As Duas Copas

Brazil v Germany: Semi Final - 2014 FIFA World Cup Brazil

 

Em 4 de Junho de 1995, em partida válida pela Copa do Mundo de Rugby na África do Sul, os All Blacks venceram a seleção do Japão por incríveis 145 x 17.  Ao final os japoneses cumprimentaram os neozelandeses pelo jogo.  Um dos mais importantes princípios desportivos é o do respeito ao adversário.  Esse respeito se dá quando você busca o objetivo do jogo até o final, sem firula, sem parar.

Foi o que os alemães fizeram durante seu atropelo sobre o Brasil.  O objetivo do futebol é o gol, e foi o que os germânicos buscaram durante os 90 minutos de jogo.  Como o objetivo do futebol também é evitar que o adversário marque gols, os alemães se empenharam em evitar as poucas tentativas brasileiras, mesmo quando tudo estava resolvido.

No entanto, derrotas da seleção em copas do mundo tendem a despertar o que temos de pior como nação:  O complexo de vira latas.  Sempre achamos que no Brasil tudo tem que dar errado porque simplesmente é Brasil.  Que nada nesse país pode funcionar porque o país é assim.  Parece que os alemães tiveram que nos ensinar isso também.  Podolski publicou em seu Twitter:

Podolski

Eu sei que no Brasil educação é um problema e criar senso crítico e inteligência nas pessoas é tarefa de longo prazo, mas é preciso separar as coisas.  Houve duas copas aqui.  A Copa do Brasil e a Copa da Seleção.

A Copa da Seleção é a Copa da CBF.  É uma entidade atrasada, corrupta e conservadora ao extremo.  Não admite o erro nem quando ele está gritando na sua cara.  Acham que tudo vai bem quando não vai.

Me assusta saber que, da convocação de Felipão, apenas um ou dois jogadores foram questionados.  A imprensa especializada concordou que essa lista de 23 eram os melhores que temos.  Se isso aí é o melhor que nós temos, estamos em uma geração absurdamente ruim.

Muitos cronistas esportivos já repararam e chamaram atenção para o fato de que o que o Brasil tem revelado de melhor hoje são zagueiros e volantes.  Estamos nos especializando em destruir jogadas ao invés de criá-las, o que sempre foi nosso diferencial no futebol.  Isso vem das categorias de base onde hoje não se seleciona o garoto que sabe jogar.  Escolhe-se aquele que tem um bom físico.

Se eu quisesse jogar vôlei ou basquete, jamais conseguiria algo melhor do que uma brincadeira, pois do alto dos meus 1,72m sequer olhariam para mim (há esportes para baixinhos, não posso ficar reclamando), mas futebol é um dos poucos esportes onde todo mundo acha espaço pra jogar.  Não aqui no Brasil.  Não mais.

Nosso campeonato nacional é uma piada se comparado aos outros.  Quando eu falo que nossos clubes não são conhecidos pelos europeus, não é para brincar com torcedores que acham seu clube a última cereja do bolo, mas sim para mostrar a irrelevância do nosso campeonato perante eles.  Aqui se faz tudo errado.  Os clubes estão endividados e, quando conseguem mais dinheiro o desperdiçam das formas mais bizarras possíveis.  A própria mídia e a própria CBF distorcem o campeonato, times recebem mais que os outros por direitos de TV por algum critério que só faz com que menos equipes sejam competitivas, aliados a incompetência dos dirigentes dos “grandes” faz nosso campeonato nacional ficar emocionante e equilibrado apenas porque está nivelado por baixo.

O outro problema são nossos técnicos.  Eles se recusam a admitir que estamos anos luz atrás dos europeus em táticas e formas de jogo.  Dirão que não, que não estamos, mas sim estamos.  Esse 7×1 da Alemanha está aí para nos mostrar.  Durante a Copa, o único adversário europeu que enfrentamos antes da Alemanha foi a Croácia, que nos deu muito trabalho, mesmo sendo uma equipe do segundo escalão europeu e desfalcada de seu principal jogador.  O México jogou de igual para igual, Camarões estava em crise interna e, no mata-mata pegamos seleções sul-americanas onde nossa camisa ainda impõe respeito.  Quando pegamos um adversário do Olimpo do futebol (no qual temos cadeira cativa, diga-se), acontece isso.  E ninguém entre os técnicos falou de tática e posicionamento.

