posto, diferente das outras fronteiras europeias em que você só sabe que mudou de país se prestar atenção na placa, não vi ninguém nesses postos.  Tinha que passar a 10km/h mas não tinha quem me parar.

As estradas suíças são um tapete, mas as francesas também são.  Mas você percebe que mudou de país quase que instantaneamente.  O relevo muda, a paisagem fica mais montanhosa, a estrada mais sinuosa e mesmo as fazendas que você vai cortando mudam o estilo.

Uma coisa que eu aprendi sobre as rodovias suíças é que as rodovias francesas possuem pedágio, as belgas e holandesas não que eu tenha visto e as suíças possuem algo que fizemos no Brasil há muito tempo:  Selo pedágio.

A história foi assim:  Lá pelo fim dos anos 80 o governo brasileiro acabou com a cobrança de pedágio (chamava-se taxa rodoviária única) e instituiu esse selo.  Cada carro para rodar na estrada deveria ter esse selo colado no para-brisa.  Você poderia comprar um selo para cada mês ou comprar um anual.  Se seu carro tivesse sido fabricado até um ano tal o selo era triangular.  Se fosse mais novo o selo era retangular e mais caro.  Caminhões e ônibus tinham que usar um por eixo.  Era isso aqui:

selo pedagio

Eu tive vários selos pedágios não porque eu ou meu pai tivéssemos carro, mas sim porque o patrão dele tinha e ele me dava os selos vencidos do mês passado que iriam para o para-brisa do “meu carro” (minha cama).  Os suíços fazem a mesma coisa com um selo anual que custa 40 francos suíços. Esse selo gourmet chamado vignette:

vignette-suica

Se a polícia suíça te pegar numa estrada rodando sem isso você é obrigado a comprar o selo por 40 Francos e pagar uma multa de mais sei lá tantos Francos. Na hora, em cash, sem chororô.

Meu problema é que eu entrei na Suíça com um carro alugado na Inglaterra que obviamente não tinha esse selo.  E eu só descobri que precisava disso quando cheguei a Zurique.  E achei 40 Francos muito caro para usar a estrada só na volta, e decidi arriscar.  Eu não havia visto uma viatura policial no caminho, isso ocorreria na volta.  Nunca a fronteira com a França foi tão longe e ainda teve um acidente na estrada onde as viaturas policiais já haviam chegado.  Pra minha sorte o acidente era no outro sentido e os suíços não tem o péssimo hábito de parar para ver a desgraça alheia.  Acho que não fui multado.  Já havia sido multado em Londres e em Paris, seria legal manter a coleção.

Mas Zurique é uma cidade sensacional.  Não parece um dos grandes centros financeiros do mundo, assim como Washington não parece a capital do país mais poderoso do mundo.  Tudo bem que quando você chega nos arredores de Zurique você passa por um labirinto de viadutos e túneis com placas em alemão onde se não fosse pelo GPS eu estaria rodando lá até hoje.

Parei o carro em frente ao hotel quando a noite já ia alta e na calçada tinham uns caras de cabeça raspada e mal encarados fumando cigarros.  Achei que apanharia assim que descesse do carro porque todos me olharam, é o preço a se pagar por andar de Peugeot com o volante do lado errado num país onde os caras andam de Mercedes e BMW.  Mas eles não me fizeram nada.

Depois de feito o Check-in botei o carro no estacionamento do hotel e fui ver o que se tinha para fazer na Suíça no dia seguinte.  Meu hotel era bem localizado, de modo que a pé fui até a rua mais cara do mundo, a Banhofstrasse que mostra bem o seu estilo com suas joalherias, lojas da Prada, Rolex, Omega (faltou loja da Apple) e a única coisa que pude comprar foi chocolates e tomar o café da manhã na Sprüngli.  Essa rua termina no lago de Zurique que tem uma vista linda de onde você consegue ver o topo das montanhas ainda com neve.

