Honra nos céus

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Era mais um dia de outono na Alemanha de 1943.  O frio já dava a tônica, mas enquanto as operações terrestres ainda estavam bem longe da Alemanha, a cada dia mais bombas aliadas caíam, cada vez mais perto de Berlim.

O Tenente Franz Stigler pousa seu Messerschimdt Bf-109 após mais uma missão de defesa do território alemão.  Veterano, já prestara apoio aéreo a Rommel na África, lutara na Sicília e na Batalha da Inglaterra.

Stigler era um ás.  Tinha confirmadas 22 vitórias em combates aéreos.  Mais uma e ele receberia a Cruz de Cavaleiro, honra dada a pouquíssimos pilotos.  Por conta disso, seus colegas de esquadrão e seu comandante aguardavam ansiosamente a notícia de seu 23º abate.  Quando saiu do avião, seu comandante já o interpelava ainda no campo:

– Conseguiu?

– Não senhor.  Esses bombardeiros americanos são uma desgraça.  Você pode gastar toda a munição em um, acertar todas as balas que essas coisas continuam voando!

– Você vai conseguir.  Tem muitos bombardeiros para atirarmos – Tranquilizou o comandante lhe dando um tapinha nas costas.

De súbito, começa uma agitação no campo.  Um barulho alto de hélice e de repente passa sobre o campo um B-17 deixando uma trilha de fumaça no ar.  O comandante grita para o pessoal da manutenção para rearmar e reabastecer o Bf-109 de Stigler e diz:

– Franz, vá buscar sua cruz!

– Jawohl herr kommandant!

Assim que os mecânicos terminaram, Stigler pulou em seu Bf-109 e ganhou os céus.  A fumaça ainda indicava a direção do bombardeiro inimigo.

– Relatório de danos! – Perguntava o comandante do Bombardeiro.

– Perdemos os motores 2 e 4.  O 3 funciona a 40%.  O rádio já era, a torre inferior está travando.  Sinceramente Charlie, não sei como ainda estamos voando.

– Doc, onde estamos?

– Não sei capitão.

– Mas esse é o seu trabalho aqui diabos!

– Aquela maldita flak que estourou aqui no nariz.  Não faço ideia de onde estamos desde Bremen.  E a essa altura os nossos amigos já estão tomando uma na Inglaterra.

– Pode me dizer pelo menos pra que lado fica a Inglaterra?

– Sinto muito senhor, estava cuidando do Ecky.

– E como ele está?

– Morto senhor.   Perdemos uma parte da cauda.

De repente o artilheiro da torre inferior entra no intercomunicador:

– Estamos passando sobre um campo de chucrutes!  Pra onde estamos indo?  Berlim?

O bombardeiro estava difícil de comandar.  Praticamente sem motores, com as superfícies de comando traseiras danificadas.  Desorientados e sozinhos, sequer sabiam para onde deveriam ir.

– Temos que ir para o Oeste, pra que lado está o Oeste?

– Não consigo nem ver o sol capitão. – respondia um assustado copiloto.

– Kraut! 3 horas baixo!

“Então é assim que termina”  Pensaram os 9 sobreviventes do bombardeiro.

Stigler sabia como se aproximar dos bombardeiros.  Sabia os pontos fracos do B17 e por onde não poderia ser atacado.  Veio por baixo pois a torre inferior quase sempre dava problema, isso quando o ocupante dela ainda estava vivo.

Quando se aproximou do bombardeiro percebeu dois motores parados, fumaça saindo, a cauda semidestruída, faltavam partes da fuselagem.  Conseguia ver os tripulantes do B17.  Estavam apavorados e feridos.  Vendo os canos das metralhadoras de ré arriados, sabia que o artilheiro da cauda estava morto.  Os americanos atiraram nele.  Mas disparavam a esmo, não tinham mais capacidade de fazer qualquer coisa.

