Ao ler só o título, fica a dica: Não compartilhe

Simpson Defeats Prince

Mais um acidente aéreo, mais uma vez somos 200 milhões de investigadores de acidentes e especialistas em aviação.  Não acho que eu posso acrescentar muito ao que já se tem falado.  Acidentes aéreos são sempre lamentáveis e é triste perder alguém que estava em evidência por ser um dos principais candidatos à presidência da república.  Mas teorias de conspiração só insultam a memória dos mortos no acidente.

A segunda melhor teoria conspiratória de todas (a melhor é a do drone) e que vai servir para encaixar todas as outras, por mais absurdas que sejam, é a lei do sigilo em investigações de acidentes aéreos.

No calor dos acontecimentos no dia do acidente, a página “Brasil” do Facebook divulgou que essa lei fora sancionado pela presidenta Dilma.  Literalmente, eles divulgaram assim:  Lei sancionada esse ANO pela presidente Dilma (PT) torna sigilosa a investigação de acidentes aéreos no Brasil”  (repare na ênfase no ANO).  Com um acidente aéreo ocorrido nesse dia com todos sensibilizados você lê isso e pensa, ora, estão querendo esconder alguma coisa.  O post desta página ia para um link da Folha de São Paulo que mostra que a lei foi sancionada em 09/05/2014.  O link é esse.

Se você leu só o título, está agora dizendo que é mais um passo para a implantação da ditadura petista, mas se você leu a matéria e foi inteligente para somar 2+2 percebeu que, pela distância dos fatos (acidente e sanção da lei) um nada tem a ver com o outro.  Se você ler a matéria diz lá que o projeto de lei data de 2007.  Sim, leis no Brasil demoram para ser aprovadas.

A princípio discordei dessa lei.  Compartilhei a notícia no Facebook com minha ressalva.  Muita gente curtiu (umas oito), mas depois fiquei pensando.  Talvez essa lei seja importante e necessária.  Segundo a “Folha” sabe quem pediu essa lei?  O próprio Cenipa, que é quem investiga esses acidentes.  Vou ilustrar a necessidade com um fato.

Voo Gol 1907 de Manaus para Brasília:  Essa aeronave chocou-se em pleno ar com um jato Legacy e como resultado caiu no meio da selva matando todos os seus ocupantes.  Triste.  Mais triste foi depois.

Sem saber direito as causas e como se opera a aviação no Brasil e no mundo, com experiências em aeronaves limitadas ao assento do passageiro, os deputados armaram a tal “CPI do caos aéreo”.  Com o intuito de unicamente satisfazerem suas curiosidades mórbidas, os deputados da comissão pediram para ouvir a gravação das vozes da caixa preta do Boeing da Gol.  A outra caixa com os dados do voo é chata, então eles ignoraram.

No que isso ajudou a CPI?  Essas gravações de vozes de pessoas em aeronaves em acidentes são horríveis, ler uma transcrição já é terrível, imagina ouvir.  Pessoas estão em pânico, sabem que vão morrer e a queda de um avião de 37000 pés até o chão demora minutos.  Imagina ouvir esses minutos?  Os investigadores precisam ouvir e várias vezes, pois ali pode estar o detalhe que elucida o acidente, mas políticos?  A troco de que?  Desculpem, mas aquilo foi uma tremenda palhaçada e nos envergonhou perante a comunidade da aviação.

Por isso o Cenipa pediu essa lei.  Os deputados estavam sedentos por sangue, era ano eleitoral (2006), tudo o que eles queriam era mostrar que o governo era incapaz de gerenciar seu espaço aéreo.  Queriam caçar bruxas.  Mas acidentes aéreos não são assim.

O princípio que norteia uma investigação de acidente aéreo não é o de encontrar culpados nem puni-los mas sim de entender o que aconteceu e emitir recomendações para que isso não se repita.  Essas recomendações são mandadas para o fabricante da aeronave, para os aeroportos, controladores de voos, pilotos e quem mais atue no ramo.

No caso do acidente com o Boeing da Gol, com os deputados querendo sangue e, vendo que esse sangue seria o dos controladores de tráfego aéreo, os mesmos não colaboraram com as investigações.  Quando o sentido é evitar que novas tragédias ocorram, todo mundo colabora, afinal você pode até errar, mas não quer que outros morram por incorrerem no mesmo erro certo?  A aviação se baseia na boa fé das pessoas, no princípio de ajuda e solidariedade.  Sei que no Brasil isso é difícil, mas é assim em nossos céus.

Foi depois dessa vergonha internacional que o Cenipa pediu essa lei, no que foi atendido em 2007, mas ela gastou sete anos em trâmites.  Calhou de ser sancionada este ano e agora ela garante que para que alguém que não o Cenipa tenha acesso aos dados da investigação, essa pessoa ou órgão precisará de autorização judicial para tal.

“Então o governo está escondendo informação!” Não, não está.  Todo acidente aéreo depois de investigado tem suas causas apontadas com a máxima precisão possível, possíveis itens de falhas e recomendações.  Isso gera um relatório que é público e isso não vai mudar com a nova lei, pois é uma regulamentação internacional.  Tá curioso?  Aqui você pode ler todos os relatórios de acidentes aéreos no Brasil desde 2007.  Repare como o pessoal do Cenipa tem tido trabalho.

Daqui a algum tempo nessa página irá constar o relatório do acidente que vitimou Eduardo Campos e sua equipe.  Todos terão acesso mesmo sem entender.  Saberemos as causas, a dinâmica do acidente e o que se recomenda para que isso não ocorra mais.  No momento atual, tudo é especulação e a imprensa tem publicado muitas inverdades na tentativa de esclarecer tudo rápido e de dar o furo.  Para acompanhar o desenrolar dessa história pelos olhares de quem trabalha com aviação, sugiro o ótimo Blog “Aviões e Músicas” que é tão bom que quando eu crescer ou quero ter um Blog como o Contraditorium ou como ele.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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