O entorno do lago tem uma estação de barcos de onde se chega a várias outras cidades no país e um parque bucólico onde ficam patinhos nadando, alguns cisnes e as pessoas aproveitam para curtir o dia, passear com crianças, cães, fazer piqueniques…

A limpeza de todos os locais é impecável.  Praticamente todo suíço fuma, mas não há uma guimba de cigarro no chão.  Eu imagino que seja lúdico do hábito de fumar dar um peteleco na guimba para longe quando se termina, mas os suíços ou não fazem isso ou são todos bons de basquete.  As pessoas comem nas mesas no entorno do lago, e após a refeição recolhem todo o seu lixo e depositam na lixeira mais próxima.

Uma coisa que desapontaria os defensores de porte de arma é que os únicos suíços armados que vi na vida não estavam na Suíça, suas armas eram lanças e eles usavam roupas engraçadas. Os suíços são muito tranquilos e apesar deles terem armas em casa, ninguém sai de Rambo pela cidade com fuzil na bandoleira.  Eles simplesmente não precisam.

O povo suíço é educado, as pessoas se respeitam, vi muitos muçulmanos, mulheres de véu islâmico tinha uma até de Burca, as pessoas não estão nem aí.  Os transportes não possuem roleta, as pessoas pagam a passagem porque sabem que tem que pagar e não sujam as ruas porque não é pra sujar as ruas.  O trânsito suíço é famoso por essa educação, e devido a essa educação quase não ocorrem engarrafamentos.

A noite encontrei uma pizzaria em frente ao hotel que nas reviews desses sites de viagem disseram que tinha um cara lá que falava cinco idiomas entre eles o português.  Cheguei lá e perguntei por ele.  Era um turco que falava turco, francês, inglês, alemão e português.  Ele me atendeu muito bem, me recomendando uma boa cerveja suíça.  A cerveja é comum, devia ser a Brahma de lá, tanto que vinha no latão.

Em Roma, aja como os romanos.  Eu comi a pizza e tomei três latões.  Ele me cobrou duas.  Informei que eram três.  O turco corrigiu a conta, eu paguei e agradeci o atendimento.  Aqui na Bananolândia o garçom provavelmente me agradeceria por corrigir a conta para mais, mas lá isso é natural.

Na manhã seguinte foi o dia de sair de Zurique e pegar a estrada contando os minutos para chegar a Basel e a fronteira com a França sem ser parado pela polícia.  Essa eles me desculpem, mas o selo pedágio eu soneguei.

 

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Liz e uma reflexão sobre a vida

Liz

Uma das coisas que eu mais tenho certeza na vida é que a vida não é justa.  Não venham com aquele papinho motivacional de que se você fizer coisas boas, coisas boas acontecerão, que você planta aquilo que colhe, etc. esqueçam.  Não é assim.

Coisas boas acontecem para pessoas ruins e coisas ruins acontecem para pessoas boas.  Falando sério, quantas pessoas boas você já viu sendo bem sucedidas?  Já viu pessoas ruins se dando mal?

A vida não é justa, eu não gosto disso, mas não sou eu que faço as regras, injustiças estão em todos os lugares.  Se eu pudesse recomeçar, queria ser uma pessoa ruim.  Queria sim me tornar um cafajeste, um aproveitador, alguém cujo único objetivo é se dar bem e não se incomoda em quem será prejudicado por isso.

Infelizmente não consigo isso.  Para minha infelicidade fui muito bem criado e ensinado a fazer o certo.  Não consigo fazer algo para prejudicar outras pessoas, mesmo aquelas que mereçam e mesmo quando faço depois bate um remorso daqueles.  Já me ferrei bastante no trabalho por ser um cara bom.

Acabamos colocando sempre outras pessoas na frente e elas, claro não dão a mínima para você.  Isso se você tem sorte porque normalmente o que acontece é que as pessoas que você ajudou, que você quis o bem não se contentam em simplesmente fingir que você não existe, ainda procuram prejudicar você em troca.

