Liz e uma reflexão sobre a vida

Liz

Uma das coisas que eu mais tenho certeza na vida é que a vida não é justa.  Não venham com aquele papinho motivacional de que se você fizer coisas boas, coisas boas acontecerão, que você planta aquilo que colhe, etc. esqueçam.  Não é assim.

Coisas boas acontecem para pessoas ruins e coisas ruins acontecem para pessoas boas.  Falando sério, quantas pessoas boas você já viu sendo bem sucedidas?  Já viu pessoas ruins se dando mal?

A vida não é justa, eu não gosto disso, mas não sou eu que faço as regras, injustiças estão em todos os lugares.  Se eu pudesse recomeçar, queria ser uma pessoa ruim.  Queria sim me tornar um cafajeste, um aproveitador, alguém cujo único objetivo é se dar bem e não se incomoda em quem será prejudicado por isso.

Infelizmente não consigo isso.  Para minha infelicidade fui muito bem criado e ensinado a fazer o certo.  Não consigo fazer algo para prejudicar outras pessoas, mesmo aquelas que mereçam e mesmo quando faço depois bate um remorso daqueles.  Já me ferrei bastante no trabalho por ser um cara bom.

Acabamos colocando sempre outras pessoas na frente e elas, claro não dão a mínima para você.  Isso se você tem sorte porque normalmente o que acontece é que as pessoas que você ajudou, que você quis o bem não se contentam em simplesmente fingir que você não existe, ainda procuram prejudicar você em troca.

É curioso porque mesmo tendo certeza de que fazer o bem não adianta nada e se você espera que o bem lhe aconteça você vai se decepcionar, se você acha que ao procurar a justiça a justiça vai lhe encontrar e não, não vai, ainda assim eu procuro insistir.  Acredito que mesmo se a vida for injusta se nós parássemos de ser injustos, o mundo poderia ser melhor.

Não que eu seja um paladino da justiça, tenho certeza que devo cometer dezenas de injustiças e por desconhecimento ou omissão devo ter feito o mal a muita gente, mas eu procuro fazer isso.  E assim entra na minha vida a Liz.

Liz é essa cachorrinha da foto.  Bicho para vir aqui pra casa tem que ter sido abandonado ou rejeitado.  Liz foi encontrada debaixo de um carro com mais carrapatos que você possa contar, basicamente moribunda.

A garota que a encontrou levou-a para tratamento.  Para tratar a cachorrinha foi necessária uma campanha de doações via redes sociais pois o tratamento foi caro.  Eu acompanhei a história e quando soube que ela precisaria de transfusão de sangue, imaginei que não teria jeito.  Ela sofria da doença do carrapato, filhote, sem imunidade e sem sangue…  Eu seria capaz de apostar que ela não conseguiria.

No entanto o inesperado para mim aconteceu.  A cachorrinha conseguiu.  Após dias internada, ganhou alta e foi para a casa da garota que a encontrou.  Daí ela foi ladeira acima se recuperando cada dia mais.  Isso gerou um problema.  A garota não teria como ficar com a cachorrinha e não havia lugar para ela.  Daí me ofereceram ela a primeira vez.

Não sabia bem se eu teria condições de ter um cachorro.  Não tenho muito espaço em casa, ainda estou longe do meu sonho de um sítio longe de tudo, e por isso não disse nem que não e nem que sim.  Alguém apareceria, pensei eu.

Mas o prazo acabou e a pobre cachorrinha iria para um abrigo.  Bem, as chances de ela ser adotada num abrigo desses são pequenas.  Vira-latas, preta (li que cachorros pretos são os mais recusados em adoção), ela passaria lá sei lá quantos anos vendo animais entrarem e saírem sem que ela nunca saísse de lá.

Isso não seria justo.  Alguém abandonou a cachorrinha para morrer, por algum motivo ela foi encontrada e tratada, ela lutou com tudo o que tinha pela vida para acabar abandonada de novo?  Não no meu turno.  A vida pode ser injusta comigo, mas não será com essa cachorrinha.

Assim, aos 44 do segundo tempo, quando ela estava para ir para o abrigo mandei tudo as favas e fui buscar a cadelinha.  Eu não sei se ela está feliz aqui, mas estou fazendo todo o possível para ela.  Ela tem com quem brincar, já não desgruda mais de mim, e vem crescendo saudavelmente.  É agitada e destrói coisas como todo filhote e está por aqui nos alegrando um pouco mais.

Claro que tem problemas, a gata não gostou nada dela, as duas ainda estão se adaptando, minha mãe não gostou da ideia e ela ainda fica querendo destruir as plantas dela, mas vamos tentando manter tudo na paz.  No fim das contas, acho que a Liz veio para nos deixar um pouco mais alegres.

Em breve ela vai poder ser vacinada e vamos poder dar umas voltas na rua para gastar um pouco da energia dela e da minha.  Se nos verem por aí, nos deem um alô.

Anúncios
Publicado em Reflexões | Marcado com , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Não deixem o KC-390 ser um novo Osório

Osório 1

Eu adoro essa foto por motivos pessoais: Ela foi capa de uma Revista Verde-Oliva lá nos anos 80 que meu pai sempre que podia trazia pra mim.

Nos anos 80 havia uma empresa brasileira chamada Engesa que obteve razoável sucesso na fabricação de blindados. Foi ela quem fabricou os blindados Cascavel e Urutu que ainda hoje servem ao Exército Brasileiro.

A Engesa era de capital nacional e 100% privada.  Capitalizada pela venda desses blindados ela decidiu dar um passo a frente e começou um projeto ambicioso do que então se tornava conceito nos exércitos de um MBT (Main Battle Tank).  A Engesa identificou uma demanda do Exército Saudita que pretendia retirar seus tanques franceses dos anos 70 de uso e se reequipar com um modelo novo adequado as necessidades da nova década.

A Engesa se meteria em uma briga de cachorros grandes.  Foram apresentados aos sauditas outros três veículos:  O Americano Abrahams M1A1, o Inglês Challenger e o Francês AMX-40.  Os três países são tradicionais fabricantes de blindados sobre lagartas e a Engesa era conhecida no oriente médio como fabricante de blindados sobre pneus.  Eles teriam que caprichar.

E capricharam.  Após recusas nas vendas de projetos prontos pelos alemães, a Engesa resolveu tocar sozinha o projeto e mandou seus engenheiros procurarem o que havia no estado da arte para esse projeto.  O EE-T1 Osório nasceu unindo o que havia de melhor que puderam encontrar.  O motor seria da alemã MWM, suspensão hidropneumática Dunlop, torre da Vickers britânica, canhão de 120mm francês etc.

