Se construir, eles virão

Vi isso no Blog do Flavio Gomes.  Trata-se de uma animação dia a dia as vésperas da Copa até o seu efetivo início, da quantidade de “Check-Ins” que as pessoas que tinham Facebook davam no Brasil.  Um mecanismo simples, basta ver onde foi o último check-in e o primeiro no Brasil.  Deu nesse videozinho aqui:

Não acredite em outra coisa que não que a Copa é um sucesso.  Já disse aqui que a culpa desse enorme sucesso não é da FIFA, não é do PT, não é dos governos estaduais, é do povo.  Recebemos uma turma que veio pra se divertir e entramos na festa deles.  E pelo vídeo dá pra ver.  Veio gente pra caramba.

Acho bacana esse negócio do mundo se reunir para uma coisa.  O mundo inteiro se reuniu no Brasil para jogar futebol.  Celebramos nossas diferenças, nossas culturas tudo em torno de um jogo simples.  Mas é algo tão magnífico que agora que acabou a festa e começou a competição, dá pena de ver as seleções eliminadas.  Dá vontade de dizer a eles:  “Olha, se quiserem podem ficar mais um pouco!”  Podia, a despeito de que tiraria toda a graça, a Copa ser em pontos corridos para não termos eliminados.

Mas um comentário no post do Blog do Flavio Gomes me chamou atenção para uma coisa.  O cara questionava se não tinha vindo ninguém do Japão e porque todo mundo estava chegando em São Paulo mesmo Fortaleza tendo um aeroporto internacional.  As respostas são simples:

Bem, gente do Japão sabemos que veio pois não foram brasileiros que cataram o lixo que produziram nos estádios.  Acontece que não temos voos diretos do Brasil ao Japão.  Não é nem que não dê, um Boeing 777-200LR aguenta o tranco, mas não é economicamente rentável.  Companhias japonesas voam para cá, mas elas não utilizam essa aeronave e não compensaria vender apenas metade do avião para um voo direto.  Um 747 ou A340 também podem fazer essa rota, mas com uma limitação de peso que poria o preço das passagens na cota dos impagáveis.

Assim os japoneses que vieram curtir a Copa tiveram que fazer uma escala em Los Angeles.  Assim é possível fazer o voo com aeronave cheia.  Ainda salva o fato de que, copas fora (desculpem, não resisti), o trânsito de Japoneses para os EUA é maior do que para o Brasil.  Assim como o é o de brasileiros para os EUA em comparação ao Japão.  Esse mesmo raciocínio se aplica aos coreanos e demais povos do oriente.

Os chineses e habitantes do Oriente Médio podem vir pela Europa.  Suas companhias aéreas saem dos países de origem e fazem escala normalmente em Barcelona para depois se dirigirem para o Brasil (sempre Guarulhos).  Os motivos são os mesmos, não compensa um voo direto com apenas meio avião ocupado.  Os russos passaram pela mesma situação, embora a Aeroflot venha flertando com a ideia de estabelecer voos diretos entre Moscou e Rio de Janeiro.

A turma do voo direto são os europeus ocidentais, de onde praticamente todas as capitais possuem voos regulares ao Brasil, a sua maioria operados para São Paulo e Rio (pelas cias Europeias, apenas São Paulo pela TAM).  Africanos também se serviram de voos saídos de Johanesburgo, Cidade do Cabo, Luanda, fora outros Charters ou de ocasião.  Mas vieram direto a São Paulo sem problemas.  Outra parte do Oriente médio é servida de voo direto vindo de Dubai (Emirates, a patrocinadora da Copa com B777) Abu Dhabi (Etihad, de A340).

O Brasil, espero que melhore após a Copa, tem uma malha de voos internacionais muito ruim e centralizada.  As únicas companhias aéreas com voos  intercontinentais saindo de aeroportos diferentes de Rio e São Paulo são a própria TAM, American Airlines, TAP e Air Europa.  As demais operam apenas destes aeroportos.  Muitas sequer operam no aeroporto carioca.

A razão principal é demanda.  Não há porque a British Airways, por exemplo, solicitar uma rota Londres Manaus.  Não há demanda.  Ao invés de colocar 50 passageiros num 777, mais fácil e rentável acomodá-los no voo para São Paulo e de lá leva-los a Manaus por meio de uma cia Aérea nacional parceira.

Esse tipo de coisa faz com que o Nordestino que queira ir a Europa, embora esteja geograficamente mais perto de lá do que eu, tenha que voar mais, pois ele terá que ir até São Paulo para pegar o voo transatlântico.  Eu estou do lado do Rio e consigo um voo direto dali.  A única forma disso mudar é, ou os europeus resolverem ir em peso para o Nordeste ou os nordestinos resolverem ir à Europa (eles já vão, mas esse problema era pra ser resolvido pela cia aérea Brasileira, que está feliz enfiando todo mundo em Guarulhos).

Por que São Paulo?  É uma pergunta que eu também me faço.  Há alguns anos todos esses voos vinham para o Rio.  O Rio de Janeiro está em posição geográfica melhor para receber esses voos do que a capital paulista.  No entanto, as companhias aéreas tendem a privilegiar o viajante de negócios, pois esse voa sempre, em detrimento do turista.  E todos sabemos que no Brasil, se você vai fazer coisas chatas ou trabalhar, vai a São Paulo.  Se vai se divertir, vai ao resto do país.

Outro fator é o preço do combustível.  É pouca coisa, mas é mais caro no Rio do que em São Paulo.  É estranho pois no Rio o Querosene é produzido pela Reduc e vai direto para os tanques do Galeão que está a poucos quilômetros da refinaria.  Já em São Paulo ele vem da Revap, que fica em Paulínia, bem mais longe.  A diferença é a facada que o governo estadual dá.

Por último, mas não menos importante o que fez o aeroporto carioca perder os voos foi sua deterioração.  Enquanto Guarulhos, mesmo enquanto estava com a Infraero manteve-se em constante modernização de terminais, de áreas para terminais, passageiros, aeronaves, cargas, o Galeão foi esquecido, a ponto de chegar a situação calamitosa dos últimos anos.  O operador dos aeroportos era o mesmo, portanto só ele pode explicar porque manteve o aeroporto paulista em termos aceitáveis e não fez o mesmo com o carioca.

Esse cenário hoje só muda com demanda.  Se os governos estaduais e municipais forem espertos, podem aproveitar a visibilidade que ganharam com a Copa e com os turistas que vieram e melhorar o turismo em seus locais.  Manaus ganhou o estádio mais bonito da Copa e que pode se transformar no maior elefante branco da Copa, mas com um trabalho na rede hoteleira e subsídios, ele pode continuar sendo utilizado.  Dica:  Sempre quis ir a Manaus, e iria a um Show do U2 lá se a cidade me desse condições disso.

Natal é outro caso.  Possui um grande aeroporto (e ganhou um novo) e tem potencial para ser o grande hub internacional do Brasil.  Sua localização geográfica na beira do Atlântico faz com que, se eu tivesse uma companhia aérea Europeia e quisesse voar para o Brasil, voaria para Natal e faria uma parceria com uma companhia aérea regional como Gol ou Azul.  Meu gasto com combustível seria muito menor, pois o percurso seria muito mais curto.

Eu gostaria de um país com um monte de aeroportos internacionais recebendo muitos voos internacionais.  É bacana chegar num aeroporto e ver o painel de voos com destinos pelo mundo todo.  Acho que os brasileiros podem ir para o mundo todo e o mundo pode vir ao Brasil.  Só é preciso dar a eles essa vontade.  Se construir, eles virão.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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