A Redação do Prefeito

Ditadura

Esse ano estamos comemorando os 50 anos do Golpe Militar (ou Revolução de 64, como aprendi na escola) e, fora discussões sobre torturas e se teria sido melhor uma ditadura comunista ou uma ditadura de direita, acho que uma coisa que nunca pode ser tirada da população é sua liberdade de expressão.

Embora eu seja novo para ter vivido sob a ditadura, eu também tive meus dias de subversivo.  Fui capaz de assustar um bairro inteiro com minhas ideias e acima de tudo a capacidade de expressá-las:  Estava escrevendo uma página da história da Escola São Cristóvão.

O ano era 1991.  Sim, o ano seguinte seria histórico para o Brasil, onde nossa recém reconquistada democracia passaria com louvor por um grande teste:  Iríamos depor um presidente da república usando exclusivamente de meios constitucionais e de nossa liberdade de expressão.  Mas isso ainda iria acontecer.  Antes disso eu estava na quarta série primária (hoje quinto ano) da referida escola que leva o nome do Protetor dos Motoristas.  Era a última série dessa escola, após esse ano, se aprovado (aprovação automática é para fracassados) teria que mudar de escola.  Mas antes, havia uma prova no meio do caminho.

A prefeitura de Petrópolis organiza um concurso, que existe até hoje, chamado Maratona Escolar.  Ao contrário do que o nome sugere, não há qualquer ligação com o atletismo.  Essa maratona é feita de provas que os alunos das então quartas e oitavas séries faziam em determinadas disciplinas.  As disciplinas eram Matemática, Português, História de Petrópolis e Geografia de Petrópolis.

Não se tratava de um pré-Enem ou pré-Enade, era um concurso na verdade.  As regras eram:  Cada escola escolheria um trio de alunos por disciplina, esses alunos formariam o time da escola, e em dia marcado fariam as provas nesta disciplina.  Com base nas notas dos três alunos, as escolas eram classificadas e havia troféus e medalhas para os quatro primeiros colocados.

A Escola São Cristóvão, apesar de ter um ensino bom, nessas maratonas se comportava como o Brasil em jogos olímpicos:  Participava de quase tudo, mas ganhava quase nada.  Até 1991, o melhor resultado da escola havia sido um segundo lugar em história de Petrópolis, obtido no ano anterior.  Neste ano também ganharam um quarto lugar em Português, o que fez de 1990 o melhor ano para a escola.  Claro que o fato dela não ter oitava série diminuía pela metade as chances de ganhar algo, mas enfim.  Era isso.

Em 1991 chegara a minha vez.  Eram duas turmas de quarta série, uma de manhã e outra a tarde.  Tínhamos a mesma professora, mas as turmas se odiavam.  Preciso contar a história da eleição para o Grêmio Escolar, mas fica pra próxima. Assim, a professora, na hora de montar os times, dividiu em duas disciplinas para cada turma.  Em 32 alunos da turma, ela escolheu 6. Claro que ela escolheu os mais CDFs e é claro que eu entrei nessa.  E assim, estava eu selecionado para representar a Escola São Cristóvão em Geografia de Petrópolis.

Eram tempos sem internet e nosso contato com computador se resumia ao cara da EPAC que ia fazer propaganda do curso de informática dele na sala.  Assim, para nos prepararmos para a prova, os meios eram os tradicionais:  livros, professora, quadro negro e giz.

A professora preparou umas aulas extras para nós, onde nos dava reforço nas disciplinas para as quais fomos selecionados.  Para se ter uma ideia, os alunos de matemática estavam aprendendo potenciação, matéria que os demais mortais só veriam na quinta série.  No caso de nós de História e Geografia de Petrópolis o trabalho era pior, pois nosso currículo normal não tinha isso, aprendíamos Estudos Sociais e Ciências.  Portanto, a professora teve trabalho.