A torre era estabilizada, o que significava que enquanto o chassi passava pelas diferenças de topografia, a torre mantinha-se fixa, fazendo com que o canhão não se perdesse do alvo.  Em uma batalha de tanques quase sempre quem acerta primeiro vence.  O Osório tinha um índice de acerto no primeiro disparo de impressionantes 95%.

Para se defender o Osório trazia silhueta baixa e angulações de modo a defletir os projeteis disparados além de blindagem feita em material compósito metal-cerâmico.  Trazia lançadores de granadas de fumaça para se esconder.

O Osório trouxe sistemas óticos e eletrônicos de última geração.  Era capaz de proteger sua guarnição mesmo operando em teatros de operação onde houvessem agentes químicos, nucleares ou biológicos.

Nas provas de campo do exército saudita foram reprovados os dois europeus na disputa.  Foram declarados passíveis de compra o Osório e o Abrahams.  Os brasileiros cantaram vitória pois o Osório tinha algumas vantagens sobre o americano:  Seu motor a diesel era mais barato e funcionava melhor no deserto do que a turbina do americano.  Isso sem falar na manutenção.  Seu índice de acerto era excelente, o Osório era o mais leve dos tanques, mas na prova de reboque puxou o Abrahams que era o mais pesado de todos.  O exército saudita pretendia comprar mais de 700 unidades.

Osório 2

No entanto, os americanos usaram seu peso político e também o fato do Abrahams já ser equipamento do exército americano, com linha de montagem estabelecida (a Engesa só tinha protótipos do Osório até então) o que levou os árabes a terem um certo receio sobre o veículo brasileiro.  Assim, o MBT americano acabou sendo o escolhido.

O Osório era tão no seu tempo que mesmo hoje, seus protótipos estão incorporados ao Exército Brasileiro e são o melhor blindado no inventário da nossa força até hoje.  A Engesa gastou muito no projeto desse blindado e não obteve retorno porque ninguém comprou, nem mesmo o Exército Brasileiro.  Ele chegou a ser oferecido ao Iraque, poderíamos ter tido no campo de batalha o confronto Osório x Abrahams, mas a Guerra do Golfo veio antes e o Brasil parou de fornecer equipamentos para o Iraque.  Assim, a Engesa acabou por ir a falência.

Me chamou atenção uma matéria publicada no jornal o Globo em que a Boeing estaria interessada em vender o jato brasileiro KC-390 pelo mundo.  O KC-390 em muitas coisas lembra o Osório:  Desenvolvido no Brasil com equipamentos de última geração e aparecendo entre os melhores de sua categoria.

O KC-390 é um cargueiro multimissão.  Seu projeto foi financiado pela Força Aérea Brasileira para substituir o interminável e incansável Hércules.  É uma aeronave que pode levar cargas operando em pistas sem pavimentação e curtas, lançar cargas de paraquedas, lançar paraquedistas enganchados ou em salto livre, reabastecer aeronaves em voo e, se a Embraer me contratar desenvolvo um AC-390 que seria a coisa mais temida a se ver voando desde o A-10 Warthog.

KC-390-em-voo

Alguns erros do Osório não estão se repetindo.  Uma das coisas que os árabes estranharam na concorrência do Osório foi que o Exército Brasileiro não pretendia comprar o Osório.  Isso era por falta de grana, mas era no mínimo estranho uma arma desenvolvida em um país não ter as forças armadas daquele país como cliente.  No caso do KC-390 a FAB já anunciou a compra de cerca de 30 aeronaves, mais os protótipos.  Portugal também já anunciou a compra de algumas unidades, mas o número de pedidos firmes ainda não chegou a 100.  E o pessoal da Embraer está se esforçando em vender o jato.

Assim o KC-390 vai sair, vai ser produzido em série, mas com poucos clientes, pode ser que o número total de aeronaves fique pequeno tornando-o uma “mosca branca” nos céus do mundo.  Isso seria lamentável se considerarmos que a Embraer produziu uma excelente aeronave, assim como é lamentável ver o Osório apenas em protótipos.

Na reportagem, o que se sinaliza de positivo no acordo da Embraer com a Boeing seria a Boeing vender o jato brasileiro.  Assim o peso norte-americano que prejudicou o Osório poderia ajudar o KC-390.  Estima-se uma venda de cerca de 500 aeronaves com o acordo.  Nada mal.

Mas antes disso é preciso considerar se a Boeing não tem uma solução própria nesse nicho.  É irreal o KC-390 competir com o Globemaster, são segmentos diferentes, mas o interminável Hércules continua a ser fabricado pela Lockheed Martin, que terá mais apelo americano do que uma nova aeronave brasileira.  O protótipo do KC-390 voa ostentando um monte de bandeiras de países, se todos confirmarem pedidos, a aeronave poderá ter um número saudável de vendas.  A Boeing por sua vez participou do projeto do KC-390 desde o início, então seria interessante também a ela vender o jato.

De qualquer maneira, vamos ver o que acontece.  Tanto o Osório quanto o KC-390 são exemplos de um Brasil que funciona.  Apenas espero que o Brasil que não funcione sabote a parte que funciona.

Publicado em Posts técnicos | Marcado com , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Baby, I Can see your halo

Magnussen Halo

Não adiantou a gente gritar, espernear e nem mostrar que há alternativas melhores.  Para nosso desespero a Fórmula 1 tornou obrigatório nos carros de 2018 o uso do Halo, essa trapizonga bizarra como uma forma de proteção ao piloto.

Essa tira de sandália havaiana foi pensada logo após o acidente de Felipe Massa em 2009, onde ele foi atingido por uma mola oriunda do carro de Rubens Barrichello.  Essa mola, por azar do destino acabou por atingir o piloto no ponto mais fraco do capacete, na altura da viseira. Felizmente Felipe Massa pode se recuperar por completo desse acidente.

Mas será que isso funciona mesmo?  Eu não gosto do Halo e não acho que ele sirva para alguma coisa.  Resolvi avaliar os acidentes que me lembro com monopostos e não consegui achar muita utilidade para o Halo.  Vejamos:

1 – Rubens Barrichello – Ímola 1994:

Esse acidente ocorreu nos treinos de sexta-feira do fatídico GP de San Marino 94.  Serviu como um aviso do que viria depois.  A Jordan de Barrichello decolou ao atingir a zebra de lado na curva.  Com o voo do carro, ele foi direto para o guard rail atingindo-o acima da barreira de pneus, que no caso não serviu para nada.  Rubinho passou apenas alguns dias no hospital, mas ele teve muita sorte.

