A Serra de Petrópolis

Veja o vídeo:

Bonito não é?  A questão é, fica pronto quando?  Resposta, simples e objetiva:  Nunca.  A menos que o Coelhinho da Páscoa ajude o Papai Noel e seus duendes no mutirão e nos entreguem a obra no próximo Natal.

A principal ligação entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais sempre foi via Petrópolis.  Já foi via picada para tropa de mulas.  Depois Petrópolis ganhou o primeiro caminho pavimentado do Brasil:  O Caminho novo (para tropa de mulas também).  A primeira estrada pavimentada do Brasil também ligava o Rio a Petrópolis:  A Estrada da Serra da Estrela.  Petrópolis também recebeu a primeira ferrovia e, por fim, a primeira estrada asfaltada do Brasil (União e Indústria).

Cada uma dessas novas vias foram sendo feitas a medida que a região e o país cresciam e as vias antigas estavam saturadas, exigindo novas.  Em 1928, no Governo de Washington Luiz  (conhecido como O estradeiro) foi construída a Rio-Petrópolis, atual BR-040.  Esta passou a ser, e é, até hoje a principal ligação entre o Rio e Petrópolis, e entre Juiz de Fora, Belo Horizonte e Brasília, apenas para citar as grandes cidades.

Daí você pode pensar que a estrada que usamos hoje não é a mesma construída pelo presidente de 1928.  Embora boa parte da estrada tenha sido reformada, e duplicada, um trecho ainda tem o traçado idêntico e a mesma pista que a estrada de 1928:  A subida da Serra de Petrópolis.  É bem verdade que hoje é só subida (ela já foi mão dupla) e que o túnel Washington Luiz veio depois para acabar com a curva mais perigosa da serra, mas, na essência, o traçado e dimensões são os mesmos.

Pense no que aconteceu desde então:  Tivemos os anos JK e a explosão da Indústria automobilística, além da construção de Brasília e essa estrada se tornar a principal ligação entre o Rio e a nova Capital.  A estrada ficou sobrecarregada, logo foi duplicada (pelos militares, se não me engano).  Agora, desde o governo Lula e um bom crescimento do país, aumento do comércio exterior, instalação de indústrias no interior, aumento da renda, crédito e poder aquisitivo do brasileiro, nova revolução do mercado de carros no Brasil, tudo isso acabou por sobrecarregar a estrada novamente.

Basta subir a serra para ver:  Você invariavelmente dividirá as curvas com cegonhas abarrotadas de carros, muitos para serem  nacionalizados na Fiat de Betim ou na Mercedes de Juiz de Fora, outros de demais montadoras para abastecer o mercado mineiro e outros, caminhões com Containers levando peças para estas mesmas indústrias além de várias outras…  E essas carretas ficam cada vez maiores.  Uma cegonha mede em média 20 metros, mas eu já vi bitrens subindo com dois containers daqueles maiores, totalizando 30 metros de carreta.  Fora os caminhões tanques, levando combustíveis e insumos do polo petroquímico da Reduc, ônibus e carros em uma ligação cada vez mais frequente entre o Rio e Petrópolis, visto o esvaziamento econômico da cidade serrana…  Some tudo isso e coloque numa pista com projeto e tecnologia de 1928.

Acrescente, claro o fator meteorológico, pois o clima na serra é bem chuvoso e nevoeiro, e chuva, são constantes.  Basta ver esse vídeo aqui, que já coloquei até em outro post (aqui)

 Deu pra notar o inferno que é certo?  Agora vamos falar sobre a administração da estrada: A BR-040 sempre foi administrada pelo governo federal, via DNER.  Como está entre as estradas mais vitais para o Brasil e por contar com um bom projeto, a estrada sempre esteve em boas condições.  No entanto o Presidente Fernando Henrique continuava sua vontade de vender o país, percebendo que não tinha como cuidar de estradas, pois o dinheiro estava sendo gasto para salvar bancos, resolveu privatizar, mas não as estradas que mais precisavam de manutenção, mas sim o filé mignon das estradas, pois dar lucro era a coisa mais importante, uma das primeiras a ser privatizada foi a BR-040, no trecho entre o Rio e Juiz de Fora (pois o resto era deficitário para a empresa).  O consórcio que comprou a rodovia, tendo o direito de explorar o pedágio foi a Concer, que mantém a concessão até hoje.

