Baby, I Can see your halo

Magnussen Halo

Não adiantou a gente gritar, espernear e nem mostrar que há alternativas melhores.  Para nosso desespero a Fórmula 1 tornou obrigatório nos carros de 2018 o uso do Halo, essa trapizonga bizarra como uma forma de proteção ao piloto.

Essa tira de sandália havaiana foi pensada logo após o acidente de Felipe Massa em 2009, onde ele foi atingido por uma mola oriunda do carro de Rubens Barrichello.  Essa mola, por azar do destino acabou por atingir o piloto no ponto mais fraco do capacete, na altura da viseira. Felizmente Felipe Massa pode se recuperar por completo desse acidente.

Mas será que isso funciona mesmo?  Eu não gosto do Halo e não acho que ele sirva para alguma coisa.  Resolvi avaliar os acidentes que me lembro com monopostos e não consegui achar muita utilidade para o Halo.  Vejamos:

1 – Rubens Barrichello – Ímola 1994:

Esse acidente ocorreu nos treinos de sexta-feira do fatídico GP de San Marino 94.  Serviu como um aviso do que viria depois.  A Jordan de Barrichello decolou ao atingir a zebra de lado na curva.  Com o voo do carro, ele foi direto para o guard rail atingindo-o acima da barreira de pneus, que no caso não serviu para nada.  Rubinho passou apenas alguns dias no hospital, mas ele teve muita sorte.

Sem pneus para absorver a energia do impacto, ela acabou distribuída para o carro e o piloto.  No segundo 10 do vídeo dá pra ver como o corpo do piloto se mexe dentro do carro.  Ao longo dos anos outras proteções laterais nos carros e principalmente o Hans para proteger o pescoço e a coluna dos pilotos fariam com que após esse acidente o piloto saísse apenas com o macacão sujo.

O Halo faria diferença nesse acidente?  Nenhuma.

2 – Roland Ratzemberger – Ímola 1994:

O talvez mais maldito GP da Fórmula 1 fez sua primeira vítima fatal no dia seguinte ao acidente de Rubens Barrichello.  Em 30 de abril de 1994, Roland Ratzemberger perdia o controle de sua Simtek, sofrendo uma sucessão de impactos.  A velocidade antes da batida era da ordem de 300km/h e onde ele bateu não havia proteção de pneus nem qualquer outra proteção senão o muro.  O carro veio se desmontando até parar no meio da pista.

Esse acidente acabou por chocar o público, pois havia muito tempo sem uma morte na Fórmula 1, e todo o atendimento médico e tentativas de ressuscitação do piloto foram transmitidos ao vivo para o mundo todo. Embora tenha sido declarado morto apenas no hospital, todo mundo viu que o piloto austríaco estava morto ainda dentro do carro.

O Halo faria diferença?  Nenhuma.  A célula de sobrevivência falhou no acidente.  Quando o carro para é possível ver o cotovelo do piloto, em uma área que nunca deveria quebrar.  Posterior a esse acidente muitas outras medidas de segurança mais eficazes como o safer barrier, o Hans e proteções laterais foram desenvolvidas.

3 – Ayrton Senna – Ímola 1994:

Talvez o acidente que mais choca o Brasil até hoje, a batida de Ayrton Senna vive até hoje em um meio de meias explicações, teorias de conspiração e muito mistério.  Segundo apuração do Grande Prêmio, um dos braços da suspensão dianteira da Williams do brasileiro se soltou no acidente e acabou por penetrar o capacete do piloto, atravessando na altura da viseira atingindo a cabeça do piloto pouco acima do olho direito.  Senna perdeu massa encefálica ainda na pista.  Segundo a médica que atendeu Senna no hospital em Bolonha, a morte cerebral do piloto ocorreu na pista.

O Halo faria diferença?  Talvez.  O impacto que matou Senna foi daqueles para o qual o halo se destina a evitar.  No entanto essa proteção não me convence que é capaz de fazer isso.  Pode ser que sim, mas pode ser que não.  E pela altura que ele fica, pode ser que ele acabe atrapalhando, defletindo os destroços que passariam direto na direção do piloto.

4 – Felipe Massa – Hungria 2009:

Foi esse acidente que deu origem a discussão sobre o Halo.  Durante a classificação para o GP da Hungria daquele ano, uma mola se soltou da Brawn de Rubens Barrichello que acabou colhida pela Ferrari de Massa.  A mola atingiu Massa na altura da viseira fazendo com que o piloto desmaiasse e batesse contra a proteção da pista.  Felipe Massa perdeu o resto daquela temporada da Fórmula 1, voltando a disputa em 2010 fisicamente recuperado daquele acidente.

O halo faria diferença?  A partir daquele acidente passou a se discutir formas de se proteger o piloto desse tipo de impacto.  O halo nasceu para isso.  No entanto, assim como comentei no acidente de Senna, o halo poderia tanto defletir a mola para longe do piloto como para áreas mais desprotegidas do corpo dele.