Graças a essas aulas de reforço, aprendi os nomes de quase todos os rios da cidade, os bairros e suas principais atividades econômicas, o que as indústrias de Petrópolis produziam, onde era produzido o alimento da cidade, como ela se organizava, os distritos, estrutura de poder, etc.  aí um belo dia, ela chega anunciando que o que mais valia ponto na prova era a redação.  Eu nem sabia que ia ter redação, pra mim redação é coisa de prova de Português, mas enfim, teria que encarar.  Como treino, ela passou a nos dar temas para a redação e a avaliar nossos textos e nos fazer melhorar.  Certo dia o tema foi:  os poderes de Petrópolis.

Tinha que falar sobre o Executivo, o Legislativo e o Judiciário municipais.  Do alto da minha consciência política de 10 anos de idade, desci a lenha.  Não lembro bem como escrevi, mas sobrou pra todo mundo:  O Executivo era composto por um prefeito que só sabia ganhar dinheiro e não fazer nada, um vice que ninguém sabe quem é e o que ele faz, e secretários cuja única função é estragar o que funciona na cidade ganhando dinheiro para isso (eu estava revoltado com uma jumentice que fizeram com o ônibus da minha rua).  Já o legislativo era composto por 21 vereadores que só compareciam na câmara para votar o aumento de IPTU e outros tributos e sacar seus gordos salários.  E o judiciário que tinha uma boa vocação para soltar bandidos, o que fazia com que a Polícia tivesse que captura-los por várias vezes.

Entreguei minha redação para a professora, ela leu e sem falar nada saiu da sala.  Voltou 10 minutos depois com a diretora. “Estou expulso” pensei.  Afinal, estudava numa escola municipal e acabara de descascar em cima de, entre outros, do Prefeito e da Secretaria de Educação.  A diretora veio até mim e disse calmamente:

– Fernando, você que escreveu isso?

Obviamente era uma pergunta retórica, meu nome estava na folha.  Respondi com um sinal de cabeça.  Ela continuou:

– Você tem ideia do que você disse aqui?

Ora, era claro que eu tinha. Via meu pai reclamando todo dia que os políticos não faziam nada, os preços subindo duas vezes ao dia, ruas esburacadas, nosso ônibus fora retirado e colocaram outro que não servia, meu tio era PM e sempre falava que  já tinha prendido o mesmo cara quatro vezes, mas a justiça sempre o soltava.  Respondi novamente acenando a cabeça e morrendo de medo.  A diretora então me deu uns tapinhas nas costas, estendeu a mão pra me cumprimentar e disse:

– Meus parabéns! Precisamos de mais gente com essa consciência!

Nunca mais vi minha redação.  No entanto, ela seria lida para toda a minha turma quando a aula normal começou, para a turma da terceira série, para as turmas da quarta e terceira séries da manhã e, finalmente, na reunião de pais do fim do bimestre.  Sempre fui creditado e elogiado.  Fiquei conhecido como “o garoto da redação do prefeito.”

Eu não fiquei livre de polêmicas.  Fui criticado.  Teve gente que achou que eu seria preso.  Tudo bem que, fosse uma década antes, eu poderia ir parar nas mãos do Delegado Aranha no DOPS, mas naquele ano eu já podia fazer isso.  Lembro que isso foi além do ambiente da escola, vizinhos meus cujos filhos estudavam em outras escolas souberam do caso.  Lembro até de estar em uma casa em que a mulher disse que eu poderia ser preso e o marido dela pegou seu exemplar da Constituição de 88 e me mostrou dizendo que, por aquilo ali eu tinha o direito de escrever o que eu pensasse.

Mas a vida é muito irônica e no dia da prova, fui muito recomendado em não fazer isso de novo caso o tema da redação da prova fosse político.  Tínhamos três temas para escolher.  Um deles era exatamente sobre os poderes de Petrópolis.  Por alguns segundos tive vontade de repetir meu texto.  Mas achei melhor não e acabei falando sobre as indústrias de Petrópolis, com especial destaque para a GE Celma (então só Celma), que era onde sonhava em trabalhar quando crescesse.

No dia 27 de setembro daquele ano, fomos ao auditório da UCP para saber o resultado.  Naquele ano, a prefeitura resolveu incluir as escolas particulares no concurso, e eles estavam levando tudo. No entanto o São Cristóvão já tinha abocanhado um terceiro lugar, não lembro em quê. Vieram os resultados de Geografia de Petrópolis quarta série:

– Em quarto lugar: – Anunciou a secretária de educação, um de meus alvos, que eu sequer conhecia. –  Escola André Rebouças!

