A Torre Eiffel

Eiffel 01

Qualquer pessoa que venha falar sobre mim a primeira coisa que diz é que eu sou inteligente.  Na verdade não me acho assim tão inteligente, me sinto na média.  Na verdade eu me vejo é cercado por pessoas inteligentes entre meus amigos, no trabalho, na família, exceto nas redes sociais e nos comentários de portal. Mas como dizia Goebbels, uma mentira repetida mil vezes se torna uma verdade, então deixa estar.

Eu sou sim um curioso.  Porque não e porque sim não são respostas que eu aceite, exceto para quem bebe Schin porque não tem explicação beber aquele xixi enlatado.  Mas já dá pra se ter uma ideia que a minha curiosidade já pode ter colocado a mim a outras pessoas em encrencas ou pelo menos em situações constrangedoras.

Na minha infância eu tive uma “idade do por que” bem acima da média.  Me lembro de ser um chato perguntando o porque de tudo, desde porque o céu é azul até o que tinha depois do espaço.  Acredito que todas as crianças têm essas dúvidas, a diferença está em como lidam com isso.  Muitos pais não tem paciência para a idade do por que e tolhem a curiosidade de seus filhos.  A diferença entre seu filho se tornar um engenheiro civil ou um servente de pedreiro pode estar nesta atitude.

Não posso reclamar da minha.  Toda a minha infinidade de porquês eram respondidas na medida do possível.  Eram tempos pré internet, não tinha Google para responder se você tivesse uma dúvida, só o que tinha eram seus pais como auxílio 24 horas.  E nessa minha idade pude contar com meu pai.

Meu pai não era nenhum doutor.  Na verdade sua escolaridade era quarta série primária.  Mas isso não fazia dele um inculto.  Ele era inteligente pra caramba, respondia meus porquês sempre com informações corretas.  Podia estar incompleto, mas era raro ele errar.

Herdei dele o hábito de ler jornal.  Todo dia ele levava o jornal “O Dia” pra casa.  Gostava de ler principalmente o Romance Policial e o Avesso da Vida.  Nem sei se isso ainda é publicado, mudei de jornal, mas o hábito de ler está lá.  Por conta de sempre ler, ele acabava sabendo as coisas que eu perguntava.

Teve mais coisas que acabei herdando como gostar de Fórmula 1:  Em todo começo de temporada eu ganhava o guia que a Quatro Rodas mandava como encarte da revista.  Trazia pilotos, equipes, calendário e tabela para acompanhar a pontuação dos pilotos.  Ele era Tricolor, e se acabei não torcendo pelo Fluminense, ao menos não consigo odiar o Tricolor das Laranjeiras, mas concordamos em torcer contra o Flamengo.

Gosto das forças armadas, sobretudo o Exército por causa dele.  Ele serviu em 1955 no Batalhão de Artilharia Antiaérea, chegou a Cabo e ficou por mais de um ano no serviço, o golpe militar estava em gestação e naquele ano o bebê chutou.  Ele ficou com uma bateria antiaérea próxima ao Palácio do Catete para proteger o local.

Também por ele aprendi que drogas é coisa de bandido, tanto o comércio quanto o uso, lição que farei questão de transmitir para meus filhos.  Além do senso de dever, patriotismo e justiça.

Existem coisas que aconteceram em nossa infância que são meio que irrelevantes, mas guardamos na nossa memória para sempre.  E as vezes essas lembranças vêm à tona.  Isso acontece com todos.  E acho que é por isso que desfilei esse texto todo.

Meu pai costumava deitar cedo e eu, que o imitava em tudo, ia também.  A casa era pequena, dormíamos todos no mesmo quarto, mas ele ia deitar primeiro, eu ia junto, minha mãe e minha irmã ficavam vendo novela.  E passávamos um bom tempo conversando.  Ao invés de contos de fadas para dormir eu ouvia as histórias de quartel dele, conversávamos sobre curiosidades, meus porquês, esportes, atualidades, etc.

Uma dessas vezes falávamos sobre a Torre Eiffel.  Meu pai me explicava que era possível subir na torre, existem elevadores, mas não um só.  Você tinha que pegar um que te levava até a metade da torre e depois outro para chegar ao topo.  Não, ele nunca esteve lá, mas deve ter lido isso em algum lugar ou o patrão dele contou a ele.  Fato é que eu fiquei pensando como é que caberiam elevadores naquela torre.  Pois é, aí, olha onde eu estive em Abril:

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Foi nessa hora que me lembrei disso.  Na fila entre um elevador e outro (sim, você tem que pegar dois elevadores) na minha frente um casal de brasileiros se queixava com um casal de portugueses das agruras da corrupção no Brasil.  Deu vontade de dizer aos portugueses “a culpa é de vocês!” mas quando vi o casal brasileiro dizendo que o PT era o autor da corrupção e que eles eram um bancário e uma funcionária pública, preferi ignorar.  Bom que pela minha cara eu me passo por alemão (das chupein Brasilianer, sieben x ein) posso ignorar brasileiros fazendo brasileirices.

Preferi essa lembrança.  Lá na minha infância falando com meu pai da Torre Eiffel jamais imaginei que um dia iria lá.  Achei interessante o caminho que a vida leva a gente.  Minha curiosidade e a criação que tive me permitiram ir para a Faculdade e ter um bom aproveitamento.  A tal ponto que agora consigo até férias no exterior.  Acho que só nos meus melhores sonhos imaginava isso naquela época.

Lá de cima daquela torre, gostaria que ele estivesse lá pra me ver.  Na minha eterna batalha interna entre Cristianismo e ateísmo nunca sei bem ao certo o que acontece no sobrenatural, mas lá em cima bateu um vento frio na hora que pensei nisso.  Fez todo mundo na fila se encolher um pouco.  Aí dei aquela olhada para cima, num dia nublado da recém iniciada primavera parisiense e imaginei:  É, acho que ele tá lá em cima me vendo subir a Torre Eiffel e deve ter se lembrado também da nossa conversa.  Ele estava certo, tem que pegar dois elevadores para subir, além disso ele deve ter adorado saber que lá em cima além da vista tem banheiro, champanheria e o escritório de Gustave Eiffel.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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Uma resposta para A Torre Eiffel

  1. Eduardo disse:

    História show, meu camarada! Parabéns!
    E ainda fico me perguntando, qual vai ser a próxima aventura do Fernando internacional?!

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