É curioso porque mesmo tendo certeza de que fazer o bem não adianta nada e se você espera que o bem lhe aconteça você vai se decepcionar, se você acha que ao procurar a justiça a justiça vai lhe encontrar e não, não vai, ainda assim eu procuro insistir.  Acredito que mesmo se a vida for injusta se nós parássemos de ser injustos, o mundo poderia ser melhor.

Não que eu seja um paladino da justiça, tenho certeza que devo cometer dezenas de injustiças e por desconhecimento ou omissão devo ter feito o mal a muita gente, mas eu procuro fazer isso.  E assim entra na minha vida a Liz.

Liz é essa cachorrinha da foto.  Bicho para vir aqui pra casa tem que ter sido abandonado ou rejeitado.  Liz foi encontrada debaixo de um carro com mais carrapatos que você possa contar, basicamente moribunda.

A garota que a encontrou levou-a para tratamento.  Para tratar a cachorrinha foi necessária uma campanha de doações via redes sociais pois o tratamento foi caro.  Eu acompanhei a história e quando soube que ela precisaria de transfusão de sangue, imaginei que não teria jeito.  Ela sofria da doença do carrapato, filhote, sem imunidade e sem sangue…  Eu seria capaz de apostar que ela não conseguiria.

No entanto o inesperado para mim aconteceu.  A cachorrinha conseguiu.  Após dias internada, ganhou alta e foi para a casa da garota que a encontrou.  Daí ela foi ladeira acima se recuperando cada dia mais.  Isso gerou um problema.  A garota não teria como ficar com a cachorrinha e não havia lugar para ela.  Daí me ofereceram ela a primeira vez.

Não sabia bem se eu teria condições de ter um cachorro.  Não tenho muito espaço em casa, ainda estou longe do meu sonho de um sítio longe de tudo, e por isso não disse nem que não e nem que sim.  Alguém apareceria, pensei eu.

Mas o prazo acabou e a pobre cachorrinha iria para um abrigo.  Bem, as chances de ela ser adotada num abrigo desses são pequenas.  Vira-latas, preta (li que cachorros pretos são os mais recusados em adoção), ela passaria lá sei lá quantos anos vendo animais entrarem e saírem sem que ela nunca saísse de lá.

Isso não seria justo.  Alguém abandonou a cachorrinha para morrer, por algum motivo ela foi encontrada e tratada, ela lutou com tudo o que tinha pela vida para acabar abandonada de novo?  Não no meu turno.  A vida pode ser injusta comigo, mas não será com essa cachorrinha.

Assim, aos 44 do segundo tempo, quando ela estava para ir para o abrigo mandei tudo as favas e fui buscar a cadelinha.  Eu não sei se ela está feliz aqui, mas estou fazendo todo o possível para ela.  Ela tem com quem brincar, já não desgruda mais de mim, e vem crescendo saudavelmente.  É agitada e destrói coisas como todo filhote e está por aqui nos alegrando um pouco mais.

Claro que tem problemas, a gata não gostou nada dela, as duas ainda estão se adaptando, minha mãe não gostou da ideia e ela ainda fica querendo destruir as plantas dela, mas vamos tentando manter tudo na paz.  No fim das contas, acho que a Liz veio para nos deixar um pouco mais alegres.

Em breve ela vai poder ser vacinada e vamos poder dar umas voltas na rua para gastar um pouco da energia dela e da minha.  Se nos verem por aí, nos deem um alô.

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Não deixem o KC-390 ser um novo Osório

Osório 1

Eu adoro essa foto por motivos pessoais: Ela foi capa de uma Revista Verde-Oliva lá nos anos 80 que meu pai sempre que podia trazia pra mim.

Nos anos 80 havia uma empresa brasileira chamada Engesa que obteve razoável sucesso na fabricação de blindados. Foi ela quem fabricou os blindados Cascavel e Urutu que ainda hoje servem ao Exército Brasileiro.

A Engesa era de capital nacional e 100% privada.  Capitalizada pela venda desses blindados ela decidiu dar um passo a frente e começou um projeto ambicioso do que então se tornava conceito nos exércitos de um MBT (Main Battle Tank).  A Engesa identificou uma demanda do Exército Saudita que pretendia retirar seus tanques franceses dos anos 70 de uso e se reequipar com um modelo novo adequado as necessidades da nova década.

