A vez em que eu fui diretor de uma empresa

donald-trump

Naquelas perguntas de entrevistas de emprego sempre tem aquela se você já liderou pessoas.  Diante dessa pergunta eu saio com esse caso:

Em meu emprego anterior, após a festa de fim de ano da empresa, o dono dela, que estava saindo de férias para os EUA e passaria todo o mês de janeiro fora me disse a seguinte frase:

– Cuida da baiuca pra mim.

Ao fim das férias coletivas em começo de janeiro, as pessoas voltaram para trabalhar e, sem chefes, ficaram meio que sem saber o que fazer.  Adotei essa postura:

Improvise

E logo tudo quanto era dúvida que surgia, acabava parando na minha mão.

O naipe da equipe era ótimo.  Tínhamos desde o pessoal da montagem, dos quais eu era o chefe na operação normal, mas tinha o pessoal do administrativo, da pesquisa e desenvolvimento, dos projetos…  Pessoas que segundo o outro chefe que não me mandou cuidar da baiuca mas que também estava fora, não deveria nem dar bom dia.

Mas essas pessoas não sabiam bem o que fazer, resultado de uma política extremamente centralizada.  Como ficavam um olhando para o outro, resolvi eu dar solução para as coisas.

O que basicamente eu fazia era entender o problema, ver que tipo de solução eles tinham, pedir prós e contras, e decidir em conjunto com eles.  Seria complicado dizer para uma doutora o que ela deveria fazer numa coisa em que ela tinha doutorado.

Durante duas semanas levei a situação dessa forma e a empresa andou.  Nada parou, tudo andava conforme o planejado, as pessoas trabalhavam, eu consegui até fazer com que o empregado que tinha dupla personalidade ficasse na pessoa que trabalha.

Voltou o outro chefe (o que não queria nem que eu desse bom dia aos colegas).  Ele passou setor por setor querendo saber o que as pessoas fizeram e deixaram de fazer.  Em cada setor ele encontrava meu “dedo”

Sendo você o dono da empresa, o que você faria?  Eu não sei, mas sei o que ele fez.  Me chamou da sala dele e disse:

– Você tá importante aqui hein?  Todo lugar que eu vou vejo que estão fazendo coisas que você mandou.

Expliquei dizendo que alguém precisava tomar as decisões e que as minhas poderiam até não ser as melhores mas que eu prefiro tomar alguma decisão mesmo que errada do que não tomar nenhuma.

Minha teoria sobre esse cara é que ele era inseguro.  Talvez ele tivesse se sentido ameaçado vendo que alguém poderia fazer o que ele fazia.  O fato é que ele me deu uma bronca daquelas.  Ouvi tudo calado.  Depois dele falar tudo e me perguntar alguma coisa, disse a ele:

– Os próximos funcionários que você contratar, não peça proatividade a eles.  Essa é a característica menos valorizada e mais reprimida por aqui.

Ele disse mais um monte querendo explicar o conceito dele de proatividade.  Claro que em mim entrou por um ouvido e saiu por outro e eu nem fui demitido pela minha respostinha.

O trabalho lá era sim bizarro nessa parte.  Ele era um chefe que não sabia ser chefe.  Em outra ocasião ele me deu uma bronca quando eu propus trabalhar mais (e sem aumento de salário).  Foi uma pena, mas as notícias que tinha era de que a empresa ia bem mal e o barco estava fazendo água por causa dele.

O outro, que me mandou cuidar da baiuca me agradeceu por ter feito esse trabalho.  Anos depois se aposentou e hoje deve viver em seu sítio em Petrópolis curtindo sua aposentadoria de professor.  Espero sinceramente que ele esteja bem.

Publicado em Causos | Marcado com , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Bauernfest: Dá pra fazer certo sim

bauern_fotos

Quem já viu séries ou filmes americanos que se passam na Nova York dos anos 80 vê um lugar dominado por guetos de gangues.  Andar nas ruas significava se expor a toda sorte de bandidos e violência.

Tudo mudou quando Rudolph Giuliani assumiu a prefeitura da cidade.  Sua ideia para resolver a questão da segurança pública na cidade era simples:  Tolerância zero.  Giuliani acreditava que nenhum delito, por menor que fosse, poderia ser tolerado.  Coibindo os pequenos delitos, os grandes ficariam mais expostos e mais difíceis de serem cometidos.

Não é difícil de entender:  É muito mais fácil você ser roubado no cruzamento da Presidente Vargas no meio daquele monte de camelôs vendendo todo tipo de tranqueira de procedências mais duvidosas do que no Boulervard Olímpico em sua avenida limpa, ordenada e livre de camelôs (por enquanto).

Funcionou em Nova York.  Os índices de criminalidade não foram a zero, mas estão em níveis bastante aceitáveis.  Eu saí da Avenida 36 andando até a Penn Station as três da manhã para pegar um trem para Washington.  Uma caminhada de 15 minutos.  Não vi polícia, mas também não me senti inseguro em momento algum.  Em outra ocasião, voltando do jogo dos Yankees desci duas estações antes da minha apenas para descer na Grand Central e conhecer aquela magnífica estação.  Nessa caminhada pude vir tirando fotos das ruas como essa aqui:

Bombeiro

Homenagem aos bombeiros que trabalharam no 11 de Setembro.