5 – Jules Bianchi – Japão 2014

Durante uma corrida com chuva e repleta de acidentes com a pista em péssimas condições de aderência e visibilidade, Adrian Sutil com sua Sauber saiu da pista sem gravidade.  Na volta seguinte, Jules Bianchi vinha em alta velocidade quando perdeu o controle de sua Marussia atingindo o trator que fazia o resgate da Sauber.  O piloto francês teve sérias lesões cerebrais, vindo a falecer meses depois do acidente.

O halo faria diferença?  Não.  Bianchi teve uma Lesão Axonal Difusa.  Esse tipo de lesão ocorre quando o cérebro se movimenta violentamente dentro da caixa craniana.  Isso ocorreu devido a brusca redução de velocidade sofrida pelo piloto.  Não havia halo que desse jeito, a única coisa que poderia salvar o jovem francês seriam amortecedores de inércia, que ainda não foram inventados.

Nesse acidente eu faço um adendo que ele era perfeitamente evitável e mostrou a incompetência da organização do GP do Japão.  Tivesse ocorrido em Interlagos, o GP do Brasil já teria sido limado do calendário.  Como, sob chuva, eles liberam a entrada de veículos de serviço na pista sem que entrasse o Safety car?  Isso foi de uma incompetência ímpar.  Para retirar carros acidentados em área de escape naquela situação, o Safety Car deveria ter sido acionado, até pelas condições de pista.  Depois desse acidente tudo o que a Fórmula 1 fez para melhorar a segurança foi criar o Safety Car Virtual (VSC) que não serve para nada.

6 – Justin Wilson – Pocono 2015

Vamos a Fórmula Indy:  Durante as 500 Milhas de Pocono, Sage Karam perdeu o controle do seu carro e em pistas ovais isso significa muro.  O carro atingiu o muro de traseira, sem gravidade.  Contudo, partes do carro se espalharam pela pista e uma delas, o horrendo para-choque traseiro do carro voou e acabou por acertar a cabeça de Justin Wilson.  O piloto foi hospitalizado mas acabou por falecer no dia seguinte.

O halo faria diferença?  Provavelmente.  Curiosamente, na Fórmula Indy que resolveu fazer resistência ao halo é onde achei um acidente onde essa trapizonga seria útil.  Vendo como os halos foram montados nos carros da Fórmula 1, imagino que ele seria capaz de proteger Justin Wilson do impacto que sofreu.  Mas veja bem, talvez, pois dependeria do ângulo do impacto da peça.

7 – Dan Wheldon – Las Vegas 2011

Naquele ano a organização da Fórmula Indy achou que seria legal encerrar a temporada com uma corrida no oval de Las Vegas.  O problema é que um oval de 1,5 milha com curvas inclinadas e com carros de alto efeito solo permite que você faça a volta inteira sem tirar o pé do acelerador.  Com isso os carros puderam andar muito próximos, em diversas linhas permitindo três a quatro carros lado a lado.  Um acidente era questão de tempo.  O Big One ocorreu na volta 10 com quase metade do grid envolvido.

Dan Wheldon foi quem se deu pior.  Ele não começou o acidente, mas teve que passar por ele.  Ao passar acabou colidindo com pedaços de outros carros, perdendo sua asa.  Com isso ele se tornou um míssil, voando em direção ao alambrado.  A cabeça do piloto acabou por se chocar contra uma das barras do alambrado, matando o piloto inglês.  A corrida foi encerrada ali mesmo, com os pilotos dando três voltas cerimoniais na pista em homenagem a Dan Wheldon.  Eu estava assistindo aquela corrida, acompanhei tudo, e depois foi de cortar o coração ver Tony Kanaan no Twitter, que era muito amigo do piloto inglês.

O halo faria diferença?  Sim.  Conforme essa análise o contato do capacete de Dan Wheldon se chocou contra dois postes do alambrado da pista.  O poste atingiu pouco acima do bico do carro e veio deslizando por ele até chegar no capacete do piloto.  O carro continuou se deslocando, o poste quebrou o santantônio do carro do inglês.  Se houvesse halo, o poste se chocaria contra o halo, deslocando o carro de volta para a pista conforme o formato da peça.  O que outros impactos fariam com o piloto eu não sei, mas a cabeça dele não se chocaria contra o poste.

Conclusão:

Continuo achando o Halo feio pra caramba e não vejo muita utilidade no mesmo.  Nos acidentes da Fórmula 1 eu não vi utilidade no Halo.  Mas vi na Fórmula Indy.  A Fórmula Indy contudo não está considerando o Halo, prefere uma solução mais elegante:  Um parabrisa que parece vindo dos aviões de caça:

Indy Halo

Acho essa proteção mais eficiente e elegante que o halo.  A indy realmente precisa estudar alguma proteção para os pilotos pois seus dois últimos acidentes teriam seus efeitos minimizados com alguma proteção.  Isso aconteceu na Indy 500 de 2017:

Castroneves

Fato é que, no fim das contas a estética tem que importar menos que a segurança e se salvarem as vidas de pilotos, podem colocar uma frente de Agile nos carros.

Anúncios

Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
Esse post foi publicado em Posts técnicos e marcado , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s