Sem pneus para absorver a energia do impacto, ela acabou distribuída para o carro e o piloto.  No segundo 10 do vídeo dá pra ver como o corpo do piloto se mexe dentro do carro.  Ao longo dos anos outras proteções laterais nos carros e principalmente o Hans para proteger o pescoço e a coluna dos pilotos fariam com que após esse acidente o piloto saísse apenas com o macacão sujo.

O Halo faria diferença nesse acidente?  Nenhuma.

2 – Roland Ratzemberger – Ímola 1994:

O talvez mais maldito GP da Fórmula 1 fez sua primeira vítima fatal no dia seguinte ao acidente de Rubens Barrichello.  Em 30 de abril de 1994, Roland Ratzemberger perdia o controle de sua Simtek, sofrendo uma sucessão de impactos.  A velocidade antes da batida era da ordem de 300km/h e onde ele bateu não havia proteção de pneus nem qualquer outra proteção senão o muro.  O carro veio se desmontando até parar no meio da pista.

Esse acidente acabou por chocar o público, pois havia muito tempo sem uma morte na Fórmula 1, e todo o atendimento médico e tentativas de ressuscitação do piloto foram transmitidos ao vivo para o mundo todo. Embora tenha sido declarado morto apenas no hospital, todo mundo viu que o piloto austríaco estava morto ainda dentro do carro.

O Halo faria diferença?  Nenhuma.  A célula de sobrevivência falhou no acidente.  Quando o carro para é possível ver o cotovelo do piloto, em uma área que nunca deveria quebrar.  Posterior a esse acidente muitas outras medidas de segurança mais eficazes como o safer barrier, o Hans e proteções laterais foram desenvolvidas.

3 – Ayrton Senna – Ímola 1994:

Talvez o acidente que mais choca o Brasil até hoje, a batida de Ayrton Senna vive até hoje em um meio de meias explicações, teorias de conspiração e muito mistério.  Segundo apuração do Grande Prêmio, um dos braços da suspensão dianteira da Williams do brasileiro se soltou no acidente e acabou por penetrar o capacete do piloto, atravessando na altura da viseira atingindo a cabeça do piloto pouco acima do olho direito.  Senna perdeu massa encefálica ainda na pista.  Segundo a médica que atendeu Senna no hospital em Bolonha, a morte cerebral do piloto ocorreu na pista.

O Halo faria diferença?  Talvez.  O impacto que matou Senna foi daqueles para o qual o halo se destina a evitar.  No entanto essa proteção não me convence que é capaz de fazer isso.  Pode ser que sim, mas pode ser que não.  E pela altura que ele fica, pode ser que ele acabe atrapalhando, defletindo os destroços que passariam direto na direção do piloto.

4 – Felipe Massa – Hungria 2009:

Foi esse acidente que deu origem a discussão sobre o Halo.  Durante a classificação para o GP da Hungria daquele ano, uma mola se soltou da Brawn de Rubens Barrichello que acabou colhida pela Ferrari de Massa.  A mola atingiu Massa na altura da viseira fazendo com que o piloto desmaiasse e batesse contra a proteção da pista.  Felipe Massa perdeu o resto daquela temporada da Fórmula 1, voltando a disputa em 2010 fisicamente recuperado daquele acidente.

O halo faria diferença?  A partir daquele acidente passou a se discutir formas de se proteger o piloto desse tipo de impacto.  O halo nasceu para isso.  No entanto, assim como comentei no acidente de Senna, o halo poderia tanto defletir a mola para longe do piloto como para áreas mais desprotegidas do corpo dele.

5 – Jules Bianchi – Japão 2014

Durante uma corrida com chuva e repleta de acidentes com a pista em péssimas condições de aderência e visibilidade, Adrian Sutil com sua Sauber saiu da pista sem gravidade.  Na volta seguinte, Jules Bianchi vinha em alta velocidade quando perdeu o controle de sua Marussia atingindo o trator que fazia o resgate da Sauber.  O piloto francês teve sérias lesões cerebrais, vindo a falecer meses depois do acidente.

O halo faria diferença?  Não.  Bianchi teve uma Lesão Axonal Difusa.  Esse tipo de lesão ocorre quando o cérebro se movimenta violentamente dentro da caixa craniana.  Isso ocorreu devido a brusca redução de velocidade sofrida pelo piloto.  Não havia halo que desse jeito, a única coisa que poderia salvar o jovem francês seriam amortecedores de inércia, que ainda não foram inventados.

Nesse acidente eu faço um adendo que ele era perfeitamente evitável e mostrou a incompetência da organização do GP do Japão.  Tivesse ocorrido em Interlagos, o GP do Brasil já teria sido limado do calendário.  Como, sob chuva, eles liberam a entrada de veículos de serviço na pista sem que entrasse o Safety car?  Isso foi de uma incompetência ímpar.  Para retirar carros acidentados em área de escape naquela situação, o Safety Car deveria ter sido acionado, até pelas condições de pista.  Depois desse acidente tudo o que a Fórmula 1 fez para melhorar a segurança foi criar o Safety Car Virtual (VSC) que não serve para nada.

6 – Justin Wilson – Pocono 2015

Vamos a Fórmula Indy:  Durante as 500 Milhas de Pocono, Sage Karam perdeu o controle do seu carro e em pistas ovais isso significa muro.  O carro atingiu o muro de traseira, sem gravidade.  Contudo, partes do carro se espalharam pela pista e uma delas, o horrendo para-choque traseiro do carro voou e acabou por acertar a cabeça de Justin Wilson.  O piloto foi hospitalizado mas acabou por falecer no dia seguinte.

O halo faria diferença?  Provavelmente.  Curiosamente, na Fórmula Indy que resolveu fazer resistência ao halo é onde achei um acidente onde essa trapizonga seria útil.  Vendo como os halos foram montados nos carros da Fórmula 1, imagino que ele seria capaz de proteger Justin Wilson do impacto que sofreu.  Mas veja bem, talvez, pois dependeria do ângulo do impacto da peça.

7 – Dan Wheldon – Las Vegas 2011

Naquele ano a organização da Fórmula Indy achou que seria legal encerrar a temporada com uma corrida no oval de Las Vegas.  O problema é que um oval de 1,5 milha com curvas inclinadas e com carros de alto efeito solo permite que você faça a volta inteira sem tirar o pé do acelerador.  Com isso os carros puderam andar muito próximos, em diversas linhas permitindo três a quatro carros lado a lado.  Um acidente era questão de tempo.  O Big One ocorreu na volta 10 com quase metade do grid envolvido.