No Brasil nós vamos ao contrário dessa ideia.  Basta ver a gritaria quando o governo ou a prefeitura de São Paulo tentam acabar com a cracolândia.  No Rio as pessoas não conseguem ver o cara que vende mercadoria roubada no trem como parte da organização criminosa que tem mutilado a cidade com roubos de carga.

Por isso quando vemos coisa boa acontecendo precisamos elogiar.  Petrópolis fez algo muito bacana:  A maior festa da cidade, a Bauernfest terminou sem ter registrado uma única ocorrência.

Pelo que pude testemunhar, ao menos durante a festa aplicaram um pouco das ideias de Giuliani.  Eu pude estacionar o carro sem problemas, nenhum flanelinha me perturbou, havia guardas por toda a área coibindo o estacionamento irregular, o que garantia a fluidez do trânsito.  Nas cercanias das áreas de festa, as pessoas andavam tranquilamente sem a presença de ambulantes e nem de pessoas suspeitas.

Com os pequenos delitos coibidos, tornou-se complicado praticar os grandes.  Um traficante que se disfarça de ambulante ou de flanelinha ficou sem ter como agir dessa forma.  O mesmo para ladrões.  Claro que deve ter ocorrido um ou outro furto em que a vítima não fez o registro.  Bem como é ser inocente demais pensar que não houve tráfico de drogas. Mas tudo isso ficou sob controle, de forma que não ameaçava a segurança das pessoas.

“Ain, mas era uma festa elitista, tudo caro”.  Não era não.  Os preços estavam razoáveis, mas se você não quisesse gastar nada poderia.  Não se cobrava ingresso para entrar nos locais da festa.  E ninguém chiava se você levasse sua cerveja e comida de casa.

Com tudo sob controle, a ordem mantida, as pessoas puderam se divertir.  Os locais estavam cheios, exigia um pouquinho de paciência para andar, mas com níveis de estresse baixos, as pessoas mantinham a cortesia e no final todo mundo se divertiu.

A nossa bandeira já traz a receita para darmos certo como país:  Sem ordem não há progresso.  Mas mesmo olhando para ela todos os dias insistimos em fazer o contrário.  Aqui em Petrópolis, pelo menos por dez dias, conseguimos fazer funcionar.

19366366_1376990805682059_2787381468146457151_n

Publicado em Diários de Viagem | Marcado com , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Antes de pegar seu forcado virtual, é melhor ver a história toda

turba simpson

Eu sei, linchamento virtual é muito bom.  Basta uma notícia e já se forma uma turba com tochas e forcados prontas a liquidar o sujeito.  Seja o ladrão que ganhou uma tatuagem na testa ou os caras que tatuaram o ladrão, ou o político do PT ou o político que não é do PT…  sempre queremos linchar alguém.  Mas na maioria dos casos, o melhor é esperar para saber da história toda.

No dia 25 último foi noticiado que um sujeito passou por cima de um grupo de skatistas. Assistindo ao vídeo vê-se o cara com sua “poderosa” SUV atropelando dezenas de skatistas que estavam pacificamente andando na rua em comemoração ao dia do skate em uma avenida que estava interditada ao tráfego.

Bem, claro que todo mundo caiu de pau no sujeito do carro.  Até eu entrei nessa:

tweet

Mas claro, tínhamos então apenas um lado da história.  Faltava o lado do motorista.  Eu esperava um filhinho de papai qualquer, mas o perfil dele era bem diferente.

Ele não estava só tentando se livrar com uma boa história e um advogado.  Tem vídeo do carro dele sendo atacado.  A sequência de eventos bate.  A própria organização do evento de skatistas disse que outras pessoas organizaram um outro evento antes deles e sem comunicar a prefeitura que acabou por não interditar a avenida antes do horário.

O cidadão com seu carro não tinha como saber, entrou na rua e acabou acertando um skatista.  Ao parar para ajudar, foi cercado e ameaçado de ser linchado e tendo seu carro destruído.

Pior:  ele não estava sozinho no carro.  A mãe dele, de cerca de 80 anos, estava no carro.  Sinceramente?  No lugar desse cara, com minha mãe no carro, diante de um monte de gente tentando me linchar, eu faria o mesmo.  Não foi a atitude mais correta, mas situações desesperadas requerem medidas desesperadas.

O que aprendemos?  Cuidado com os julgamentos precipitados.  Sempre procurem saber os dois lados da história.  Se tiver dúvida sobre se juntar a turba enfurecida, uma boa dica é:  Não se junte.

Quer achar um culpado para os skatistas atropelados?  Procure quem organizou o evento skatista pirata sem comunicar a prefeitura.  A mensagem do skate pode ser transgressora, anarquista e tal, mas não pode contra uma pessoa acuada com sua família e um carro.

Publicado em Causos | Marcado com , , , , , , , | Deixe um comentário

Minha birra com o Facebook

Namorados2

As parcas almas que leem minhas linhas sabem que eu não morro de amores pela rede de Mark Zuckerberg.  Zuckerberg é o menor dos meus problemas na rede social, acho mesmo que ele é um gênio, fez uma rede para ficar zilionário e conseguiu ficar zilionário.  O que as pessoas fazem na rede social é que me irrita.

O Facebook na minha opinião pode mudar de nome para Fakebook.  Veja, naquela rede ou as pessoas estão muito felizes ou muito tristes.  Nunca há um meio termo, que é o que corresponde a 99% da população mundial.  Essa rede é um local em que se você der mole, você coloca toda a sua vida ali, exposta, para todos verem.