A Engesa se meteria em uma briga de cachorros grandes.  Foram apresentados aos sauditas outros três veículos:  O Americano Abrahams M1A1, o Inglês Challenger e o Francês AMX-40.  Os três países são tradicionais fabricantes de blindados sobre lagartas e a Engesa era conhecida no oriente médio como fabricante de blindados sobre pneus.  Eles teriam que caprichar.

E capricharam.  Após recusas nas vendas de projetos prontos pelos alemães, a Engesa resolveu tocar sozinha o projeto e mandou seus engenheiros procurarem o que havia no estado da arte para esse projeto.  O EE-T1 Osório nasceu unindo o que havia de melhor que puderam encontrar.  O motor seria da alemã MWM, suspensão hidropneumática Dunlop, torre da Vickers britânica, canhão de 120mm francês etc.

A torre era estabilizada, o que significava que enquanto o chassi passava pelas diferenças de topografia, a torre mantinha-se fixa, fazendo com que o canhão não se perdesse do alvo.  Em uma batalha de tanques quase sempre quem acerta primeiro vence.  O Osório tinha um índice de acerto no primeiro disparo de impressionantes 95%.

Para se defender o Osório trazia silhueta baixa e angulações de modo a defletir os projeteis disparados além de blindagem feita em material compósito metal-cerâmico.  Trazia lançadores de granadas de fumaça para se esconder.

O Osório trouxe sistemas óticos e eletrônicos de última geração.  Era capaz de proteger sua guarnição mesmo operando em teatros de operação onde houvessem agentes químicos, nucleares ou biológicos.

Nas provas de campo do exército saudita foram reprovados os dois europeus na disputa.  Foram declarados passíveis de compra o Osório e o Abrahams.  Os brasileiros cantaram vitória pois o Osório tinha algumas vantagens sobre o americano:  Seu motor a diesel era mais barato e funcionava melhor no deserto do que a turbina do americano.  Isso sem falar na manutenção.  Seu índice de acerto era excelente, o Osório era o mais leve dos tanques, mas na prova de reboque puxou o Abrahams que era o mais pesado de todos.  O exército saudita pretendia comprar mais de 700 unidades.

Osório 2

No entanto, os americanos usaram seu peso político e também o fato do Abrahams já ser equipamento do exército americano, com linha de montagem estabelecida (a Engesa só tinha protótipos do Osório até então) o que levou os árabes a terem um certo receio sobre o veículo brasileiro.  Assim, o MBT americano acabou sendo o escolhido.

O Osório era tão no seu tempo que mesmo hoje, seus protótipos estão incorporados ao Exército Brasileiro e são o melhor blindado no inventário da nossa força até hoje.  A Engesa gastou muito no projeto desse blindado e não obteve retorno porque ninguém comprou, nem mesmo o Exército Brasileiro.  Ele chegou a ser oferecido ao Iraque, poderíamos ter tido no campo de batalha o confronto Osório x Abrahams, mas a Guerra do Golfo veio antes e o Brasil parou de fornecer equipamentos para o Iraque.  Assim, a Engesa acabou por ir a falência.

Me chamou atenção uma matéria publicada no jornal o Globo em que a Boeing estaria interessada em vender o jato brasileiro KC-390 pelo mundo.  O KC-390 em muitas coisas lembra o Osório:  Desenvolvido no Brasil com equipamentos de última geração e aparecendo entre os melhores de sua categoria.

O KC-390 é um cargueiro multimissão.  Seu projeto foi financiado pela Força Aérea Brasileira para substituir o interminável e incansável Hércules.  É uma aeronave que pode levar cargas operando em pistas sem pavimentação e curtas, lançar cargas de paraquedas, lançar paraquedistas enganchados ou em salto livre, reabastecer aeronaves em voo e, se a Embraer me contratar desenvolvo um AC-390 que seria a coisa mais temida a se ver voando desde o A-10 Warthog.