Dan Wheldon foi quem se deu pior.  Ele não começou o acidente, mas teve que passar por ele.  Ao passar acabou colidindo com pedaços de outros carros, perdendo sua asa.  Com isso ele se tornou um míssil, voando em direção ao alambrado.  A cabeça do piloto acabou por se chocar contra uma das barras do alambrado, matando o piloto inglês.  A corrida foi encerrada ali mesmo, com os pilotos dando três voltas cerimoniais na pista em homenagem a Dan Wheldon.  Eu estava assistindo aquela corrida, acompanhei tudo, e depois foi de cortar o coração ver Tony Kanaan no Twitter, que era muito amigo do piloto inglês.

O halo faria diferença?  Sim.  Conforme essa análise o contato do capacete de Dan Wheldon se chocou contra dois postes do alambrado da pista.  O poste atingiu pouco acima do bico do carro e veio deslizando por ele até chegar no capacete do piloto.  O carro continuou se deslocando, o poste quebrou o santantônio do carro do inglês.  Se houvesse halo, o poste se chocaria contra o halo, deslocando o carro de volta para a pista conforme o formato da peça.  O que outros impactos fariam com o piloto eu não sei, mas a cabeça dele não se chocaria contra o poste.

Conclusão:

Continuo achando o Halo feio pra caramba e não vejo muita utilidade no mesmo.  Nos acidentes da Fórmula 1 eu não vi utilidade no Halo.  Mas vi na Fórmula Indy.  A Fórmula Indy contudo não está considerando o Halo, prefere uma solução mais elegante:  Um parabrisa que parece vindo dos aviões de caça:

Indy Halo

Acho essa proteção mais eficiente e elegante que o halo.  A indy realmente precisa estudar alguma proteção para os pilotos pois seus dois últimos acidentes teriam seus efeitos minimizados com alguma proteção.  Isso aconteceu na Indy 500 de 2017:

Castroneves

Fato é que, no fim das contas a estética tem que importar menos que a segurança e se salvarem as vidas de pilotos, podem colocar uma frente de Agile nos carros.

Publicado em Posts técnicos | Marcado com , , , , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Intervenção no Rio: O que eu acho

Exército

Vamos para uma semana de intervenção militar no Rio.  Até agora nada mudou.  Curiosamente no dia em que a intervenção foi decretada eu testemunhei um arrastão no local que passo todo dia para voltar do trabalho.  Pois bem, temos uma semana disso e nada mudou.

A primeira coisa que essa intervenção demonstrou foi a incompetência de Michel Temer.  Após um decreto desses o que você espera é que no dia seguinte a sua publicação a cidade amanheça com tanques nas ruas, soldados espalhados por todos os cantos, pontos estratégicos ocupados, prisões…  Nada disso aconteceu.

Temer decretou a intervenção e nomeou para interventor um general que estava voltando de férias.  O cara esperava voltar, tomar um café, ler as notícias e aos poucos voltar ao seu trabalho, pegou uma baita furada.  Ele sequer tem um plano, passou essa semana elaborando o plano.  Claro que essa semana que o Estado maior passou planejando, os bandidos também passaram planejando.  E agindo.  Conseguindo mais armas, escondendo armas etc.  Graças ao Temer perdemos o elemento surpresa.

O que o exército vai fazer?  Bem, a melhor forma de se derrotar o inimigo é privá-lo de seus recursos.  Vai ser preciso evitar que armas e munições cheguem aos bandidos.  A  maneira de se fazer isso vai ser buscando e isolando os morros.  Por isso, quando reclamarem desse tipo de imagem:

fotorcapafolhacrianca

Sinto muito, é um mal necessário.  Crianças são cooptadas pelo tráfico e numa mochila de uma dessas crianças pode passar uma pistola, um estojo de munição e partes de um fuzil AK-47, a arma preferida do nosso inimigo.

Quando se diz que o Exército não tem experiência nesse tipo de operação esqueceu que os militares passaram mais de 10 anos no Haiti fazendo exatamente isso.  O Haiti nada mais é que uma favela gigante.  E a Minustah foi muito elogiada por todos.  Se o Exército fizer no Rio o mesmo que fez no Haiti estamos bem servidos.

Vai resolver o problema todo?  Acho difícil.  Só ocupação militar não vai resolver.  Vai ao menos melhorar.  É preciso um esforço conjunto de toda a sociedade, não só das forças de segurança.  É preciso por exemplo cortar os meios de financiamento do tráfico.

Legalizar as drogas?  Dependendo da droga até vá lá.  Legalizar a maconha parece um caminho, se você fuma um baseado você só fica mais devagar, se fumar direto você vira um retardado, o álcool te deixa doidão, se você beber muito arruma cirrose.  Nada muito diferente.  Basta proibir dirigir sob efeito de maconha, fazer campanha “se dirigir não beba nem dê um tapa na pantera” e tudo bem.  Mas drogas como o crack não devem de maneira alguma serem legalizadas dado o risco delas.

Mas engana-se que legalizando as drogas e tirando o comércio dos traficantes, eles irão tirar carteiras de trabalho e mandar currículos.  Bandidos já arrumaram outras fontes de financiamento:  Roubo de cargas, ataques a caixas eletrônicos…

Por isso é preciso esforço de todos.  Não adianta criticar a violência se você compra produto de roubo de cargas.  Enquanto as drogas são proibidas, ao comprá-las você está financiando o tráfico e toda a estrutura de violência.

Eu acredito no que fez Rudolph Giuliani em Nova York:  É preciso ter tolerância zero com os delitos.  Desde o camelô ilegal da esquina que transmite a sensação de insegurança até os grandes traficantes.  Com o combate aos pequenos delitos, as pessoas se sentem mais seguras e os grandes acabam por ser igualmente combatidos e inibidos.  E para isso é necessária a colaboração de todos.  Se isso não ocorrer, o exército só vai enxugar gelo.

Publicado em Carioquice | Marcado com , , | Deixe um comentário

SOS tem um carro solto no espaço

Starman

Uma vez na outra empresa que trabalhei pegamos um projeto de um sistema de tratamento de água que consistia de quatro tipos de tratamento onde você poderia operar com eles em série, em paralelo e em diversas ordens para determinar qual a melhor combinação de tratamentos para pegar uma água de processo de refinaria e transformar em água de reuso.

A automação daquilo foi um pesadelo.  Tínhamos umas 160 portas digitais e mais umas 40 analógicas.  Basicamente líamos vazão, pressão e temperatura e tentávamos controlar isso comandando válvulas e inversores de frequência.  Apenas para isso o PLC era um armário lotado de cartões.  Fazer aquilo funcionar era um inferno, era um sistema trifásico, as unidades ficavam fora de fase e quando ligávamos o negócio parecia uma árvore de natal sem fazer absolutamente nada do que queríamos que ele fizesse.