Não sou desse time.  Não gosto de colocar muita coisa da minha vida lá.  E não gosto muito do que a rede faz para expor você.  No tempo do Facebook de raiz, tudo o que seus amigos postavam, seja o que fosse, ia aparecendo na sua timeline e você ia vendo fotos de cachorros, de bebês, lamentos, declarações de amor…  Umas coisas mais relevantes para você, outras menos.  Mas havia um critério.  O tempo e você ser amigo da pessoa. Ponto.

Depois mudaram para o algoritmo maluco que temos hoje.  Agora tudo o que seus amigos postam você não vê.  Na verdade você só vê o que os amigos que você interage mais na rede postam.  O que outros amigos mais distantes na rede postam você simplesmente não vê.  Esse blog por exemplo, eu sempre compartilho os posts no face.  A maioria dos meus amigos não vê o post na sua TL, o resto nem clica.  Pior:  Este blog tem uma Fã-Page (Curta.  Por favor, um likezinho não mata ninguém).  Ela tem hoje 72 curtidas.  Isso significa que 72 pessoas querem, ou ao menos queriam, saber das atividades desse blog.  Elas não sabem.  Nem todas.

A razão pelo Facebook fazer isso é dinheiro.  Se eu quiser que meu post chegue a mais gente eu tenho que pagar.  Agora mesmo Zuckerberg me ofereceu um anúncio por 17 Reais para ampliar meu alcance.  Quanto mais grana eu der para eles, maior meu alcance.  O Facebook colocou em seu algoritmo esse recurso de não dar alcance a esse tipo de postagem, mas há dois tipos de postagem que o algoritmo mostra para todo mundo.  A primeira é essa, pagando.  Money talks, bitches.

A segunda e a que me irrita mais é que o Facebook prefere posts pessoais a outras coisas.  Se você posta dando sua opinião sobre Donald Trump retroceder nas relações EUA x Cuba, seja a favor disso ou contra, ou ainda o cara que questiona ou apoia a decisão de Crivella de não subsidiar o carnaval do Rio de Janeiro, o seu alcance no Facebook se resumirá a aqueles seus amigos que você sempre interage na rede.  Isso vale também para aqueles serviços ou coisas que você quer vender usando a rede.

Mas vá você e faça algo mais pessoal como mudar o status de relacionamento.  Isso será destaque até na Timeline de Sig Hansen há 230 milhas de Dutch Harbor.  Não sei porque um fato de sua vida pessoal tem que ter mais importância para uma rede social do que suas opiniões ou sobre o trabalho que está fazendo.

Não é o Facebook.  Ele dá às pessoas aquilo que elas querem.  As telas de nossos computadores, tablets e celulares são as novas janelas onde as vizinhas fofoqueiras se debruçavam o dia todo vendo a vida passar na rua apenas para contar para outras pessoas o que umas pessoas estavam fazendo.  A minha vizinha fofoqueira não dava a mínima quando eu passava na rua falando de eletrônica com o William, mas logo ia contar para alguém se me visse passando na rua de mãos dadas com uma menina.  Na rede nos comportamos exatamente assim.

Pegue uma postagem no Facebook relativa a este blog.  Em média tenho zero comentários, zero ruído.  Mas se eu postar uma alteração de status de relacionamento chovem comentários e reações.  Não gosto disso.  Minha vida pessoal não existe para likes, compartilhamentos e “lindoooos”.

Por isso não gosto de fazer esse tipo de postagem.  Me incomoda pessoas se metendo na minha vida desse jeito.  Mas beleza, cada um é cada um, o seu perfil é seu e você posta, curte, comenta o que quiser.

Justamente pelo fato de eu não postar muita coisa sobre minha vida pessoal, se você não juntou as peças ou não está tão próximo de mim, eu tenho uma namorada, ela está no Facebook e no Twitter e interagimos bastante por lá.

Não se trata de manter uma relação escondida, se trata do fato de eu ser tímido até em redes sociais.  Estamos juntos há um bom tempo e muito pouco falei dela nas redes.  Isso é uma falha minha, sou meio burro de não compartilhar as coisas boas que acontecem comigo.  Na verdade eu sou um completo idiota com relacionamentos.  Mas sempre há momentos para mudarmos nossas atitudes.

Portanto, se você não a conhece, basta ver o nosso Facebook.  Não vou fazer perfil de casal nem isso (Fonte Não Salvo):

Namorados

Mas como ela é uma pessoa que me faz me sentir muito bem, acho que ela pode fazer o mesmo por vocês também, meus parcos leitores.  Você pode conhece-la aqui ou ainda vendo as fotos do post do Face.  Aproveite, mas tire seu cavalinho da chuva.

IMG_1116

 

 

 

 

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Never Go Full Retard

Full Retard

Hoje fiquei irritado. Redes sociais são para nos divertir, mas as pessoas insistem em querer nos fazer passar raiva.  Geralmente é com o Facebook, não sei porque ainda insisto nessa rede.  Mas enfim, eu tenho um talento nato para dar murro em ponta de faca.

Estava dando uma olhada pelo Facebook, sempre mais do mesmo, você tem que garimpar algo legal.  Tem sempre o idiota que ainda acha que só o PT é corrupto, tem os outros que postam coisas sem sentido, tem que posta imagem do Chapolim com uma piada kibada do Twitter… Enfim, até aí beleza, você posta o que você quiser.

