A teoria dos quatro anos

Copa do Mundo, Olimpíadas, Copa América, Eurocopa, Eleições presidenciais, relacionamentos…  O que todas essas coisas tem em comum?  Ocorrem em ciclos de quatro anos.  Parece que nossa vida se arruma em ciclos de quatro anos.  A maior parte dos cursos universitários dura quatro anos.  E mais um monte de coisas que podemos achar aqui que ocorre em ciclos de quatro anos.  Mas péra, relacionamentos?  Tá certo isso?  O objetivo aqui é mostrar que, em parte, sim.

Eu tenho pensado nisso há muito tempo.  Tenho inúmeros casos para analisar aqui entre amigos, conhecidos, e fofocas.  Parece que ao completar quatro anos, o relacionamento passa por uma crise violenta, daquela de abalar os pilares da relação.  E em grande parte dos casos, ele não resiste a esse abalo.

Há várias possíveis explicações para isso.  Uma delas é que as coisas foram na verdade antecipadas.  Minha mãe sempre disse que essa crise vinha aos sete anos.  Eu tenho visto aos quatro.  Mas isso não quer dizer que depois não venham outras.  Mas vamos comparar como era antigamente para como é hoje:

Uma vez em uma festa de Bodas de Ouro, a senhora que celebrava a data disse a seguinte frase para uma amiga mais próxima:  “Fui infeliz durante 49 anos da minha vida”  A primeira coisa que você vai pensar ao ler isso é “caramba, de 50 anos do casamento, só um que prestou?” e o pensamento depois será “Se foi tão ruim, por que ficou esse tempo todo?”  A resposta a essa pergunta traz na essência a mudança de tempos.

Isso porque, ao fazer esta pergunta, você raciocina com a mentalidade de pessoa do século XXI.  Nada mais natural.  Mas lembre-se, ela comemorou 50 anos de casada, ou seja, tem 70 anos.  Se pensarmos com as pessoas daquela época, as reações seriam:  “Mas, você tem um marido bom, que nunca deixou faltar nada na casa.  O resto é a cruz que Deus nos deu para carregar” isso falando para ela.  Se fosse falar para o marido dela seria:  “Baita mulher que você arrumou hein?  Faz tudo em casa, não reclama, te obedece, e você ainda faz o que quiser”

Notaram a diferença?  Basicamente o que evoluiu foi o pensamento da mulher.  Pensamento e atitudes.  Se antigamente as meninas eram criadas para serem donas de casa e mães, e isso seria a realização da vida delas, isso não é mais verdade hoje.  Hoje as mulheres não querem ficar em casa enquanto os maridos trabalham.

Se antes as mulheres consideravam “uma cruz” carregar maridos desleixados, que não fazem nada, vivem bêbados, entre outras coisas, hoje, se ela não é feliz ao lado dele, simplesmente ela pega e vai embora (ou o manda embora).  E mesmo que o homem seja um bom companheiro, se ela enjoar, é adeus e pronto.  As mulheres hoje não temem mais o ficar encalhada, ficar pra titia entre outros adjetivos pejorativos para mulheres que não casaram.  Muito menos temem rótulos de separada, desquitada.  O ditado agora é “antes só do que mal-acompanhada”.  E esse mal-acompanhada pode nem ser tão mal assim.

Mulheres hoje não querem ir para escola, aprenderem o básico, aprenderem a cozinhar, a lavar e passar, depois tentar arranjar um bom marido, ter lindos filhos e viver num comercial de margarina.  Hoje, elas querem aprender mais, vão para as universidades, se formam médicas, engenheiras, cientistas, astronautas, pilotos…  Não raro ganham mais do que os homens e se destacam mais do que estes.   O sonho de casar e ter filhos até continua lá, mas agora como secundário.

Mas e os quatro anos?  Conheço inúmeros casais.  Muitos se desfizeram já.  Alguns continuam juntos, casaram, tiveram filhos…  Mas o universo dos casais que já acompanhei o quarto ano de relacionamento era sempre temeroso e turbulento.  Claro que essa evolução do pensamento da mulher é um dos principais fatores.  Se tem algo que homens odeiam e mulheres adoram é a famigerada DR.  Se antigamente, no tempo da mulher submissa não existia a DR, e a mulher se sujeitava aos caprichos do marido e pronto, hoje, infelizmente, é impossível ao homem fugir dela.

Acredito que há outros fatores também.  É natural e praticamente involuntário, que desde o primeiro beijo casais tentam um mudar o outro.  É uma coisinha aqui, outra ali, e o relacionamento seguirá assim.  Isso não necessariamente é ruim.  As mudanças que as mulheres já me fizeram, muitas me fizeram bem.  Basta ver que eu não ligava para combinar roupas, pegava a primeira que visse na gaveta, não gostava de me arrumar, meus cuidados com aparência limitavam-se a tomar banho, escovar os dentes após as refeições,  fazer a barba uma ou duas vezes por semana e cortar o cabelo (no barbeiro da esquina) a cada mês.  Ou seja, evoluí bastante graças a elas (mas ainda me mantenho longe da linha que separa cuidado com frescura).  Já eu, não sei dizer se contribui com elas no que eu tentei mudar.

