Orphan Black ou como fazer ficção científica boa e barata

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Ilustração que resume o que você precisa saber sobre a série para começar a ver. Brilhantemente desenhado e diagramado por Nathalia

Não sou um grande fã de seriados.  Prefiro filmes.  Se eu não tinha paciência para acompanhar novela, também não teria para acompanhar séries.

Séries pra mim tem um problema básico que é intransponível:  Eu gosto de ver coisas explodindo, tiroteio, efeitos especiais.  Não dá pra fazer isso numa série.  Você vai gastar muito dinheiro, não vai ter retorno, a série será cancelada e você perde o emprego.  Uma vez eu vi que o que pessoal esperava das séries da Marvel feitas pela Netflix era um Vingadores por semana, sob pena da série ser ruim.  Confesso que eu queria sim um Vingadores por semana.  Para se ter uma ideia de como sou com séries, comecei a ver The Last Ship porque achei a história bacana e achava que era um filme.  Quando vi que era uma série, já era tarde demais.

Não quero dizer com isso que séries são uma merda, longe disso.  Eu mesmo vejo várias:  Estou vendo Black Sails, sempre assisti Star Trek, gosto de várias animadas (Simpsons, Family Guy, South Park…) e não tenho absolutamente nada contra fãs de seriados, desde que não me obriguem a ver essa ou aquela série.

Pois numa dessas, naquele catálogo imenso da Netflix onde eu não estava achando um filme para assistir naquele momento, e o algoritmo de sugestão da Netflix consegue ser mais pessoal que o do Facebook e  me apresenta uma tal de Orphan Black.  Produção canadense.  Ok, por produção canadense eu sempre penso nisso:

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Aos fatos:  A série começa com uma garota chegando à estação de trem e vendo outra se atirando na frente de um trem.  Eu, detalhista quando quero ouço que o trem vinha de NY, e vou eu ver se tem linha de trem entre Toronto e NY (esse trem existe e leva 13 horas de viagem). Com a particularidade que a garota era idêntica a ela, exceto pelo estilo de se vestir e cabelo.  Beleza, agora eu teria que ficar assistindo para saber porque a outra se matou e porque elas eram tão parecidas.

O roteiro é bem amarradinho, logo você descobre (isso não deve ser considerado como spoiler, você descobre no primeiro episódio) que as garotas são iguais porque são clones e mais, não tem só duas clones.  A partir dessa premissa você cai em uma grande história de brincar de Deus mexendo com o DNA, reprodução humana, human tunning e fanatismo religioso numa brincadeira que te leva a ver  um pouco de mitologia até revisitar clássicos da literatura de terror.

Os personagens são fortes, entre as clones tem de tudo:  a garota que chega na estação é a roqueira revoltada que depois de anos de sexo, drogas e rock and roll quer dar um jeito na vida.  A que se matou era policial, há mais clones, uma nerd de laboratório, uma típica mãe de subúrbio americano e a personagem mais louca que você vai ver em toda a série.

Os outros personagens que não são clones são um espetáculo a parte:  tem o irmão esquisitão, o maridão trouxa, a badass que quer resolver tudo na bala, e olha que só falei dos mocinhos.  Entre os vilões tem também de tudo, inclusive é claro, o vilão que você não sabe bem se é vilão.

Essa série fez um baita sucesso com lésbicas porque o par romântico principal da história é um casal lésbico.  Mas se você quer ver tórridas cenas de sexo entre elas, tire seu cavalinho da chuva.  Se você quer ver empoderamento e lacração esqueça também.  Elas formam um casal mas não dão a mínima para militância, apenas querem viver suas vidas.

Mas vamos falar do orçamento:  Apesar da série tratar de vários temas legais da ficção científica, não precisa de um grande orçamento.  Ora, todo mundo sabe o que é DNA e que ele é pequeno, portanto não precisa montar um nem de MM´s

A máquina incrível que você coloca um fio de cabelo e sai o DNA completo, sequenciado e mostrando se você é uma clone ou se aquilo é só pelo de gato instantaneamente, nada mais é do que um PC.  Talvez a coisa mais cara que a produção tenha alugado foi um helicóptero, mas isso nem de longe é demérito para a série.

Eu disse que eu quero um Vingadores por semana, mas eu sei que não dá para ter um por semana.  E para o orçamento a série se vira bem. Você não vê dinheiro faltando.  Ninguém inventou o tele transporte porque a grana não deu para fazer a nave auxiliar (mas a série tem um Scotty.  Ficção científica boa tem que ter um Scotty).

A série é tão austera que economiza até no elenco.  Para fazer as clones basta uma atriz.  Assim ela fica com o maior salário da folha, mas ainda é mais barato do que pagar 10 atrizes. E escalaram uma das boas.  A canadense Tatiana Maslany se supera batendo o escanteio e cabeceando para o gol.  Ela troca entre as personagens com naturalidade, inclusive com trocentos sotaques diferentes, do britânico ao ucraniano.

O baixo orçamento não é demérito para a série, pelo contrário é sua maior virtude.  Se dessem muito dinheiro para a produção, provavelmente inventariam rebimbocas da parafuseta e tirariam o grande trunfo que é uma boa história.  E com atores desconhecidos do grande público, mas extremamente competentes, a história acaba por te prender.

Não sei os números de audiência que a série tem, passa na TV normal na BBC America, nem o número de visualizações na Netflix.  Mas a série chegou a sua quinta e última temporada com fãs que realmente gostam e assistem aos episódios e por isso terá um final decente. Você não Sense8.

Quer assistir?  Netflix!  Todas as temporadas estão disponíveis.

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Poderia ser usado como divulgação da quinta temporada, mas o orçamento da série já tinha estourado e não contrataram a artista. Sabe quem? Acertou!

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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