Life is a Higway (in Europe)

Adoro dirigir em estrada.  Já me foi uma terapia, sempre que possível dou minhas voltas pelas estradas, é ótimo para desestressar.  Mas como todo mundo sabe, sou um bom motorista, respeitador das leis e dos outros, razão pela qual nunca me envolvi em um acidente e já evitei vários.

No entanto, assim como a educação média do brasileiro vem caindo a cada ano, o comportamento dos mesmos no trânsito acompanha essa decadência, de forma que venho perdendo o tesão que tinha por dirigir em estrada e já havia tempos que não sentia aquela dose de endorfinas que te deixa feliz após algumas horas de estrada.

Fui tentar novos ares.  Quando resolvi que as férias desse ano seriam uma Eurotrip, uma coisa que fiz questão seria de dirigir.  Trem é para os fracos e avião comercial é para fracassados e terroristas.  Assim, já saí do aeroporto de Londres a bordo de um reluzente Peugeot 308 azul metálico (esse aí embaixo).

British Blue

Pra começar meu colega de viagens, apesar da genética francesa, mora na Inglaterra.  Isso fez com que ele pegasse os costumes locais, como ter o volante do lado direito, marcar velocidade em mph, a distância percorrida em milhas e o GPS informar tudo em milhas e jardas.  Ainda bem que assisto a futebol americano.  Ele tinha uma coisa maluca também que sempre as 17 horas parava de funcionar e soltava uma água quente no porta-copos.

Ele não é o Red 5, mas precisa de um nome para narrar minhas peripécias a bordo dele.  Chamei-o de British Blue.  Na verdade ele é franco-britânico, mas quando disse a ele que iríamos para a França ele respondeu que detesta aquela porção de terra a leste do Canal (da Inglaterra, não da Mancha).  Portanto considerei que ele já era um perfeito lorde.  Se me levasse bem, ao final eu o chamaria de Sir British Blue.

Na Inglaterra, a vontade que eu tinha era a de inverter meu cérebro.  Ou andar tudo de marcha ré.  Deve ser a forma mais simples de entender o trânsito desses caras.  Eles dirigem pelo lado errado da rua.  Saindo do Heathrow era estranho rodar devagar e por isso ter que ficar… A esquerda.  Vai ver é por isso que aqui no Brasil as pessoas andam todas na faixa da esquerda e devagar.  Está todo mundo fazendo treinamento para dirigir na Inglaterra.  Mas isso nem de longe foi a pior parte.

Dentro da cidade, pegar ruas, cruzamentos, rotatórias, era um suplício!  Meu GPS não falava, mas me levou direitinho ao Crrrroydon (esse monte de ‘r’ é para dar a pronúncia britânica que o bairro merece).  No entanto, entrar numa rotatória indo para a esquerda não é nada confortável.  E sair dela sempre achando que estava na contramão era de assustar.  Fora as vezes em que briguei com a Margareth (a moça muda do GPS) insistindo que o que ela queria que eu fizesse, não dava pra fazer.

Todas as cidades que visitei por lá ou estão muito hostis a carros, como Londres onde você paga uma taxa extra se rodar pelas zonas de congestionamento, Paris em que não tem vaga para estacionar e Amsterdam onde eles preferiram as (argh!) bicicletas, ou não vale a pena, como Bruxelas e Zurique, em que a parada foi curta e estava bem localizado, não compensando usar o carro.  Dessa forma não sofri as agruras de um motorista europeu na cidade e só aproveitei o que eles tinham de melhor:  As estradas.

Sim, todas são um tapete.  A pior estrada estava entre a França e a Bélgica onde havia pequenas rachaduras no concreto.  Acredito que ali devia ser uma região administrada pelo  DNIT europeu.  A França é uma versão do estado de São Paulo.  Tem pedágio pra tudo quanto é lado, mas diferente das concessionárias paulistas eles cuidam da estrada com esse dinheiro.  E você paga proporcionalmente ao que rodou na estrada.

