Senta a Pua

Esquadrão da FAB na Itália posa sobre um dos P-47.  A foto é da FAB

Esquadrão da FAB na Itália posa sobre um dos P-47. A foto é da FAB

Quando o Brasil declarou guerra ao Eixo, resolveu fazê-lo de verdade.  Tínhamos sido agredidos em nosso território, nossos navios foram afundados, era necessária uma resposta a altura.  Assim mandamos nossas tropas para apoiar os aliados.  E o Brasil foi para a guerra na Itália.

Uma das grandes diferenças entre Brasil e Estados Unidos é o tratamento dado àqueles que foram a guerras.  Nos EUA veteranos são respeitados, tratados como heróis, mesmo quando são de guerras impopulares.  Você pode ser contra a guerra, mas respeita os homens que estiveram nela.

No Brasil não.  Eu não entendo porque, mas sempre há uma campanha para denegrir todas as guerras que entramos.  Na guerra do Paraguai fomos marionetes dos Ingleses contra os pobres paraguaios que só queriam se industrializar (as custas de invasão de nosso território).  Na segunda guerra lutamos em uma frente secundária…  Mas é como li de um veterano:  Para o soldado que está lá, não existe front secundário.  O que existe é a guerra.

Assim mandamos nosso Exército e nossa recém criada Força Aérea para o “front secundário” da Itália.  Pouca gente reconhece, mas eles fizeram história.  Existem vários ocorridos nesta guerra que mostram o valor do soldado Brasileiro, e aqui quero falar de um em especial.

O ano era 1945.  A primavera começava no hemisfério norte e os aliados pretendiam dar um cabo dessa guerra de uma vez.  O inverno havia sido particularmente rigoroso, Hitler fizera um contra-ataque maciço nas Ardenas, e no front montanhoso dos Apeninos na Itália, quase nada podia ser feito.

A tropa brasileira passou todo o inverno sob a sombra do Monte Castelo.  Os brasileiros ao pé da montanha com os alemães lá em cima.  Qualquer movimento lá embaixo e era fácil para os alemães dispararem contra eles.  Em fevereiro, finalmente a montanha foi tomada, e com o derretimento do gelo, os aliados puderam voltar a avançar.

Com a tomada de Monte Castelo bem como outras montanhas tomadas por tropas americanas, a linha de defesa alemã nas montanhas ruiu.  Uma aeronave de reconhecimento brasileiro percebeu o fato, vendo os alemães em franca retirada.  Atrás destas montanhas vinha um vale, o Vale do Pó, onde era impossível montar uma linha de defesa.  Assim, plano alemão era recuar até os Alpes e ali montar uma linha de defesa final.

Todas as tropas alemãs remanescentes, tanto do Front italiano, como do francês e do russo poderiam convergir para lá, onde seriam capazes de oferecer resistência e prolongar a guerra por muito mais tempo.  Dessa forma, o comando na Itália decidiu por tentar cercar os alemães, eliminando suas defesas, avançando o mais rápido possível de forma a interromper sua retirada, encurralando-os contra o rio Pó. Era a Ofensiva de Primavera do front italiano.

Para a ofensiva de primavera seria necessário um esforço final dos esquadrões de caça que operavam na região.  O comando determinou que cada esquadrão realizasse 44 missões de ataque por dia sobre qualquer coisa que se movesse.

Isso constituía um problema para o esquadrão brasileiro que, devido as perdas de pessoal e falta de recompletamento, contava naquele momento com apenas 22 pilotos.  Isso significava que cada piloto faria duas missões por dia.  Isso até mais três deles terem sido abatidos.  Por conta disso, o comandante do 350th Fighter Group aliviou os brasileiros de cumprir a meta de 44 missões.

Os brasileiros recusaram o “privilégio” e afirmaram que cumpririam as 44 missões.  E isso foi feito no dia 22 de abril de 1945. Aí você pode pensar:  “Mas a guerra já estava acabando, eles pegaram os alemães em retirada” ou outras coisas.  Mas não, fazer isso não foi fácil.

Um comandante de Airbus hoje fazendo uma rota como São Paulo – Brasília – Santarém – Belém (chutei) chegará cansado ao destino final.  Isso porque ele tem fly by wire, copiloto, cabine pressurizada e aeromoça servindo cafezinho.  Imagine voar num P47 despressurizado, com frio e comandado por cabos de aço e polia (tem que fazer força para pilotar).  Além disso você está na guerra.

Guerra. “mimimi a Luftwaffe alemã não estava mais lá” Certo, mas o que mais mata pilotos não é o dogfight, isso os coloca em igualdade de condições.  O que mais mata pilotos são as missões de bombardeio, onde você está vulnerável e tudo no chão está atirando em você.  E era isso que os brasileiros faziam.

Enfrentavam de frente fogo de 88mm, 20mm, 40mm, 72mm, 12,7mm, 7,62mm e mais o cuspe dos alemães.  E ao destruir um alvo, seguiam procurando outros, até que o combustível o obrigasse a voltar.  E voltando, era tempo de abastecer, rearmar a aeronave, dar um pulo no banheiro e comer qualquer coisa e de volta para a ação.  Chegavam a perder 2kg por missão. No mínimo. Os aviões perdiam partes e eles podiam perder a própria vida.

Como resultado, nesta data os brasileiros destruíram mais de cem alvos alemães, perderam um avião e tiveram outros dois avariados.  A façanha dos brasileiros apenas juntou-se a outras, como fazer a manutenção de três dias em uma aeronave em uma noite, tendo um alto índice de disponibilidade.  Além disso, os ataques estavam entre os mais precisos da guerra.

Por conta de tudo isso, o comandante do 350th Fighter Group encaminhou recomendação para que o esquadrão brasileiro recebesse uma das mais honradas comendas dos EUA:  A Presidential Unit Citation (Air Force).  Apenas três unidades estrangeiras receberam essa comenda.  Além dos brasileiros, apenas dois outros esquadrões australianos.

Para se ter uma idéia da importância da comenda, o 506° regimento de infantaria paraquedista da 101 Airborne ganhou a mesma comenda no nível de exército pelos feitos no dia D, que você pode ver em “Band of Brothers”

É verdade que no Brasil não se dá valor aos feitos de guerra.  Mas antes de falar mal, criticar nossos veteranos, não custa saber o que eles passaram e fizeram.  Também jamais diga a um veterano que ele lutou em um front secundário.  A guerra é igual para todos. E nossos aviadores estiveram entre os melhores de toda a guerra, honrando nossas tradições.  Sentaram a Pua.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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2 respostas para Senta a Pua

  1. “Na guerra do Paraguai fomos marionetes dos Ingleses contra os pobres paraguaios que só queriam se industrializar”

    Isso é mais uma mentira inventada pelos professores comunas nas décadas de 70. Quem conhece o mínimo de historia do Brasil sabe que naquela época o Brasil estava com as relações cortadas com a Inglaterra.

    • Houve uma campanha muito forte para desvalorizar os militares por causa da ditadura, assim tudo o que eles fizeram, inclusive feitos heróicos do Brasil como Nação tornaram-se questionáveis, como a Guerra do Paraguai e a II Guerra Mundial.

      Colhemos os frutos disso até hoje, bastando ver o estado em que nossas forças armadas se encontram.

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