KC-390-em-voo

Alguns erros do Osório não estão se repetindo.  Uma das coisas que os árabes estranharam na concorrência do Osório foi que o Exército Brasileiro não pretendia comprar o Osório.  Isso era por falta de grana, mas era no mínimo estranho uma arma desenvolvida em um país não ter as forças armadas daquele país como cliente.  No caso do KC-390 a FAB já anunciou a compra de cerca de 30 aeronaves, mais os protótipos.  Portugal também já anunciou a compra de algumas unidades, mas o número de pedidos firmes ainda não chegou a 100.  E o pessoal da Embraer está se esforçando em vender o jato.

Assim o KC-390 vai sair, vai ser produzido em série, mas com poucos clientes, pode ser que o número total de aeronaves fique pequeno tornando-o uma “mosca branca” nos céus do mundo.  Isso seria lamentável se considerarmos que a Embraer produziu uma excelente aeronave, assim como é lamentável ver o Osório apenas em protótipos.

Na reportagem, o que se sinaliza de positivo no acordo da Embraer com a Boeing seria a Boeing vender o jato brasileiro.  Assim o peso norte-americano que prejudicou o Osório poderia ajudar o KC-390.  Estima-se uma venda de cerca de 500 aeronaves com o acordo.  Nada mal.

Mas antes disso é preciso considerar se a Boeing não tem uma solução própria nesse nicho.  É irreal o KC-390 competir com o Globemaster, são segmentos diferentes, mas o interminável Hércules continua a ser fabricado pela Lockheed Martin, que terá mais apelo americano do que uma nova aeronave brasileira.  O protótipo do KC-390 voa ostentando um monte de bandeiras de países, se todos confirmarem pedidos, a aeronave poderá ter um número saudável de vendas.  A Boeing por sua vez participou do projeto do KC-390 desde o início, então seria interessante também a ela vender o jato.

De qualquer maneira, vamos ver o que acontece.  Tanto o Osório quanto o KC-390 são exemplos de um Brasil que funciona.  Apenas espero que o Brasil que não funcione sabote a parte que funciona.

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Baby, I Can see your halo

Magnussen Halo

Não adiantou a gente gritar, espernear e nem mostrar que há alternativas melhores.  Para nosso desespero a Fórmula 1 tornou obrigatório nos carros de 2018 o uso do Halo, essa trapizonga bizarra como uma forma de proteção ao piloto.

Essa tira de sandália havaiana foi pensada logo após o acidente de Felipe Massa em 2009, onde ele foi atingido por uma mola oriunda do carro de Rubens Barrichello.  Essa mola, por azar do destino acabou por atingir o piloto no ponto mais fraco do capacete, na altura da viseira. Felizmente Felipe Massa pode se recuperar por completo desse acidente.

Mas será que isso funciona mesmo?  Eu não gosto do Halo e não acho que ele sirva para alguma coisa.  Resolvi avaliar os acidentes que me lembro com monopostos e não consegui achar muita utilidade para o Halo.  Vejamos:

1 – Rubens Barrichello – Ímola 1994:

Esse acidente ocorreu nos treinos de sexta-feira do fatídico GP de San Marino 94.  Serviu como um aviso do que viria depois.  A Jordan de Barrichello decolou ao atingir a zebra de lado na curva.  Com o voo do carro, ele foi direto para o guard rail atingindo-o acima da barreira de pneus, que no caso não serviu para nada.  Rubinho passou apenas alguns dias no hospital, mas ele teve muita sorte.

Sem pneus para absorver a energia do impacto, ela acabou distribuída para o carro e o piloto.  No segundo 10 do vídeo dá pra ver como o corpo do piloto se mexe dentro do carro.  Ao longo dos anos outras proteções laterais nos carros e principalmente o Hans para proteger o pescoço e a coluna dos pilotos fariam com que após esse acidente o piloto saísse apenas com o macacão sujo.

O Halo faria diferença nesse acidente?  Nenhuma.

