“Feito em Casa”

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Alguns dias atrás estávamos em uma discussão sobre marcas:  A questão era porque usar roupas velhas ou “feitas em casa” se tinham roupas de marcas, bonitas, mais legais e… mais caras.  Embora haja mérito nessa questão, afinal você gasta dinheiro com algo e quer usar essa coisa, me levou a pensar.

Uma roupa que você comprar numa grande loja hoje, seja ela licenciada com personagens ou pirata, terá basicamente duas origens:  Terá sido feita pelo pequeno Ping ou pela Maria do Rosário.  Esses dois serão nossos personagens de hoje.

Pequeno Ping* tem oito anos.  É um simpático garoto chinês da periferia de uma cidade qualquer.  Pequeno Ping é filho de Hang Suang Po e Lin Chi Po.  Seus pais trabalham em uma fábrica de celulares.  Para ajudar no orçamento familiar, Ping arranjou emprego em uma confecção.

Colocaram o pequeno Ping para trabalhar no corte das peças.  Com  uma jornada de 12 horas por dia, com uma parada para um almoço composto por cinco bolachas, fica fácil para uma criança perder a concentração.  Foi numa dessas que Ping esqueceu o dedo segurando a pilha de malhas e o disco de corte impiedoso levou seu dedo.

Ping perdeu a ponta do dedo médio esquerdo.   Ficou bem depois, mas o sangue estragou malhas suficientes para fazer uma centena de camisas.  A fábrica cobrou da família de Ping, o prejuízo e também os custos com o atendimento.  Para cobrir esse prejuízo, Ping voltou à confecção.  Agora operando uma máquina reta, está mais seguro, mas ganha menos.  Terá que trabalhar dois meses sem receber salário para pagar o que deve.

Do outro lado do mundo, na Bolívia, Maria do Rosário e seu marido Juan Caballero não conseguiam emprego para sustentar seus cinco filhos.  Juan trabalha no cultivo da folha de coca, mas não é o dono da plantação.  É responsável por colher as folhas e ganha uma miséria com isso.  Cerca de um Dólar por fardo de 100kg de folhas.

Um belo dia, Maria do Rosário recebeu uma proposta de emprego que melhoraria a vida de toda a família.  A Bolívia não tinha emprego para a capacidade de Maria.  Ela poderia se dar melhor na maior cidade da América do Sul.  Indo para São Paulo ela poderia trabalhar e ganhar mais do que qualquer boliviano comum ganharia na Bolívia.  A proposta ainda incluía a moradia e alimentação.  Seria perfeito.

Mas, ao chegar ao Brasil, após viajar de ônibus, pau de arara e ônibus pirata, Maria do Rosário descobriu que as coisas não seriam tão boas como apresentaram a ela.  De fato, lhe deram moradia e alimentação, mas ela estava morando na própria confecção, montada em um minúsculo apartamento residencial da Capital Paulista, onde tinha outras 10 colegas de quarto.  Lhe davam alimentação, um prato de arroz, feijão e farofa por dia, sanduíche de mortadela e aos domingos um pedaço de frango.

Tudo isso não era dado.  Ela precisava pagar por isso com seu trabalho.  O maior problema é que as despesas de Maria com alimentação e moradia ficavam maiores que o seu salário de forma que ela não conseguia pagar o que gastava e, sem documentos, estando no país de forma ilegal e sendo ameaçada, não havia nada que Maria do Rosário pudesse fazer a não ser costurar.  Costurar e costurar.

A maior parte das roupas de marca que você compra foram produzidas pelo pequeno Ping ou pela Maria do Rosário.  Ou por colegas deles em outros países e cidades, mas sob o mesmo esquema de exploração de trabalho.  Não, não há muito para onde fugir, no seu guarda-roupa certamente você tem uma peça que foi feita por Ping ou pela Maria.

Por outro lado, a roupa “feita em casa” foi feita pela minha mãe.  Minha mãe é uma costureira profissional.  Desde que me dou por gente, ela costura em casa.  Tomava conta de mim e da minha irmã e costurava.  Consertava minhas merdas e me dava esporro, e continuava a costurar.  Foi assim que consegui meus livros, cadernos, lápis, canetas, borrachas, uniformes e os kichutes de cada ano.

Pelo fato de eu nunca ligar muito para roupas, nunca tive real noção da qualidade do trabalho dela.  Para mim, era tudo roupa.  Eu só via gente chegando, deixando roupas, saindo com roupas, tirando medidas, e acabando com eu indo com ela a lojas de tecidos e aviamentos para fazer mais roupas.  Mas depois de já grande, pude ter noção da qualidade do trabalho dela.

Aconteceu que um dia um casal de amigos meus iriam se casar e eu e minha então  namorada iríamos ser padrinhos.  Estávamos em uma onda de casamentos, alguns meses antes tínhamos sido padrinhos de outro casal, e ela não tinha vestido para o casamento.  Ela já usara o vestido da irmã no primeiro, tínhamos agora que arrumar outro.

Após vencida a guerra de sempre entre madrinhas sobre qual cor cada uma iria usar, arrumar um vestido azul mostrou-se um problema sério.  Uma estudante de pré-vestibular e um estudante de engenharia sem estágio não teriam condições de pagar 350, 400 Reais por um vestido.

Acabou que a minha mãe salvou a pátria.  Com 50 Reais de tecidos, mais uns 30 de aviamentos e algumas fotos, minha mãe fez um vestido fabuloso.  A garota acabou sendo a mais bonita da festa, o vestido chamou uma atenção danada e muita gente perguntou de onde veio aquele vestido.  A resposta seria “feito em casa.”

Felizmente eu aprendi a não dar valor a marcas, etiquetas, etc.  quando você paga uma fortuna por uma roupa, normalmente está pagando pela etiqueta que ela leva.  Por isso muita gente se surpreendeu comigo quando eu me recusei a comprar camisas de marca em NY que custavam 20 Dólares (uma pechincha) quando, no meu raciocínio, compensava mais comprar as mesmas camisas por 20 Reais na Rua Tereza.

E muitas vezes, o que você está comprando foi feito por pessoas exploradas, como a Maria do Rosário e o pequeno Ping.  Ora, para ter algo feito por pessoas exploradas, prefiro mais ter roupas feitas pela minha mãe, que são perfeitas, de qualidade e feitas com boa vontade e prazer.  Muitas vezes o “feito em casa” supera em muito o de marca.  Só não vai ter jacarezinho bordado no peito.

* Pequeno Ping é uma invenção do Blogueiro Carlos Cardoso para o responsável por empacotar gadgets comprados na DealExtreme.  É uma brincadeira politicamente incorreta sobre a mão de obra chinesa que adoro e que peguei emprestada.
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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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