Mas temos o outro lado.  A Copa do Brasil.  Essa foi um estrondoso e retumbante sucesso.  Ganhamos de lavada dos nossos adversários.  Eles bem que tentaram, mas jogamos tão bem, que eles não tiveram chance.  A expressão petista de “Copa das Copas” merece ser usada.

Quando houve a Copa da Alemanha em 2006, os alemães foram derrotados nas semifinais tal qual o Brasil (mas não por 7×1).  Mas, se a Alemanha não levou a taça, por outro lado, algo que precisava ser feito pelos alemães foi feito naquela Copa.

Os alemães é compreensível, até então tinham certa vergonha em torcer, incentivar seu país.  O orgulho de ser alemão poderia facilmente ser confundido com outra coisa.  Ora, é cruel imputar nos alemães de hoje coisas que fizeram em seu país há 60, 70 anos.  Os que fizeram já se foram, os alemães de agora só querem viver sua vida.  Por que eles não poderiam ter o direito de usar as cores de seu país?  Por que eles não podem se orgulhar do país que possuem?  É claro que eles tem esse direito.  Mas eles tiravam esse direito deles mesmos.  Até a Copa de 2006.  Foi nela que se viu alemães recuperarem seu orgulho e seu direito de usar suas cores, de cantar, comemorar, de ser do jeito deles, sem que ninguém ache que eles querem voltar ao passado tenebroso.

Essa copa pode fazer algo parecido para nós brasileiros.  A Seleção caiu nas semis como eles em 2006.  Mas derrotamos o pessimismo.  Derrotamos a revista chinfrim que dizia que os estádios só ficariam prontos em 2038.  Derrotamos a mídia do caos, que anunciava um apocalipse e um retumbante fracasso da copa.  Derrotamos o Senador que, ao invés de apoiar o país que representa, defendia a solução dos derrotados:  A de desistir.  Tão derrotado é esse senador que, incapaz de se manter fiel a sua ideia estava presente vendo jogo do Brasil.  Duvido que com ingresso comprado por ele.

Vencemos os oportunistas.  Aqueles mesmos, covardes, que quando o Brasil saiu às ruas querendo mudanças, não foram dignos de mostrar o rosto, e quebraram patrimônio público e privado, dos outros, nunca o deles.  O Brasil é hoje um país que sabe o que é futebol e o que é política.  Não é o resultado da seleção nacional que vai determinar o próximo governo. E isso estava selado desde antes do chute inicial.

Claro que sempre haverá babacas, gente que não consegue separar as duas copas.  Gente inconformada com a derrota.  Babacas apenas por serem babacas.  Mas esses babacas podem acrescentar um novo adjetivo hoje:  Perdedores.  O Brasil ganhou a Copa.  Somos hoje um país muito melhor que éramos.  Tem muito a melhorar.  Mas já andamos bastante.  Perceber isso é a grande vitória da Copa.

Eu fiquei chateado pela seleção perder.  Ao contrário de muita gente, eu torço primeiro pela seleção do meu país, depois por clubes.  O Vasco perder de 7×1 para alguém (já deve ter perdido, não lembro) me incomoda muito menos do que o Brasil perder por igual placar.  Bandeira do Brasil eu tenho em casa, sempre.  No 7 de setembro e em outras datas que acho por bem, eu a coloco no carro.

Mas é nas derrotas que se aprende.  Temos a chance de aprender.  Há um elefante indicando isso.  O problema é que quem deveria ver o elefante sofre de catarata grave.  A Seleção terá nova chance em 2018.  Já a Copa do Brasil, já está vencida.  Resta só saber qual será a melhor Seleção.

Em tempo, obrigado pela força aí Podolski, e obrigado pelo respeito Alemanha. É mais difícil ser um bom vencedor do que um bom perdedor.  Vocês conseguem.

 

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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