Até por conta disso, e por outras tantas que você acaba cedendo, relevando em alguns momentos que talvez poderíamos modelar um casal como um encontro de placas tectônicas.  Cada coisinha aqui e ali acaba gerando pequenas tensões, que vão se acumulando, lentamente, até que, no nosso caso quatro anos depois, um reassentamento é necessário para relaxar as tensões.  E aí temos o terremoto escala 9 na Richter, seguido de tsunami e inundação.

Mas pode sim haver vida após os quatro anos.  A maioria que eu conheço não teve, mas os demais, ao sobreviverem a esta crise, tornaram-se mais forte, se casaram e vivem juntos e bem até hoje.  A crise dos quatro anos parece ser mais um objeto de seleção natural, de forma a manter apenas os fortes, ou mais aptos.  E isso é bom.  É melhor se afastar de uma pessoa, mesmo que você goste dela, ame até, do que tentar viver junto em um pequeno inferno.  O fato das mulheres terem evoluído (e muito mais que os homens, que pouco mudou daquele de 50 anos atrás) facilitou isso, pois elas tem muito mais coragem de acabarem com as coisas que não estão bem do que os homens.  Dizem até que 90% dos relacionamentos começam por iniciativa dos homens, mas 90% terminam por iniciativa das mulheres.

Uma outra coisa que sempre pensei é que o homem vai contra a natureza.  Ao escolher ser monogâmico (ao menos na cultura do ocidente) ele vai contra toda sua família na natureza.  Pouquíssimos mamíferos são monogâmicos.  Entre os primatas, não é típico a formação de casais estáveis para a vida toda.  Isso é muito mais comum entre as aves.  Mas sim, ao ser dotado de consciência, o homem faz seu destino, ao contrário dos animais, e ele pode se determinar monogâmico, embora os instintos o digam o contrário.  Portanto, ficar amarrado a uma só pessoa desafia de certa forma os instintos naturais da espécie.  Uma hora o chamado da natureza pode ser mais forte.  Ou quem estando em uma relação estável nunca pensou, mesmo que por um momento, em largar tudo e voltar para a vida de zueira?

Há outro fator interessante na durabilidade dos relacionamentos:  Estamos vivendo mais.  Na idade média por exemplo, velho era aquele que chegava aos 40.  Hoje dizemos que a vida começa aos 40.  Portanto, se antigamente passávamos algo em torno de 20, 25 anos casados com a mesma pessoa, hoje, dada a expectativa de vida, estaríamos forçando a ficar 40 anos, com relativa facilidade.  Aí, sua mente do século XXI já pensa “haja saco pra ficar 40 anos com a mesma pessoa”

E é exatamente isso.  E como o tabu da separação caiu, hoje pessoas divorciadas não são mais vistas como uma aberração ou algo diferente, ou como fracassadas, mas sim como pessoas normais, as coisas melhoraram.  Se você não está feliz, independente do grau que está a relação, separar-se, embora dolorido, é uma opção e pode ser até boa para os dois.  Por isso cada vez menos casais que sobem ao altar chegarão ao “até que a morte os separe.”

Eu não enxergo isso como ruim.  Melhor enfrentar a dor de uma separação, mas num mundo onde você é capaz de juntar seus cacos e se erguer mais forte do que antes, do que ser a senhora do começo do texto e, já no fim da vida, concluir que foi infeliz durante 49 anos.  Talvez seja aí que os quatro anos se encaixam.  É muito menos dolorida uma separação de um namoro de quatro anos do que de uma relação consolidada de, digamos 10 anos.  A crise dos quatro anos é, portanto, uma forma de seleção, bastante importante, de forma a nos preservar de dores maiores no futuro.

Portanto, se você se encaixou nesse caso, fique feliz.  Você foi, com certeza, preservado de algo muito pior que viria a frente.  Basta agora levantar a cabeça, ver que você agora é melhor do que antes, assimilar as lições aprendidas e seguir a vida.  Ninguém pode depender de ninguém para ser feliz e conquistar o que quer.  Relacionamentos devem ser complementos para aumentar a felicidade de uma pessoa, nunca o centro dela.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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3 respostas para A teoria dos quatro anos

  1. Pingback: Como cagar na casa da namorada | Blog do Fernando

  2. João disse:

    Que bosta de texto =D

  3. Danilo disse:

    Man que foda, tive dois relacionamentos de 4 anos cada ahahahhahahaha

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