Passei muitas horas para fazer aquela coisa funcionar.  Fiquei vários dias até as 23 horas no trabalho com o cara da elétrica e da automação (e por vezes apartando brigas entre eles).  No final aprendi bastante sobre controle e automação graças a coça que levamos desse equipamento.

É por isso que hoje quando eu vejo um piloto automático de um avião eu consigo pensar como aquilo funciona, recebendo dados de velocidade, altitude, atitude, arfagem e rolagem do avião, além de dados externos como os radiofaróis ou o sistema de ILS e atuar sobre as superfícies de controle e motores e assim fazer o avião voar e até pousar sozinho.

A automação de carros é bem mais complicada porque embora você tenha um eixo a menos (até 06/02/2018 carros não voavam), o número de variáveis a controlar é bem maior por causa de outros carros e da estrada.  Por isso estamos chegando lá em termos de carros autônomos, mas ainda não chegamos.

Um choque que você toma quando chega na faculdade de engenharia é que o curso de Física I é basicamente a física que te deu dor de cabeça no ensino médio e no vestibular.  Mas agora ela está piorada.  A segunda lei de Newton não é mais F=ma simplesmente.  Um problema clássico para te mostrar como o buraco é mais embaixo era o lançamento de foguetes.  Isso porque foguetes vão perdendo massa ao longo de sua subida, isso é significativo, não dá pra desprezar como você fazia no ensino médio, e agora a Força, ou impulso do foguete pode até ser constante, mas a aceleração não, pois a massa está variando.

Conforme você avança em seu conhecimento você vê que tem a resistência do ar, efeitos de compressibilidade, arrasto, sustentação, a temperatura influencia em basicamente tudo o que existe no universo.  Mas ver foguetes e aviões voando sempre me deixou maluco e é por isso que eu fiz engenharia.  E não, é impossível ficar indiferente ao que a SpaceX fez ontem.

Desde que eu soube que eles existiam, passei a acompanhar seu progresso.  Eu não conseguia acreditar que eles iriam lançar um foguete e pousar o primeiro estágio para reutilização.  Eu acho a ideia genial, a economia de custos é brutal, mas nunca tinha sido feito.

Fazer um foguete pousar é perigoso, ele desce escacetado do céu, você tem que reduzir a velocidade com os motores dele e arrasto aerodinâmico, orientar um charuto para ficar de pé com o vento querendo que ele faça justamente o contrário além de guiá-lo precisamente para o local de pouso.

É muita para controlar, são muitas variáveis para ler e muitos atuadores para comandar, em tempo muito curto, com velocidades supersônicas.  Por isso, até achei que a SpaceX conseguiria eventualmente pousar foguetes.  Mas não sem várias tentativas mal-sucedidas.

Eles não só conseguiram em menos tempo que eu pensei como começaram a pousar foguetes em balsas, onde o movimento do mar passa a ser mais uma variável.  Só de pensar na tonelada de sensores, variáveis, atuadores, códigos já me causa uma ereção.

“Não pode ser melhor” pensei.  Pode.  Imagina fazer isso três vezes.  Controlar a trajetória, velocidade e comportamento de um foguete que depois se divide em três, ao invés de descartar os foguetes usados, manobrá-los para pouso além do que sobrou continuar subindo para a órbita terrestre.

O Falcon Heavy basicamente começa como um foguete e termina com quatro foguetes sendo três para pousar na Terra e o quarto indo embora para fora da Terra. Tudo controlado, medido, atuado e informado.  Ver o lançamento funcionar é ver o engenho humano no seu melhor.

Essa coisa vai nos levar a Marte.  Graças a ela os custos para lançamentos serão menores.  Como haverá competição, os custos devem ficar menores ainda.  Ir ao espaço vai ser viável.  Talvez esse voo tenha sido o voo de Zefran Cochrane retratado em Star Trek.  Estamos lançando as bases para nos tornarmos uma espécie multiplanetária.

Como legado, o Falcon Heavy levou um carro, um Tesla.  Esse carro vai ficar orbitando o Sol lá pela altura de Marte.  Ele foi com um manequim astronauta de motorista e uma cópia do Guia do Mochileiro das Galáxias, importante para se viajar pelo espaço.  Subiu em grande estilo, tocando David Bowie e vai deixar os alienígenas ou arqueólogos do futuro completamente perdidos sobre o que diabos é aquilo.

Apenas pessoas de mente limitada não dão importância ou criticam o que vimos ontem.  A única chance que temos de sobrevivermos como espécie é sair do nosso mundo e seguir para as estrelas.  Ontem vimos isso ficar mais perto.

 

Publicado em Aviação, Posts técnicos | Marcado com , , , , , , , , | Deixe um comentário

A outra rede quer corrigir o Papa. Estão atrasados, aqui no Twitter já o mandamos ler a Bíblia.

Papa-Francisco

Dia desses me chamou atenção um post no Facebook que compartilhava uma carta que mandaram ao Papa Francisco. A carta, em tom grave mas utilizando-se de eufemismo como sempre fazemos para dar más notícias, chama-se “Correção Filial” ou Correctio filialis de haeresibus propagatis, mas na verdade uma galera se juntou e fez uma carta de 25 páginas para basicamente dar uma bronca no Papa.

Assinam essa carta 40 clérigos católicos e leigos eruditos.  Essa turma, da qual não questiono a competência ou o conhecimento de nenhuma delas, está insatisfeita e acusa o Papa Francisco de propagar heresias em sua Exortação Apostólica “Amoris laetitia”.  Eles dizem que o Papa Francisco se aproximou das ideias de Martinho Lutero sobre o casamento e divórcio e que estaria permitindo que católicos vivam em adultério.  Pode ser.  Mas vamos pensar um pouco:

O casamento católico é indissolúvel.  Você pode se divorciar de sua esposa ou marido no civil, mas perante Deus, segundo a doutrina da Igreja, você está casado com aquela pessoa até que a morte os separe.  Se por um acaso você se separar da pessoa com a qual se casou na igreja e passar a se relacionar com outra, você está em adultério.

Adultério é pecado mortal.  Vivendo em adultério você fica afastado dos sacramentos da Igreja.  Não pode comungar por exemplo.  E se morrer, terá uma passagem de primeira classe direto para o inferno.  Isso claro, segundo a letra da lei.  Não sabemos se as coisas são bem assim.

