Fórmula-E, finalmente uma utilidade para o motorzinho de dentista

Carro Elétrico Simpsons

Vai começar a Fórmula-E, categoria de monopostos criada pela FIA para ser o futuro do automobilismo.  Se vai dar certo não sabemos, mas esta será a primeira corrida de carros elétricos do mundo.  Obviamente muita gente não gostou, e elas tem suas boas razões, mas vamos tentar ver os dois lados:

A categoria nasceu por vontade da própria FIA.  Querem usá-la como um laboratório para o desenvolvimento dos carros elétricos.  Tem gente grande envolvida, fabricantes como a Audi, magnatas chineses e indianos.  Do mundo das corridas tem uma das mais lendárias famílias do automobilismo mundial, os Andretti.

O naipe de pilotos para a primeira temporada é interessante, traz vários ex-pilotos da Fórmula 1 que, em grande parte deixaram a categoria ou por não sobreviverem ao moedor de carne da Red Bull ou por terem esgotado a grana dos seus patrocinadores ou deles mesmos.  O mais curioso também é que teremos, depois de 26 anos um Prost, um Piquet e um Senna dividindo as curvas.  São Nicolas Prost, sobrinho do Professor Alain, Bruno Senna, sobrinho de Ayrton e Nelsinho Piquet, filho do tricampeão.  Tem também Sebastian Buemi, Jaime Alguersuari, Lucas di Grassi (que foi o desenvolvedor dos carros), entre outros.

O mote principal da categoria é ser sustentável, portanto nada de desperdício.  Os pneus deverão durar para mais de uma corrida e serão parecido com o dos nossos carros de rua, ou seja, servirão para andar em pista seca ou molhada.  Isso pode ser útil para desenvolver melhores pneus para carros de rua.

Mas a principal intenção é desenvolver melhores motores elétricos para os carros e principalmente melhores baterias pois, a Fórmula E promete o pit stop mais broxante de todo o automobilismo:  Na Fórmula 1 troca-se pneus, na Indy troca-se pneus e reabastece o carro, no Endurance troca-se o piloto mas na Fórmula E eles trocarão… o carro!

Acontece que as baterias não duram para o tempo decente de uma corrida e, como o tempo para trocá-las seria longo demais (nem vamos falar em recarregá-las), assim, eles trocam de carro.  Esperemos que este seja um problema a ser resolvido logo pelo pessoal da Fórmula-E.

Mas talvez o maior mérito da Fórmula-E seja levantar o debate:  carros elétricos são viáveis?  Embora já relativamente comuns na Europa, eu e Lord Kelvin desconfiamos seriamente da viabilidade de uma frota de carros elétricos.

A termodinâmica é implacável.  Toda vez que se converte uma forma de energia, há perdas.  A simples transição de meios da energia já gera perdas.  Pegue o carregador do seu celular:  Tudo o que ele faz é converter a energia da tomada (110 ou 220V em corrente alternada) para algo em torno de 12V em corrente contínua.  O carregador esquenta, certo?  Esse calor é energia desperdiçada.

Seu celular pega a energia elétrica recebida e armazena sob a forma de energia química na bateria.  Conversão de energia, ou seja, mais perdas.  Ao ser usado ele converte a energia química em elétrica novamente.  Novas perdas.  Assim, de todos os Joules que você gastou da tomada para o seu celular, uma boa parte se perdeu sob a forma de calor.

Um carro elétrico fará a mesma coisa que o seu celular.  A diferença é a grandeza da energia envolvida.  Na Europa, você pode estacionar seu carro elétrico em vagas com tomadas, onde ele fica carregando e você vai para os seus afazeres.  Você paga por essa energia, e acredite você vai pagar por mais energia do que seu carro terá disponível para andar.  Não, as companhias petrolíferas não fizeram lobby no governo para sobretaxar carros elétricos.  É a termodinâmica.

Uma cidade com somente carros elétricos terá sem dúvida o ar mais limpo.  Mas de onde vem a energia?  De onde sempre veio:  termoelétricas.  A termoelétrica queima alguma coisa e converte energia térmica em energia mecânica, depois em elétrica e depois em química na bateria do carro.  Temos perdas em todas as conversões, mais as perdas de transmissão.  Portanto, se a sua termoelétrica queima carvão e você ama o planeta, troque seu carro elétrico por um a gasolina agora mesmo.