Em teoria, ao ser entregue para a concessionária, esta exploraria o pedágio, mas teria que cumprir uma série de encargos.  É bem verdade que a Concer fez muitas obras assim que assumiu a concessão, alargando consideravelmente a pista no trecho que corta Duque de Caxias.  Se nada tivesse sido feito ali, teria ocorrido  um colapso no trânsito hoje.  Mas o da pista nova da serra, tudo o que se tem é o vídeo do começo do post.  E nos encargos estava lá essa pista, que já deveria ter sido feita.

O problema é que tucanos rezam para o Deus mercado.  E obrigar empresas a fazerem coisas é pecado.  Assim, para agradar a Concer, o valor do pedágio fixado foi alto, com cláusula de reajuste excelente (para a empresa) e pouca, ou nenhuma, punição caso ela não cumprisse com os encargos.  Vejam as demais estradas privatizadas por governos tucanos e percebam o preço do pedágio que é bem mais caro do que as feitas por outros governos.  E assim, a nova pista de subida não sai, porque diminuiria o lucro da empresa.

Quando questionado sobre a nova pista, e já não tendo mais como dar desculpas alegando que os órgãos ambientais, ou outros estariam atrasando as obras, o presidente da Concer disse simplesmente que não tem dinheiro.  Ele teve a cara de pau de dar três alternativas:  Aumento do pedágio (claro, ele só pensa nisso), aumento do tempo de concessão e financiamento da União (estilo Corinthians).  Duvida?  Leia aqui.

Nessa reportagem, um deputado sugere uma quarta saída, que seria fazer uma nova licitação para uma nova concessão para a estrada.  Sabendo como deputados são, certamente essa excelência está precisando de um carro novo, e o compraria com ganhos dessa licitação.  Mas o presidente da Concer mente, e mente bonito ao dizer que não tem dinheiro, e que teria que passar o pires para que nós usuários, via pedágio ou via governo, paguemos a conta.  Será mesmo que ele não tem dinheiro?

A praça de pedágio de Xerém, é a maior e mais movimentada das três existentes (e olha que eles tentaram 4).  Vamos supor que, em média passem ali 20 veículos por minuto.  Uma média anual, apenas para ficar constante.  Desprezando o porte do veículo (ônibus e caminhões pagam mais) e tomando o valor atual do pedágio de 8 reais, nossa querida concer arrecada 160 reais por minuto.  Em uma praça.  Em um dia, ela já tem 230.040 Reais.  Em um mês, eles nos roubaram cobraram  R$ 6.912.000,00.  Em uma praça.  Seis milhões.  Em um mês.

Claro que a Concer tem despesas com pessoal e equipamentos.  Vamos dizer que essas despesas sejam de 50% do faturamento.  O típico para uma empresa saudável.  Assim, em um ano a empresa tem de lucro  algo em torno de 42 milhões de Reais.  E não entramos na questão da publicidade ao longo da rodovia!  E o cara vem me falar que não tem dinheiro, e que precisa aumentar o pedágio? Como se diz no twitter, ah vápapu.

A Concer não está fazendo nenhuma obra grande na rodovia atualmente.  pior ainda, nem a manutenção da mesma está sendo feita direito.  No ano passado uma carreta transportando combustível tombou e explodiu em uma curva da subida da serra.  O incêndio, e o combate ao mesmo, terminaram por danificar o piso da pista.  Ao invés de trocar o mesmo, que é de concreto, a Concer improvisou remendos com asfalto, que ficaram mal feitos a beça criando ondulações, dentro de uma curva fechada.  Ao passar de carro ali, o pneu canta a 40km/h por causa da perda de aderência (o Red 5 sai de traseira muito forte ali, e olha que, sabendo do perigo dessa curva, não a faço a mais do que 50km/h).

Resultado:  Por duas semanas seguidas 22/06 e 29/09, carretas tombaram nessa mesma curva.  Carretas estão tombando na serra quase que diariamente, dado o aumento no número desses veículos e ao traçado da serra, e esta curva se tornou a pior de todas.  Além da perda material, da carreta e da carga, há uma muito pior:  A perda humana.  Homens estão morrendo.  Não são playboys que usam a estrada para acelerar supermotos e carros a 300km/h, são caminhoneiros.  Trabalhadores, pais de família.  E o tráfego na rodovia só piora.

Assim, ao se recusar a fazer a nova pista, que nada mais é do que obrigação da concessionária, e ficar com essa falsa mendigaria, a Concer está se manchando de sangue.  De mortes que poderiam ser evitadas e não o são, porque a empresa não faz aquilo que é muito bem paga para fazer:  Manter a estrada segura.  A eficiência da Concer está apenas em cobrar o pedágio, fechar rotas de fuga destes e chorar por aumento no mesmo.  e mais pessoas morrerão enquanto isso…

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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