SOS tem um carro solto no espaço

Starman

Uma vez na outra empresa que trabalhei pegamos um projeto de um sistema de tratamento de água que consistia de quatro tipos de tratamento onde você poderia operar com eles em série, em paralelo e em diversas ordens para determinar qual a melhor combinação de tratamentos para pegar uma água de processo de refinaria e transformar em água de reuso.

A automação daquilo foi um pesadelo.  Tínhamos umas 160 portas digitais e mais umas 40 analógicas.  Basicamente líamos vazão, pressão e temperatura e tentávamos controlar isso comandando válvulas e inversores de frequência.  Apenas para isso o PLC era um armário lotado de cartões.  Fazer aquilo funcionar era um inferno, era um sistema trifásico, as unidades ficavam fora de fase e quando ligávamos o negócio parecia uma árvore de natal sem fazer absolutamente nada do que queríamos que ele fizesse.

Passei muitas horas para fazer aquela coisa funcionar.  Fiquei vários dias até as 23 horas no trabalho com o cara da elétrica e da automação (e por vezes apartando brigas entre eles).  No final aprendi bastante sobre controle e automação graças a coça que levamos desse equipamento.

É por isso que hoje quando eu vejo um piloto automático de um avião eu consigo pensar como aquilo funciona, recebendo dados de velocidade, altitude, atitude, arfagem e rolagem do avião, além de dados externos como os radiofaróis ou o sistema de ILS e atuar sobre as superfícies de controle e motores e assim fazer o avião voar e até pousar sozinho.

A automação de carros é bem mais complicada porque embora você tenha um eixo a menos (até 06/02/2018 carros não voavam), o número de variáveis a controlar é bem maior por causa de outros carros e da estrada.  Por isso estamos chegando lá em termos de carros autônomos, mas ainda não chegamos.

Um choque que você toma quando chega na faculdade de engenharia é que o curso de Física I é basicamente a física que te deu dor de cabeça no ensino médio e no vestibular.  Mas agora ela está piorada.  A segunda lei de Newton não é mais F=ma simplesmente.  Um problema clássico para te mostrar como o buraco é mais embaixo era o lançamento de foguetes.  Isso porque foguetes vão perdendo massa ao longo de sua subida, isso é significativo, não dá pra desprezar como você fazia no ensino médio, e agora a Força, ou impulso do foguete pode até ser constante, mas a aceleração não, pois a massa está variando.

Conforme você avança em seu conhecimento você vê que tem a resistência do ar, efeitos de compressibilidade, arrasto, sustentação, a temperatura influencia em basicamente tudo o que existe no universo.  Mas ver foguetes e aviões voando sempre me deixou maluco e é por isso que eu fiz engenharia.  E não, é impossível ficar indiferente ao que a SpaceX fez ontem.

Desde que eu soube que eles existiam, passei a acompanhar seu progresso.  Eu não conseguia acreditar que eles iriam lançar um foguete e pousar o primeiro estágio para reutilização.  Eu acho a ideia genial, a economia de custos é brutal, mas nunca tinha sido feito.

Fazer um foguete pousar é perigoso, ele desce escacetado do céu, você tem que reduzir a velocidade com os motores dele e arrasto aerodinâmico, orientar um charuto para ficar de pé com o vento querendo que ele faça justamente o contrário além de guiá-lo precisamente para o local de pouso.

É muita para controlar, são muitas variáveis para ler e muitos atuadores para comandar, em tempo muito curto, com velocidades supersônicas.  Por isso, até achei que a SpaceX conseguiria eventualmente pousar foguetes.  Mas não sem várias tentativas mal-sucedidas.

Eles não só conseguiram em menos tempo que eu pensei como começaram a pousar foguetes em balsas, onde o movimento do mar passa a ser mais uma variável.  Só de pensar na tonelada de sensores, variáveis, atuadores, códigos já me causa uma ereção.

“Não pode ser melhor” pensei.  Pode.  Imagina fazer isso três vezes.  Controlar a trajetória, velocidade e comportamento de um foguete que depois se divide em três, ao invés de descartar os foguetes usados, manobrá-los para pouso além do que sobrou continuar subindo para a órbita terrestre.

O Falcon Heavy basicamente começa como um foguete e termina com quatro foguetes sendo três para pousar na Terra e o quarto indo embora para fora da Terra. Tudo controlado, medido, atuado e informado.  Ver o lançamento funcionar é ver o engenho humano no seu melhor.

Essa coisa vai nos levar a Marte.  Graças a ela os custos para lançamentos serão menores.  Como haverá competição, os custos devem ficar menores ainda.  Ir ao espaço vai ser viável.  Talvez esse voo tenha sido o voo de Zefran Cochrane retratado em Star Trek.  Estamos lançando as bases para nos tornarmos uma espécie multiplanetária.

Como legado, o Falcon Heavy levou um carro, um Tesla.  Esse carro vai ficar orbitando o Sol lá pela altura de Marte.  Ele foi com um manequim astronauta de motorista e uma cópia do Guia do Mochileiro das Galáxias, importante para se viajar pelo espaço.  Subiu em grande estilo, tocando David Bowie e vai deixar os alienígenas ou arqueólogos do futuro completamente perdidos sobre o que diabos é aquilo.

Apenas pessoas de mente limitada não dão importância ou criticam o que vimos ontem.  A única chance que temos de sobrevivermos como espécie é sair do nosso mundo e seguir para as estrelas.  Ontem vimos isso ficar mais perto.

 

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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