Quando eu disputei eleições

Urna

E o clima eleitoral nunca foi tão acirrado, as pessoas dos dois lados nunca estiveram tão aguerridas por seus candidatos em muito tempo.  Talvez só em 89 com o duelo Collor x Lula.  Mas uma vez eu senti na pele o que é uma campanha disputada.

Fui educado em uma escola que guardava resquícios da ditadura.  E isso não me fez mal algum.  Éramos fiscalizados e doutrinados em coisas que as escolas hoje simplesmente não dão a mínima.

A disciplina com o uniforme era rígida, não poderia estar faltando uma peça.  Usávamos camisa social de manga curta ou comprida, branca com o bolso da escola, que tinha que ser comprado lá, calça de tergal azul marinho e sapato preto.  Como era escola pública e atendia muita gente pobre, valia o kichute.  As meninas usavam a mesma camisa, saia azul marinho com número de pregas definido pela escola, meias ¾ e um sapato que só servia para a escola.  Como estamos na região serrana do Rio, era permitido que as meninas usassem calças.  A escola ia do antigo CA até a antiga quarta série (hoje primeiro ao quinto ano) e, a menos que fosse realmente necessário, as meninas não podiam nem sonhar em usar sutiã.

Éramos crianças, por isso não havia muitos problemas com relacionamentos entre os meninos e as meninas, mas os safadinhos que tentavam olhar sob a saia das meninas ou qualquer namoricozinho mais sério e você entraria no caderno de ocorrências.

As semelhanças com ditadura não paravam aí. Quando havia surto de piolhos, a diretora em pessoa ficava na entrada da escola inspecionando cabeças uma a uma.  Se encontrasse piolhos, a criança voltava para casa com um bilhete dando bronca nos pais.  Todo o dia cantávamos o Hino Nacional antes de entrarmos em sala.  Na semana do 16 de março trocávamos pelo Hino de Petrópolis, na semana do 7 de setembro era o Hino da Independência e em novembro cantávamos o Hino da República e da Bandeira.

Mas o mais curioso é que a diretora que estabeleceu toda essa disciplina continua lá até hoje, o que faz dela uma espécie de Fidel Castro das escolas.  Mas engana-se quem acha que não havia democracia na escola.  Tínhamos eleições todo ano, fora uma de brincadeira em que “elegemos” Lula em 89.  Todo ano a escola era movimentada pelas eleições para o Grêmio Escolar.

O Grêmio escolar deve ter sido baseado no que existe nas escolas americanas.  Seria a representação dos alunos junto à direção.  Claro que, na prática não era grande coisa, pois éramos crianças de 10 anos de idade, mas o grêmio tinha tesoureiro, secretário cultural, secretário de alunos, secretário de patrimônio e… Presidente!

Era o cargo que almejava desde que entrei na escola (sim, sempre sofri de megalomania), mas precisava chegar à idade legal, o que era estar cursando a quarta série.  Até chegar lá, tudo o que podia fazer era exercer minha cidadania votando nas chapas dos outros.

Não foi fácil. Para começar eu deveria vencer as primárias.  Cada sala de quarta série só lançava uma chapa e só pode haver um presidente.  Apresentaram-se três candidatos.  Eu, o CDF, uma garota que tudo o que lembro dela é que ainda faltavam mais de vinte anos para termos uma presidenta e o cara mais popular da sala.  Fosse no voto eu seria derrotado para o “Boi”, sim esse era o apelido dele, mas a decisão se deu no zerinho ou um.  Vitória incontestável.  Eu era a partir de então o candidato da quarta série turno da tarde a presidência do Grêmio Estudantil da Escola.

Formada a chapa, saímos em campanha.  Nossa adversária seria a chapa coxinha e reacionária da turma da manhã.  Havia uma rivalidade grande entre as turmas, dividíamos a mesma professora e havia um ciúme sobre qual turma era a preferida dela.  Além disso, ficávamos azuis de raiva com eles que iam a tarde na janela da nossa sala nos infernizar.

Nossa chapa chamava-se “Semente de uma nova Geração”  A chapa deles chama-se “União”.  Ao contrário da minha turma, o presidente deles era o garoto mais popular do turno da manhã.  Isso me colocava em clara desvantagem, fora que eu era péssimo em oratória (não me considero mais tão ruim).  Fazíamos campanha em todas as salas, das crianças do CA até nossa própria turma, íamos no reduto adversário (o turno da manhã) e eles vinham nosso.  Os encontros de chapas eram tensos, quando eles iam na nossa sala e nós na deles.

Dentro das salas mantínhamos uma disciplina, não discutíamos ou nos atacávamos pois o caderno de ocorrências estava sempre a mão.  Mas havia uma guerra silenciosa ocorrendo:  A guerra dos cartazes.

Eles começaram.  Um belo dia na parede do pátio aparece um cartaz que diz:  “Semente é comida de passarinho. União é para sempre”.  Nem pensamos em recorrer ao TSE.  O turno da manhã, no dia seguinte, veria a seguinte frase:  “A única União que presta nessa escola é o açúcar do refeitório”

A partir daí toda a troca de ataques entre PT e PSDB eram discussões de cavalheiros perto do que fizemos.  Como não havia reeleição, nenhuma chapa usava a máquina, eram tempos em que não tínhamos computadores nem acesso a copiadoras.  Fazíamos cartazes e santinhos à mão.  O meio de imprensa mais poderoso disponível, o mimeógrafo, era estatal e não podíamos usar.  Mas com o que tínhamos fazíamos um estrago e tanto.

Os ânimos estavam tão exaltados que o debate entre chapas foi cancelado.  As militâncias brigaram na rua, obedecendo a regra dos 100m da escola.  Eu fui ameaçado de morte.  Duvidamos da capacidade intelectual deles.  O boletim de notas do presidente deles vazou.  “Vocês querem como presidente um aluno que só tem notas vermelhas?”  perguntamos.  Vazou o meu.  “Querem um CDF na presidência?” retrucaram.  Até que chegou o dia da eleição.

A votação transcorreu sem problemas.  No dia não houve brigas ou tumultos.  Dois militantes meus foram pegos fazendo boca de urna.  Obviamente que eu não sabia disso.  Assim como no Brasil, o voto era obrigatório e você só poderia se abster se faltasse a aula, mas era possível votar em branco ou anular.

Terminado o pleito, no dia seguinte fomos à apuração.  Foi tensa.  Disputávamos voto a voto, comemorávamos cada voto recebido e lamentávamos cada voto para o adversário.  E assim transcorreu a tarde, contando cada cédula naquela caixa de sapatos que para todos os efeitos era uma urna.

Quando a diretora passou a mão pela caixa, não achou mais cédulas, virou-a de cabeça para baixo e nada caiu, todos olhamos para a subdiretora que fazia a totalização.  Ela precisou de alguns segundos para contar os votos até que deu o resultado:  “Semente 353 votos.  União, trezentos e cinquenta e… QUATRO votos.  Perdemos por uma droga de voto.

Elegante na derrota, cumprimentei o eleito, e voltei para meus estudos.  Eles ficaram comemorando.  Houve uma caça as bruxas no turno da tarde.  O garoto que faltou a aula no dia da votação passou uma semana visitando a lata de lixo da escola.  Cumpri meu último ano na escola sem qualquer função política, mas voltaria a aparecer por esse motivo devido a uma redação sobre o prefeito.  Não fui presidente do Grêmio escolar, mas acabei por dar a escola a primeira vitória em um concurso municipal.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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