O Rio de Janeiro virou um rio em janeiro. E eu tava lá

Alagados

O post anterior foi um preparatório para esse aqui.  Você entenderá ao longo do texto.  Vamos contar um causo engraçado, daqueles engraçados depois que passa, mas na hora são estressantes.

Quinta-feira 17/01.  Um passeio pelo Rio iria se tornar uma aventura.  Saio da Ilha do Governador as 22h logrando chegar a Rodoviária.  Antes da meia noite, horário em que o último ônibus parte para Petrópolis.  Perdendo este, passaria a viver uma experiência do tipo “O Terminal”.  Mas passou mais perto mesmo foi de ser o Náufrago.

Já começou mal com o fato do ônibus passar pelo Aeroporto.  Esse pulinho no Galeão custa um aumento de uns 20 minutos na viagem.  Pra quem estava correndo contra o tempo, qualquer coisa que gaste mais tempo é ruim.  Mas não tinha jeito, fui nessa mesmo.

Assim que o ônibus saiu do ponto, desceu um pé d’água daqueles.  Afora o problema de estar calor e ter que ficar com o ônibus fechado, tudo ia bem.  Ao voltar do aeroporto, muita água já se acumulava na Estrada do Galeão de tal forma que pontos de alagamento já se formavam.  O ônibus ia enfrentando todos eles até a saída da Ilha.  E a chuva continuava.  O pior estava por vir.

Avenida Brasil.  Além do oi oi oi, a avenida Brasil também é famosa pelos alagamentos.  Qualquer chuva provoca bolsões d’água.  A que estava caindo certamente alagaria alguns lugares.  Passávamos por vários pontos em que o ônibus erguia verdadeiras cortinas de água.  E seguíamos avançando até que… parou.

Na altura da Fiocruz não andava mais.  Nenhuma das pistas.  Na pista lateral víamos o alagamento a nossa frente.  A pista central alagava cerca de 100 metros a frente.  Quando vi que os caminhões estavam parados, percebi o quão feia era a coisa.  E lembre-se, o relógio está correndo.  A essa altura já era em torno de 23:15.

O motorista parou e desligou o motor.  Danou-se.  Olhando para a frente eu via não tinha muito o que eu podia fazer.  Nem o motorista.  Sequer cogitaria passar ali com o Red 5.  Nem com o ônibus eu tentaria.  Só que os demais passageiros não achavam isso.

Começou uma discussão danada dentro do ônibus, pois as pessoas queriam que o motorista avançasse.  O motorista não queria ir.  Duas pessoas em especial no ônibus estavam perturbando o motorista:  Uma mulher que eu não vi o rosto, e um cara que estava no banco do outro lado do meu.  Eles enchiam o saco para que o motorista passasse.  De fato, um maluco passou com um carro e outro mais doido ainda passou com uma moto.  A favor do motorista o fato de que nenhum ônibus estava tentando passar.

Essa discussão se arrastou por um tempo.  Fiquei sem dizer uma palavra, vendo essa confusão.  Até que o motorista disse que se algum ônibus passasse, ele passaria.  Isso meio que acalmou os ânimos.  Ficamos aguardando.  E a hora passando.  E estranhamente eu estava calmo e já praticamente assumia que tinha perdido o ônibus.  Estava avaliando minhas opções.  Mas até aquele momento, a melhor que eu tinha para sair dali era naquele ônibus.  Portanto, lá fiquei.

Aí um ônibus vem de trás da gente e resolve encarar.  Mas o ônibus estava apagado e sem passageiros.  Foi a resposta do motorista ao ser contestado porque ele não se mexeu.  Mas logo em seguida, um outro com passageiros passou.  É aí que eu assumo o protagonismo da história:

Quando o outro ônibus foi, o motorista ligou o motor.  Mas não foi.  Esperto ele, ficou esperando o outro ônibus passar por todo o bolsão d’água.  Fosse eu faria o mesmo.  Deixa o outro de bucha para que você possa avaliar a profundidade e como o ônibus está se comportando.  Mas começa o mimimi de uma mulher lá atrás do ônibus:

– Aí, falou que ia passar, agora tem que passar.