Aplausos protocolares.  O trio da escola vai até lá, pega seus troféus e a secretária continua:

– Terceiro lugar: Instituto Canarinhos de Petrópolis!

Essa escola era o bicho papão do ano, pois era particular e uma das melhores da cidade.

– Segundo lugar:  Escola das Comunidades Santo Antônio!

Eu iria para essa escola no próximo ano.  Durante os aplausos para essa escola, meu colega de time disse “perdi as esperanças.”  Por mais sonhador que eu fosse, também sabia que voltaria pra casa de mãos vazias e teria perdido a oportunidade de catar doces, afinal, era dia de Cosme e Damião.

– Em primeiro lugar. – Prosseguiu a secretária. “Bom ela falou o nome de três escolas, deve ter umas 30 competindo. Estamos no páreo” Pensei.  Por mais que eu duvidasse, a Esperança é a última que morre e, portanto o nervosismo aumentava.

– Lembro a todos que, aqueles que ficaram em primeiro lugar não receberão seus prêmios aqui, mas sim numa cerimônia especial à tarde no Palácio de Cristal…

“Ô mulher, acaba com essa agonia!” estava eu nervoso.

– Em primeiro lugar… – coração a mil – Ih, também tem nome de Santo.  Os santos estão com tudo hoje…

“Tem o Santa Isabel, São Sebastião, Santa Catarina, droga, o que mais tem nessa cidade é escola com nome de Santo!  Já era” pensava eu.

– Escola São Cristóvão!

Aqui preciso mudar para o ponto de vista da professora, que ouviu o nome da escola e viu nós três, eu, o garoto que havia perdido as esperanças e a menina que compunha o trio, e que vinha a ser a mais bonita da classe, parados sem demonstrar qualquer emoção.  Era realmente estranho, eu escutei perfeitamente o nome São Cristóvão, mas acho que não acreditava.

– Nós ganhamos! Nós ganhamos! Anda! Levantem! – Gritavam a professora e a diretora.  Aí sim levantamos e fomos cumprimentar a secretária de educação e receber os aplausos protocolares dos demais.

Conquistamos com isso o melhor resultado da escola até então. Um primeiro e um terceiro lugares. A escola nunca tinha conseguido o alto do pódio.  Meu nome estava na história!

Mas assim como diria Joseph Climber, a vida é uma caixinha de surpresas. A tarde fomos para a tal cerimônia especial no Palácio de Cristal. Chegando lá, estavam todos os trios vencedores e, quem aparece para entregar o troféu? Sim, ele mesmo, o Excelentíssimo Senhor Paulo Gratacós, Prefeito de Petrópolis e principal alvo de minha famigerada redação.

Assim, para a história da cidade, saio numa foto na Tribuna de Petrópolis apertando a mão do prefeito que dias antes criticara duramente.  Nem ele nem ninguém dali, exceto nós, sabíamos disso.  Isso rendeu inúmeras piadas pra cima de mim, pois agora era “amigo” do homem que eu falava mal.  Me recomendaram até carreira política por isso.

Eu voltaria à Maratona Escolar na oitava série em busca do bicampeonato. Mas acabei ficando com um modesto quarto lugar.  Mas naquele ano, a combinação redação do prefeito mais o primeiro lugar me deixaram muito bem visto, ao menos entre os pais e professores da escola.  Até hoje, sempre que elogiam um texto meu (tem gosto pra tudo) eu lembro dessa história.  Porque nunca me desencorajaram de escrever.  Pelo contrário, sempre me deram força para continuar fazendo isso.

 

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
Esse post foi publicado em Causos e marcado , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

3 respostas para A Redação do Prefeito

  1. Parabéns “ garoto da redação do prefeito.” rsrsrs
    Parabéns mesmo, seus textos são muito bons !!! E continuo acompanhando.

  2. Pingback: Quando eu disputei eleições | Blog do Fernando

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