Bruce Springsteen no Rock In Rio

Bruce Rock in Rio

Assim como quase todo mundo, até alguns anos atrás, tudo o que eu conhecia de Bruce Springsteen era “Born in the USA”, “Dancing in the Dark” e “Streets of Philadelphia”.  Isso fazia com que ele ficasse lá na lista de cantores que eu já ouvi falar.

Até o dia em que Springsteen e a E-Street Band fizeram o show do intervalo do Superbowl XLIII (2009).  Em 15 minutos e três músicas eles foram capazes de sacudir o estádio fazendo um espetáculo memorável (considerando ainda que aquele Superbowl foi um jogão). 

O Show era aguardadíssimo e todo mundo apostava a mãe que ele cantaria Born in The USA, mas não.  Ao invés disso, ele cantou uma “desconhecida” Glory Days.  Após o show, de volta ao jogo, o Paulo Antunes (comentarista da ESPN) falou sobre a Glory Days, que era a canção de Springsteen favorita dele.  Como gostei da música, acabei indo pesquisar e aprender a letra.  E ir mais além.  Entender porque esse cara faz tanto sucesso.

Ao contrário da tendência de hoje em que cada um quer se mostrar mais do que é, em que todo mundo quer se mostrar feliz e realizado mesmo sem ser (duvida? Já olhou o Facebook hoje?), em que o ter é a coisa mais importante, o que acaba fazendo sucesso são as músicas de ostentação, do qual o funk e o rap são os principais expoentes, mas não os únicos.  Assim, tome de músicas falando de carros, bebidas, mega-festas, mulheres e coisas que os fãs dessas músicas podem apenas sonhar.  Springsteen vai na contramão disso.

As músicas de Springsteen falam sobre pessoas comuns.  Pessoas que poderiam muito bem ser eu ou você.  Falam do estivador que trabalhou duro a semana inteira, e na sexta só quer dar uma volta na cidade com sua namorada, ou do veterano da guerra do Vietnã que voltou e não encontrou oportunidades, ou ainda do imigrante que foi tentar a sorte na América.   Pessoas comuns que, se você andar por qualquer lugar nos EUA você encontra.  Pensando bem, são trabalhadores, que dão duro para sobreviver.  Esse tipo de gente não tem só nos EUA, elas estão pelo mundo inteiro.

Glory Days por exemplo:  Quem não teve na escola um colega bom de bola que hoje poderia estar jogando em clube grande?  Se você pegar a letra dessa canção e for um pouquinho inteligente vai se identificar com ela.  E ela não fala de riquezas, ou coisas impossíveis.  Mas sim daquilo que todo mundo viveu:  Como foi bom nosso tempo de escola.

Eu comprei um DVD do Bruce Springsteen de 2009 (London Calling – Live at Hyde Park, tem o show todo no Youtube) e assistindo aquilo fiquei impressionado com a performance não só dele como de toda a banda (mesmo com ele tendo “Fucking sixty” na data do show).  A E-Street Band é algo a se chamar a atenção.  Se você pegar qualquer um dos músicos dela, eles são ótimos, mas individualmente dá para achar um melhor.  O próprio John Meyer que tocou antes é um guitarrista melhor que eles, mas por pouco não me fez dormir de tão tedioso que foi o seu show.  Mas quando eles se juntam, o que vemos é uma entidade uniforme, uma máquina de fazer Rock, uma máquina de show.  É como se fosse aquele V8 do Opalão original do tio do seu amigo:  É uma máquina antiga mas não há nada comparável em espetáculo.

Aí o Medina chama o Bruce pra tocar no Rock in Rio.  Ele disse depois que Springsteen foi um desejo pessoal dele.  Bem, se o Medina passou o Eike Batista em grana com esse Rock in Rio ele merece só pela escolha.  Assim que vi que havia fortes indícios de que Bruce viria, comprei meu ingresso.  Na pré-venda para não correr risco de ficar sem.  Acho que eu nunca vou ver uma performance tão épica num Rock in Rio como essa (a menos que Bruce volte). 

O show foi mais ou menos assim:  Como John Meyer tocou antes, vi a mais espetacular troca de público da vida:  Uma hora eu estava cercado por gente bem mais nova que eu, e de repente todo mundo a minha volta era mais velho.  A garotada que foi embora precisa aprender urgentemente o conceito de headliner em festivais de rock:  O melhor show vem por último.  Muita gente que estava ali só conhecia Born in the USA.  Acho que Bruce sabia disso.

Sim porque o cara entrou cantando Raul Seixas!  Beyonce para “homenagear” o Brasil aprendeu ah lelek (que convenhamos, não é nada difícil), Springsteen se deu o trabalho de aprender uma música inteira nossa, de um ícone nosso (em três anos ninguém mais vai se lembrar de “Passinho do Volante”, mas “Sociedade Alternativa” é de 1974 e todo mundo conhece) e cantá-la em português.  Eu digo que Bruce ganhou o público ali.  Os “tiozões” da plateia não precisavam disso.  Já sabiam o que viria.

Um show de Bruce Springsteen é mais ou menos assim:  Se você acha que ele é um velho de 63 anos que toca uma música e bate um papo com a galera pra descansar, vai quebrar a cara. Os caras não dão um minuto para você descansar.  Enfileiram hits, todos falando de coisas normais que você já viveu ou vai viver, um atrás do outro.  Se você precisa aprender como se faz um show de rock, assista ao Bruce.  Não tem pessoa melhor para ensinar.

E o velho de 63 anos que fica no palco cantando o tempo todo…  Quer mais?  Sim, ele corre por todo lugar, pular na galera, não para quieto.  Eu com a metade da idade dele não conseguir ia aguentar o pique do show que ele faz.  Mas aguentei ficar na plateia.  Mesmo quando me deixaram sozinho, o pessoal falou que ia embora e se eu iria, a vontade era responder “nem fodendo, tô esperando isso há uns 8 meses” mas só disse que podiam ir.  Eu fico sozinho.  Eu tinha noção do que estava acontecendo ali.  E não ia deixar passar.

Acabou que Springsteen desfilou quase todas as músicas que eu queria ouvir no show.  Não fosse a organização do Rock In Rio soltar os fogos durante o show, num claro “bota fora”, como o pai da sua namorada faz várias indiretas para te avisar que já está na hora de ir embora, Bruce teria ficado no palco até amanhecer.  Tinha repertório para isso, tinha fôlego para isso e tinha público para isso.  Só não teve tempo.  Quem sabe no próximo, o Medina não escale Bruce para encerrar o festival e deixe que ele vá até a hora que lhe der na telha.  E eu?  Bem, tive uma maratona para voltar para casa, mas com aquela alma lavada que só um show de rock pode lhe proporcionar.

Bruce Rock in Rio II

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
Esse post foi publicado em Carioquice, Causos, Diários de Viagem e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

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