Afinal Davi vence Golias? Nem sempre

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Na década de 70 do século XIX apesar das pessoas ainda se deslocarem basicamente a base de cavalos, já existiam trens e indústrias e o padrão de vida das pessoas já se aproximava do que teríamos hoje.  Ainda iria ocorrer a revolução da eletricidade o que possibilitaria a eletrônica e tudo o mais que permite que eu escreva e disponibilize para o mundo inteiro (não) ler.

As cidades já eram grandes e as pessoas já iluminavam suas casas e havia iluminação pública.  A lâmpada elétrica ainda seria inventada, e portanto as pessoas usavam lâmpadas a combustão.  O óleo de baleia era muito usado para isso, mas o mesmo estava começando a se tornar muito caro, então as pessoas mudaram para o querosene.

Nesse mercado reinou a gigante Standard Oil e seu proprietário John Davison Rockfeller que detinha então 90% do refino de petróleo dos Estados Unidos.  Ele comprava dos produtores de petróleo e levava por vagões tanque para suas refinarias principalmente no nordeste e no centro do País.  Refinava o petróleo para obter basicamente querosene, que era o principal produto do petróleo na época.  Sobrava ainda um resíduo que ele jogava fora, mas tinha um cheiro forte e era extremamente inflamável e que o salvaria depois.  O querosene era distribuído novamente em vagões tanque para os centros consumidores.

Os donos de ferrovias estavam bem felizes com isso, pois transportavam o petróleo e o querosene de Rockfeller, e cobravam taxas de frete conforme quisessem.  Mas Rockfeller sabia que não se fica rico assinando cheques e buscava sempre a vantagem na negociação dos preços de frete, pois era o principal cliente das ferrovias e ele queria manter os preços do querosene baixo, inviabilizando a entrada de outros concorrentes no mercado.

No entanto, os donos de ferrovias estavam pressionando para obter preços maiores nos fretes.  A saída de Rockfeller foi construir dutos entre os campos de petróleo e suas refinarias e transportar o óleo diretamente por eles.  Como ele era proprietário do duto e o transporte por esse meio é muito mais eficiente, Rockfeller feriu gravemente as companhias ferroviárias.

Mas ainda havia centros importantes onde a rede de dutos não chegava, e lá tudo estava como antes, com o óleo vindo de trem.  Um desses lugares era Pittsburg, na Pensilvânia futuro lar dos Steelers.  Ali operava a Pennsylvania Railroad e seu representante Thomas Alexander Scott estava fazendo jogo duro com os preços do frete do óleo da Standard.

Após negociações infrutíferas entre ambas as companhias e vendo que a companhia ferroviária tornara-se irredutível, Rockfeller não se fez de rogado:  Mandou que fechasse sua refinaria de Pittsburg.  Nenhum barril de querosene mais sairia daquelas instalações.

Isso quebrou a Pennsylvania Railroad.  Scott então reduziu o salário dos trabalhadores.  Eles, não aceitando os cortes e seguindo seus colegas em outros cantos do país, entraram em greve e bloquearam os trens e estações.  Scott sugeriu algo como “que eles comam balas por alguns dias” e convocou milícias para combater os grevistas.

Muitas dessas milícias se recusaram a atirar em trabalhadores, mas Scott encontrou uma que fizesse o serviço.  Em 21 de julho de 1877 atacaram os grevistas à baioneta, matando 20 e ferindo outros 29 trabalhadores.  Os trabalhadores reagiram e acabaram por obrigar os milicianos a buscarem abrigo na rotunda da cidade e os mantiveram sitiados enquanto queimavam trens, locomotivas, depósitos e a estação de Pittsburg.

No dia seguinte, acuados, os milicianos conseguiram sair da rotunda na base da bala, matando mais 20 pessoas que estavam em seu caminho enquanto saíam da cidade.  O tumulto na cidade durou cerca de um mês quando tropas federais acalmaram a situação.

Esse episódio foi o episódio mais violento da Grande Greve dos Ferroviários de 1877.  A partir dali o movimento trabalhista dos EUA ganhou força. A Pennsylvania Railroad teve um baita de um prejuízo e Scott jamais se recuperou da greve.  Em 1878 sofreu um ataque cardíaco vindo a falecer em 1881.

Rockfeller por sua vez aumentou o domínio sobre toda a distribuição de Petróleo dos EUA.  A Standard Oil devorava concorrentes, primeiro por ofertas justas e, em caso de recusa, eles eram levados à bancarrota por Rockfeller.  A companhia cresceu tanto que em 1911 a Suprema Corte dos EUA ordenou o desmantelamento da companhia em 34 outras.  Rockfeller morreu no mesmo ano, foi o primeiro homem a ter um bilhão de dólares.  Se corrigida pela inflação, Rockfeller é até hoje o homem mais rico do mundo.

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O Toner de Microondas

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Um dos meus desenhos preferidos sempre foi Pinky & Cérebro.  Claro, porque tenho muita coisa em comum com o Cérebro:  Ambos temos cabeça grande, Somos gênios e temos o desejo incontrolável de conquistar o mundo.

Então, quando esse desenho passava na TV eu não perdia um episódio.  Um belo dia, para transformar o sistema de telefonia global em uma imensa secretária eletrônica, Cérebro precisaria de US$ 1.614.000,00.   Não tendo esse dinheiro, ele resolveu obtê-lo igual todo mundo normal faz:  Trabalhando.

Mas o Cérebro descobriu, assim como todo mundo normal que, trabalhando como assalariado, você não fica rico, não realiza planos e nem fica milionário.  Então ele resolveu procurar um atalho:  Sofrer um acidente de trabalho e ganhar no tapetão uma indenização da empresa no valor que ele desejava.

O acidente que Cérebro arquitetou era bizarro, envolvendo forno de microondas e creme de barbear porque, segundo o Cérebro, ninguém sabe como isso funciona.

Como meu outro programa favorito é Mithbusters, resolvi fazer um Crossover de séries e por o mito do microondas a prova.  Onde?  no meu ambiente de trabalho!

Meu primeiro emprego foi numa malharia, onde comecei como aprendiz de tecelão, nos idos de 1997, logo me tornando um mestre jedi tecelão.  Lá, além dos tecelões, tínhamos as passadeiras, costureiras, e o pessoal do escritório, além da dona da firma.

Na hora do almoço, as coisas funcionavam assim:  Como bons proletários, levávamos marmita.  Deixávamos na geladeira do refeitório.  Faltando 10 minutos para a hora do almoço, uma funcionária era deslocada para o refeitório e ela esquentava a marmita de todo mundo no microondas.  Assim, na hora do almoço, nossa marmita já estava quente.

Um belo dia fui ao refeitório enquanto a garota ainda esquentava as marmitas e disse a ela que o toner do microondas estava acabando.  Ela me perguntou o que era isso e eu respondi que era uma peça interna do forno que era a responsável por gerar as microondas e aquecer a comida.  Como o segredo da mentira é ela ser bem contada, ela acreditou e disse que vinha mesmo notando que o aparelho não estava aquecendo as marmitas direito havia alguns dias.  Ela perguntou o que fazer e eu disse para ela solicitar ao pessoal administrativo que comprasse outro toner que eu faria a substituição.

Ela fez isso e o pessoal do escritório, por não entender do que se tratava me chamou.  Eles sabiam que toner era algo de copiadoras, mas jamais tinham ouvido falar de toner pra microondas.  Repeti a explicação.  Eles acreditaram e me perguntaram onde isso poderia ser comprado.  Disse que as autorizadas vendem, que era só procurar.

