O Pato no Tucupi

Um dos principais objetivos da ida a Belém sem ser o trabalho era experimentar o tal pato no tucupi.  Esse é o prato mais famoso da capital Paraense, de forma que, ir a Belém e não comer pato no tucupi é como vir ao Rio e não ir ao Cristo.  Pois bem, primeira noite, vamos a caça.

Aqui um parêntese:  Experimentar comidas típicas de outros Países ou regiões pode ser perigoso.  Há o risco de você perder a viagem toda se fazer como eu e logo na primeira noite ir comer algo assim.  Pior, eu estava viajando a trabalho.  Como explicar que passei mal a viagem toda por causa de um prato típico?  Certamente teriam me mandado jantar no restaurante do Íbis.  Contudo, eu tenho fama de estômago de ferro.  Fecha parêntese.

O lugar mais óbvio para encontrar esse negócio era no ponto turístico principal da cidade:  A Estação das Docas.  Esse local faz parte do porto, até alguns anos atrás era só mais um local para carga e descarga de navios, mas alguém teve uma idéia genial de transformar aquilo em uma espécie de Shopping Center.

Assim, a Estação das Docas hoje é um local com um interior climatizado, onde você pode comprar produtos do artesanato da região, tem um mini museu com algumas coisas dos marujos de antigamente, além de restaurantes e bares.  Contudo o local é voltado para turistas, portanto, prepare-se para ser explorado.  Se for comer lá, mãos ao alto.

Pior ainda, não tem o bendito pato.  Só um restaurante tinha bolinhos de pato no tucupi.  Mas péra, se for pra experimentar essas doideiras, chamo aquele maluco do Fantástico e peço para ele preparar pato no Tucupi com nitrogênio líquido. Quero o prato na sua forma original.

Saímos.  Chega desse negócio pequeno-burguês de turista.  Vamos ver o que o povão faz.  Ao lado dessa Estação das Docas tem uma feira-livre que, faço idéia do que deve vender quando está em funcionamento (a noite quase todas as barraquinhas estavam fechadas).  Mas uma perguntada ali e outra aqui, descobrimos, segundo o pessoal, o melhor pato no tucupi de Belém:  O da Dona Carioca.

Opa, pode isso Arnaldo?  Uma carioca fazendo pratos do Pará?  Tem caroço nesse angu…  Mas mesmo assim fomos procurar.  A barraca fica no meio da feira, com aquilo tudo funcionando certamente eu não encontraria.  Mas naquele horário, achamos.  Conhecemos a D. Paula (que não é carioca) e que fazia os pratos.

Pato no Tucupi, porção regada:  15 reais.  Me garantiram que nas docas sairia por no mínimo 60 reais.  Ótimo, estou economizando.  A barraca da carioca passou no check de panelas (todas limpas) e, portanto, vamos nessa.  Desce dois aí.

O pato, todo mundo sabe, é uma ave.  Ela é muito apreciada no hemisfério norte, aqui no sudeste do Brasil ela está mais associada às carnes nobres, exóticas (como o Javali e a Carne de rã).  Mas o pato lembra o frango, mas possui uma carne mais encorpada e  mais dura.

Já o Tucupi, obviamente não peguei a receita mas é uma espécie de caldo feito a base de mandioca.  Mandioca que é a base da alimentação dos nortistas.  Para fazer o pato no tucupi você mistura o pato assado com o tucupi (não me perguntem mais detalhes).  Assim, a cara do tal prato mais famoso de Belém fica sendo a de uma… Canja.

Tá, foi broxante quando olhei para o prato.  Mas, ora, se imagem de um prato contasse as pessoas não comeriam lingüiça.  Servido com arroz e com farinha a parte (uma farinha que você comeria facilmente pura, de tão boa que tava).  Além do tucupi e do pato (não posso reclamar, tinha pato pra caramba) ainda tinha uma plantinha que merece ao menos um parágrafo a parte:  O jambú.

Como ficamos amigos da mulher da barraca, ela extremamente simpática, mandou que eu experimentasse apenas a planta e não comesse tudo junto, como estava fazendo.  Depois de comer ela me perguntou se estava sentindo algo.  Disse que não, ela disse que ferveu demais a tal planta.  Veio com um pouco dela crua.

“É agora que a gente leva o boa noite cinderela e acorda sem um rim numa banheira cheia de gelo” pensei.  Mas resolvi arriscar assim mesmo e comi o tal do Jambú.  Essa coisa deve ser a erva preferida pelos dentistas.  Simplesmente me deixou com a língua dormente.  Sensacional.  É um formigamento, que evolui para uma dormência.  O efeito passa rapidinho, mas é divertidíssimo.  Depois ela nos deu a flor do Jambú para provar e o efeito se intensifica.  Praticamente a boca toda fica dormente e você perde o paladar.

Para quem se preocupou, acordei no meu quarto no hotel Íbis e não, não havia qualquer cicatriz na altura dos meus rins tampouco gelo em lugar nenhum.  Portanto, se for para te apagarem, não o farão usando Jambú.

Enfim, sobre o pato, só posso dizer uma coisa:  Experimentem.  Parece uma canja mas vai muito além.  Ficou entre os melhores pratos que eu já comi na vida.  Contudo, preciso voltar a Belém.  Faltou o Tacacá, o peixe com açaí…  Mal posso esperar para estar no norte de novo…

Leia Também

Anúncios

Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
Esse post foi publicado em Diários de Viagem e marcado , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s