Uma Aula de Geografia

A rota cumprida pelo Bravo Airbus A319

Quando eu for dono da minha empresa de aviões uma das coisas que serão abolidas será aquela pala que você abaixa nas janelas dos aviões.  Na verdade deveria ser crime abaixar aquilo.  Fala sério, o cara tem a oportunidade de uma visão linda do mundo ali embaixo e ele simplesmente fecha?  Não ferra vai…

Fui do Rio ao Pará esses dias.  Na janela, como sempre faço questão.  Não tem graça andar de avião sem ser na janela.  E os cornos ainda fecham aquela pala…  Enfim, se você for inteligente o bastante para não fechá-la, pode ter uma aula prática de geografia que nunca mais irá esquecer.

Na ida, em um Airbus A319 da TAM estava na última fileira de bombordo.  Atrás de mim só o banheiro e o Galley.  Divertido ver um trânsito insano de pessoas indo ao banheiro (um cara de camisa listrada foi ao banheiro umas 10 vezes!).  Mas como estava na janela, era mais legal olhar para baixo do que para o clipe de Learn to Fly que se desenrolava lá em cima (Só faltou as aeromoças servirem o café batizado do clipe).

O visual lá embaixo não ajudava muito.  O país estava coberto por nuvens.  Nem sabia que um país do tamanho do Brasil poderia estar todo encoberto.  Estava também eu, indo para o vôo mais longo da vida.  3 horas e meia de vôo.  Minha relação ambígua com aviões (eu os amo, mas tenho medo deles) me deixava desconfortável ao longo de toda a saída do Rio.  Decolamos com chuva, pegamos turbulência até Belo Horizonte, quando pela primeira vez na vida, estando dentro de um avião em vôo vi outro avião voando.  Era outro TAM, bem mais baixo, provavelmente indo para Confins.

Daí nem foi tão perdido o fato de esquecer a câmera na mochila.  O celular deu conta de umas fotos.  O mais legal na viagem de ida foi ver as formações de nuvens.  Saindo do Rio uma tenebrosa formação de cúmulos-nimbus estava abaixo e acima da gente.  O avião sacudia, o piloto insistia com o aviso de cintos e de desligar aparelhos eletrônicos.  Achava que ele ultrapassaria as nuvens acima, mas já íamos a 37000 pés, próximo ao teto de serviço do valente A319.

Nuvens de quando saíamos do Rio. A esta altura já sobrevoávamos Minas e já tinha passado do cagaço da turbulência

Uma curiosa formação de nuvens que se elevava acima das demais

Quando já voávamos o sertão de Minas o tempo abriu.  As nuvens lá embaixo sumiram, as de cima também e o vôo assumiu uma suavidade impressionante.  Daí o passatempo foi ver a agricultura.  Sim, o Brasil é o celeiro do mundo.  Basta ver o tamanho das plantações e áreas prontas para cultivo que existem.  Isso também me assusta.  Cadê o Cerrado?  E a Caatinga?  Confesso que esperava ver mais áreas sem intervenção humana, mas há plantações dominando todo o Brasil.

Já sobre o Cerrado. Note as plantações

Sertão Nordestino bem abaixo. A seca deve estar castigando esse pessoal ali

Em compensação cidades, quase nenhuma.  Quando marquei meu lugar, o fiz pensando em ver Brasília.  Minhas informações de FlightRadar24 e de Flight Simulator indicavam que sobrevoaríamos Brasília, mas nada feito.  Seguimos próximos, mas o avião já assumira uma proa que nos levaria praticamente em linha reta para Belém.  O FlightRadar24 e o sistema da TAM mostravam isso também.

A outra coisa que queria muito ver era a Amazônia.  As fazendas estão dominando a Amazônia também.  Melhor a Dilma sair com esse código florestal logo ou não teremos mais florestas para defender.  Só fui encontrar a Floresta Amazônica no fim do vôo, quase chegando (durante uma descida “power-off”do Airbus), mas o pouco de Amazônia me deu as melhores fotos.  Rios imensos que mais parecem mares.  Na chegada vi um sistema de rios ao longo da planície que formavam praticamente ruas de água e as pessoas navegavam por ali.  Um barqueiro desavisado se perderia facilmente naquele labirinto fluvial.