A história chegou à dona da firma, que também foi me interrogar sobre isso.  Mais uma vez repeti a história, ela me disse que tinha microondas há anos e que ela nunca precisou trocar essa peça.  Respondi prontamente que normalmente os toner de microondas duram mais que o próprio equipamento pois ele acaba por ser substituído antes e que o uso doméstico era pequeno para que acabasse com ele em um período curto.  Mas como o da firma era muito utilizado, o toner acabou.

Me disseram que mandaram a garota que fazia o serviço de rua procurar essa peça em todas as lojas de consertos de eletrônicos e casas de ferragens.  E pelos relatos dela, ela não foi ridicularizada nas lojas.  Finalmente entreguei a pegadinha e concluí que o mito fora confirmado:  Brasileiro não sabe como funciona o forno de microondas.

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Honra nos céus

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Era mais um dia de outono na Alemanha de 1943.  O frio já dava a tônica, mas enquanto as operações terrestres ainda estavam bem longe da Alemanha, a cada dia mais bombas aliadas caíam, cada vez mais perto de Berlim.

O Tenente Franz Stigler pousa seu Messerschimdt Bf-109 após mais uma missão de defesa do território alemão.  Veterano, já prestara apoio aéreo a Rommel na África, lutara na Sicília e na Batalha da Inglaterra.

Stigler era um ás.  Tinha confirmadas 22 vitórias em combates aéreos.  Mais uma e ele receberia a Cruz de Cavaleiro, honra dada a pouquíssimos pilotos.  Por conta disso, seus colegas de esquadrão e seu comandante aguardavam ansiosamente a notícia de seu 23º abate.  Quando saiu do avião, seu comandante já o interpelava ainda no campo:

– Conseguiu?

– Não senhor.  Esses bombardeiros americanos são uma desgraça.  Você pode gastar toda a munição em um, acertar todas as balas que essas coisas continuam voando!

– Você vai conseguir.  Tem muitos bombardeiros para atirarmos – Tranquilizou o comandante lhe dando um tapinha nas costas.

De súbito, começa uma agitação no campo.  Um barulho alto de hélice e de repente passa sobre o campo um B-17 deixando uma trilha de fumaça no ar.  O comandante grita para o pessoal da manutenção para rearmar e reabastecer o Bf-109 de Stigler e diz:

– Franz, vá buscar sua cruz!

– Jawohl herr kommandant!

Assim que os mecânicos terminaram, Stigler pulou em seu Bf-109 e ganhou os céus.  A fumaça ainda indicava a direção do bombardeiro inimigo.

– Relatório de danos! – Perguntava o comandante do Bombardeiro.

– Perdemos os motores 2 e 4.  O 3 funciona a 40%.  O rádio já era, a torre inferior está travando.  Sinceramente Charlie, não sei como ainda estamos voando.

– Doc, onde estamos?

– Não sei capitão.

– Mas esse é o seu trabalho aqui diabos!

– Aquela maldita flak que estourou aqui no nariz.  Não faço ideia de onde estamos desde Bremen.  E a essa altura os nossos amigos já estão tomando uma na Inglaterra.

– Pode me dizer pelo menos pra que lado fica a Inglaterra?

– Sinto muito senhor, estava cuidando do Ecky.

– E como ele está?

– Morto senhor.   Perdemos uma parte da cauda.

De repente o artilheiro da torre inferior entra no intercomunicador:

– Estamos passando sobre um campo de chucrutes!  Pra onde estamos indo?  Berlim?

O bombardeiro estava difícil de comandar.  Praticamente sem motores, com as superfícies de comando traseiras danificadas.  Desorientados e sozinhos, sequer sabiam para onde deveriam ir.

– Temos que ir para o Oeste, pra que lado está o Oeste?

– Não consigo nem ver o sol capitão. – respondia um assustado copiloto.

– Kraut! 3 horas baixo!

“Então é assim que termina”  Pensaram os 9 sobreviventes do bombardeiro.

Stigler sabia como se aproximar dos bombardeiros.  Sabia os pontos fracos do B17 e por onde não poderia ser atacado.  Veio por baixo pois a torre inferior quase sempre dava problema, isso quando o ocupante dela ainda estava vivo.

Quando se aproximou do bombardeiro percebeu dois motores parados, fumaça saindo, a cauda semidestruída, faltavam partes da fuselagem.  Conseguia ver os tripulantes do B17.  Estavam apavorados e feridos.  Vendo os canos das metralhadoras de ré arriados, sabia que o artilheiro da cauda estava morto.  Os americanos atiraram nele.  Mas disparavam a esmo, não tinham mais capacidade de fazer qualquer coisa.

Stigler então se aproximou pela cauda.  Colocou o bombardeiro na mira.  Poderia dar um fim ao sofrimento dos americanos e ganhar sua medalha.  Mas via os homens se movendo lá dentro, via os estabilizadores e o leme se moverem apesar dos danos.  Aquela aeronave ainda estava viva.

“Vamos, por que ele não atira?” pensava o artilheiro da direita.  De repente viu o alemão se aproximar e virar, antes que ele pudesse fazer uma boa mira.

Stigler fez essa passagem para avaliar melhor o estado do bombardeiro e tentar sinalizar para que o seguissem.  “não há honra em matar homens desarmados e feridos”  Pensava.  Se aproximou da cabine e começou a gesticular com os tripulantes americanos.

– Só atirem no alemão quando eu mandar! – Ordenava Charlie. – Ele está querendo dizer alguma coisa.  Mas o quê?

O piloto alemão tentava sinalizar para que o B17 o seguisse.  Pensava em fazê-los pousar e serem capturados.  Como os americanos não respondiam, pensou então em leva-los para a Suécia, onde poderiam receber cuidados médicos e ficariam lá até o fim da guerra.  Mas o bravo bombardeiro não mudava o curso.

– Flak à frente. – Disse o copiloto americano.

Stigler ao lado também viu os disparos.  Formou com o bombardeiro.  Lá embaixo os alemães não entenderam porque um caça deles estava escoltando um bombardeiro americano, mas cessaram fogo.

– Esse alemão miserável está nos protegendo! – Disse o navegador.

– Era só o que faltava. – respondeu o bombardeiro  – Se contarmos isso lá na base ninguém vai acreditar…

Os dois aviões conseguiram se comunicar rudimentarmente por gestos e Stigler os guiou até o Mar do Norte.  Quando viu que os americanos estavam seguros, olhou para o piloto do bombardeiro e prestou uma continência.  Foi retribuído.  Logo depois fez a volta e retornou para sua base.

– Estamos apenas com um motor e meio pessoal. – Disse Charlie. – Vamos aliviar o peso. – olhou pela sua janela e completou: –  Muito obrigado amigo.

Quando Stigler voltou ao campo encontrou novamente seu comandante:

– E então Franz? Posso chamar o Himmler para lhe entregar sua cruz?

Franz então contou ao comandante o que ocorreu.  O comandante disse:

– Meu Deus Franz!  Você pode ser fuzilado por isso!

– Comandante, meu instrutor me dizia que se eu atirasse em alguém com um paraquedas ele mesmo atiraria em mim.  A situação daqueles homens era a mesma de um piloto que saltou de paraquedas.  Não havia honra em matá-lo.

– Em atenção a nossa amizade, Franz, diga em seu relatório que o bombardeiro americano não foi localizado.  Diga que sumiu nas nuvens, sei lá.  Isso fica entre a gente.

Os americanos por sua vez pousaram em uma base da RAF e contaram para o comandante britânico o que ocorrera.  O inglês lhes disse:

– Nós ensinamos aqui que se você é um ser humano, você não entra num cockpit alemão!  Se essa história vazar, nossos pilotos começarão a ter pena dos pilotos alemães!  Faz ideia do dano que isso pode causar a essa guerra?  Vamos manter essa história em sigilo.  E se você quiser manter seu amigo alemão vivo, melhor fazer o mesmo.  Se o comando nazista souber disso, seu novo amigo será fuzilado.

