O dia da Crisma

Há coisa de uns dez anos atrás conheci um sargento de cavalaria, se não me engano era o Sgt Clodoaldo.  Era umas das pessoas mais apaixonadas por aquilo que fazia que eu já vi.  Não me surpreenderia, afinal eu também seria assim se estivesse no exército ou construindo aviões.  No entanto, o que ele falou que mais gostava era de trabalhar com a juventude.

Ele como um sargento de já uns dez anos de carreira viu passar pela mão dele garotos de uma década.  E ele dizia que gostava porque tinha um termômetro de como andavam os jovens.  O pobre sargento deve estar desapontado com o que ele vê hoje em dia.

Enquanto eu queria ir para a Cavalaria para dirigir tanques e explodir coisas, esse sargento gostava de trabalhar com a juventude.  Passados dez anos, acho que agora partilho a idéia do sargento.  É legal ter um termômetro da juventude.  E é legal trabalhar com ela.

Desde 1999 trabalho com jovens.  Tenho um currículo imenso de trabalhos em encontros de jovens.  O retiro de carnaval de 1999 foi o primeiro (ficou conhecido como o “retiro da BR”).  Exceto a parte de tocar violão ou qualquer instrumento musical.  Me especializei em dinâmicas e ralação, e acabei sendo um dos faz-tudo da comunidade.

Mas o que sempre me atraiu na vida fora dos encontros, onde eu não posso usar a roupa do Exército, desembanhar o facão, pegar sapos entre outras, é a parte da formação.  Ou instrução como queira.  Mas é difícil “achar mercado” na Igreja para essa “profissão”.  Mas a gente sempre luta pelo nosso lugar ao Sol.  Era fazer isso ou ficar dentro de uma caixa de vidro com um aviso “em caso de encontro, quebre”.

Há uns oito anos atrás, depois do retiro de carnaval tínhamos umas oito pessoas que não haviam recebido a Crisma e que tinham em média 16, 17 anos.  Eles queriam ser crismados, mas no São Cristóvão não tinha turma e no Santo Antônio, além de ser em um horário ingrato (domingo as 8 da manhã) também era para adolescentes.  Foi idéia do Lincoln que pediu na paróquia e conseguiu autorização para formar a turma.

Quem daria as aulas era ele, mas foi nessa que caí de paraquedas.  Dividimos a turma naquele ano.  Uns temas fui eu, outros foi ele.  Mas basicamente quem montou a base do curso e os temas foi ele.  Só ajustei.  E assim mantivemos a tradição do São Cristóvão em mudar tudo.

Nos anos seguintes a turma ficou comigo, pois o Lincoln tinha mais o que fazer.  E eu fui virando o dinossauro da comunidade.  Isso até uns dois anos atrás quando me aposentaram.  Enfim, tudo passa, acho que não poderia ficar no posto para sempre.  Mas eis que nesse ano me chamaram de novo.

Dessa vez a idade estava mais certa para quem faz a Crisma.  Média de 15 anos.  Não parece, mas dos 15 para os 16 a mentalidade das pessoas muda bastante.  É um ano crucial na nossa vida.  Mas resolvi por não baixar a bola.  Mantive a mesma base, os mesmos temas e praticamente a mesma abordagem de quando o curso era voltado para pessoas mais velhas.

Para me justificar, eu tenho uma teoria.  O São Cristóvão sempre foi conhecido pelo seu grupo de jovens.  Sempre formou uma espécie de elite dentro da Diocese de Petrópolis.  Um tipo de Bope da Igreja ou uma Esparta da Diocese.  Mas nunca foi excludente.  As portas sempre estiveram, e estão, abertas para qualquer um.  No entanto não é qualquer um que entra ali.  Há algum mecanismo fora do nosso controle que faz uma seleção e, quem fica, fará parte das coisas grandes que fazemos ali.  E é por ainda acreditar nesse conceito que resolvi fazer a minha parte e dar o meu melhor para que a tradição de liderança e elite do São Cristóvão seja mantida.

Quem é professor de verdade sabe melhor do que eu que cada turma é única.  O que funciona com uma pode não funcionar com outra.  Se você permite que os alunos conduzam a aula junto com você a experiência pode ser sensacional.  Mas você precisa se garantir.  Se você tem ensinamento de decoreba, melhor não tentar.  Sempre me pautei por permitir e incentivar o debate.  É preciso fazer com que as pessoas pensem.

E esse ano o que tive de material representa as melhores tradições do São Cristóvão.  Pessoas extrovertidas, contestadoras, espertas, agitadas, dispostas.  A natureza dos jovens oriundos dessa comunidade é essa.  Não, aqui não vivem cordeirinhos submissos.  Aqui as pessoas pensam, agem, fazem.  Não esperam que façam por elas.  Não cabem preguiçosos ali.  Talvez seja essa a seleção que eu falava.

E hoje foi o dia da Crisma.  Completei a iniciação de mais seis cristãos.  Aumento minha responsabilidade, a lista pelo que serei cobrado no Céu aumenta em mais seis linhas.  Mas nunca tive medo de responsabilidade.  Isso acaba sendo um problema, muitas vezes tento abraçar o mundo com os braços.  E agora tenho mais seis almas no meu barco.

Seis almas que agora já sabem que quem manda na vida delas são elas e mais ninguém.  Que elas escolhem seus caminhos, amigos, companheiros…  E que Deus, nos indica os caminhos, mas os seguimos se quisermos.  A lição básica é essa.

Não, eu não tenho uma conta de quantas linhas já tem lá de pessoas que serei cobrado.  Mas dá umas boas dezenas.  Me orgulho da maioria deles.  Todo mundo que passou por ali, se hoje não está mais na Igreja, ao menos tenho certeza de que eles carregam alguns dos ensinamentos.

Depois que são crismadas, encerra-se os ritos de iniciação cristã previstos pela Igreja Católica.  Eles confirmaram, agora por vontade própria, aquilo que receberam no Batismo.  Sacramenta portanto o seu direito de escolha, e a escolha por vontade própria deles em ser da Igreja.

Agora tenho mais seis pessoas iguais a mim.  Vai-se uma turma, mais seis crismados.  Como sempre acontece nesse ramo, não faço idéia se ano que vem estarei lá, se vai aparecer gente, se vão me aposentar outra vez.  Mas enfim, ano que vem é outro ano, se tiver outra turma, será outra, diferente, as aulas tomarão outro rumo.  Mas cada uma que passou deixou sua marca.  A desse ano se destacou por querer mudar meu apelido na paróquia.  Mas o fato é que hoje entendo bem melhor o que dizia o Sgt Clodoaldo…

Lambari

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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