Uma vez passei por uma situação bem constrangedora porque eu, frequentador da Igreja Católica, acompanhei o rito de sucessão de João Paulo II, afinal, foi a primeira vez que eu vi a troca de Papa.  Como sabemos, o bondoso Karol Wojtyla foi sucedido pelo alemão Joseph Ratzinger (Bento XVI) que durante o pontificado de João Paulo II, conforme descobriu da pior maneira Leonardo Boff, era um cão de guarda em defesa da doutrina católica.  Pois bem, eu namorava uma garota cuja mãe não morava mais com o pai dela, morava com outro cara.  Com a notícia da eleição do novo Papa, o Fantástico dizia que ele era extremamente conservador e que isso dificultaria a vida de católicos em segunda união, como o caso dela, que seriam tratados como adúltero.

“Então eu sou uma adúltera?” Ela me perguntou.  Tecnicamente era, mas chamar sua futura sogra de adúltera não é muito saudável para seu relacionamento.  Preferi ficar quieto e mudar o assunto para o jogo do Fluminense.

Talvez o Papa Francisco esteja indo além do que essas pessoas conseguem enxergar.  Talvez o Papa, ao invés de milhares de páginas de código canônico e doutrina, tenha ido para algo mais simples:  Os Evangelhos.  Ser Cristão é, em essência, ser um imitador de Cristo.  E o melhor lugar para se saber o que Jesus fez está nos Evangelhos.

Jesus não curtia muito exatamente o tipo de pessoas que esses 40 estão bancando:  Os fariseus e os doutores da lei.  Estudar as escrituras, os documentos da Igreja é muito legal e é por isso que eu não ousaria questionar os argumentos deles.  Mas quando se faz isso, é preciso tomar o devido cuidado de não se perder a essência de tudo isso e se tornar um Fariseu, impondo fardos ao povo, fardos esses que talvez nem eles mesmos queiram carregar.

A questão do casamento me intriga bastante. Segundo a Bíblia, apenas um pecado não tem perdão, que é a Blasfêmia contra o Espírito Santo (Mc 3, 28-30).  Dentro da Igreja Católica para obter o perdão de qualquer pecado é bem simples:  Arrepender-se dele e confessar a um sacerdote.

Tráfico de drogas? Sim. Aborto? Também. Homicídio? Basta ir ao padre da esquina confessar e estará perdoado.  Todos esses pecados são mortais, te dão uma passagem  para o inferno, mas o ato de se confessar cancela seu voo para as trevas.  Isso também vale para o adultério.  O problema é que quando você está morando com outra pessoa que não a que você se casou, ao voltar para casa depois do padre, você volta a cometer o adultério.  Isso acaba tornando esses casos numa situação de pecado imperdoável.  Os traficantes e assassinos podem ir para o céu.  O cara que cometeu um erro ao casar com uma pessoa e depois só quer ser feliz, esse não.

Eu contei nesse blog a história da senhorinha nas Bodas de Ouro.  É justo viver assim?  Por conta de uma decisão errada na juventude você tem que ou condenar sua vida terrena ou sua vida eterna?  Antigamente as mulheres aceitavam maridos babacas como fardos na vida.  Hoje, elas não querem mais e estão certíssimas nisso.  Vamos ferrar a vida de pessoas que apenas querem ser felizes?

A Igreja precisa acompanhar isso.  Não é banalizar o casamento ou qualquer outro relacionamento e aceitar a ideia vigente em que relacionamentos são como as muambas que compramos no Ali Express que se deu um problema é melhor jogar fora e comprar um novo do que tentar consertar, mas também admitir que há coisas que não tem conserto e que as pessoas não podem ser condenadas a viverem infelizes ou sozinhas por algo assim.  O Papa Francisco sacou isso e resolveu dar alguma direção nesse sentido.

Talvez os caras que queiram corrigir o Papa estejam certos.  Mas eu sempre penso que, se Jesus nascesse nos nossos dias e começasse hoje sua pregação, ele andaria com essas pessoas ou com aqueles que as religiões se esforçam por excluir?

Publicado em Reflexões | Marcado com , , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

Relatório do Cenipa, coincidências e Teori(a) da conspiração

conspira9

Após um ano do acidente que vitimou entre outras vítimas o ministro Teori Zavascky, o Cenipa, órgão da Força Aérea Brasileira responsável pela investigação de acidentes aéreos divulgou seu relatório com as conclusões da investigação.  Para desespero dos teóricos da conspiração não veio nenhuma conclusão maluca.

Em algum momento toda investigação cai na célebre frase de Sir Arthur Conan Doyle:  “Quando você elimina o impossível, o que sobra, por mais improvável que pareça, só pode ser a verdade”.  Quando se investiga acidentes aéreos a mesma coisa é válida.  O pessoal do Cenipa sabe disso e aplica esse princípio sempre que tem um acidente pela frente.

Apesar do acidente ser com uma aeronave pequena, um King Air, o acidente chamou atenção de todo um país por causa do passageiro ilustre que morreu.  É um prato cheio para teóricos de conspiração pois o ministro estava a cargo da investigação mais famosa da história do país.  Será que assassinaram o ministro?

O Cenipa respondeu categoricamente:  Não.  O relatório, fruto de investigação minuciosa comprovou que tudo na aeronave funcionava perfeitamente atendendo a todos os comandos do piloto.  Não houve nada externo atingindo a aeronave, portando ela não foi abatida.  A conclusão é que o principal fator foi a desorientação espacial do piloto.

“sempre culpam o piloto, afinal ele não pode se defender não é?” seria o que o teórico da conspiração perguntaria.  Infelizmente nesse caso sim.  Primeiro que acidentes aéreos (sigam o @avioesemusicas) nunca ocorrem por um só motivo.  É sempre uma conjunção de fatores.  Aviação é uma coisa tão segura que existem inúmeras barreiras de segurança e para que um acidente ocorra todas precisam ser rompidas.  Para que todas as barreiras caiam são necessárias uma conjunção de fatores.

Para proteger as aeronaves da operação com tempo ruim existem proteções.  A regra de voo visual (VFR) só é válida até determinadas condições. Abaixo dessas você não pode voar visual, é obrigado a voar por instrumentos (IFR).  Aeroportos mais simples como o de Paraty só permitem operações visuais, o que significa que se as condições estiverem abaixo do permitido para voo visual, ninguém deveria pousar ou decolar lá.  O fato do piloto tentar fazer isso sob condições abaixo da VFR rompe uma das barreiras de segurança.