2 – Roland Ratzemberger – Ímola 1994:

O talvez mais maldito GP da Fórmula 1 fez sua primeira vítima fatal no dia seguinte ao acidente de Rubens Barrichello.  Em 30 de abril de 1994, Roland Ratzemberger perdia o controle de sua Simtek, sofrendo uma sucessão de impactos.  A velocidade antes da batida era da ordem de 300km/h e onde ele bateu não havia proteção de pneus nem qualquer outra proteção senão o muro.  O carro veio se desmontando até parar no meio da pista.

Esse acidente acabou por chocar o público, pois havia muito tempo sem uma morte na Fórmula 1, e todo o atendimento médico e tentativas de ressuscitação do piloto foram transmitidos ao vivo para o mundo todo. Embora tenha sido declarado morto apenas no hospital, todo mundo viu que o piloto austríaco estava morto ainda dentro do carro.

O Halo faria diferença?  Nenhuma.  A célula de sobrevivência falhou no acidente.  Quando o carro para é possível ver o cotovelo do piloto, em uma área que nunca deveria quebrar.  Posterior a esse acidente muitas outras medidas de segurança mais eficazes como o safer barrier, o Hans e proteções laterais foram desenvolvidas.

3 – Ayrton Senna – Ímola 1994:

Talvez o acidente que mais choca o Brasil até hoje, a batida de Ayrton Senna vive até hoje em um meio de meias explicações, teorias de conspiração e muito mistério.  Segundo apuração do Grande Prêmio, um dos braços da suspensão dianteira da Williams do brasileiro se soltou no acidente e acabou por penetrar o capacete do piloto, atravessando na altura da viseira atingindo a cabeça do piloto pouco acima do olho direito.  Senna perdeu massa encefálica ainda na pista.  Segundo a médica que atendeu Senna no hospital em Bolonha, a morte cerebral do piloto ocorreu na pista.

O Halo faria diferença?  Talvez.  O impacto que matou Senna foi daqueles para o qual o halo se destina a evitar.  No entanto essa proteção não me convence que é capaz de fazer isso.  Pode ser que sim, mas pode ser que não.  E pela altura que ele fica, pode ser que ele acabe atrapalhando, defletindo os destroços que passariam direto na direção do piloto.

4 – Felipe Massa – Hungria 2009:

Foi esse acidente que deu origem a discussão sobre o Halo.  Durante a classificação para o GP da Hungria daquele ano, uma mola se soltou da Brawn de Rubens Barrichello que acabou colhida pela Ferrari de Massa.  A mola atingiu Massa na altura da viseira fazendo com que o piloto desmaiasse e batesse contra a proteção da pista.  Felipe Massa perdeu o resto daquela temporada da Fórmula 1, voltando a disputa em 2010 fisicamente recuperado daquele acidente.

O halo faria diferença?  A partir daquele acidente passou a se discutir formas de se proteger o piloto desse tipo de impacto.  O halo nasceu para isso.  No entanto, assim como comentei no acidente de Senna, o halo poderia tanto defletir a mola para longe do piloto como para áreas mais desprotegidas do corpo dele.

5 – Jules Bianchi – Japão 2014

Durante uma corrida com chuva e repleta de acidentes com a pista em péssimas condições de aderência e visibilidade, Adrian Sutil com sua Sauber saiu da pista sem gravidade.  Na volta seguinte, Jules Bianchi vinha em alta velocidade quando perdeu o controle de sua Marussia atingindo o trator que fazia o resgate da Sauber.  O piloto francês teve sérias lesões cerebrais, vindo a falecer meses depois do acidente.

O halo faria diferença?  Não.  Bianchi teve uma Lesão Axonal Difusa.  Esse tipo de lesão ocorre quando o cérebro se movimenta violentamente dentro da caixa craniana.  Isso ocorreu devido a brusca redução de velocidade sofrida pelo piloto.  Não havia halo que desse jeito, a única coisa que poderia salvar o jovem francês seriam amortecedores de inércia, que ainda não foram inventados.