Quando você sai da Inglaterra e chega na França, encontra uma dezena de placas que praticamente lhe imploram para que você dirija na direita.  Acredito que seja para evitar isso:

Dirigir na direita com o volante na direita é estranho, principalmente para ultrapassar, mas melhor que ficar na esquerda da rua.  De Calais, ou seja lá de onde aquele buraco chamado Eurotúnel sai, até Paris tem chão pra caramba, e eles voltam a usar km/h, para minha tristeza, pois já imaginava estar em uma versão francesa de uma Autobahn e poder rodar a 130 mph (o British Blue é espertinho, ele vai a isso com folga).

As estradas francesas lembram as nossas:  Tem duas faixas, um acostamento, mas é só.  No resto elas são completamente desertas, não tem nada mesmo, só floresta ou plantação.  De vez em quando aparecem umas coisas chamadas Aire que oferecem um lugar para você parar, esticar as pernas, etc.  Algumas contam com banheiro, mas não espere ver gente.  Exceto o Pierre (já saberão quem é Pierre), não fica mais ninguém nesses lugares.

Esses Aires estão mais ou menos a cada 10km, quebram um galho pra você descansar e não cochilar na estrada.  Mas se é de combustível que você precisa, é bom gerenciar isso bem.  Ao contrário daqui, Postos de gasolina estão a cada 60 km.  Dar mole e ter uma pane seca não é difícil.  E você só encontra vida e coisas para comer e beber nesses locais.  Mas não espere muita vida.  É você quem vai abastecer seu carro, lavar o vidro e pegar seu café.  A alma viva está lá apenas para receber o dinheiro.

Abastecer o carro, aliás, foi um barato.  Na primeira vez joguei Diesel no chão.  Depois fiquei craque e agora, se tudo der errado, posso virar ou dançarina do Faustão ou frentista.  Como os postos estão bem longe de tudo e as saídas das estradas são poucas, não tente sair sem pagar.  Você vai ser pego rapidinho.

Eles tem uma cultura muito em cima do faça você mesmo.  Assim como você abastece seu carro, nos pedágios é tudo eletrônico também.  Não há pessoas nas cabines.  O pedágio ou você paga direto na máquina, ou pega um ticket e paga quando sair da estrada.  No caso do ticket, você ganha também a companhia do Pierre (lembra dele?), que te segue de perto, mas sem ser visto, e quando você chega para pagar o pedágio ele surge para garantir que você pague o pedágio corretamente.

Quando você está perto das cidades, há radares por toda parte. Cuidado com os limites de velocidade.  E na Bélgica eles mudam instantaneamente.  Passei por vários radares de 60km/h e quando eu estava abaixo deles, eles mudavam para 80!  Se fizerem a mesma coisa para baixo, ferrou.

O resto, na parte rodoviária foi só aproveitar.  Paisagens lindas e poucas fotos, muitas turbinas eólicas, caminhões vindos de vários países da Europa oriental, ver as pessoas me olhando como um alienígena por estar dirigindo do lado direito do carro, ver sinalizações que eu não entendia nada, até agora não sei porque as placas de velocidade na França vinham escrito “Rappel” embaixo e nem o que diabo eu tinha que fazer com os “tekkens” na Bélgica.

Os europeus dirigem de uma forma muito mais racional e civilizada que a gente.  Rodei por praticamente 1500 milhas e só vi um acidente em todo o percurso (na Suíça).  Cheguei a conclusão que europeus dirigem, brasileiros guiam carros.  Eles lá andam de moto, não nas bicicletas com motor que as pessoas aqui chamam de moto.  Também acho que não entendem muito de carro, pois andam de Audis, BMWs, Alfa Romeos, até Ferraris, mas não usam o melhor sedã (pausa dramática) do mundo.  Também cuidam bem dos seus carros, pois nesse tempo todo vi três veículos quebrados, todos na Bélgica.

Rodar tanta coisa, por boas estradas e dividindo-as com bons motoristas, voltou a me dar a alegria de pegar a estrada.  As partes de carro entre as cidades foram tão divertidas e instrutivas quanto o turismo propriamente dito.  Há tantos episódios pitorescos que se eu fosse contar tudo num post só daria um livro.  Aos poucos vou soltando as histórias.  Au Revois!

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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