Os dois minutos de ódio

Ingsoc

Quando li 1984 uma coisa que me chamou muito a atenção foram os tais dois minutos de ódio.  Todo dia os ingleses tinham que se reunir em cinemas onde eram projetados filmetes incitando a população ao ódio.  Algo como isso aqui, do filme 1984:

As imagens variavam, desde o inimigo da vez, Eurásia ou Lestásia a preferida do Grande Irmão, o traidor do partido Emmanuel Goldstein.  Todos eram obrigados a participar dessa seção diária de ódio, mas o mais impressionante era que após 30 segundos de ódio você não estava mais lá por obrigação, mas o ódio presente lhe fazia querer ficar.  As pessoas se exaltavam, gritavam, ficavam com desejo de vingança, de matar.  Após essa incitação, vinham imagens patrióticas e do Grande Irmão.  E você saía dos dois minutos de ódio com desejo de matar os inimigos e traidores da Oceania.

Já vinha pensando nisso há algum tempo ao ver o extremismo que as pessoas tem quando se fala em algo como política ou futebol, mas no mesmo dia me deparei com duas coisas.  A primeira, esse Twit da Chef Paola Carosella:

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Tudo o que a cozinheira argentina fez foi postar a lei que dá o direito de greve ao cidadão.  A resposta?

paola_carosella-3

Repare na agressividade do sujeito.  Respondendo a uma transcrição de um artigo de uma lei.  Claro, é só um valentão de teclado, sujeitos desse tipo normalmente falam fino até diante de um poodle toy, mas precisa disso tudo?  Se você não concordasse com a greve geral, há argumentos bastante razoáveis para se usar.  O próprio @ceticismo usou da mesma lei em outros artigos para mostrar que a greve poderia sim ser ilegal.  Sem ofender ninguém, apenas com argumentos.

Claro, o cara chamar uma mulher de vagabunda só porque não concorda com ela e não tem argumentos para rebater é normal (não deveria, mas é).  Mas mostra como as pessoas vivem na ignorância e concordam ou discordam de coisas sem sequer saber, apenas seguindo outras pessoas.

Outro exemplo:  Esse comentário num post no Blog do Flavio Gomes:

Escort

O post só falava do Escort XR3.  Um cara disse que não achava o carro lá grandes coisas.  Opinião dele.  O tal Carlos chegou de voadora no peito apenas porque o pai do Stan não acha o XR3 um Escort muito melhor que os Escorts normais.

De onde veio isso?  Por que as pessoas estão tão agressivas na internet?  Um motivo é óbvio:  Muita gente ainda acha que a internet é terra de ninguém e tudo o que se faz lá fica impune.  Xingar pessoas na internet parece ser tranquilo porque ainda não inventaram uma forma de um soco sair da tela e atingir em cheio o nariz dessas pessoas.

A outra tem a ver com o 1984.  Não somos obrigados a ir ao cinema assistir a dois minutos de doutrinação violenta, mas parece que queremos isso.  Quantas pessoas seguem o Lula no Twitter apenas para ficar com raiva do que ele posta ali?  E quantas pessoas de esquerda seguem o Roger do Ultraje, o  Danilo Gentili ou sei lá mais quem apenas pelo mesmo motivo?

Nós procuramos os nossos dois minutos de ódio.  Queremos ter raiva, queremos ter o desejo de matar, de vingança.  Isso nos torna pessoas piores.  Se você odeia (insira aqui seu político preferido de odiar), as possibilidades de que você faça algo que realmente afete essa pessoa são mínimas.  O que acaba acontecendo?  Você faz com outras pessoas que não tem nada a ver com isso.  E é daí que surge o trânsito selvagem, pessoas agressivas e antipáticas, e muito do que vemos de ruim por aqui.

Todo mundo tem o direito de odiar.  Seja quem for.  Mas quando você faz disso a motivação da sua vida, coisas boas provavelmente não irão acontecer.  Haja visto a situação em que estamos vivendo hoje, se estivéssemos na Nova York dos Caça Fantasmas, Vigo já teria dominado a Terra.

Já que estamos nos anos 80, seria melhor se tentássemos um pouco da filosofia de Bill e Ted:  “Be excellent to each others and… Party on Dudes!”

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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