A outra rede quer corrigir o Papa. Estão atrasados, aqui no Twitter já o mandamos ler a Bíblia.

Papa-Francisco

Dia desses me chamou atenção um post no Facebook que compartilhava uma carta que mandaram ao Papa Francisco. A carta, em tom grave mas utilizando-se de eufemismo como sempre fazemos para dar más notícias, chama-se “Correção Filial” ou Correctio filialis de haeresibus propagatis, mas na verdade uma galera se juntou e fez uma carta de 25 páginas para basicamente dar uma bronca no Papa.

Assinam essa carta 40 clérigos católicos e leigos eruditos.  Essa turma, da qual não questiono a competência ou o conhecimento de nenhuma delas, está insatisfeita e acusa o Papa Francisco de propagar heresias em sua Exortação Apostólica “Amoris laetitia”.  Eles dizem que o Papa Francisco se aproximou das ideias de Martinho Lutero sobre o casamento e divórcio e que estaria permitindo que católicos vivam em adultério.  Pode ser.  Mas vamos pensar um pouco:

O casamento católico é indissolúvel.  Você pode se divorciar de sua esposa ou marido no civil, mas perante Deus, segundo a doutrina da Igreja, você está casado com aquela pessoa até que a morte os separe.  Se por um acaso você se separar da pessoa com a qual se casou na igreja e passar a se relacionar com outra, você está em adultério.

Adultério é pecado mortal.  Vivendo em adultério você fica afastado dos sacramentos da Igreja.  Não pode comungar por exemplo.  E se morrer, terá uma passagem de primeira classe direto para o inferno.  Isso claro, segundo a letra da lei.  Não sabemos se as coisas são bem assim.

Uma vez passei por uma situação bem constrangedora porque eu, frequentador da Igreja Católica, acompanhei o rito de sucessão de João Paulo II, afinal, foi a primeira vez que eu vi a troca de Papa.  Como sabemos, o bondoso Karol Wojtyla foi sucedido pelo alemão Joseph Ratzinger (Bento XVI) que durante o pontificado de João Paulo II, conforme descobriu da pior maneira Leonardo Boff, era um cão de guarda em defesa da doutrina católica.  Pois bem, eu namorava uma garota cuja mãe não morava mais com o pai dela, morava com outro cara.  Com a notícia da eleição do novo Papa, o Fantástico dizia que ele era extremamente conservador e que isso dificultaria a vida de católicos em segunda união, como o caso dela, que seriam tratados como adúltero.

“Então eu sou uma adúltera?” Ela me perguntou.  Tecnicamente era, mas chamar sua futura sogra de adúltera não é muito saudável para seu relacionamento.  Preferi ficar quieto e mudar o assunto para o jogo do Fluminense.

Talvez o Papa Francisco esteja indo além do que essas pessoas conseguem enxergar.  Talvez o Papa, ao invés de milhares de páginas de código canônico e doutrina, tenha ido para algo mais simples:  Os Evangelhos.  Ser Cristão é, em essência, ser um imitador de Cristo.  E o melhor lugar para se saber o que Jesus fez está nos Evangelhos.

Jesus não curtia muito exatamente o tipo de pessoas que esses 40 estão bancando:  Os fariseus e os doutores da lei.  Estudar as escrituras, os documentos da Igreja é muito legal e é por isso que eu não ousaria questionar os argumentos deles.  Mas quando se faz isso, é preciso tomar o devido cuidado de não se perder a essência de tudo isso e se tornar um Fariseu, impondo fardos ao povo, fardos esses que talvez nem eles mesmos queiram carregar.

A questão do casamento me intriga bastante. Segundo a Bíblia, apenas um pecado não tem perdão, que é a Blasfêmia contra o Espírito Santo (Mc 3, 28-30).  Dentro da Igreja Católica para obter o perdão de qualquer pecado é bem simples:  Arrepender-se dele e confessar a um sacerdote.

Tráfico de drogas? Sim. Aborto? Também. Homicídio? Basta ir ao padre da esquina confessar e estará perdoado.  Todos esses pecados são mortais, te dão uma passagem  para o inferno, mas o ato de se confessar cancela seu voo para as trevas.  Isso também vale para o adultério.  O problema é que quando você está morando com outra pessoa que não a que você se casou, ao voltar para casa depois do padre, você volta a cometer o adultério.  Isso acaba tornando esses casos numa situação de pecado imperdoável.  Os traficantes e assassinos podem ir para o céu.  O cara que cometeu um erro ao casar com uma pessoa e depois só quer ser feliz, esse não.

Eu contei nesse blog a história da senhorinha nas Bodas de Ouro.  É justo viver assim?  Por conta de uma decisão errada na juventude você tem que ou condenar sua vida terrena ou sua vida eterna?  Antigamente as mulheres aceitavam maridos babacas como fardos na vida.  Hoje, elas não querem mais e estão certíssimas nisso.  Vamos ferrar a vida de pessoas que apenas querem ser felizes?

A Igreja precisa acompanhar isso.  Não é banalizar o casamento ou qualquer outro relacionamento e aceitar a ideia vigente em que relacionamentos são como as muambas que compramos no Ali Express que se deu um problema é melhor jogar fora e comprar um novo do que tentar consertar, mas também admitir que há coisas que não tem conserto e que as pessoas não podem ser condenadas a viverem infelizes ou sozinhas por algo assim.  O Papa Francisco sacou isso e resolveu dar alguma direção nesse sentido.

Talvez os caras que queiram corrigir o Papa estejam certos.  Mas eu sempre penso que, se Jesus nascesse nos nossos dias e começasse hoje sua pregação, ele andaria com essas pessoas ou com aqueles que as religiões se esforçam por excluir?

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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