Mas eis que entre esse monte de postagem uma me irritou.  Começava com “Compartilhem até chegar nas autoridades” o vídeo, que começava a rodar automaticamente, mostrava alguém tentando estrangular um bebê.  Só vi uns cinco segundos desse vídeo.  Agora já não.  Foram além da linha da idiotice.  Não sei nem quem postou, só sei que denunciei ao Facebook

Quando as pessoas do meu Facebook cruzam uma linha que as colocam em modo Full Retard (Never go Full Retard), eu simplesmente dou unfollow.  É indolor e a pessoa não vai saber.  Acho até que é educado, eu não desfiz a amizade, e não quis discutir (vá por mim, não vale a pena).  Mas nesse caso passou dos limites do razoável.

Compartilhar um vídeo de violência contra crianças é Full Retard?  É. Mas vai além, é passar atestado de idiota enfiador de sorvete na testa.  Acha mesmo que um compartilhamento em massa de uma coisa dessas servirá para alguma coisa?  O vídeo mostra um crime?  Quer que as autoridades saibam?  Informe você mesmo.  Não compartilhe.

O compartilhar é um treco que é praticamente só usado para o mal.  Compartilhando essa coisa você só está fazendo aquilo que o autor quer:  Ter fama.  Você está promovendo uma pessoa ou página que age em total má-fé.  Uma coisa é promover um Chapolin sincero que só viola direitos autorais de um personagem e copia piadas do Twitter, outra é promover um cara que posta vídeos de violência.

A tarde veio outro vídeo desses, agora de violência contra um garoto de uns 12 anos.  Na descrição, todo aquele texto alarmista, compartilhem para determos esse criminoso, blá blá blá, e por fim…  Curta página tal.  Pombas!  O cara tá usando de um vídeo de agressão para ganhar likes!

Se você compartilha isso achando que está ajudando, sinto, não está.  Pelo menos não ao lado do bem.  Você pode estar compartilhando uma farsa.  Lembram disso? Compartilhar crimes e supostos criminosos não é a maneira certa.  Quer ajudar?  Denuncie as autoridades ou ao próprio Facebook.  Compartilhar sem verificar, faz de você um idiota útil.

De minha parte, já deu no saco.  Se o algoritmo do Facebook acha que suas postagens são interessantes para mim e você compartilhar violência contra crianças ou animais, eu vou denunciar ao Facebook.  Se ele deletar sua conta, te suspender ou o escambau, a culpa é inteiramente sua pelo que você compartilhou.  Se você for para o modo full retard, mas de forma inofensiva, só deixarei de seguir.

Publicado em Reflexões | Marcado com , , , , , , , | Deixe um comentário

A ferradura quer controlar a imprensa. Spoiler: Não vai conseguir

Monopólio midiático

Em Fraudcast News dos Simpsons, Lisa passa a publicar junto com algumas crianças da escola o seu próprio jornal:  O Red Dress Press.  No jornal eles publicam notícias negativas contra o Sr Burns que, enfurecido compra toda a mídia de Springfield para lhe dar notícias favoráveis, exceto o jornal de Lisa que continua noticiando contra o milionário.

Burns tenta então comprar o Red Dress com dinheiro, pôneis, etc.  diante da negativa da menina, Burns corta a energia de Lisa para que ela não possa imprimir seu jornal.  Skinner apresenta o mimeógrafo a Lisa.  Burns parte então para uma campanha de difamação contra Lisa.  Quando a garota está prestes a desistir, percebe que todos na cidade captaram o espírito e cada um estava editando seu próprio jornal para falar o que quiser, no melhor exemplo de imprensa livre.

O Brasil ficou assustando quando Lula disse que regularia a imprensa.  Isso é bem coisa de comunista você vai dizer.  Tem razão.  Mas agora o Temer não quer que façam memes contra ele.  Parece que a reação de políticos quando as notícias se voltam contra eles é tentar proibir que as mesmas sejam divulgadas.

Pessoalmente eu acho que imprensa é para ser contra governo seja ele qual for.  Imprensa a favor é assessoria de comunicação.  Claro, em se falando de Brasil em que cifras enormes irrigam a imprensa, a grande mídia acaba por pegar leve nesse trabalho, pois sabe que precisa da verba publicitária.  E o governo não vai pagar a quem fala mal dele o tempo todo.  Mas quem disse que essa é toda a mídia?

Antigamente era.  Os meios que você tinha para se informar eram menos numerosos, você via o Jornal Nacional, lia um O Globo, uma Veja ou Isto é e pronto.  Controlar esses meios com verba publicitária garantia um pouco de paz aos governos.  Hoje em dia não mais.

Hoje em dia vivemos como o povo de Springfield ao final do episódio.  Cada um pode fazer seu jornal.  O que é esse blog senão o meu Red Dress Press?  Claro, minha influência é ridícula, não chego a 100 acessos por dia, mas meu alcance é o mundo inteiro.  Eu posso aqui escrever o que eu quiser, criticar e elogiar quem eu quiser, e minha opinião fica livre de censura.  Se eu incomodar algum governo, será trabalhoso me tirar do ar (Prezado Temer, caso deseje tentar, favor entrar em contato para receber meus dados bancários).