Nesse acidente eu faço um adendo que ele era perfeitamente evitável e mostrou a incompetência da organização do GP do Japão.  Tivesse ocorrido em Interlagos, o GP do Brasil já teria sido limado do calendário.  Como, sob chuva, eles liberam a entrada de veículos de serviço na pista sem que entrasse o Safety car?  Isso foi de uma incompetência ímpar.  Para retirar carros acidentados em área de escape naquela situação, o Safety Car deveria ter sido acionado, até pelas condições de pista.  Depois desse acidente tudo o que a Fórmula 1 fez para melhorar a segurança foi criar o Safety Car Virtual (VSC) que não serve para nada.

6 – Justin Wilson – Pocono 2015

Vamos a Fórmula Indy:  Durante as 500 Milhas de Pocono, Sage Karam perdeu o controle do seu carro e em pistas ovais isso significa muro.  O carro atingiu o muro de traseira, sem gravidade.  Contudo, partes do carro se espalharam pela pista e uma delas, o horrendo para-choque traseiro do carro voou e acabou por acertar a cabeça de Justin Wilson.  O piloto foi hospitalizado mas acabou por falecer no dia seguinte.

O halo faria diferença?  Provavelmente.  Curiosamente, na Fórmula Indy que resolveu fazer resistência ao halo é onde achei um acidente onde essa trapizonga seria útil.  Vendo como os halos foram montados nos carros da Fórmula 1, imagino que ele seria capaz de proteger Justin Wilson do impacto que sofreu.  Mas veja bem, talvez, pois dependeria do ângulo do impacto da peça.

7 – Dan Wheldon – Las Vegas 2011

Naquele ano a organização da Fórmula Indy achou que seria legal encerrar a temporada com uma corrida no oval de Las Vegas.  O problema é que um oval de 1,5 milha com curvas inclinadas e com carros de alto efeito solo permite que você faça a volta inteira sem tirar o pé do acelerador.  Com isso os carros puderam andar muito próximos, em diversas linhas permitindo três a quatro carros lado a lado.  Um acidente era questão de tempo.  O Big One ocorreu na volta 10 com quase metade do grid envolvido.

Dan Wheldon foi quem se deu pior.  Ele não começou o acidente, mas teve que passar por ele.  Ao passar acabou colidindo com pedaços de outros carros, perdendo sua asa.  Com isso ele se tornou um míssil, voando em direção ao alambrado.  A cabeça do piloto acabou por se chocar contra uma das barras do alambrado, matando o piloto inglês.  A corrida foi encerrada ali mesmo, com os pilotos dando três voltas cerimoniais na pista em homenagem a Dan Wheldon.  Eu estava assistindo aquela corrida, acompanhei tudo, e depois foi de cortar o coração ver Tony Kanaan no Twitter, que era muito amigo do piloto inglês.

O halo faria diferença?  Sim.  Conforme essa análise o contato do capacete de Dan Wheldon se chocou contra dois postes do alambrado da pista.  O poste atingiu pouco acima do bico do carro e veio deslizando por ele até chegar no capacete do piloto.  O carro continuou se deslocando, o poste quebrou o santantônio do carro do inglês.  Se houvesse halo, o poste se chocaria contra o halo, deslocando o carro de volta para a pista conforme o formato da peça.  O que outros impactos fariam com o piloto eu não sei, mas a cabeça dele não se chocaria contra o poste.

Conclusão:

Continuo achando o Halo feio pra caramba e não vejo muita utilidade no mesmo.  Nos acidentes da Fórmula 1 eu não vi utilidade no Halo.  Mas vi na Fórmula Indy.  A Fórmula Indy contudo não está considerando o Halo, prefere uma solução mais elegante:  Um parabrisa que parece vindo dos aviões de caça:

Indy Halo

Acho essa proteção mais eficiente e elegante que o halo.  A indy realmente precisa estudar alguma proteção para os pilotos pois seus dois últimos acidentes teriam seus efeitos minimizados com alguma proteção.  Isso aconteceu na Indy 500 de 2017:

Castroneves

Fato é que, no fim das contas a estética tem que importar menos que a segurança e se salvarem as vidas de pilotos, podem colocar uma frente de Agile nos carros.

