O cão

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Colocar os pés na Avenida Brasil em um dia normal tem que ser considerado tentativa de suicídio.  Simplesmente não dá.  Infelizmente nem todo mundo consegue pensar nisso.

Ontem voltando por ali de ônibus, cedo, aproveitando o providencial meio-feriado dado pelo Eduardo Paes seguíamos pela Seletiva enquanto eu acompanhava a partida entre Holanda e Austrália graças a meu companheiro inseparável desses dias de trabalho com Copa:  Meu GPS com TV digital.

Mas eu olhava pela janela de vez em quando.  E pra quê que eu fui fazer isso.  Por uma fração de segundos pude ver um cachorro no meio da pista central no sentido centro, com o tráfego fluindo normalmente, ou seja, carros passando a cerca de 80 km/h.  Logo depois vi um carro na mesma faixa em que o cachorro estava.  Entendeu o que vai acontecer né?

Toda vez que vou dirigir, uma das coisas que sempre quero que não entre no meu caminho são animais.  De qualquer tipo.  Mas isso já me aconteceu três vezes.  A primeira eu não tinha o que fazer.  Uma rolinha atravessou voando baixo a pista exatamente na minha frente.  Não tive tempo pra nada.  Pouco a frente tive que tirar a pobre coitada que ficou presa na grade do radiador.

A segunda vez foi legal.  Estava chegando em Itaipava, próximo ao parque de exposições.  De longe vi um animal pequeno atravessando.  Achei que fosse um gambá, fui reduzindo e quando cheguei perto era um ouriço.  Parei na frente dele, liguei o alerta e protegi o ouriço com o meu carro até que ele terminasse a travessia.  Depois segui viagem.

Teve uma terceira vez em que dois cachorros surgiram do nada na pista de subida da Serra de Petrópolis.  Para a sorte deles eu vinha sozinho na pista e a uma velocidade razoável.  Deu para parar e passar longe dos caninos.

Mas voltando ao cachorro da Avenida Brasil:  Não vi mais nada, o ônibus seguiu.  Suponho que o cachorro tenha sido atropelado.  Escutei uma freada forte, cantada de pneus. No tempo certo, é possível que o motorista tenha evitado.  Nunca saberei.

Fiquei pensando no cachorro.  Só o vi por meio segundo, provavelmente um vira-latas.  Mas será que ele tinha uma casa?  Ou donos?  Ou era companhia de algum morador de rua ou, dada a região, de algum cracudo?  Ou simplesmente foi largado no mundo a vida toda.

É curioso o que se passa na cabeça da gente.  Fiquei pensando naquele cachorro filhote, mamando com o resto da sua ninhada, naquela cena que faz qualquer ser humano com coração abrir um sorriso.  Tudo o que esse cão deve ter passado na vida.  Vida que iria terminar ali, de uma forma tão trágica.

Estou até agora tentando me convencer de que não, o cachorro não foi atropelado.  O motorista que vinha freou, escutei o barulho.  Mas era a avenida Brasil, me diz uma outra voz, se um parou tem outras cinco pistas para atropelá-lo.  Mas vai que o motorista que freou é de bom coração, pegou o cachorro, colocou no carro e agora ele tem até um lar?  Nunca saberei também.

O fato é que a vida é uma coisa muito frágil.  Para nós e para os cães.  Não é algo que podemos tirar a bel-prazer.  Fiquei pensando nos cachorros aqui de casa e no do meu vizinho, um vira-latas adotado na outra Copa e por isso tem o nome de Dunga.  Sempre temo por ele, por ele ser um idiota que corre atrás de motos e carros.  Que isso não aconteça com ele, e que o cão da Avenida Brasil esteja bem.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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