Aí você pensa:  E energia solar?  Eólica? Geotérmica?  O uso de energia solar ainda carece de muito desenvolvimento e redução de custos, mas é o mais promissor para a larga escala, se você tiver grandes áreas disponíveis.

A energia eólica, apesar de ser a menina dos olhos dos ecochatos, é mais danosa ao meio ambiente do que você pensa.  Uma turbina eólica é um treco lindo, um belíssimo instrumento de aerodinâmica, mas também é enorme.  As pás giram em um diâmetro de 60 metros, isso faz um barulho razoável e, pior, essa área de pás girando de pouco mais de 2500m²  se torna uma armadilha fatal para pássaros.  E um dos grandes inimigos da energia eólica é a mãe natureza.  Nos EUA, com a recuperação da cobertura florestal, a velocidade dos ventos caiu, reduzindo a eficiência das turbinas eólicas.

Se quiser falar de energia Geotérmica, por favor esqueça o Brasil, mas outros locais podem operar uma termoelétrica que use o calor do centro da Terra, mas essa operação é perigosa, gases tóxicos baseados em enxofre podem ser liberados, implica em um caro sistema de controle além de materiais e técnicas de construção.

Infelizmente, a melhor fonte não poluente, que ocupe espaço reduzido e gere bastante energia é a mais odiada e temida por muitos:  A energia nuclear.  Então, a energia elétrica que temos para iluminar casas e ruas, alimentar nossas TVs e computadores, tocar as máquinas da indústria ainda terá que ser dividida com carros?  Pensando num país como o Brasil, quase batendo na capacidade, o sistema elétrico está longe de ser adequado para suportar essa demanda extra com carros?

Vamos jogar tudo no lixo e abandonar essa ideia?  A Fórmula-E é só para ecochatos se vangloriarem de terem automobilismo? Talvez não.  Se baterias mais eficientes forem desenvolvidas, os carros ganharem mais autonomia, pode ser que tenhamos algo de bom desenvolvido nessa Formula-E.  Eu não considero carros elétricos o futuro, mas há espaço para a energia elétrica nos carros.

A verdadeira categoria a desenvolver tecnologia para carros de rua é hoje a dos protótipos Le Mans.  Os principais carros dessa categoria, o Audi E-Tron e o Toyota “Corolão” são híbridos.  O Audi possui um motor a Diesel e um elétrico.  O motor Diesel carrega o elétrico quando o carro não precisa de muita potência.  Em descidas ou nas frenagens, a energia que seria desperdiçada é armazenada nas baterias.  Quando o carro precisa de potência, entra o motor elétrico.  Se ele precisa de mais potência ou se está sem bateria, entra o motor a Diesel.  O Toyota faz o mesmo, com a diferença de ter um motor a gasolina.

Essa tecnologia já existe em carros de rua, você pode comprar um Fusion Hybrid por 129 mil Dilmas que faz a mesma coisa e, segundo o Inmetro, faz 16,8 km/l na cidade.  Por 120 mil você leva um Toyota Prius, também Híbrido e com consumo semelhante.  A vantagem do carro híbrido é que você não precisa liga-lo na tomada, o motor elétrico é carregado pelo motor a combustão e pela dinâmica do carro.

A primeira corrida da Fórmula E acontece no dia 13/09 em Pequim.  O campeonato será transmitido para o Brasil pela Fox Sports e, se o sono deixar, tentarei assistir a corrida.  Se vai ser boa, só assistindo para saber.  Mas antes, vamos dar uma chance à categoria.

Atualizando:

E teve a primeira corrida da Fórmula-E em Pequim. Como corrida puramente, foi nível de emoção de uma corrida de Fórmula 1.  A maior parte do tempo os carros ficaram em um trenzinho.  A pista não ajudava também, não era nada desafiadora.  A corrida foi curta, com 25 voltas apenas, mas é o que as baterias aguentavam (trocando de carro).

Os carros são até bonitos, mas o barulho parece mesmo de motor de dentista, ou daquele truque do George Lucas do barbeador na panela.  Teve Prost honrando o sobrenome e jogando o carro no adversário e vitória brasileira.  Essa categoria tem muito a evoluir.

A velocidade dos carros é muito menor que na Fórmula 1, eles atingem no máximo 220km/h.  Mas está prevista uma prova em Mônaco, aí vai ser legal comparar com a Fórmula 1 e a GP2 para ver o quão mais lentos esses carros estão.  Vamos ver como a Fórmula-E vai caminhar.

Lucas di Grassi Formula E

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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