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Intervenção no Rio: O que eu acho

Exército

Vamos para uma semana de intervenção militar no Rio.  Até agora nada mudou.  Curiosamente no dia em que a intervenção foi decretada eu testemunhei um arrastão no local que passo todo dia para voltar do trabalho.  Pois bem, temos uma semana disso e nada mudou.

A primeira coisa que essa intervenção demonstrou foi a incompetência de Michel Temer.  Após um decreto desses o que você espera é que no dia seguinte a sua publicação a cidade amanheça com tanques nas ruas, soldados espalhados por todos os cantos, pontos estratégicos ocupados, prisões…  Nada disso aconteceu.

Temer decretou a intervenção e nomeou para interventor um general que estava voltando de férias.  O cara esperava voltar, tomar um café, ler as notícias e aos poucos voltar ao seu trabalho, pegou uma baita furada.  Ele sequer tem um plano, passou essa semana elaborando o plano.  Claro que essa semana que o Estado maior passou planejando, os bandidos também passaram planejando.  E agindo.  Conseguindo mais armas, escondendo armas etc.  Graças ao Temer perdemos o elemento surpresa.

O que o exército vai fazer?  Bem, a melhor forma de se derrotar o inimigo é privá-lo de seus recursos.  Vai ser preciso evitar que armas e munições cheguem aos bandidos.  A  maneira de se fazer isso vai ser buscando e isolando os morros.  Por isso, quando reclamarem desse tipo de imagem:

fotorcapafolhacrianca

Sinto muito, é um mal necessário.  Crianças são cooptadas pelo tráfico e numa mochila de uma dessas crianças pode passar uma pistola, um estojo de munição e partes de um fuzil AK-47, a arma preferida do nosso inimigo.

Quando se diz que o Exército não tem experiência nesse tipo de operação esqueceu que os militares passaram mais de 10 anos no Haiti fazendo exatamente isso.  O Haiti nada mais é que uma favela gigante.  E a Minustah foi muito elogiada por todos.  Se o Exército fizer no Rio o mesmo que fez no Haiti estamos bem servidos.

Vai resolver o problema todo?  Acho difícil.  Só ocupação militar não vai resolver.  Vai ao menos melhorar.  É preciso um esforço conjunto de toda a sociedade, não só das forças de segurança.  É preciso por exemplo cortar os meios de financiamento do tráfico.

Legalizar as drogas?  Dependendo da droga até vá lá.  Legalizar a maconha parece um caminho, se você fuma um baseado você só fica mais devagar, se fumar direto você vira um retardado, o álcool te deixa doidão, se você beber muito arruma cirrose.  Nada muito diferente.  Basta proibir dirigir sob efeito de maconha, fazer campanha “se dirigir não beba nem dê um tapa na pantera” e tudo bem.  Mas drogas como o crack não devem de maneira alguma serem legalizadas dado o risco delas.

Mas engana-se que legalizando as drogas e tirando o comércio dos traficantes, eles irão tirar carteiras de trabalho e mandar currículos.  Bandidos já arrumaram outras fontes de financiamento:  Roubo de cargas, ataques a caixas eletrônicos…

Por isso é preciso esforço de todos.  Não adianta criticar a violência se você compra produto de roubo de cargas.  Enquanto as drogas são proibidas, ao comprá-las você está financiando o tráfico e toda a estrutura de violência.

Eu acredito no que fez Rudolph Giuliani em Nova York:  É preciso ter tolerância zero com os delitos.  Desde o camelô ilegal da esquina que transmite a sensação de insegurança até os grandes traficantes.  Com o combate aos pequenos delitos, as pessoas se sentem mais seguras e os grandes acabam por ser igualmente combatidos e inibidos.  E para isso é necessária a colaboração de todos.  Se isso não ocorrer, o exército só vai enxugar gelo.

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