Há blogs bem maiores que eu, que darão todas as notícias e opiniões.  Tem blog de comunista, tem blog de capitalista, tem blog de liberal, de militaristas, de amebas e até de bolsomitos.  Cada um com sua opinião sobre o que está acontecendo e o que deve ser feito, criticando fulano ou cicrano e elogiando outros.  Mesmo o Facebook está lá cheio de textões e fake News para você se divertir.

Hoje, eles podem tentar, sejam eles a esquerda ou a direita, mas não vão conseguir.  Podem comprar a velha mídia com verbas, mas a pequena continuará no seu direito.  E você escolhe quem lê.  A grande mídia sabe também que ao se tornar chapa branca perde credibilidade, perdendo leitores e influência e isso é a sua ruína.

É preciso mudar algo em termos de lei com a imprensa?  Eu não creio.  Eu posso acusar alguém nesse blog, mas é melhor que eu tenha provas do que eu estiver acusando pois a pessoa terá o direito de se defender e me processar por calúnia.  Imprensa e internet não são terra sem lei, mas a lei deve proteger o direito de opinião de cada indivíduo mas resguardando a honra dos demais, dando a elas o direito a defesa e reparação caso as mesmas tenham sido caluniadas.  Nesses termos, acho que estamos ok de leis no Brasil.  Não precisa mexer.

Publicado em Uncategorized | Marcado com , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Os dois minutos de ódio

Ingsoc

Quando li 1984 uma coisa que me chamou muito a atenção foram os tais dois minutos de ódio.  Todo dia os ingleses tinham que se reunir em cinemas onde eram projetados filmetes incitando a população ao ódio.  Algo como isso aqui, do filme 1984:

As imagens variavam, desde o inimigo da vez, Eurásia ou Lestásia a preferida do Grande Irmão, o traidor do partido Emmanuel Goldstein.  Todos eram obrigados a participar dessa seção diária de ódio, mas o mais impressionante era que após 30 segundos de ódio você não estava mais lá por obrigação, mas o ódio presente lhe fazia querer ficar.  As pessoas se exaltavam, gritavam, ficavam com desejo de vingança, de matar.  Após essa incitação, vinham imagens patrióticas e do Grande Irmão.  E você saía dos dois minutos de ódio com desejo de matar os inimigos e traidores da Oceania.

Já vinha pensando nisso há algum tempo ao ver o extremismo que as pessoas tem quando se fala em algo como política ou futebol, mas no mesmo dia me deparei com duas coisas.  A primeira, esse Twit da Chef Paola Carosella:

paola_carosella-1

Tudo o que a cozinheira argentina fez foi postar a lei que dá o direito de greve ao cidadão.  A resposta?

paola_carosella-3

Repare na agressividade do sujeito.  Respondendo a uma transcrição de um artigo de uma lei.  Claro, é só um valentão de teclado, sujeitos desse tipo normalmente falam fino até diante de um poodle toy, mas precisa disso tudo?  Se você não concordasse com a greve geral, há argumentos bastante razoáveis para se usar.  O próprio @ceticismo usou da mesma lei em outros artigos para mostrar que a greve poderia sim ser ilegal.  Sem ofender ninguém, apenas com argumentos.

Claro, o cara chamar uma mulher de vagabunda só porque não concorda com ela e não tem argumentos para rebater é normal (não deveria, mas é).  Mas mostra como as pessoas vivem na ignorância e concordam ou discordam de coisas sem sequer saber, apenas seguindo outras pessoas.

Outro exemplo:  Esse comentário num post no Blog do Flavio Gomes:

Escort

O post só falava do Escort XR3.  Um cara disse que não achava o carro lá grandes coisas.  Opinião dele.  O tal Carlos chegou de voadora no peito apenas porque o pai do Stan não acha o XR3 um Escort muito melhor que os Escorts normais.

De onde veio isso?  Por que as pessoas estão tão agressivas na internet?  Um motivo é óbvio:  Muita gente ainda acha que a internet é terra de ninguém e tudo o que se faz lá fica impune.  Xingar pessoas na internet parece ser tranquilo porque ainda não inventaram uma forma de um soco sair da tela e atingir em cheio o nariz dessas pessoas.

A outra tem a ver com o 1984.  Não somos obrigados a ir ao cinema assistir a dois minutos de doutrinação violenta, mas parece que queremos isso.  Quantas pessoas seguem o Lula no Twitter apenas para ficar com raiva do que ele posta ali?  E quantas pessoas de esquerda seguem o Roger do Ultraje, o  Danilo Gentili ou sei lá mais quem apenas pelo mesmo motivo?

Nós procuramos os nossos dois minutos de ódio.  Queremos ter raiva, queremos ter o desejo de matar, de vingança.  Isso nos torna pessoas piores.  Se você odeia (insira aqui seu político preferido de odiar), as possibilidades de que você faça algo que realmente afete essa pessoa são mínimas.  O que acaba acontecendo?  Você faz com outras pessoas que não tem nada a ver com isso.  E é daí que surge o trânsito selvagem, pessoas agressivas e antipáticas, e muito do que vemos de ruim por aqui.

Todo mundo tem o direito de odiar.  Seja quem for.  Mas quando você faz disso a motivação da sua vida, coisas boas provavelmente não irão acontecer.  Haja visto a situação em que estamos vivendo hoje, se estivéssemos na Nova York dos Caça Fantasmas, Vigo já teria dominado a Terra.

Já que estamos nos anos 80, seria melhor se tentássemos um pouco da filosofia de Bill e Ted:  “Be excellent to each others and… Party on Dudes!”