Mas por que ele faria isso?  Uma vez eu ia para Campo Grande saindo do Santos Dumont com uma conexão em Congonhas. Devido ao mau tempo, o voo saindo do Rio atrasou, apertando o tempo de conexão em Congonhas.  Chegando lá colocaram a aeronave naquela remota escrota a 100 metros do portão mas que te obrigam a pegar o ônibus, mais uma trapalhada da TAM que nos manda ficar na aeronave para depois mandar desembarcar, me fez perder o voo.

A TAM não tá nem aí pra mim.  Tive que correr atrás de uma remarcação em um voo que saía de Guarulhos e depois do transporte para lá custeado pela companhia aérea.  E a TAM só fez isso, acredite, porque a lei a obriga.  Senão ela no máximo me pediria desculpas pelo transtorno.  É a mesma coisa de quando o ônibus atrasa ou passa antes da hora.  Na melhor das hipóteses o motorista te pede desculpas.

Já a aviação executiva é outra história.  Enquanto um piloto da TAM é um motorista de ônibus (sorry aviadores) um piloto executivo é um motorista particular.  No caso da aviação, os motoristas de ônibus estão sujeitos a regras mais rígidas e, se ele atrasar o voo, não decolar ou alternar para outro aeroporto, no máximo vai ouvir passageiros se queixando, mas ele nem vai ligar para isso.  Fez seu trabalho.

Um piloto executivo leva o cara que paga seu salário praticamente o tempo todo.  O piloto do jatinho do Neymar tem que levar o Neymar para onde ele quiser quando ele quiser.  É o trabalho dele.  Se você não fazer isso sem um bom motivo, o Neymar demite você.  Por isso esse tipo de piloto sofre uma pressão extra.

Segundo o Cenipa apurou, o dono da aeronave, que estava a bordo, não interviu na condução do voo, e não era de hábito dele fazer isso.  Isso era ótimo.  Mas o piloto, segundo o mesmo relatório, era muito zeloso e detestava errar e fracassar (me identifiquei).  Portanto, é possível que para ele seja inaceitável não levar seus passageiros ao destino.

Outro fator sobre o piloto é que ela experiente em fazer esse voo.  Conhecia bem o aeroporto de Paraty, fazia esse trajeto dezenas de vezes o que deve ter dado a ele uma confiança maior, e possivelmente já ter enfrentado condições meteorológicas semelhantes.

Esse aeroporto tem tanto problema com o tempo que havia até uma carta de aproximação por instrumentos não oficial, que o piloto não usava.  Conhecedor da área e veterano de operações, talvez o piloto tenha pensado “vai que dá” e arriscado.

Lendo o relatório do Cenipa (você também pode ler, é público) aprendi mais como funciona a desorientação espacial.  Em uma manobra de 2G seu corpo te engana e ao olhar para fora você acredita estar com uma inclinação menor do que realmente está e se não confiar nos seus instrumentos, você pode inclinar mais ainda a aeronave levando a um estol.  Voando sobre um terreno como a água, você perde também a orientação de distância e pode achar voando mais alto do que realmente está.  Em um aeroporto sem informação de pressão barométrica isso é bem perigoso pois o altímetro pode informar igualmente errado.

Assim, em respeito a memória das vítimas e a uma das poucas áreas onde o Brasil é um país sério, todo o gerenciamento aeronáutico, larguem as teorias malucas de lado.  O que aconteceu foi um acidente que acabou por vitimar uma pessoa proeminente no Brasil.  Era um acidente evitável, conforme o próprio Cenipa alega, se a cultura de se respeitar os limites do voo VFR fosse aplicada.

Publicado em Aviação | Marcado com , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

A Taste of Armageddon

EminiarWarRoom

Em “A Taste of Armageddon” de Star Trek, a Enterprise chega a um planeta que está ha anos em guerra com seu vizinho.  Assim que descem ao planeta, a capital é atacada pelo planeta inimigo resultando em 500 mil baixas.  O líder daquele planeta ordena um contra-ataque imediato.  No entanto, apesar da sala de guerra mostrar um cenário de devastação, aparentemente nada aconteceu na cidade.  A Enterprise não detecta qualquer explosão na superfície do planeta.

Conforme o episódio avança (Vem Spoiler, mas estou falando de um episódio que foi ao ar em 1967, portanto tome vergonha nessa cara) o capitão Kirk descobre que a guerra entre os planetas se situa no campo virtual, com computadores se atacando e simulando destruição. Nenhuma arma real era disparada.  Contudo as baixas eram reais.  Se você estivesse na área de um ataque e fosse declarado morto, você tinha 24h para se apresentar a uma câmara de desintegração e ser executado.

Logo a Enterprise é vítima de um ataque virtual e toda a tripulação declarada como morta, devendo descer para o planeta e ser desintegrada. Kirk obviamente se recusa a entregar sua tripulação, o que provoca uma quebra no acordo entre os planetas o que fará com que o planeta inimigo ataque com armas reais.

Os planetas fizeram um acordo para travarem uma guerra virtual, pois uma guerra real resultaria em danos ao ecossistema, as estruturas, mutilações, mortes lentas, corpos putrefatos na lama e todas as coisas legais que a guerra traz.  O que eles basicamente fizeram foi eliminar da guerra os horrores e torna-la insípida.  A recusa de Kirk põe os planetas novamente diante da possibilidade de uma aniquilação real.

Star Trek sempre funcionou por trazer uma humanidade que deu certo confrontando problemas de uma humanidade que não deu certo.  Hoje em dia as pessoas se comportam como os planetas em guerra do episódio.  Nos isolamos em nosso mundo e nos relacionamos com as pessoas através exclusivamente do mundo virtual e isso torna as relações insípidas.  Podemos desprezar pessoas como se fosse simplesmente manda-las a um desintegrador.  Ela morrerá sem dor.  Não é bem assim.

Quantos valentões de teclado você já viu?  São pessoas que você só sabe que são assim pois sabem que a pessoa do outro lado não tem como reagir.  Acham que o dano que elas causam não é sério. E mais, não é fácil falar coisas desagradáveis na frente das pessoas, mas mandar pelo Whatsapp é totalmente indolor.

Hoje em dia acabamos por nos relacionar mais com as pessoas por computador do que pessoalmente.  Seja pela distância, pela praticidade ou pela timidez, é bem mais fácil falar via aplicativos ou computadores. Isso tem um lado bom, acabamos por conversar mais com as pessoas, mas tem um lado ruim:

Dar más notícias ou falar coisas desagradáveis por aplicativos é mole.  Brincar com sentimentos alheios é mole.  Vejam o Tinder:  Usar o Tinder é basicamente como ir naqueles restaurantes chiques onde você vai no aquário e escolhe a lagosta que quer comer.  A diferença é que no Tinder a lagosta também tem opinião.