As nuvens saúdam a chegada à Amazônia

Mais fazendas na região amazônica

E enfim surge a majestosa floresta com seus grandes rios.

Os rios formam praticamente ruas onde as pessoas navegam. Aqui um trecho selvagem. O rio é o Tocantins que está correndo para Belém onde se encontrará com o Amazonas no seu Delta

No vôo de volta já vim prevenido.  Janela reservada e câmera a mão para registrar mais uma coisa espetacular:  Ia ver o nascer do Sol a bordo.  Ver o nascer do sol de um avião era mais uma coisa nova para mim.  Fiz uma festa.  Filmei decolagem, tirei umas trocentas fotos, filmei pouso…

Mas foi aí que pensei sobre a pala das janelas.  O nascer do Sol foi lindo, mas depois o Sol ficava no meu rosto.  No maior estilo tô nem ai, mantive a minha aberta e fui o único no avião a fazê-lo.  Depois que o Sol subiu um pouco mais melhorou, mas como eu estava no bordo de fuga da asa, o Sol ainda refletia sobre a asa e incomodava meus olhos.  Pergunta se eu fechei a tal pala?

Decolando na Aurora

O Sol Nascendo visto do avião.

E mais um dia começa nos céus do Norte…

A volta era mais desafiadora no sentido de saber onde se estava porque o avião da TAM tem uma telinha que vai dizendo onde você está.  O da Gol não.  Na Gol é chute.  Me saí bem achando Amazônia, Sertão, Cerrado, e a cidade de Belo Horizonte.  Minas Gerais aliás ainda faz jus ao nome.  Como tem mineração por lá.  Petrópolis é uma cidade muito fácil de se achar também, basta ver onde estão as nuvens.

O porquê das pessoas fecharem a pala. Além do Sol estar baixo, por conta do horário, ainda reflete na asa.

Não sobrevoamos Petrópolis, passamos mais atrás, ainda sobre o Planalto Central de forma a fazer uma longa curva de quase 180º para pegar a proa da pista do Galeão.  Mas deu para identificar a Serra.  A Serra dos Órgãos tem esse nome por causa dos picos que lembravam aos portugueses que desembarcavam no litoral e lembravam-se dos tubos dos órgãos das igrejas européias.  Isso posto fica fácil identificar a Serra dos Órgãos.

Abaixo o Aeroporto Internacional de Confins – CNF

Sobrevoando Belo Horizonte. Note a Lagoa da Pampulha. Já estive lá

O Brasil, como vocês devem saber, começa no litoral como uma planície litorânea e logo depois tem “A Muralha” uma cadeia montanhosa que protege todo o interior, formado pelo Planalto Central.  Quase todo o país é assim. E se aproximando do litoral você vê, a partir do Planalto Central a cadeia montanhosa se levantando a sua frente. A Serra dos Órgãos é só mais uma parte desta muralha.

Petrópolis? Serra dos Órgãos? Olhe em direção as nuvens.

Aquele imenso sulco amarelo são as obras do Arco Metropolitano do Rio de Janeiro. Promete desafogar a Washington Luiz, Av Brasil, Via Dutra e Ponte Rio-Niterói. Veremos.

Finalmente aproximamos, Baixada Fluminense, várias cidades, já deu pra ver as obras do Arco Metropolitano (Melhor adiantarem logo essa obra, quero me livrar dos engarrafamentos).  Na verdade tive a melhor aproximação sobre a Baixada até hoje.  Nunca tinha conseguido ver tanta coisa nessa região como nesse dia.  Finalmente Avenida Brasil, Washington Luis e Opa, vamos tocar a pista.  De mais esses dois vôos, três conclusões:

 1 – O Brasil é lindo de morrer;

2 – Voar é legal demais;

3 – Cada vez que vôo menos ateu eu fico.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
Esse post foi publicado em Aviação, Diários de Viagem e marcado , , , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Uma resposta para Uma Aula de Geografia

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