Publicado em Reflexões | Marcado com , , , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Agora eu também sou legislador

Death-star-2

A Casa Branca tem uma regra que, se uma petição tiver mais de 10.000 assinaturas eles responderão à petição.  Ninguém nunca disse quais seriam os temas que a Casa Branca responderia.  Pois bem, em 2012 um bando de fãs de Star Wars peticionou à Casa Branca para que eles iniciassem a construção de uma Estrela da Morte.

A petição teve mais de 30.000 assinaturas.  A Casa Branca foi obrigada por suas próprias regras a responder e como o presidente era o Obama o orçamento iria estourar eles explicaram que não poderiam construí-la agora.  Isso por si só já deve ter deixado os fãs de Star Wars eufóricos, apenas por fazer a Casa Branca pensar por alguns minutos em Star Wars.

Não ficou só nos EUA.  Um dia, para mostrar como petições online são inúteis o Cardoso criou uma pedindo para a Dilma realizar estudos para a construção de uma Estrela da Morte.  Assim como todas as outras petições online não deu em nada.  Tanto que nem consigo achar essa petição para linkar aqui.

Pois bem, semana passada tinha um pessoal na internet se divertindo com um serviço do Senado chamado e-cidadania.  Funciona parecido com o da Casa Branca.  Você manda para eles sua ideia legislativa, a sua ideia passa por um filtro e, se não for ofensiva ou inconstitucional, ela é publicada nesse portal.  Se 20.000 pessoas apoiarem sua ideia, o Senado vai discutir a ideia de elaborar a sua lei.

Claro que quis testar o filtro.  Inspirado nos fãs de Star Wars resolvi pedir ao Senado que construísse uma Estrela da Morte.  Bem, eu acho melhor termos uma arma que destrói planetas do que políticos endinheirados.

Eis que minha sugestão legislativa foi…  Aprovada!  Está lá no e-cidadania esperando pelo seu apoio.  Se 20.000 pessoas me apoiarem lá no site, os senadores terão que discutir a ideia de construir uma Estrela da Morte.  Vou conseguir?  Duvido.  20.000 acessos são basicamente o movimento desse blog em um ano.  Tenho quatro meses pra isso.  Conto com vocês.

Como eu nunca pedi nada, aqui está meu pedido.  Votem na minha lei!  Me ajudem a conquistar o mundo!  É rapidinho, só entrar aqui:

Publicado em Posts técnicos | Marcado com , , , , | 1 Comentário

Trump atacou a Síria. E agora?

misseis-siria2

Guerra também tem que ter propaganda

Agora beba iogurte. Dan’up!  Não há nada que possamos fazer.  Mas quer saber?  Pessoalmente acho que ele está certo.

Ontem (06/04), a capa do Jornal O Globo trazia um sírio carregando uma criança morta.  Se você abrisse o jornal na matéria veria ali um outro pai sírio carregando no colo seus filhos gêmeos de 9 meses.  Ambos mortos.  Na foto não parecia que as crianças estavam mortas.  Bashar Al Assad jogou gás Sarin em crianças!  E não foi a primeira vez que ele fez isso.  Se eu sou o presidente dos EUA, ao ver aquelas imagens, teria dado a mesma ordem.

Curiosamente é a primeira vez em seu mandato que Trump vai contra o que disse na campanha.  O discurso de campanha, e que agrada boa parte dos americanos era o de “America First”.  Deixe o mundo resolver seus problemas e nós ficamos com os nossos.  O papel de polícia do mundo incomoda a muitos americanos porque são seus impostos que são gastos nisso.  São seus filhos que morrem nesse papel.

Vai resolver o problema?

Claro que não.  70 Tomahawks não vão acabar com a guerra e nem incapacitar todas as forças sírias a ponto de obriga-las a se render.  Na verdade o que Trump está fazendo é cumprindo as ameaças que o Obama fez durante toda essa crise.  Obama disse que atacaria a Síria caso o governo usasse armas químicas.  Eles usaram e Obama não atacou.  Trump resolveu cumprir a ameaça.

Faltou combinar com os russos

Faltou mesmo.  Trump apenas comunicou que iria atacar. O presidente russo deve estar bem Putin com isso, ele vai reclamar, vai protestar e o escambau.  Mas ele não vai ser burro de entrar em uma guerra contra os EUA (isso seria a terceira guerra mundial).  Mas isso não impede de testar suas capacidades bélicas contra as americanas (e vice versa) num cenário de quase guerra.  O que deve acontecer direto são escaramuças entre caças e navios mas sem disparos.  Como bem lembrou o @cardoso na guerra fria os navios russos abalroavam os destroieres americanos:

Além disso, de acordo com a 34 regra de aquisição Ferengi, guerra é boa para os negócios.  Assad precisando de mais aviões, tanques e armas, o shopping dele fica em Moscou.

Por que os EUA não denunciaram à ONU?

Um vizinho abre uma casa de festas na casa dele.  Você passa a ter um baile funk todo dia do lado da sua casa.  Você denuncia que ele abriu um estabelecimento onde não poderia para a prefeitura.  Quanto tempo irá demorar até a prefeitura ir lá?  E que garantias você tem que ela vai conseguir fechar a casa de festas?