Mas num aplicativo desses, você não está vendo pessoas.  Está vendo opções para algo rápido.  Se o que a outra pessoa quer é isso ou não, isso não é problema seu.  Não sou contra o Tinder, se isso existisse alguns anos atrás, a quantidade de mulheres que eu beijei seria muito maior.  Mas que facilita a tratar as pessoas como nada, isso facilita.

Brigar, discutir, humilhar…  é tudo insípido quando feito por um aplicativo de conversa como o Whatsapp.  Você não vê a reação da pessoa, não sabe o que ela sente e nem quer saber.  Não é da sua conta.

Não vendo a reação da outra pessoa é como o planeta que apenas ataca por computador.  Ele matou meio milhão de pessoas, mas não as viu.  Não há pedaços de corpos espalhados, pessoas carbonizadas, gente moribunda implorando por ajuda, hospitais abarrotados de gente sem esperança…  As pessoas vão bovinamente para o desintegrador.

Ao brincarmos com pessoas nos aplicativos fazemos o mesmo.  Não vemos o que estamos fazendo, não vemos os danos.  Achamos que, da mesma forma que nós estamos nos sentindo, a pessoa do outro lado também está.  Nem sempre estará.  Eliminando a possibilidade de ver o dano que estamos causando, elimina de nós também a empatia, a compaixão, duas das coisas que mais nos fazem ser humanos.

Publicado em Reflexões | Marcado com , , , , , , , , | Deixe um comentário

Esse cara vai ser presidente. E a culpa será de quem menos gosta dele.

20160517-jairbolsonaro-1

O mundo vem guinando fortemente para o conservadorismo.  O Brexit venceu, Trump venceu, partidos de inspiração fascista que eram irrelevantes, agora ocupam cadeiras nos principais parlamentos europeus, etc.   Como e por que isso está acontecendo?

Em comum todas essas iniciativas conservadoras tinham o fato de não terem sido levadas a sério.  A candidatura de Trump por exemplo, começou como uma piada.  As pessoas riram do cara que fala um monte de doideiras, e achavam que em algum momento a piada perderia a graça e pessoas sérias assumiriam dali.  Não foi o que aconteceu.  No caso do Brexit, muitos ingleses achavam que era só para dar um susto na União Europeia, mas eles voltariam a si logo depois.  Não aconteceu.

Há dois principais motivos para essas coisas terem acontecido.  A primeira é que as pessoas jovens e de ideias mais progressistas não vota.  E não é porque elas não podem, é porque elas não querem.  Acham que lacrar no textão do Facebook vale como um voto e que petição online vale mais que a Constituição.  Colocar x para “neutralizar gênero” é o ápice da inclusão.

Veja o Brexit:  Quem era a favor da saída inglesa da UE eram em maioria pessoas de mais idade

Os jovens eram contra.  Onde estavam os jovens no dia da votação?  Lacrando em algum lugar, menos na seção eleitoral.

A eleição de Trump?  Mesma coisa.  Trump teve 62.984.825 votos.  Hillary ficou com 65.853.516 votos e perdeu, é o sistema deles lide com isso.  Isso deu um total de 128.838.341 votos num universo de 200 milhões de eleitores.  E olha que lá, embora não seja obrigatório, é mais fácil de votar do que no Brasil, lá você tem dias para votar e nem precisa sair de casa, pode votar pelo correio.  Quem é que não foi votar?  O coroa republicano membro da NRA e fã de Nascar?  Ou a feminista de sovaco cabeludo lacradora do Face?  Mais provável a segunda.

O @cardoso vive dizendo que quem xílica não consome.  Pedem diversidade em filmes, quadrinhos, etc e quando são atendidos não assistem aos filmes e não compram os gibis.  Essa gente também não vota!  Já os conservadores sabem como as coisas funcionam, vão lá e votam.

O outro motivo são os moderados.  Militante não ganha eleição, mas pode perder.  Você não vai num acampamento do MST para falar para os sem terra fazerem uma marcha pela prisão de Lula.  Pelo mesmo motivo não vá a uma reunião de fãs do Bolsonaro falar que José Dirceu é um preso político.  Mas militantes são minoria.  A maioria dos eleitores são pessoas normais como eu e, espero, você que consegue ver o mundo mais do que o binário “fulano e partido são bons, os outros são ruins”.  Uma pessoa moderada procura ver todos os lados, mesmo que ela seja um pouco a esquerda ou a direita, não é fanática por uma pessoa.

E o que está acontecendo com os moderados?  Está ficando cada vez mais difícil defender os progressistas.  Embora não seja a favor da proibição, a tal exposição do Santander era uma boa porcaria.  Os caras criticaram uma ação policial que impediu um roubo a residência e terminou com 10 bandidos mortos!  O que eles pensam?  Que um cara com um fuzil na rua quer conversar?

Mas aí os caras chegam ao fundo do poço.  Defender idiotas que acham que escrever palavrão em hóstia é arte, vá lá, mas pedofilia?  Sim, não tem outra palavra, o que ocorreu no MAM de São Paulo foi isso.

Tem tara pra tudo, se esse pessoal quer fazer uma suruba num museu e conseguiram isso, ok sejam felizes.  Eu quero entrar para o Mile High Club.  Mas não envolvam crianças com isso!  “Mas a mãe tava junto” você pode dizer.  Bom, se os pais sempre soubessem o que é o melhor para os filhos não precisaríamos de conselho tutelar, certo?

Não proibiria que um monte de gente ficasse tocando num cara pelado.  Macaquinhos

(Não clique, NSFW, NSFL) é muito mais chocante.  Mas não envolvam crianças.  Proíbam sim a entrada de crianças nesse tipo de coisa.

Quando a esquerda defende essas coisas, pessoas moderadas como eu não querem ser confundidas com eles.  Isso me joga mais um passo para a direita.  Eu tenho sobrinhos, não tolero pedofilia em forma nenhuma.  E onde essas pessoas vão encontrar quem atenda seus anseios por ordem?  Pois é, no cara da foto ali.

“Ah, mas o MBL” qual é né?  Eles são especiais mas muito amados, mas mesmo um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes por dia.  E nessa vez eles estavam certos.

Se a esquerda continuar nessa coisa de defender criminosos e crimes, melhor começar a levar a sério a frase dos bolsomínions e Jair se acostumando.

Fontes:

Sou preguiçoso, o que não tá linkado veio tudo da wikipedia.

 

Publicado em Reflexões | Marcado com , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário