Bem vindo ao novo mundo, Excelências

C-99 FAB

Sabe aquele garoto que não importa o quanto você fale, mostre, explique, ele não aprende?  Então, assim são nossos políticos.  Um dos principais motivos pelo qual o povo esteve nas ruas durante as últimas semanas é justamente as mordomias que a classe política possui, mordomias essas desnecessárias e expensivas ao erário.  Chego a pensar que o dinheiro dos estádios da Copa nem chegam perto do que é gasto em inutilidades para sustentar políticos.

Mostrando que não aprendeu nada e nem ouviu o grito das ruas, que quase invadiu seu local de trabalho, o Presidente da Câmara (e terceiro na hierarquia nacional) Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) botou a família em um jato da FAB e veio para o Rio passear e ver um joguinho no Maracanã.

Quando soube disso pela manhã fiquei tão injuriado que logo procurei pelo contato do parlamentar e enviei o seguinte e-mail:

Excelentíssimo senhor deputado:

Fiquei assustado ao ler a notícia de que vossa excelência usou de avião da FAB para fins particulares: 

Será que vossa Excelência não entendeu que o cerne, um dos principais motivos das manifestações que ocorrem em todo o país é justamente contra esse tipo de mordomia descabida que vossas Excelências insistem em gozar que, mesmo que seja legal, é totalmente imoral?

Na qualidade de Brasileiro me orgulho muito da minha Força Aérea, seu passado de glória, sua história e comprometimento com a defesa e soberania do Brasil e me sinto insultado e provavelmente a Força também o sinta, quando vossas excelências consideram nossa Força Aérea uma mera companhia de Taxi Aéreo para servir a vossos propósitos.

Se a FAB lhes é tão útil, por que não enxugar a nababesca verba para sustento do Congresso Nacional, cortando os (muitos) excessos e destinando as verbas para ajudar no tão necessário reequipamento da Força?  Talvez vossa excelência não saiba, pois os jatos C99 são novos, fabricados pela Embraer, mas para a principal atividade-fim da FAB, a defesa Nacional (e não o transporte de vossas excelências, como muitos dos senhores devem achar), ela conta com aeronaves da década de 70, mantidas e modernizadas graças a engenhosidade do pessoal da Força.

Da mesma forma, pesquisas e desenvolvimentos no campo aeroespacial são sacrificados em prol do sustento de mordomias descabidas para a Classe Política, como esta.  Afinal, a FAB é uma mera companhia de Taxi Aéreo, não precisa ter caças, desenvolver mísseis, foguetes e satélites, correto?   

Dessa forma, na qualidade de cidadão brasileiro e felizmente de não eleitor de vossa excelência (caso vossa excelência fosse o parlamentar o qual elegi, minhas cobranças seriam mais duras) exijo que vossa excelência repare a FAB ou ao Tesouro Nacional as despesas com o voo desnecessário que fez, e que isso seja feito as suas custas ou de familiares, não me importa, contanto que não seja dos meus impostos.

Encerro pedindo que vossa excelência abra os ouvidos para o grito das ruas, que já é ensurdecedor contra essas descabidas mordomias.  Na qualidade de legislador, vossa excelência poderia bem modificar a lei de uso de aeronaves da FAB, proibindo o uso por todos, exceto o Presidente da República, em todos os casos, salvo emergências.

Com imenso pesar e vergonha pelos seus atos, subscrevo-me;

Não preciso comentar mais sobre o que acho de deputados usando aeronaves da FAB a seu bel-prazer.  Mas, pergunta:  Como eu soube disso?

A cadeia de acontecimentos foi a seguinte:  O deputado se achando mais do que realmente é, gastou combustível, avião, horas de voo de piloto e tripulação para passar um agradável final de semana no Rio.  Em tempos de redes sociais, sua família, e ele próprio, postaram fotos, tuitaram, comentaram sobre suas atividades no Rio.  Não há nada demais nisso, mas aí entra a figura chave dessa história:

 Leandro Colon é um jornalista da Folha de São Paulo.  Até hoje, nunca tinha ouvido falar dele (não sou leitor assíduo da Folha).  Portanto não posso julgar seu trabalho, mas nessa matéria ele foi um jornalista com J maiúsculo.  Não sei o tamanho da complexidade em juntar os pontos para descobrir que o deputado Henrique Alves veio para o Rio de FAB, mas ao fazê-lo e publicar, o jornalista prestou um imenso trabalho ao seu país.

Como disse, não leio a folha, mas uso o Twitter.  Assim, um outro jornalista (o Flavio Gomes, da Warm Up e da ESPN), que lê a folha tuitou a matéria.  Pronto, fiquei sabendo.  A partir disso, enviei minha mensagem indignada ao parlamentar.

O que aconteceu?  A imprensa cumpriu seu trabalho.  O jornalista, ao ver os posts do deputado e familiares nas mais diversas redes, resolveu investigar como o deputado veio ao Rio.  Descobriu, ou por suas fontes, ou por pesquisa nos requerimentos do deputado, ou mesmo olhando para o FlightRadar24, que ele estava em um avião da FAB.  Isso era tudo que ele precisava.  E assim, ao publicar os fatos, cumpriu o papel da imprensa que é o de fiscalizar os poderes.  Não a toa, costumam chamar a imprensa de “quarto poder”

Nós, como povo, temos o dever de cobrar dos deputados e demais políticos, o bom uso do dinheiro público.  Usar nossa Força Aérea como empresa de taxi aéreo para família de deputado certamente não é.  Assim, da mesma forma como eu enviei um email ao deputado e tuitei meia dúzia de besteiras sobre isso, muito mais gente também deve ter ficado indignada.

Assim, as fotos no Instagram do deputado devem ter se enchido de comentários sobre o absurdo que ele cometeu, seu Twitter deve ter explodido em mentions de pessoas revoltadas com a atitude do deputado e ele ainda deu mais um motivo para as manifestações.

No final das contas, o deputado resolveu devolver o dinheiro gasto para a União. Alguém tem dúvida de que ele só fez isso por conta da enorme pressão popular imediata que ele deve ter sofrido com a divulgação desse episódio?   Que ele esperava que esse episódio passasse batido e ninguém nunca soubesse?  Alguém realmente acha que foi a primeira vez que ele fez isso?

Esse episódio serviu para mostrar mais uma vez que, embora Brasília esteja longe dos grandes centros do país, com a internet e com as redes sociais, essa distância fica a um clique do mouse.  Bem vindo ao mundo novo, excelência.  Não desgrudaremos mais os olhos dos atos dos senhores.

Em tempo:  A quantia que o deputado se propôs a devolver é de mais ou menos R$ 9.700,00 Reais.  Foram com o deputado sete pessoas.  Buscando no Decolar.com para o mesmo trecho é da TAM e sai por R$ 1220,00 por pessoa (mais taxas).  A conta fecha para um voo comercial mas… ele deveria ter cotado o valor de aluguel de um jatinho para o transporte, pois nenhum outro brasileiro que quisesse estar nesse voo, mesmo pagando passagem, poderia.  Gostaria que o deputado devolvesse ao menos R$ 40.000,00 que talvez pague o combustível.  Esse dinheiro não precisa ir para a FAB, poderia vir para esse projetinho aqui.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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