O motorista respondeu de bate-pronto:

– Tô vendo o outro passar, calma.

Ela insistiu:

– Não, porque falou que ia passar, que isso e aquilo, agora vai ter que ir.

O motorista já estava irritado, esse mimimi da mulher o deixou mais irritado ainda:

– Olha, eu vou passar, mas se continuar falando, aí eu não vou e pronto!  Ficamos todos aqui.

Isso me deixou irritadíssimo.  Agora que o cara resolve ir por causa de uma mimizenta ficar preso ali mais tempo?  Fala sério.  Estava quieto até então, mas aí resolvi me meter:

– Minha senhora, faz favor, o motorista falou que ia passar, o cara tá esperando o outro ônibus sair, portanto, fica quieta aí e deixa o cara passar.

Ela insistiu nas lamentações.  Aqui um parêntese:  Eu sinceramente não entendo porque as pessoas tem que reclamar o tempo todo.  O motorista falou que ia passar, era óbvio que ele estava esperando o outro ônibus sair da área alagada pra ir, por que ficar reclamando?  Se o outro ônibus passa e ele não faz nada, tudo bem, mas espere isso acontecer.  Mas não, a mulher tem que perturbar.  Fecha o parêntese.  O motorista então retrucou:

– Olha, esse carro é baixo, e puxa o ar por baixo.  Se puxar água, danou-se.  É 20 mil reais de retífica…

A mulher, ignorante continuava.  O motorista resolveu não passar por causa dela.  Aí eu disse:

– Fica quieta aí…  Se o cara não passar agora a culpa é sua…

Aí ela me sai com essa:

– Quem tá me mandando calar a boca aí, saiba que tem que ter mais educação… (um monte de coisas que não lembro mais)… Meu marido tá aqui! – Eu retruquei:

– Em primeiro lugar eu não te mandei calar a boca, pedi para que ficasse quieta.  Em segundo lugar, seu marido pode ser o Anderson Silva que eu não tô nem aí, não quero brigar com ninguém, quero só chegar em casa.  E por último, você sabe o que é calço hidráulico?  Não?  Então fica quietinha vai…

Pra quê.  A mulher ficou doida.  Desfilou um monte.  A essa altura o ônibus, já estava até andando.  Dei minhas últimas palavras à mulher:

– Olha, eu pedi para que você ficasse quieta porque o motorista não ia sair com esse mimimi.  Agora ele tá andando e eu vou pedir de novo porque sua voz está irritando a todo mundo.  Se não der certo, aí serei obrigado a mandar calar a boca.

E ela continuou o barraco.  Mas eu usei um pouco de sabedoria e o melhor antídoto para ignorantes:  Ignorar.  Peguei o fone de ouvido e a deixei falando sozinha.  Em menos de dois minutos ela tinha calado a boca.

O ônibus encarou poças maiores do que aquela que o havia detido.  por várias vezes achei que ele ia parar de novo.  Mas o cara foi.  Discussões a parte, o motorista era bom.  A Avenida Brasil estava totalmente parada.  Era minha última esperança de ainda pegar o último ônibus para Petrópolis.  Mas a Linha Vermelha não alaga…

Chegamos na Rodoviária as 00:20.  Tudo alagado por lá também.  Mas a vantagem é que eu agora era amigo do motorista e ele parou de forma que eu pudesse descer em ponto da pista que estava seco.  Desci e corri para a rodoviária.  Nunca se sabe né?

Não acreditei quando cheguei na Rodoviária, vi os Guichês da Única fechados mas um ônibus da empresa parado na plataforma.  Corri até lá decidido a pegar aquele ônibus nem que fosse pra ir em pé.  Não tive nem problema.  O motorista me botou pra dentro.  Mais dez minutos e o ônibus partia para Petrópolis.  Mais uma saída espetacular com um pouco de sorte e um toque de aventura.  E eu nem me molhei.  Cheguei as 2 da manhã em casa.

Leia Também:

Anúncios

Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
Esse post foi publicado em Causos e marcado , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s