Stigler então se aproximou pela cauda.  Colocou o bombardeiro na mira.  Poderia dar um fim ao sofrimento dos americanos e ganhar sua medalha.  Mas via os homens se movendo lá dentro, via os estabilizadores e o leme se moverem apesar dos danos.  Aquela aeronave ainda estava viva.

“Vamos, por que ele não atira?” pensava o artilheiro da direita.  De repente viu o alemão se aproximar e virar, antes que ele pudesse fazer uma boa mira.

Stigler fez essa passagem para avaliar melhor o estado do bombardeiro e tentar sinalizar para que o seguissem.  “não há honra em matar homens desarmados e feridos”  Pensava.  Se aproximou da cabine e começou a gesticular com os tripulantes americanos.

– Só atirem no alemão quando eu mandar! – Ordenava Charlie. – Ele está querendo dizer alguma coisa.  Mas o quê?

O piloto alemão tentava sinalizar para que o B17 o seguisse.  Pensava em fazê-los pousar e serem capturados.  Como os americanos não respondiam, pensou então em leva-los para a Suécia, onde poderiam receber cuidados médicos e ficariam lá até o fim da guerra.  Mas o bravo bombardeiro não mudava o curso.

– Flak à frente. – Disse o copiloto americano.

Stigler ao lado também viu os disparos.  Formou com o bombardeiro.  Lá embaixo os alemães não entenderam porque um caça deles estava escoltando um bombardeiro americano, mas cessaram fogo.

– Esse alemão miserável está nos protegendo! – Disse o navegador.

– Era só o que faltava. – respondeu o bombardeiro  – Se contarmos isso lá na base ninguém vai acreditar…

Os dois aviões conseguiram se comunicar rudimentarmente por gestos e Stigler os guiou até o Mar do Norte.  Quando viu que os americanos estavam seguros, olhou para o piloto do bombardeiro e prestou uma continência.  Foi retribuído.  Logo depois fez a volta e retornou para sua base.

– Estamos apenas com um motor e meio pessoal. – Disse Charlie. – Vamos aliviar o peso. – olhou pela sua janela e completou: –  Muito obrigado amigo.

Quando Stigler voltou ao campo encontrou novamente seu comandante:

– E então Franz? Posso chamar o Himmler para lhe entregar sua cruz?

Franz então contou ao comandante o que ocorreu.  O comandante disse:

– Meu Deus Franz!  Você pode ser fuzilado por isso!

– Comandante, meu instrutor me dizia que se eu atirasse em alguém com um paraquedas ele mesmo atiraria em mim.  A situação daqueles homens era a mesma de um piloto que saltou de paraquedas.  Não havia honra em matá-lo.

– Em atenção a nossa amizade, Franz, diga em seu relatório que o bombardeiro americano não foi localizado.  Diga que sumiu nas nuvens, sei lá.  Isso fica entre a gente.

Os americanos por sua vez pousaram em uma base da RAF e contaram para o comandante britânico o que ocorrera.  O inglês lhes disse:

– Nós ensinamos aqui que se você é um ser humano, você não entra num cockpit alemão!  Se essa história vazar, nossos pilotos começarão a ter pena dos pilotos alemães!  Faz ideia do dano que isso pode causar a essa guerra?  Vamos manter essa história em sigilo.  E se você quiser manter seu amigo alemão vivo, melhor fazer o mesmo.  Se o comando nazista souber disso, seu novo amigo será fuzilado.

Ambos aviadores continuaram sua carreira.  Stigler voou ainda diversas missões, inclusive com o moderno jato Me-262.  Mas nunca conseguiu sua Cruz de Cavaleiro.

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Apesar dos diálogos serem puramente ficcionais, essa história de fato ocorreu na Segunda Guerra Mundial.  Após a Guerra, Stigler foi morar no Canadá, e tanto ele quanto Charlie se esforçaram bastante para se encontrar.  Eles se encontraram em 1990 e permaneceram amigos até o fim de suas vidas em 2008.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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