Nossos amigos não humanos;

Snarf

Muitas vezes nossos amigos não tem tempo para nós, ou simplesmente não querem nossa companhia no momento em que queremos ou precisamos. É natural, nós fazemos o mesmo com nossos amigos. Pior ainda, as pessoas tem o dom de fingirem ser nossos amigos quando na verdade não o são, e só procuram tirar vantagem.

Por isso muitas vezes ter amigos de quatro patas é bem melhor do que amigos com dois pés e que calçam sapatos.  Ao contrário dos humanos, cachorros não estão preocupados com o seu programa de TV ou em ficarem sozinhos, ou em tirar vantagem.  Por isso acabo tendo mais em conta nossos fiéis caninos do que muitas pessoas.

Desde criança sempre gostei de animais.  Adorava conviver com eles, lá em casa sempre teve gato, galinha, cachorro… brincava com eles sem medo e, claro, como criança, nem sempre o que eu gostava de brincar era o que os animais queriam.  Mas enfim.

Por conta disso, sempre que vejo um cachorro, minha reação natural é tentar ser amigo dele.  E já percebi que tenho um certo magnetismo animal pois nas casas que vou que tem cachorro, normalmente eles acabam por me procurar pedindo atenção.  Como ele é retribuído, acabo por ganhar um amigo.

Assim tenho vários amigos de quatro patas que latem: Tem o Dunga, do meu tio, que quase sempre sai comigo para o trabalho, desce a rua comigo e depois seguimos, eu para o ponto de ônibus, ele para encontrar os outros amigos dele.  Tem o Zequinha, que vai na igreja com sua dona todo domingo quando estou limpando a igreja.  Ele sempre atrapalha as orações da dona querendo brincar comigo.  Tem a Jujuba do Zangief que é bem bruta e é preciso se apoiar bem para brincar com ela.

Já consegui até dobrar cachorros que não tem muitos amigos.  Quando todo mundo achava que eu seria hostilizado pela Nina da Nathalia, eis que, se não sou amigo dela, ao menos somos colegas, pois já brincamos juntos e convivemos em paz.  Tem o Puff do Jean também que, não sei o que fiz pra ele que ele sempre procura minha companhia.

No entanto nada supera a amizade que você faz com seu próprio cachorro.  O seu cachorro tem ciúme, cheira você procurando por rastros de outros animais querendo saber o que você andou fazendo.  Mas eles também protegem você, mesmo quando eles não tem a menor chance de sucesso.

Assim como a maioria dos animais que viveram lá em casa, o Snarf chegou lá como um rejeitado. Teve uma infância difícil, sei lá porque quem ficou com ele de filhote batia nele. Mas por bater, entenda que esse cachorro deve ter sofrido, pois as sequelas que ele tinha quando chegou lá em casa mostravam que ele pode ter passado por um campo de concentração.

A vida dele começou a mudar quando uma amiga da minha irmã o adotou.  No entanto, por outros problemas, não puderam ficar com ele.  Eis que ele foi parar lá em casa e, assim como os gatos e cachorros que almas que, espero sofrerem de igual abandono num futuro próximo, abandonaram próximo a minha casa, lá ficou enquanto se procurava outro lar.

Assim o encontrei pela primeira vez.  Abri o portão de casa para entrar e lá estava ele.  Me olhou e, assim como qualquer cachorro, tratou de cheirar minhas pernas para saber quem eu era.  Depois não me deu mais muita ideia.  Ele ainda estava se adaptando ao local.  Mas com o passar dos dias, acabamos por nos tornar amigos afinal, estávamos convivendo na mesma casa.

Ele tinha suas particularidades como todo cachorro.  A mais legal é que na hora de passar a mão na cabeça dele, ele mesmo fazia o trabalho.  Tudo o que você precisava fazer era colocar a mão perto dele e ele se encarregava do resto.  Claro que isso deu a ele a vantagem de, onde quer que você coloque a mão, ele tentar – e conseguir – que você passasse a mão na cabeça dele.

Como bom brasileiro, gostava de bola.  Bastava arrumar uma bolinha que ele saia correndo para apanhá-las.  Ele não devolvia, você tinha que tirar dele.  Mas era um câo tão dócil que você não teria medo de fazê-lo.  Se ele fosse para a rua com os garotos jogando bola, ele entrava no jogo, pegava a bola e voltava para a casa correndo com a bola pendurada na boca.

Os anos foram cruéis com o pobre Snarf.  Mais cruéis do que precisavam ser.  Nunca precisei levar tanto um cachorro ao veterinário.  Mas a Dra Beatriz, que cuidava dele desde os antigos donos, adorava o bichinho.  Nunca esqueci quando ela disse não entender porque ele foi tão maltratado se ele era um cachorro perfeito para cuidar pois nunca se opunha a nada.  Depois disso ela o fez tossir pressionando a traqueia.  Me disse para, se eu fosse fazer isso, tomar muito cuidado pois com muita força poderia mata-lo.  Nunca nem tentei.

Snarf teve inúmeros problemas, perdeu a visão.  Teve uma hérnia, foi mal operada, acabou ficando com o traseiro de cachorro mais esquisito do mundo.  Mas estava sempre lá.  Seu ímpeto em me receber diminuía, mas sempre estava lá, chorando quando eu chegava.  Se batesse na perna ele ainda ficava sobre duas patas.  Ultimamente, com a obra lá de casa e a infernal Makita, achamos que ele estava ficando surdo também.

No entanto, seus rins eram seu ponto fraco.  Pouco tempo atrás, ele sequer se movia.  Levado ao veterinário, constataram que seus rins estavam paralisados.  O veterinário sugeriu a solução final. Preferimos tentar de outra forma.  Com antibióticos descobrimos que ele tinha uma infecção e seus rins voltaram a funcionar.

Mas um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.  Logo seus rins parariam de novo.  Dessa vez não teve antibiótico, não teve muita coisa.  Em primeiro de novembro de 2014 o velho Snarf, 14 anos depois, resolveu nos deixar.  Escolheu para morrer uma data irônica.  Era para o dia ficar marcado como outro daqueles em que cumpri uma meta de vida.  Semelhante ao 2 de Abril de 2013 quando embarquei para Nova York.

Eu consigo listar pelo menos uma dúzia de pessoas que preferia que fossem no lugar dele.  Mas eu não faço essas regras.  Tudo o que posso fazer é ficar triste por perder meu amigo de quatro patas e pelo cinza.  Que ele esteja num lugar melhor.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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