A ONU é isso.  Supondo que os Americanos seguissem esse caminho, o conselho de segurança se reuniria e faria duas coisas:   A primeira:  Mandar uma carta muito ríspida para o Assad dizendo ai ai ai isso não se faz.  A segunda votar uma resolução impondo sanções à Síria pelo ataque e prevendo maiores sanções se eles fizessem novos ataques químicos.  Se os russos não vetassem, o que seria difícil, ainda assim, quem obedece resolução da ONU hoje?  Só Israel desobedece trocentas todos os dias.  Ou seja, provavelmente a ONU seria ineficaz.

Trump não teve paciência.  E ainda mandou uma indireta pro gordinho da Melhor Coreia que agora o buraco é mais embaixo.

Por que não tentam dialogar com o governo e com os rebeldes?

Boa sorte.  Tem tantos grupos rebeldes lá que a Síria é hoje um samba do afrodescendente doido.  Uns são aliados de outros e inimigos de uns.  O treco é tão confuso que nem vale aquela máxima de “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.  Mas se você quiser tentar, boa sorte juntando esse povo todo. Melhor reservar a sala de convenções do Mercure Damasco.

O que podemos fazer?

Regra de aquisição ferengi #34:  Guerras são boas para os negócios.  Isso vai gerar algumas oscilações no mercado de capitais.  Se você souber surfar nisso, dá pra faturar uma graninha.  Atenção ao Petróleo e as indústrias que lidam com material de defesa.

E o Brasil?

No momento o Brasil não é membro do Conselho de Segurança da ONU.  Pela América do Sul está a Bolívia e o Uruguai. Ou seja, ninguém.  O Temer vai fazer o que ele é bom: nada.  Há muito tempo o Brasil não é reconhecido pela política externa.

O mais perto que estamos desse conflito é termos vaga para a Copa 2018 na Rússia e liderar uma missão da ONU no Líbano que é ali do lado.  Estão lá no momento duas fragatas, a União e a Liberal, essas belezinhas aqui:

fragata

Fragatas Classe Niterói:  União (F45) e Liberal (F43). Foto Defesanet

Estão em troca de turno, a União volta e a Liberal fica no lugar dela.  Eles devem ter tomado um susto se os radares deles captaram algo.

Vai ter ataque nuclear?

Duvido muito.  A teoria da destruição mútua assegurada diz que você tem ser muito doido pra fazer isso.  Mas só pra garantir já encomendei no Ali Express meu abrigo antibomba.  Está em Curitiba.  Espero que chegue antes dos mísseis:

Shelter

Fontes:

Publicado em Posts técnicos, Reflexões | Marcado com , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

A lista da Frota

Q

Há muito tempo atrás, em uma galáxia muito, muito distante eu tomei conhecimento de que existia uma série chamada Jornada nas Estrelas.  Foi na Rede Manchete, eles tinham um programa as 18 horas, chamava-se “Sessão Espacial”.  Lembro da programação até hoje:  Segundas, quartas e sextas passava Jornada nas Estrelas.  As terças víamos Battlestar Galactica, as quintas tínhamos Buck Rogers e aos sábados Jornada nas Estrelas, a Nova Geração.  Assistia a todas essas séries com meu pai.  Com só uma TV na casa, a novela das seis já era para minha mãe e minha irmã.

Para quem sempre gostou de aviões, carros, máquinas, etc, naves estelares seriam apenas mais uma continuação desse gosto.  Com o tempo, esse programa acabou e a novela das seis voltou a dominar a TV.

Algum tempo depois a Bandeirantes volta a passar a Série Clássica.  Eu estudava a tarde e os episódios passavam pela manhã, portanto acabei voltando a assistir.  As aventuras de Kirk, Spock e McCoy voltavam a fazer parte da minha vida (mas meu personagem preferido era o Sr. Scotty).

Veio o tempo da internet, pude comprar um computador, um poderoso modem Motorolla de 56 kbps e nas madrugadas do pulso único acabei por encontrar o que todo nerd sempre encontrava em profusão na rede:  Pr0n Material sobre Jornada nas Estrelas.  Eu conhecia apenas a série clássica e a primeira temporada da Nova Geração, só então fiquei sabendo que existiam também DS9 e Voyager.  Mas ver essas séries era um problema, visto que eu não tinha os canais que passavam.

Era perto do ano 2000 quando encontrei um site sobre Star Trek chamado Frota Estelar Brasil.  Parecia promissor, era de uma galera de São Paulo que organizava convenções de Star Trek, pareciam ser bons nisso.  Ia gente do Brasil inteiro nessas convenções.  E aí no site deles eles tinham um serviço de e-mail que lhe garantia ao menos um e-mail por semana com notícias e novidades sobre eles e sobre Star Trek em geral.  “legal” pensei. “Uma maneira de me manter ligado no que rola sobre essa série”.  Cadastrei meu e-mail de besteira (fiord@oi.com.br) E me inscrevi.

No dia seguinte, quando abri o outlook ele mostra que estava baixando a mensagem 1 de 356 achei que algo estava errado.  Essas 356 mensagens tinham uma palavra em comum no subject:  [frotaestelarbrasil].  Eu tinha entrado na famigerada lista da frota.  Não era um e-mail por semana sobre Star Trek.  Eram em média 300 e-mails diários de  um imenso bate-papo entre fãs da série sobre tudo o que se pode imaginar.

