Não deixem o KC-390 ser um novo Osório

Osório 1

Eu adoro essa foto por motivos pessoais: Ela foi capa de uma Revista Verde-Oliva lá nos anos 80 que meu pai sempre que podia trazia pra mim.

Nos anos 80 havia uma empresa brasileira chamada Engesa que obteve razoável sucesso na fabricação de blindados. Foi ela quem fabricou os blindados Cascavel e Urutu que ainda hoje servem ao Exército Brasileiro.

A Engesa era de capital nacional e 100% privada.  Capitalizada pela venda desses blindados ela decidiu dar um passo a frente e começou um projeto ambicioso do que então se tornava conceito nos exércitos de um MBT (Main Battle Tank).  A Engesa identificou uma demanda do Exército Saudita que pretendia retirar seus tanques franceses dos anos 70 de uso e se reequipar com um modelo novo adequado as necessidades da nova década.

A Engesa se meteria em uma briga de cachorros grandes.  Foram apresentados aos sauditas outros três veículos:  O Americano Abrahams M1A1, o Inglês Challenger e o Francês AMX-40.  Os três países são tradicionais fabricantes de blindados sobre lagartas e a Engesa era conhecida no oriente médio como fabricante de blindados sobre pneus.  Eles teriam que caprichar.

E capricharam.  Após recusas nas vendas de projetos prontos pelos alemães, a Engesa resolveu tocar sozinha o projeto e mandou seus engenheiros procurarem o que havia no estado da arte para esse projeto.  O EE-T1 Osório nasceu unindo o que havia de melhor que puderam encontrar.  O motor seria da alemã MWM, suspensão hidropneumática Dunlop, torre da Vickers britânica, canhão de 120mm francês etc.

A torre era estabilizada, o que significava que enquanto o chassi passava pelas diferenças de topografia, a torre mantinha-se fixa, fazendo com que o canhão não se perdesse do alvo.  Em uma batalha de tanques quase sempre quem acerta primeiro vence.  O Osório tinha um índice de acerto no primeiro disparo de impressionantes 95%.

Para se defender o Osório trazia silhueta baixa e angulações de modo a defletir os projeteis disparados além de blindagem feita em material compósito metal-cerâmico.  Trazia lançadores de granadas de fumaça para se esconder.

O Osório trouxe sistemas óticos e eletrônicos de última geração.  Era capaz de proteger sua guarnição mesmo operando em teatros de operação onde houvessem agentes químicos, nucleares ou biológicos.

Nas provas de campo do exército saudita foram reprovados os dois europeus na disputa.  Foram declarados passíveis de compra o Osório e o Abrahams.  Os brasileiros cantaram vitória pois o Osório tinha algumas vantagens sobre o americano:  Seu motor a diesel era mais barato e funcionava melhor no deserto do que a turbina do americano.  Isso sem falar na manutenção.  Seu índice de acerto era excelente, o Osório era o mais leve dos tanques, mas na prova de reboque puxou o Abrahams que era o mais pesado de todos.  O exército saudita pretendia comprar mais de 700 unidades.

Osório 2

No entanto, os americanos usaram seu peso político e também o fato do Abrahams já ser equipamento do exército americano, com linha de montagem estabelecida (a Engesa só tinha protótipos do Osório até então) o que levou os árabes a terem um certo receio sobre o veículo brasileiro.  Assim, o MBT americano acabou sendo o escolhido.

O Osório era tão no seu tempo que mesmo hoje, seus protótipos estão incorporados ao Exército Brasileiro e são o melhor blindado no inventário da nossa força até hoje.  A Engesa gastou muito no projeto desse blindado e não obteve retorno porque ninguém comprou, nem mesmo o Exército Brasileiro.  Ele chegou a ser oferecido ao Iraque, poderíamos ter tido no campo de batalha o confronto Osório x Abrahams, mas a Guerra do Golfo veio antes e o Brasil parou de fornecer equipamentos para o Iraque.  Assim, a Engesa acabou por ir a falência.

Me chamou atenção uma matéria publicada no jornal o Globo em que a Boeing estaria interessada em vender o jato brasileiro KC-390 pelo mundo.  O KC-390 em muitas coisas lembra o Osório:  Desenvolvido no Brasil com equipamentos de última geração e aparecendo entre os melhores de sua categoria.

O KC-390 é um cargueiro multimissão.  Seu projeto foi financiado pela Força Aérea Brasileira para substituir o interminável e incansável Hércules.  É uma aeronave que pode levar cargas operando em pistas sem pavimentação e curtas, lançar cargas de paraquedas, lançar paraquedistas enganchados ou em salto livre, reabastecer aeronaves em voo e, se a Embraer me contratar desenvolvo um AC-390 que seria a coisa mais temida a se ver voando desde o A-10 Warthog.

KC-390-em-voo

Alguns erros do Osório não estão se repetindo.  Uma das coisas que os árabes estranharam na concorrência do Osório foi que o Exército Brasileiro não pretendia comprar o Osório.  Isso era por falta de grana, mas era no mínimo estranho uma arma desenvolvida em um país não ter as forças armadas daquele país como cliente.  No caso do KC-390 a FAB já anunciou a compra de cerca de 30 aeronaves, mais os protótipos.  Portugal também já anunciou a compra de algumas unidades, mas o número de pedidos firmes ainda não chegou a 100.  E o pessoal da Embraer está se esforçando em vender o jato.

Assim o KC-390 vai sair, vai ser produzido em série, mas com poucos clientes, pode ser que o número total de aeronaves fique pequeno tornando-o uma “mosca branca” nos céus do mundo.  Isso seria lamentável se considerarmos que a Embraer produziu uma excelente aeronave, assim como é lamentável ver o Osório apenas em protótipos.

Na reportagem, o que se sinaliza de positivo no acordo da Embraer com a Boeing seria a Boeing vender o jato brasileiro.  Assim o peso norte-americano que prejudicou o Osório poderia ajudar o KC-390.  Estima-se uma venda de cerca de 500 aeronaves com o acordo.  Nada mal.

Mas antes disso é preciso considerar se a Boeing não tem uma solução própria nesse nicho.  É irreal o KC-390 competir com o Globemaster, são segmentos diferentes, mas o interminável Hércules continua a ser fabricado pela Lockheed Martin, que terá mais apelo americano do que uma nova aeronave brasileira.  O protótipo do KC-390 voa ostentando um monte de bandeiras de países, se todos confirmarem pedidos, a aeronave poderá ter um número saudável de vendas.  A Boeing por sua vez participou do projeto do KC-390 desde o início, então seria interessante também a ela vender o jato.

De qualquer maneira, vamos ver o que acontece.  Tanto o Osório quanto o KC-390 são exemplos de um Brasil que funciona.  Apenas espero que o Brasil que não funcione sabote a parte que funciona.

Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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