Ambos aviadores continuaram sua carreira.  Stigler voou ainda diversas missões, inclusive com o moderno jato Me-262.  Mas nunca conseguiu sua Cruz de Cavaleiro.

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Apesar dos diálogos serem puramente ficcionais, essa história de fato ocorreu na Segunda Guerra Mundial.  Após a Guerra, Stigler foi morar no Canadá, e tanto ele quanto Charlie se esforçaram bastante para se encontrar.  Eles se encontraram em 1990 e permaneceram amigos até o fim de suas vidas em 2008.

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Nossos amigos não humanos;

Snarf

Muitas vezes nossos amigos não tem tempo para nós, ou simplesmente não querem nossa companhia no momento em que queremos ou precisamos. É natural, nós fazemos o mesmo com nossos amigos. Pior ainda, as pessoas tem o dom de fingirem ser nossos amigos quando na verdade não o são, e só procuram tirar vantagem.

Por isso muitas vezes ter amigos de quatro patas é bem melhor do que amigos com dois pés e que calçam sapatos.  Ao contrário dos humanos, cachorros não estão preocupados com o seu programa de TV ou em ficarem sozinhos, ou em tirar vantagem.  Por isso acabo tendo mais em conta nossos fiéis caninos do que muitas pessoas.

Desde criança sempre gostei de animais.  Adorava conviver com eles, lá em casa sempre teve gato, galinha, cachorro… brincava com eles sem medo e, claro, como criança, nem sempre o que eu gostava de brincar era o que os animais queriam.  Mas enfim.

Por conta disso, sempre que vejo um cachorro, minha reação natural é tentar ser amigo dele.  E já percebi que tenho um certo magnetismo animal pois nas casas que vou que tem cachorro, normalmente eles acabam por me procurar pedindo atenção.  Como ele é retribuído, acabo por ganhar um amigo.

Assim tenho vários amigos de quatro patas que latem: Tem o Dunga, do meu tio, que quase sempre sai comigo para o trabalho, desce a rua comigo e depois seguimos, eu para o ponto de ônibus, ele para encontrar os outros amigos dele.  Tem o Zequinha, que vai na igreja com sua dona todo domingo quando estou limpando a igreja.  Ele sempre atrapalha as orações da dona querendo brincar comigo.  Tem a Jujuba do Zangief que é bem bruta e é preciso se apoiar bem para brincar com ela.

Já consegui até dobrar cachorros que não tem muitos amigos.  Quando todo mundo achava que eu seria hostilizado pela Nina da Nathalia, eis que, se não sou amigo dela, ao menos somos colegas, pois já brincamos juntos e convivemos em paz.  Tem o Puff do Jean também que, não sei o que fiz pra ele que ele sempre procura minha companhia.

No entanto nada supera a amizade que você faz com seu próprio cachorro.  O seu cachorro tem ciúme, cheira você procurando por rastros de outros animais querendo saber o que você andou fazendo.  Mas eles também protegem você, mesmo quando eles não tem a menor chance de sucesso.

Assim como a maioria dos animais que viveram lá em casa, o Snarf chegou lá como um rejeitado. Teve uma infância difícil, sei lá porque quem ficou com ele de filhote batia nele. Mas por bater, entenda que esse cachorro deve ter sofrido, pois as sequelas que ele tinha quando chegou lá em casa mostravam que ele pode ter passado por um campo de concentração.

A vida dele começou a mudar quando uma amiga da minha irmã o adotou.  No entanto, por outros problemas, não puderam ficar com ele.  Eis que ele foi parar lá em casa e, assim como os gatos e cachorros que almas que, espero sofrerem de igual abandono num futuro próximo, abandonaram próximo a minha casa, lá ficou enquanto se procurava outro lar.

Assim o encontrei pela primeira vez.  Abri o portão de casa para entrar e lá estava ele.  Me olhou e, assim como qualquer cachorro, tratou de cheirar minhas pernas para saber quem eu era.  Depois não me deu mais muita ideia.  Ele ainda estava se adaptando ao local.  Mas com o passar dos dias, acabamos por nos tornar amigos afinal, estávamos convivendo na mesma casa.

Ele tinha suas particularidades como todo cachorro.  A mais legal é que na hora de passar a mão na cabeça dele, ele mesmo fazia o trabalho.  Tudo o que você precisava fazer era colocar a mão perto dele e ele se encarregava do resto.  Claro que isso deu a ele a vantagem de, onde quer que você coloque a mão, ele tentar – e conseguir – que você passasse a mão na cabeça dele.

Como bom brasileiro, gostava de bola.  Bastava arrumar uma bolinha que ele saia correndo para apanhá-las.  Ele não devolvia, você tinha que tirar dele.  Mas era um câo tão dócil que você não teria medo de fazê-lo.  Se ele fosse para a rua com os garotos jogando bola, ele entrava no jogo, pegava a bola e voltava para a casa correndo com a bola pendurada na boca.

Os anos foram cruéis com o pobre Snarf.  Mais cruéis do que precisavam ser.  Nunca precisei levar tanto um cachorro ao veterinário.  Mas a Dra Beatriz, que cuidava dele desde os antigos donos, adorava o bichinho.  Nunca esqueci quando ela disse não entender porque ele foi tão maltratado se ele era um cachorro perfeito para cuidar pois nunca se opunha a nada.  Depois disso ela o fez tossir pressionando a traqueia.  Me disse para, se eu fosse fazer isso, tomar muito cuidado pois com muita força poderia mata-lo.  Nunca nem tentei.

Snarf teve inúmeros problemas, perdeu a visão.  Teve uma hérnia, foi mal operada, acabou ficando com o traseiro de cachorro mais esquisito do mundo.  Mas estava sempre lá.  Seu ímpeto em me receber diminuía, mas sempre estava lá, chorando quando eu chegava.  Se batesse na perna ele ainda ficava sobre duas patas.  Ultimamente, com a obra lá de casa e a infernal Makita, achamos que ele estava ficando surdo também.

No entanto, seus rins eram seu ponto fraco.  Pouco tempo atrás, ele sequer se movia.  Levado ao veterinário, constataram que seus rins estavam paralisados.  O veterinário sugeriu a solução final. Preferimos tentar de outra forma.  Com antibióticos descobrimos que ele tinha uma infecção e seus rins voltaram a funcionar.

Mas um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.  Logo seus rins parariam de novo.  Dessa vez não teve antibiótico, não teve muita coisa.  Em primeiro de novembro de 2014 o velho Snarf, 14 anos depois, resolveu nos deixar.  Escolheu para morrer uma data irônica.  Era para o dia ficar marcado como outro daqueles em que cumpri uma meta de vida.  Semelhante ao 2 de Abril de 2013 quando embarquei para Nova York.

Eu consigo listar pelo menos uma dúzia de pessoas que preferia que fossem no lugar dele.  Mas eu não faço essas regras.  Tudo o que posso fazer é ficar triste por perder meu amigo de quatro patas e pelo cinza.  Que ele esteja num lugar melhor.

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A última chance para Aécio Presidente

Dilma x Aécio

Quatro anos atrás, quando da primeira eleição de Dilma e da primeira eleição da vida deste blog, resolvi por curiosidade avaliar se o resultado das eleições seria diferente caso a nossa regra fosse a regra dos EUA.  Em 2010 nada mudaria, Dilma seria eleita da mesma forma.  Agora em 2014 a diferença de votos foi muito mais apertada e, obviamente fiquei curioso se dessa vez com as regras americanas haveria alguma diferença no resultado.

Para ser eleito presidente do Brasil, tudo o que você precisa conseguir é a metade mais um dos votos válidos da eleição em todo o país.  Nos EUA você precisa conquistar a maioria dos votos de um colégio eleitoral que é formado por delegados enviados por cada Estado.  Estes delegados votarão no candidato escolhido pelos eleitores daquele estado.

Assim, enquanto no Brasil a chave para se vencer as eleições é conquistar eleitores em todo o território nacional, nos EUA o segredo é vencer nos estados que enviam mais delegados para o Colégio Eleitoral.  Em estados que você sabe que não vai vencer, você pode simplesmente desistir dele e poupar suas forças pois mesmo que ninguém naquele estado vote em você, o número de delegados que ele vai enviar ao Colégio para votar contra você será igual.  No Brasil em um estado como São Paulo você não pode se dar a esse luxo, pois mesmo que perca no estado, você tem que tentar perder do mínimo possível pois o que importa no final é a contagem absoluta de votos.

O sistema americano permite que você vença a eleição tendo menos votos no geral do que seu oponente, como ocorreu com George W. Bush contra Al Gore em 1998.  Já o sistema brasileiro permite que você perca em mais estados que seu adversário, mas vença na eleição geral.  Pessoalmente acho o sistema brasileiro mais correto pois a eleição é nacional e todos os votos acabam tendo o mesmo peso.  Sob o sistema americano, o voto de um paulista valeria mais do que o voto de um acreano.

O número de delegados que cada estado envia é proporcional à população do estado.  Assim estados mais populosos tem mais delegados, estados menos populosos menos.  Mas nunca nenhum estado terá menos que 3 delegados.  Usando o Colégio eleitoral que montei para as eleições de 2010, arredondando o número de delegados para cima, de forma a não termos que dividir pessoas ao meio, teríamos:

Delegados Brasil

 O resultado da eleição foi (vermelho para Dilma e Azul para Aécio):

Resultado Eleições

Cruzando as informações, teríamos esses resultados:

Eleições Resultado tabela

Curiosamente, se usássemos o Colégio Eleitoral, a vantagem de Dilma seria um pouco maior.  Isso é completamente o oposto do que eu esperava.  Dessa vez imaginei que, usando o critério americano, e considerando que Aécio venceu nos estados que fornece o maior número de delegados, ele seria eleito sob essas regras.  Não foi o que houve.

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Quando eu disputei eleições

Urna

E o clima eleitoral nunca foi tão acirrado, as pessoas dos dois lados nunca estiveram tão aguerridas por seus candidatos em muito tempo.  Talvez só em 89 com o duelo Collor x Lula.  Mas uma vez eu senti na pele o que é uma campanha disputada.

Fui educado em uma escola que guardava resquícios da ditadura.  E isso não me fez mal algum.  Éramos fiscalizados e doutrinados em coisas que as escolas hoje simplesmente não dão a mínima.

A disciplina com o uniforme era rígida, não poderia estar faltando uma peça.  Usávamos camisa social de manga curta ou comprida, branca com o bolso da escola, que tinha que ser comprado lá, calça de tergal azul marinho e sapato preto.  Como era escola pública e atendia muita gente pobre, valia o kichute.  As meninas usavam a mesma camisa, saia azul marinho com número de pregas definido pela escola, meias ¾ e um sapato que só servia para a escola.  Como estamos na região serrana do Rio, era permitido que as meninas usassem calças.  A escola ia do antigo CA até a antiga quarta série (hoje primeiro ao quinto ano) e, a menos que fosse realmente necessário, as meninas não podiam nem sonhar em usar sutiã.

Éramos crianças, por isso não havia muitos problemas com relacionamentos entre os meninos e as meninas, mas os safadinhos que tentavam olhar sob a saia das meninas ou qualquer namoricozinho mais sério e você entraria no caderno de ocorrências.

As semelhanças com ditadura não paravam aí. Quando havia surto de piolhos, a diretora em pessoa ficava na entrada da escola inspecionando cabeças uma a uma.  Se encontrasse piolhos, a criança voltava para casa com um bilhete dando bronca nos pais.  Todo o dia cantávamos o Hino Nacional antes de entrarmos em sala.  Na semana do 16 de março trocávamos pelo Hino de Petrópolis, na semana do 7 de setembro era o Hino da Independência e em novembro cantávamos o Hino da República e da Bandeira.

Mas o mais curioso é que a diretora que estabeleceu toda essa disciplina continua lá até hoje, o que faz dela uma espécie de Fidel Castro das escolas.  Mas engana-se quem acha que não havia democracia na escola.  Tínhamos eleições todo ano, fora uma de brincadeira em que “elegemos” Lula em 89.  Todo ano a escola era movimentada pelas eleições para o Grêmio Escolar.

O Grêmio escolar deve ter sido baseado no que existe nas escolas americanas.  Seria a representação dos alunos junto à direção.  Claro que, na prática não era grande coisa, pois éramos crianças de 10 anos de idade, mas o grêmio tinha tesoureiro, secretário cultural, secretário de alunos, secretário de patrimônio e… Presidente!

Era o cargo que almejava desde que entrei na escola (sim, sempre sofri de megalomania), mas precisava chegar à idade legal, o que era estar cursando a quarta série.  Até chegar lá, tudo o que podia fazer era exercer minha cidadania votando nas chapas dos outros.

Não foi fácil. Para começar eu deveria vencer as primárias.  Cada sala de quarta série só lançava uma chapa e só pode haver um presidente.  Apresentaram-se três candidatos.  Eu, o CDF, uma garota que tudo o que lembro dela é que ainda faltavam mais de vinte anos para termos uma presidenta e o cara mais popular da sala.  Fosse no voto eu seria derrotado para o “Boi”, sim esse era o apelido dele, mas a decisão se deu no zerinho ou um.  Vitória incontestável.  Eu era a partir de então o candidato da quarta série turno da tarde a presidência do Grêmio Estudantil da Escola.

Formada a chapa, saímos em campanha.  Nossa adversária seria a chapa coxinha e reacionária da turma da manhã.  Havia uma rivalidade grande entre as turmas, dividíamos a mesma professora e havia um ciúme sobre qual turma era a preferida dela.  Além disso, ficávamos azuis de raiva com eles que iam a tarde na janela da nossa sala nos infernizar.

Nossa chapa chamava-se “Semente de uma nova Geração”  A chapa deles chama-se “União”.  Ao contrário da minha turma, o presidente deles era o garoto mais popular do turno da manhã.  Isso me colocava em clara desvantagem, fora que eu era péssimo em oratória (não me considero mais tão ruim).  Fazíamos campanha em todas as salas, das crianças do CA até nossa própria turma, íamos no reduto adversário (o turno da manhã) e eles vinham nosso.  Os encontros de chapas eram tensos, quando eles iam na nossa sala e nós na deles.

Dentro das salas mantínhamos uma disciplina, não discutíamos ou nos atacávamos pois o caderno de ocorrências estava sempre a mão.  Mas havia uma guerra silenciosa ocorrendo:  A guerra dos cartazes.

Eles começaram.  Um belo dia na parede do pátio aparece um cartaz que diz:  “Semente é comida de passarinho. União é para sempre”.  Nem pensamos em recorrer ao TSE.  O turno da manhã, no dia seguinte, veria a seguinte frase:  “A única União que presta nessa escola é o açúcar do refeitório”

A partir daí toda a troca de ataques entre PT e PSDB eram discussões de cavalheiros perto do que fizemos.  Como não havia reeleição, nenhuma chapa usava a máquina, eram tempos em que não tínhamos computadores nem acesso a copiadoras.  Fazíamos cartazes e santinhos à mão.  O meio de imprensa mais poderoso disponível, o mimeógrafo, era estatal e não podíamos usar.  Mas com o que tínhamos fazíamos um estrago e tanto.