“Onde fui parar” pensei.  Mandei um e-mail para a lista perguntando onde eu estava, como se usa aquilo e de onde saiu tanta gente.  As respostas foram das mais variadas.  Um respondeu sério, outro disse que para usar eu poderia fumar, cheirar ou injetar, mas recomendava no caso de injetar que eu usasse minha própria seringa.  Pronto, a lista me ganhou.

Aparecia de tudo ali.  A lista, segundo diziam tinha 430 assinantes.  Coincide com a tripulação da Enterprise original, mas dessa turma toda, cerca de 20 pessoas faziam todo o barulho.

Tinha um cara que era corintiano doente, tanto que o provedor dele era do Corinthians (os corintianos na web).  Esse assinava Soçarba, que achei ser o nick dele por muito tempo, até ler de trás pra frente.  Tinha outro cara que era jipeiro e de vez enquanto errava as listas e mandava para a lista da frota coisas que eram para a lista de jipeiros ([jipenet], minha memória está afiada).  Aí começavam as pessoas a responder e de repente estava todo mundo falando de jipe numa lista de Star Trek.

A lista tinha seus mitos:  Tinha a Anna Luisa (ou Luzia, não lembro) que trabalhava para a VTI e era a tradutora dos episódios de Star Trek.  As vezes ela pedia ajuda em referências da série para sua tradução.  Quando entrei na lista, as pessoas estavam discutindo sobre a palavra pernóstico, e pediam a ela que fizesse o Data falar pernóstico em algum episódio.  Tinha a Pukkha, uma arqueóloga que apresentava como doutorado uma tese sobre o uso de vidro pelos romanos.  Passei horas conversando com ela sobre isso no ICQ.

Tinha o Carlos Cardoso, ele mesmo, o @cardoso.  Já naquela lista era um monstro, pouca gente ousava discutir com ele, só os novatos, que no geral se davam mal e saíam da lista.  Tinha o Z, que era o moderador da bagaça toda e que sempre que os ânimos se exaltavam um pouco ele mandava um e-mail padrão sobre as regras.  Lá eu conheci também o Amaury, que era o sujeito que co-apresentava os episódios de Star Trek na Bandeirantes, junto com um garoto.  Ele contava lá várias curiosidades sobre a série.

A lista era bastante tranquila com off-topics.  Muitas vezes o que menos se falava era sobre Star Trek, apesar de se ter referências à série o tempo todo.  Submarinos, por exemplo, foi um assunto que dominou a lista por quase um ano.  Teve certa vez um arranca rabo sobre religião:  A lista tinha de tudo, ateus, judeus, católicos, espíritas…  Cada um tentando defender seu lado, até que os ânimos se exaltaram.  O Soçarba desandou a postar piadas de religião, o Z proibiu o assunto e a vida na lista seguiu.

Apareciam uns caras que queriam saber como funcionava a propulsão de dobra e qual a diferença para o transdobra.  A primeira resposta era sempre uma piada.  A segunda era “GAL”.  As vezes alguém respondia “a sério”.

Eu era um adolescente de 16, 17 anos ali, no meio de adultos e gente da elite intelectual (fã de star Trek no geral não é burro), e por causa disso escrevi muita besteira lá.  Paguei muito mico ali.  Isso me fez ser eleito o Wesley da lista por duas vezes consecutivas.  Depois fui nomeado ours concours nessa eleição.  Eu seria o eterno Wesley da lista.

A quantidade de conhecimento e cultura trocados ali era impressionante.  Só o tempo que passamos falando de submarinos, aparecia gente com informações das Marinhas Americana, russa, brasileira…  Teve gente que achou lista de submarineiros e assinou, ficando como ouvinte nesta e passando informações para a gente.  Para se ter uma ideia, eu usava o Cadê como site de busca quando entrei na lista.  Lá, aprendi que o Altavista era melhor.  Até o dia que chegou uma garota dizendo que encontrou um site de busca muito legalzinho e fácil de usar chamado Google.

A lista era um mundinho interessante.  Reunia gente de todos os tipos, idades, locais, credos e classes em torno de algo em comum que todos gostavam:  Star Trek. Ninguém era tratado com desrespeito, as pessoas tinham bom humor e respeitavam todo mundo.  Também não tinha a geração do mimimi que se sentiria ofendida por qualquer coisa.  No fundo ela mostrava que o mundo de Star Trek é possível se as pessoas se respeitarem.

Eles faziam convenções no Anhembi com certa frequência, e quem ia adorava.  Já trouxeram atores, produtores, compositores… Tinha vontade de ir, mas tinha vergonha, não de estar no meio de um monte de malucos, muitos fantasiados de tripulantes da Enterprise, mas sim porque eu, sendo um moleque perto deles, me sentiria insignificante e completamente deslocado. No entanto, apesar da eleição para Wesley, eu era muito bem tratado na lista e pessoa ativa nela.

Em algum momento minha vida tornou-se ocupada demais para ler tanto e-mail, joguei a lista da frota em alguma pasta do Outlook até que formatei o computador e nunca mais usei o fiord@oi.com.br.  Portanto não estava lá para ver como ela acabou.

Mas quem disse que acabou.  Agora ela está no Facebook.  E melhor ainda, a Frota Estelar Brasil voltou fazendo inclusive convenção!  É agora, 8 de Abril.  Não vou poder estar lá, mas agora que sou burro velho, em uma próxima poderei ser tratado como Will Wheaton, ex-Wesley Crusher.

 

Publicado em Causos | Marcado com , , , , , | Deixe um comentário