Mas afinal, quem nos representa?

Aproveitando essa confusão toda de manifestações e tal muita gente vem reclamando, e com razão, dos nossos parlamentares e demais governantes.  A questão é que não adianta nada ficar reclamando desses governantes agora.  A hora de reclamar deles será nas urnas em 2004, onde você pode tirar ou colocar quem você quiser. 

Já a algum tempo, desde que o Feliciano foi eleito para a presidência da Comissão de Direitos Humanos, muita gente fica dizendo “Marcos Feliciano não me representa.”  Um colega dele que cai na mesma é o deputado Jair Bolsonaro.  Isso me levou a pensar e fazer umas pesquisas:

Afinal, se Feliciano e Bolsonaro não representam ninguém, como é que eles estão no Congresso?  Eles precisam de votos para chegar lá.  E ganharam esses votos.  Se todo mundo diz que eles não os representam, não votaram neles, então como eles chegaram lá?

Marco Feliciano foi eleito com 211.855 votos, Já Bolsonaro obteve 120.646 votos nas eleições de 2010 (Fonte:  TSE).  Curiosamente, o contraponto a estes deputados, o Ex-BBB Jean Wyllys foi eleito com somente 13.018 votos, tendo sido o menos votado entre os eleitos na eleição do estado do Rio.  Teve muita gente mais votada que ele que não foi eleita.

Mas como isso funciona?  Como se elege um deputado?  Muita gente está na rua hoje reivindicando coisas que não faz a mínima idéia de como se pode conseguí-las.  Muitos acham que depondo a Dilma todos os problemas do país estariam resolvidos, outros acham que ela pode resolver os problemas do país na canetada, mas não é nem uma coisa nem outra.  Vamos aprender como funciona a eleição legislativa nesse lugar louco chamado Brasil.

A primeira coisa que devemos aprender sobre essas eleições é que elas são proporcionais, ou seja, a pessoa não é eleita somente pelos votos que ela receber, mas também pelos votos que seu partido, ou coligação, receberam.  Por isso, pense duas vezes antes de votar em alguém porque ele é seu amigo, ou porque ele construiu um abrigo de ônibus na sua rua.  Cada voto que você der para um candidato estará dando também para todos os outros que compõem a chapa em que ele está.

Ao término da votação, a primeira coisa a ser calculada é o quociente eleitoral.  Esse número é obtido dividindo-se os votos válidos pelo número de cadeiras em disputa.  Depois calcula-se o quociente partidário, que é o número de votos que o partido ou coligação recebeu, dividido pelo quociente eleitoral.  Assim o partido sabe quantas vagas conquistou na eleição.  As vagas então são preenchidas pelos candidatos mais bem votados naquela chapa.

Ou seja, embora você vote em uma pessoa, o voto nessa pessoa será a última coisa a ser contada.  Antes conta o voto para o partido que ajuda a todos na chapa.  Entendeu agora porque pensar duas vezes antes de votar em uma pessoa?

Vejamos nossos exemplos:  Em São Paulo, o quociente eleitoral foi de 314.909.  Feliciano teve bem menos votos que isso.  No entanto sua coligação (PSC/PHS) obteve 672.146 votos, somados os votos ao Feliciano, aos demais candidatos e também os votos na legenda dos partidos.  Isso deu à coligação 2 vagas na câmara.  Assim acabou entrando o Feliciano e um outro candidato.

Já no Rio, o Quociente Eleitoral foi de 174.129.  A chapa de Bolsonaro (PP/PSC/PMDB) era forte, foi a mais votada e teve direito a 12 vagas, nas quais uma delas Bolsonaro entrou.  Jean Wyllys conseguiu devido a ajuda de um colega que foi extremamente bem votado, o deputado Chico Alencar (PSOL) o segundo mais votado no Rio (perdeu para o Garotinho, na disputa RJ x SP sobre quem vota pior).  Chico Alencar teve 240.724 votos, sendo capaz de se eleger e ainda ceder um monte de votos para que os demais candidatos de seu partido (o PSOL não fez coligações) e nessas o ex-BBB se elegeu.

Esse sistema é estranho pois ele meio que te engana.  Você pode ter votado em um candidato do PP e não concordar com os ideais de Bolsonaro, mas mesmo assim ajudou a elegê-lo.  Ao mesmo tempo você pode não gostar do Jean Wyllys, mas achar Chico Alencar um político sério e sua intenção foi elegê-lo, e não outro candidato.  O sistema diz que você está votando em um candidato quando na verdade está votando em um partido.

Pior, em 2006 Enéas Carneiro usou o sistema a seu favor.  O folclórico eterno candidato a presidente do PRONA resolveu se candidatar a deputado federal justamente por saber que os paulistas gostam de candidatos doidos.  O resultado foi um recorde de votos nele, que permitiu que ele elegesse toda a chapa (teve deputado eleito com menos de cem votos), sobrando até uma vaga que foi para o PT (partido mais votado na ocasião).

Usando a mesma estratégia de Enéas, o PRB lançou o Tiririca.  Eles não estavam fazendo uma piada com o sistema, mas os paulistas que votaram nele sim.  Ao votarem no Tiririca seja por zueira, pra tirar um sarro, para não anular o voto, os 1.353.820 paulistas não só elegeram o Tiririca (que na pior das hipóteses não faria nada, como a maioria dos demais deputados), mas ajudaram a eleger um monte de outros candidatos dos quais eles não queriam (e sim, por isso que eles lançaram o Tiririca).

Então, se o povo está morrendo de vontade de ir as ruas e está indo por tudo de uma vez só, uma das coisas interessantes seria pedir por uma reforma política, uma vez que esse sistema engana as pessoas dizendo que você vota em uma pessoa, mas vota no partido.  Contudo, como ele interessa aos que estão no congresso agora só mudará por pressão popular.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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2 respostas para Mas afinal, quem nos representa?

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