Os ânimos estavam tão exaltados que o debate entre chapas foi cancelado.  As militâncias brigaram na rua, obedecendo a regra dos 100m da escola.  Eu fui ameaçado de morte.  Duvidamos da capacidade intelectual deles.  O boletim de notas do presidente deles vazou.  “Vocês querem como presidente um aluno que só tem notas vermelhas?”  perguntamos.  Vazou o meu.  “Querem um CDF na presidência?” retrucaram.  Até que chegou o dia da eleição.

A votação transcorreu sem problemas.  No dia não houve brigas ou tumultos.  Dois militantes meus foram pegos fazendo boca de urna.  Obviamente que eu não sabia disso.  Assim como no Brasil, o voto era obrigatório e você só poderia se abster se faltasse a aula, mas era possível votar em branco ou anular.

Terminado o pleito, no dia seguinte fomos à apuração.  Foi tensa.  Disputávamos voto a voto, comemorávamos cada voto recebido e lamentávamos cada voto para o adversário.  E assim transcorreu a tarde, contando cada cédula naquela caixa de sapatos que para todos os efeitos era uma urna.

Quando a diretora passou a mão pela caixa, não achou mais cédulas, virou-a de cabeça para baixo e nada caiu, todos olhamos para a subdiretora que fazia a totalização.  Ela precisou de alguns segundos para contar os votos até que deu o resultado:  “Semente 353 votos.  União, trezentos e cinquenta e… QUATRO votos.  Perdemos por uma droga de voto.

Elegante na derrota, cumprimentei o eleito, e voltei para meus estudos.  Eles ficaram comemorando.  Houve uma caça as bruxas no turno da tarde.  O garoto que faltou a aula no dia da votação passou uma semana visitando a lata de lixo da escola.  Cumpri meu último ano na escola sem qualquer função política, mas voltaria a aparecer por esse motivo devido a uma redação sobre o prefeito.  Não fui presidente do Grêmio escolar, mas acabei por dar a escola a primeira vitória em um concurso municipal.

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Os cadeados do amor e a sobrecarga sobre as pontes

Pont des arts

A primeira vez que vi cadeados em pontes foi quando atravessei a Ponte do Brooklyn.  Não entendi nada é verdade, porque raios as pessoas colocam cadeados nos guarda-corpos de pontes.  Mas enfim, deixe-os serem felizes como quiserem.

Na Europa esse costume é maior.  E as principais cidades cresceram sendo cortadas por rios, afinal Londres existe por causa do Tâmisa e Paris por causa do Sena, só para ficar em dois exemplos, portanto pontes são a coisa mais comum dessas cidades.  Só que nesses países as pessoas lotam as pontes de cadeados!

O caso mais expressivo é Paris, onde há pontes em que você não tem onde colocar a mão sem ser tocando num cadeado.  Mas eu vi cadeados também em Londres, em Zurique, Amsterdam, Bruxelas…  Acho que em todas as cidades da Europa que parei eles estavam lá.  E voltei sem saber porque as pessoas botam cadeados nas pontes.  Fui aprender depois.

A ponte é o maior símbolo de união que nós temos.  Não à toa o Papa se chama “Sumo Pontífice”, onde Pontífice quer dizer “aquele que constrói pontes” e, no caso do Papa, seriam pontes entre Deus e os homens (obrigado pela explicação Padre Francisco).  Pontes são também elementos importantíssimos da tática militar devendo ser protegidas a todo custo para que não caia nas mãos do inimigo ou para que o inimigo não impeça minha passagem, ou conquistada, de forma a avançar em território inimigo ou destruída para impedir o avanço.  Portanto numa guerra, ficar debaixo da ponte é uma péssima ideia.

Pontes são também obras magníficas do engenho humano (só perdem para o avião) e nos permitem cruzar corpos d’água com facilidade.  Facilitam o deslocamento, unem cidades como o Rio e Niterói ou até mesmo países, como a Ponte da Amizade.  Daí seu grande simbolismo para todos.

Aproveitando a ideia de união que uma ponte passa, surgiu esse costume europeu.  Embora Paris esteja repleta de cadeados em pontes, o costume surgiu na Hungria.  Os casais usam de outro símbolo, o cadeado e, ao prendê-lo na ponte dizem que sua união, representada pela ponte está “trancada” ou protegida, e assim durará para sempre.  O costume manda que o casal jogue a chave no corpo d’água abaixo e, pela lenda, a única forma de terminar o amor seria resgatando a chave do fundo do rio (caso você tenha feito isso com um mergulhador, cuidado).

Acaba sendo bacana uma ponte repleta de cadeados com os nomes dos casais, datas…  você vê muita gente que passou por ali e fez isso.  Te leva a perguntar o que o futuro reservou para aqueles casais.  Será que estão juntos ainda?  Vivos ainda?  Tem filhos?  Você vai lendo os nomes e imagina.  Cheguei a bolar algumas histórias para alguns.

Mas esse excesso de cadeados em pontes tem gerado um problema para a prefeitura parisiense.  Curiosamente agora que há uma prefeita em Paris, a mulher resolveu atacar muitas coisas da cidade que você nem imaginaria.  E dita cuja declarou guerra aos cadeados e logo no dia dos namorados.

Não, eu não sei se ela um dia botou um cadeado lá com seu namorado, jogou as chaves no Sena e depois aquele cachorro ordinário saiu com outra e hoje colocou um cadeado com o nome da outra preso exatamente no que colocou com a prefeita (algumas pontes estão tão cheias que as pessoas colocam cadeados presos em outros cadeados), mas ela tem uma boa razão técnica para declarar guerra aos cadeados:

Todos nós sabemos que cadeados são metálicos e, por isso mesmo, pesam.  Colocar um ou dois cadeados num guarda-corpo de ponte não tem problema, mas a quantidade de cadeados que há nas pontes de Paris já é tão grande que o peso deles está sobrecarregando a estrutura da ponte.  Em junho uma parte do guarda-corpo da Pont des arts cedeu e a ponte teve que ser interditada. 

Agora, numa substituição aprovada por Pep Guardiola, sai o romance e entra a Engenharia.  Vamos tentar avaliar o impacto que esses cadeados causam na ponte.  Vamos usar a Pont des arts, a mais famosa por essa prática e portanto a que mais tem cadeado.

A Pont des arts original foi construída a mando de Napoleão entre 1802 e 1804 e foi a primeira ponte metálica de Paris.  Ela não durou muito, foi interditada em 1977 e desabou em 1979.  A ponte que você prende seu cadeado hoje foi inaugurada em 1984 e foi construída para ser quase idêntica a original.

Para estimar a carga sobre a ponte causada por cadeados, vamos lançar algumas hipóteses enquanto eu não consigo a vaquinha para voltar a Paris para contar e pesar todos os cadeados que lá estão:  A ponte mede 155m de comprimento, seu guarda-corpo tem aproximadamente 1,10m de altura.  Ele é metálico, feito por uns perfis grossos, mas tem uma tela de 10cm de malha para impedir a queda de objetos, portanto praticamente todo ele pode receber cadeados, de forma que vamos considerar uma massa praticamente contínua de cadeados ao longo da ponte.

Teremos disponíveis para cadeados em cada lado da ponte 11 “linhas”, cada uma com 155 metros.  Isso dá um espaço de 1705 metros para se colocar cadeados na ponte.  Agora vamos modelar os cadeados:

Há cadeados de todos os tipos, alguns minúsculos, outros imensos de forma que não dá para precisar o peso de cada cadeado.  Vamos dizer que todos os cadeados correspondem a um “cadeado médio” que, em promoção do produto nacional e para fazer vocês acharem que esse post foi patrocinado será o cadeado Papaiz CR 45 Standard.  Escolhi esse porque é um cadeado comum, você provavelmente o tem na sua casa e também porque com Papaiz todo o mundo se sente mais seguro (fim do merchan).

Cadeado Papaiz CR 45

Esse cadeado pesa 120g e sua “alça” tem o diâmetro de 8mm.  Se supormos que todos os cadeados estão presos ao guarda-corpo, ou seja, nenhum cadeado foi atrelado a outro e que todo o espaço da ponte foi ocupado, em cada lado da ponte caberão 213.125 cadeados, o que significa

It-s-over-9000

Com todos esses cadeados, cada lado da ponte está com um peso extra de 25,575 TONELADAS.  Ou seja, os cadeados estão sobrecarregando a ponte em mais de 50 toneladas.  Por metro essa ponte está com uma sobrecarga de 330kg/m.  50 Toneladas é a capacidade de carga de uma carreta.  Só que a ponte foi projetada para pedestres e pior, esses cadeados fazem com que o esforço se concentre onde o guarda-corpo se junta com a ponte e, muitas vezes, o guarda-corpo que acaba quebrando, o que é igualmente perigoso.

Assim, as autoridades parisienses estão em guerra contra os cadeados.  Mas como isso é uma atração turística e muitas pessoas vão a Paris ou para colocar seu cadeado ou simplesmente para ver o dos outros, eles não querem perder os turistas.  Assim, eles estão incentivando que os casais deixem mensagens românticas em papel ou simplesmente tirem o “selfie” na ponte.  Ou ainda, que utilizem o cadeado virtual ou e-love lock. Convenhamos, não tem a mesma graça, mas a engenharia não mente.  Esses cadeados são perigosos.

 

 

 

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Fórmula-E, finalmente uma utilidade para o motorzinho de dentista

Carro Elétrico Simpsons

Vai começar a Fórmula-E, categoria de monopostos criada pela FIA para ser o futuro do automobilismo.  Se vai dar certo não sabemos, mas esta será a primeira corrida de carros elétricos do mundo.  Obviamente muita gente não gostou, e elas tem suas boas razões, mas vamos tentar ver os dois lados:

A categoria nasceu por vontade da própria FIA.  Querem usá-la como um laboratório para o desenvolvimento dos carros elétricos.  Tem gente grande envolvida, fabricantes como a Audi, magnatas chineses e indianos.  Do mundo das corridas tem uma das mais lendárias famílias do automobilismo mundial, os Andretti.

O naipe de pilotos para a primeira temporada é interessante, traz vários ex-pilotos da Fórmula 1 que, em grande parte deixaram a categoria ou por não sobreviverem ao moedor de carne da Red Bull ou por terem esgotado a grana dos seus patrocinadores ou deles mesmos.  O mais curioso também é que teremos, depois de 26 anos um Prost, um Piquet e um Senna dividindo as curvas.  São Nicolas Prost, sobrinho do Professor Alain, Bruno Senna, sobrinho de Ayrton e Nelsinho Piquet, filho do tricampeão.  Tem também Sebastian Buemi, Jaime Alguersuari, Lucas di Grassi (que foi o desenvolvedor dos carros), entre outros.

O mote principal da categoria é ser sustentável, portanto nada de desperdício.  Os pneus deverão durar para mais de uma corrida e serão parecido com o dos nossos carros de rua, ou seja, servirão para andar em pista seca ou molhada.  Isso pode ser útil para desenvolver melhores pneus para carros de rua.

Mas a principal intenção é desenvolver melhores motores elétricos para os carros e principalmente melhores baterias pois, a Fórmula E promete o pit stop mais broxante de todo o automobilismo:  Na Fórmula 1 troca-se pneus, na Indy troca-se pneus e reabastece o carro, no Endurance troca-se o piloto mas na Fórmula E eles trocarão… o carro!

Acontece que as baterias não duram para o tempo decente de uma corrida e, como o tempo para trocá-las seria longo demais (nem vamos falar em recarregá-las), assim, eles trocam de carro.  Esperemos que este seja um problema a ser resolvido logo pelo pessoal da Fórmula-E.

Mas talvez o maior mérito da Fórmula-E seja levantar o debate:  carros elétricos são viáveis?  Embora já relativamente comuns na Europa, eu e Lord Kelvin desconfiamos seriamente da viabilidade de uma frota de carros elétricos.

A termodinâmica é implacável.  Toda vez que se converte uma forma de energia, há perdas.  A simples transição de meios da energia já gera perdas.  Pegue o carregador do seu celular:  Tudo o que ele faz é converter a energia da tomada (110 ou 220V em corrente alternada) para algo em torno de 12V em corrente contínua.  O carregador esquenta, certo?  Esse calor é energia desperdiçada.

Seu celular pega a energia elétrica recebida e armazena sob a forma de energia química na bateria.  Conversão de energia, ou seja, mais perdas.  Ao ser usado ele converte a energia química em elétrica novamente.  Novas perdas.  Assim, de todos os Joules que você gastou da tomada para o seu celular, uma boa parte se perdeu sob a forma de calor.

Um carro elétrico fará a mesma coisa que o seu celular.  A diferença é a grandeza da energia envolvida.  Na Europa, você pode estacionar seu carro elétrico em vagas com tomadas, onde ele fica carregando e você vai para os seus afazeres.  Você paga por essa energia, e acredite você vai pagar por mais energia do que seu carro terá disponível para andar.  Não, as companhias petrolíferas não fizeram lobby no governo para sobretaxar carros elétricos.  É a termodinâmica.

Uma cidade com somente carros elétricos terá sem dúvida o ar mais limpo.  Mas de onde vem a energia?  De onde sempre veio:  termoelétricas.  A termoelétrica queima alguma coisa e converte energia térmica em energia mecânica, depois em elétrica e depois em química na bateria do carro.  Temos perdas em todas as conversões, mais as perdas de transmissão.  Portanto, se a sua termoelétrica queima carvão e você ama o planeta, troque seu carro elétrico por um a gasolina agora mesmo.

Aí você pensa:  E energia solar?  Eólica? Geotérmica?  O uso de energia solar ainda carece de muito desenvolvimento e redução de custos, mas é o mais promissor para a larga escala, se você tiver grandes áreas disponíveis.

A energia eólica, apesar de ser a menina dos olhos dos ecochatos, é mais danosa ao meio ambiente do que você pensa.  Uma turbina eólica é um treco lindo, um belíssimo instrumento de aerodinâmica, mas também é enorme.  As pás giram em um diâmetro de 60 metros, isso faz um barulho razoável e, pior, essa área de pás girando de pouco mais de 2500m²  se torna uma armadilha fatal para pássaros.  E um dos grandes inimigos da energia eólica é a mãe natureza.  Nos EUA, com a recuperação da cobertura florestal, a velocidade dos ventos caiu, reduzindo a eficiência das turbinas eólicas.

Se quiser falar de energia Geotérmica, por favor esqueça o Brasil, mas outros locais podem operar uma termoelétrica que use o calor do centro da Terra, mas essa operação é perigosa, gases tóxicos baseados em enxofre podem ser liberados, implica em um caro sistema de controle além de materiais e técnicas de construção.

Infelizmente, a melhor fonte não poluente, que ocupe espaço reduzido e gere bastante energia é a mais odiada e temida por muitos:  A energia nuclear.  Então, a energia elétrica que temos para iluminar casas e ruas, alimentar nossas TVs e computadores, tocar as máquinas da indústria ainda terá que ser dividida com carros?  Pensando num país como o Brasil, quase batendo na capacidade, o sistema elétrico está longe de ser adequado para suportar essa demanda extra com carros?

Vamos jogar tudo no lixo e abandonar essa ideia?  A Fórmula-E é só para ecochatos se vangloriarem de terem automobilismo? Talvez não.  Se baterias mais eficientes forem desenvolvidas, os carros ganharem mais autonomia, pode ser que tenhamos algo de bom desenvolvido nessa Formula-E.  Eu não considero carros elétricos o futuro, mas há espaço para a energia elétrica nos carros.

A verdadeira categoria a desenvolver tecnologia para carros de rua é hoje a dos protótipos Le Mans.  Os principais carros dessa categoria, o Audi E-Tron e o Toyota “Corolão” são híbridos.  O Audi possui um motor a Diesel e um elétrico.  O motor Diesel carrega o elétrico quando o carro não precisa de muita potência.  Em descidas ou nas frenagens, a energia que seria desperdiçada é armazenada nas baterias.  Quando o carro precisa de potência, entra o motor elétrico.  Se ele precisa de mais potência ou se está sem bateria, entra o motor a Diesel.  O Toyota faz o mesmo, com a diferença de ter um motor a gasolina.

Essa tecnologia já existe em carros de rua, você pode comprar um Fusion Hybrid por 129 mil Dilmas que faz a mesma coisa e, segundo o Inmetro, faz 16,8 km/l na cidade.  Por 120 mil você leva um Toyota Prius, também Híbrido e com consumo semelhante.  A vantagem do carro híbrido é que você não precisa liga-lo na tomada, o motor elétrico é carregado pelo motor a combustão e pela dinâmica do carro.

A primeira corrida da Fórmula E acontece no dia 13/09 em Pequim.  O campeonato será transmitido para o Brasil pela Fox Sports e, se o sono deixar, tentarei assistir a corrida.  Se vai ser boa, só assistindo para saber.  Mas antes, vamos dar uma chance à categoria.

Atualizando:

E teve a primeira corrida da Fórmula-E em Pequim. Como corrida puramente, foi nível de emoção de uma corrida de Fórmula 1.  A maior parte do tempo os carros ficaram em um trenzinho.  A pista não ajudava também, não era nada desafiadora.  A corrida foi curta, com 25 voltas apenas, mas é o que as baterias aguentavam (trocando de carro).

Os carros são até bonitos, mas o barulho parece mesmo de motor de dentista, ou daquele truque do George Lucas do barbeador na panela.  Teve Prost honrando o sobrenome e jogando o carro no adversário e vitória brasileira.  Essa categoria tem muito a evoluir.

A velocidade dos carros é muito menor que na Fórmula 1, eles atingem no máximo 220km/h.  Mas está prevista uma prova em Mônaco, aí vai ser legal comparar com a Fórmula 1 e a GP2 para ver o quão mais lentos esses carros estão.  Vamos ver como a Fórmula-E vai caminhar.

Lucas di Grassi Formula E

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Drei Brasilianische Helden

FEB-logo

Após a mais cruel batalha enfrentada pelo Exército Brasileiro na Segunda Guerra Mundial, com a estreia da tropa no moderno combate urbano, rua por rua, casa por casa, na localidade de Vergato, próximo a Montese, Itália, os soldados brasileiros encontraram uma cruz rudimentar com esses dizeres.  Mais uma bela história de brasileiros que não é contada.

A Segunda Guerra Mundial, embora seja o evento histórico mais importante do século XX, é pouco estudada por aqui.  Se você teve um professor de história bom, ele gastou duas aulas falando do tema.  E se ateve a ensinar as causas do conflito, as fases da guerra e as consequências da guerra.  Talvez ele tenha dado uma palhinha também sobre a participação brasileira.  Mas duvido ter contado essa história.

Tom Jobim muitos anos depois iria dizer que no Brasil o sucesso alheio é ofensa pessoal.  Nosso comportamento como sociedade é o da inveja e o de fazer piada com quem tenta fazer alguma coisa.  O espírito do brasileiro comum infelizmente é conformista.  Por isso quando o Brasil entrou na guerra, embora de forma legítima, houve aqui muita resistência sobre se isto era algo para nos metermos e se seríamos capazes de nos meter nisso.  Mas não era nossa capacidade que estava em questão ali, era nossa existência como Nação, tínhamos sido atacados, era necessário revidar.  E assim fizemos.

Nossos soldados saíram daqui ouvindo uma chuva de piadas sobre eles.  A mais famosa foi “é mais fácil uma cobra fumar do que a FEB embarcar”.  Chegando na Itália, com tropas desnutridas, desarmadas e com uniforme verde-oliva, cor muito semelhante ao uniforme alemão, os italianos da já liberta cidade de Nápoles achavam se tratar de prisioneiros alemães, no que resultou em uma chuva de vaias e hostilidade por parte dos cidadãos italianos.

O Brasil era o único exército não oficialmente segregacionista do ponto de vista racial a lutar na guerra.  Entre as tropas estavam negros, japoneses e tudo o que a diversidade brasileira tinha a oferecer.  Os alemães espalharam que os negros brasileiros descendiam de tribos canibais africanas e que mantinham essa prática e, portanto os italianos poderiam se transformar no jantar dos brasileiros.  Um motivo a mais para a hostilidade da parte dos italianos.

Mas o maltrapilho soldado que vinha do morro, do engenho, dos pampas, dos seringais, da choupana onde um é pouco, dois é bom, três é demais, transformou-se na Itália em um guerreiro implacável e digno das maiores tradições militares de todo o mundo.  Aprendeu fazendo, aprendeu o combate moderno combatendo, a utilizar o armamento utilizando, a suportar o frio, a evitar as doenças causadas pelo inverno, e pelas montanhas e matas italianas tornou-se um adversário duríssimo, contra qual os alemães muito pouco puderam fazer.  E sobre as piadas que alguns de seus conterrâneos faziam deles, usaram dela para fazer seu símbolo.

O título deste post está em alemão e significa “três heróis brasileiros”.  Foi tudo o que o Exército viu naquela cruz.  Depois ficaram sabendo que se tratava dos soldados Arlindo Lúcio da Silva, Geraldo Rodrigues de Souza e Geraldo Baêta da Cruz.  Todos mineiros do interior.  Foram com a FEB para a Itália, enfrentaram o inverno aos pés do Monte Castelo, integravam o 11º Regimento de Infantaria, unidade escalada para o ataque a Montese.

Três Herois BR02

Em 14 de Abril de 1945, o pelotão desses três homens tentou avançar para a cidade, mas foi detido por forte barragem de artilharia.  As artilharias brasileira e alemã duelariam por todo aquele dia e o resultado se viu na devastação que Montese sofreu.  No seu flanco esquerdo, uma posição de metralhadora alemã varria impiedosamente o terreno.  Os três homens ficaram desgarrados do resto da unidade.  A metralhadora alemã mal permitia que se movessem, recuar era impossível, uma companhia alemã inteira estava prestes a se lançar contra eles, não sem antes dar-lhes a chance de se renderem.

A resposta veio pelo Soldado Arlindo que pegando seu fuzil automático encontrou a posição da metralhadora e disparou como um leão acuado, seis cargas de sua arma, em torno de 120 projéteis, calando a peça inimiga.  O Soldado Baêta, que era socorrista, pegou em armas e junto com o seu xará Geraldo Rodrigues dispararam contra os alemães.  Os Tedescos imaginavam ter se encontrado com efetivo em número semelhante ao deles (cerca de 100 homens) e lançaram-se ao combate.

A munição escasseava entre os brasileiros, em breve acabariam por fixar as baionetas nos fuzis e partir para um combate corpo a corpo contra os alemães.  Não deu tempo.  O Soldado Arlindo tombou vítima de tiro certeiro de um atirador de elite alemão.  Quase que ao mesmo tempo uma granada explode nas proximidades e um estilhaço fere de morte o soldado Geraldo Rodrigues.  Pouco tempo depois Baêta tomba, fuzilado.

Sabemos bem como os alemães respeitam seus adversários.  Ao verem que todo aquele ímpeto vinha de apenas três soldados, o comandante alemão não permitiu que os homens fossem sepultados em vala comum.   Mandou que os enterrassem, fizesse essa cruz e colocasse a inscrição:  “Três Heróis brasileiros.”

É uma história que não se conta, poucos sabem sobre ela, é preferível dizer que a FEB foi para a Itália com a guerra ganha e numa frente secundária.  É compreensível sabendo que isso vem de gente que admira a Costa Rica mais do que pelo sucesso de sua seleção na Copa, pelo fato de não terem Exército.

Enquanto poucos Brasileiros sabem sobre esses homens, é preciso uma banda sueca saber da história e prestar-lhes uma bela homenagem.  Para um álbum dedicado ao heroísmo em combate, a Banda Sabatton dedicou uma faixa aos “Smoking Snakes” que figuram num álbum que ainda fala dos paraquedistas da 101st Airborne cercados em Bastogne, das loucas tripulações de B17 que se aventuravam na Europa entre outros fantásticos que nos livraram do jugo nazista.

Três Herois BR01

http://www.youtube.com/watch?v=nG46qvWgO0s

Fontes:

http://chicomiranda.wordpress.com/2011/07/12/tres-herois-brasileiros/

http://www.legiaodainfantaria.eb.mil.br/htm/feb-3heroisbrasileiros.php

SILVEIRA; Francisco Xavier da – A FEB por um Soldado;

 

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Ao ler só o título, fica a dica: Não compartilhe

Simpson Defeats Prince

Mais um acidente aéreo, mais uma vez somos 200 milhões de investigadores de acidentes e especialistas em aviação.  Não acho que eu posso acrescentar muito ao que já se tem falado.  Acidentes aéreos são sempre lamentáveis e é triste perder alguém que estava em evidência por ser um dos principais candidatos à presidência da república.  Mas teorias de conspiração só insultam a memória dos mortos no acidente.

A segunda melhor teoria conspiratória de todas (a melhor é a do drone) e que vai servir para encaixar todas as outras, por mais absurdas que sejam, é a lei do sigilo em investigações de acidentes aéreos.

No calor dos acontecimentos no dia do acidente, a página “Brasil” do Facebook divulgou que essa lei fora sancionado pela presidenta Dilma.  Literalmente, eles divulgaram assim:  Lei sancionada esse ANO pela presidente Dilma (PT) torna sigilosa a investigação de acidentes aéreos no Brasil”  (repare na ênfase no ANO).  Com um acidente aéreo ocorrido nesse dia com todos sensibilizados você lê isso e pensa, ora, estão querendo esconder alguma coisa.  O post desta página ia para um link da Folha de São Paulo que mostra que a lei foi sancionada em 09/05/2014.  O link é esse.

Se você leu só o título, está agora dizendo que é mais um passo para a implantação da ditadura petista, mas se você leu a matéria e foi inteligente para somar 2+2 percebeu que, pela distância dos fatos (acidente e sanção da lei) um nada tem a ver com o outro.  Se você ler a matéria diz lá que o projeto de lei data de 2007.  Sim, leis no Brasil demoram para ser aprovadas.

A princípio discordei dessa lei.  Compartilhei a notícia no Facebook com minha ressalva.  Muita gente curtiu (umas oito), mas depois fiquei pensando.  Talvez essa lei seja importante e necessária.  Segundo a “Folha” sabe quem pediu essa lei?  O próprio Cenipa, que é quem investiga esses acidentes.  Vou ilustrar a necessidade com um fato.

Voo Gol 1907 de Manaus para Brasília:  Essa aeronave chocou-se em pleno ar com um jato Legacy e como resultado caiu no meio da selva matando todos os seus ocupantes.  Triste.  Mais triste foi depois.

Sem saber direito as causas e como se opera a aviação no Brasil e no mundo, com experiências em aeronaves limitadas ao assento do passageiro, os deputados armaram a tal “CPI do caos aéreo”.  Com o intuito de unicamente satisfazerem suas curiosidades mórbidas, os deputados da comissão pediram para ouvir a gravação das vozes da caixa preta do Boeing da Gol.  A outra caixa com os dados do voo é chata, então eles ignoraram.

No que isso ajudou a CPI?  Essas gravações de vozes de pessoas em aeronaves em acidentes são horríveis, ler uma transcrição já é terrível, imagina ouvir.  Pessoas estão em pânico, sabem que vão morrer e a queda de um avião de 37000 pés até o chão demora minutos.  Imagina ouvir esses minutos?  Os investigadores precisam ouvir e várias vezes, pois ali pode estar o detalhe que elucida o acidente, mas políticos?  A troco de que?  Desculpem, mas aquilo foi uma tremenda palhaçada e nos envergonhou perante a comunidade da aviação.

Por isso o Cenipa pediu essa lei.  Os deputados estavam sedentos por sangue, era ano eleitoral (2006), tudo o que eles queriam era mostrar que o governo era incapaz de gerenciar seu espaço aéreo.  Queriam caçar bruxas.  Mas acidentes aéreos não são assim.

O princípio que norteia uma investigação de acidente aéreo não é o de encontrar culpados nem puni-los mas sim de entender o que aconteceu e emitir recomendações para que isso não se repita.  Essas recomendações são mandadas para o fabricante da aeronave, para os aeroportos, controladores de voos, pilotos e quem mais atue no ramo.

No caso do acidente com o Boeing da Gol, com os deputados querendo sangue e, vendo que esse sangue seria o dos controladores de tráfego aéreo, os mesmos não colaboraram com as investigações.  Quando o sentido é evitar que novas tragédias ocorram, todo mundo colabora, afinal você pode até errar, mas não quer que outros morram por incorrerem no mesmo erro certo?  A aviação se baseia na boa fé das pessoas, no princípio de ajuda e solidariedade.  Sei que no Brasil isso é difícil, mas é assim em nossos céus.

Foi depois dessa vergonha internacional que o Cenipa pediu essa lei, no que foi atendido em 2007, mas ela gastou sete anos em trâmites.  Calhou de ser sancionada este ano e agora ela garante que para que alguém que não o Cenipa tenha acesso aos dados da investigação, essa pessoa ou órgão precisará de autorização judicial para tal.

“Então o governo está escondendo informação!” Não, não está.  Todo acidente aéreo depois de investigado tem suas causas apontadas com a máxima precisão possível, possíveis itens de falhas e recomendações.  Isso gera um relatório que é público e isso não vai mudar com a nova lei, pois é uma regulamentação internacional.  Tá curioso?  Aqui você pode ler todos os relatórios de acidentes aéreos no Brasil desde 2007.  Repare como o pessoal do Cenipa tem tido trabalho.

Daqui a algum tempo nessa página irá constar o relatório do acidente que vitimou Eduardo Campos e sua equipe.  Todos terão acesso mesmo sem entender.  Saberemos as causas, a dinâmica do acidente e o que se recomenda para que isso não ocorra mais.  No momento atual, tudo é especulação e a imprensa tem publicado muitas inverdades na tentativa de esclarecer tudo rápido e de dar o furo.  Para acompanhar o desenrolar dessa história pelos olhares de quem trabalha com aviação, sugiro o ótimo Blog “Aviões e Músicas” que é tão bom que quando eu crescer ou quero ter um Blog como o Contraditorium ou como ele.

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