O Nome da Ponte

Dia desses o deputado Chico Alencar (PSOL/RJ) apareceu com um projeto de lei visando mudar o nome da Ponte Rio-Niterói para Ponte Herbert de Souza, o Betinho.

Mas como? Vai mudar o nome da ponte?  Sim, é o que ele quer.  Diz que foi por iniciativa de movimentos populares (não citados).  De qualquer forma, o nome que vai sair não é o “Rio-Niterói” e sim o nome “oficial” da ponte:  Ponte General Costa e Silva.

Fiz uma pesquisa rápida entre amigos e colegas de trabalho.  Ninguém sabia que a ponte levava o nome do General.  A ponte é conhecida simplesmente como “Ponte Rio-Niterói”  Provavelmente você que eventualmente está lendo isso também não sabia.  Há uma placa no começo da ponte, dos dois lados que diz o nome do General.  Talvez você se lembre dela agora.

A primeira coisa que me chamou atenção portanto é a irrelevância do projeto.  O nobre deputado deve andar com poucas atividades.  Não deve realmente, haver mais da metade da constituição de 88 que ainda precisam de leis complementares para regulamentar determinados artigos.  Ele é da comissão de Direitos Humanos da câmara.  Ora, então retirar o nome de um general da década de 70 é prioridade.  Não temos realmente crianças exploradas, trabalho escravo em fazendas e mesmo em cidades grandes, turismo sexual, tráfico de pessoas…  Com todos esses problemas já resolvidos, é natural que o nobre deputado e a comissão se preocupem com o nome de uma ponte.

Curioso que, como ninguém sabe o nome que a ponte leva, então a mudança será irrelevante.  Será tempo, dinheiro e recursos gastos inutilmente.  Quem dá nome as coisas é o povo, não o poder público, por mais que tente.  O Estádio Mário Filho por exemplo, se chama Maracanã.  Já o Estádio Olímpico João Havelange se chama, na verdade Engenhão.  O estádio do Corinthians, se sair do papel, pode se chamar oficialmente Estádio presidente Lula que o nome já está dado:  Itaquerão (se o nome for Lula, talvez se emplaque um Lulão).

Esse privilégio não pertence a estádios.  O aeroporto internacional do Rio leva o nome de Tom Jobim.  Mas quando você vai a um aeroporto ou vai fazer um vôo por aqui sua primeira pergunta é:  “Galeão ou Santos Dumont?”  A própria sigla do aeroporto para os órgãos de aviação (GIG para a IATA e SBGL para a ICAO) lembram Galeão.  Eurico Miranda também tentou com uma canetada mudar o nome do bairro de S. Januário para Vasco da Gama (conseguiu, mas o nome do povo continua sendo S. Januário).  De Vasco lá como nome apenas a favela “barreira do Vasco” e, claro, o clube mais admirável do Brasil.

A Ponte Rio Niterói é só mais um caso desses.  O seu nome é Rio Niterói e acabou.  Não é o nome do General e nem será o do sociólogo.  Trocar o nome da ponte é, portanto uma grande perda de tempo.

Mas o buraco é mais embaixo.  O General Arthur da Costa e Silva foi um dos presidentes do período de governos militares.  A ponte leva o nome do militar pois foi ele quem deu a ordem para a construção da mesma.  A Capital não era mais o Rio de Janeiro e o estado da Guanabara não tinha mais sentido.  Ao mesmo tempo, as duas maiores cidades eram separadas por uma distância enorme (sem o uso de barcos) quando as duas “se olhavam” uma em cada lado da baía de Guanabara.  Ao mesmo tempo o país vivia tempos de crescimento econômico monstruoso e o governo decidira por desenvolver o país, tocando obras gigantescas (como a própria ponte, a Usina de Itaipu e Usina Nuclear de Angra entre outras).  A Ponte foi, portanto, fruto desses tempos.

Aqui um adendo:  Citei três obras que figuram como “faraônicas” em livros de história, no sentido mais pejorativo da palavra, como se fosse inútil.  Contudo, não vivemos sem essas três hoje no Brasil.  Se construídas hoje, teríamos superfaturamento, atrasos, aditivos, corrupção…  Mais ou menos como os estádios da Copa.

O general Costa e Silva foi homenageado porque, sendo dele a ordem para a construção da ponte não sobreviveu para vê-la terminada.  Um grande projeto, se é para receber o nome de alguém, teria que ser ou do seu engenheiro projetista chefe, ou do arquiteto ou, da pessoa que mandou que fosse feito.

O argumento para que o nome do sociólogo Betinho “Tenha a ver” com uma ponte é o de que ele, em vida, construiu pontes entre as pessoas.  Não tenho nada contra o Betinho e considero o trabalho dele louvável e belo, mas o argumento é forçar a barra.  Se for assim, chamemos a ponte de João Paulo II, afinal o Papa denomina-se “Pontífice” (aquele que contrói pontes) e João Paulo II foi o homem que mais construiu pontes entre pessoas e povos do mundo.

Da mesma forma, poderíamos renomear o Maracanã como Estádio Emílio Garrastazu Médici uma vez que o outro general presidente era figura fácil no estádio acompanhando os jogos de seu time de coração, o Flamengo.

Mas a verdade escondida aí não passa de revanchismo.  Muitos dos que lutaram contra os governos militares estão hoje no poder.  No entanto, jamais cicatrizaram as feridas provocadas pela repressão.  Mesmo que tenham cicatrizadas, agora parece que eles as cortaram apenas para liberar o rancor novamente.

Assim, a ponte leva o nome de um presidente daquela época?  Troquem.  Vamos apagar tudo o que os militares fizeram.  Precisamos reescrever a história.  A história é contada pelos vencedores.  Se antes eram os militares, agora são eles e, não podendo voltar no tempo, tentarão apagar dela tudo referente aos militares (tudo de bom, claro.  A idéia é satanizar esses governos).

Fico imaginando até onde isso vai.  Talvez o próximo alvo seja a Avenida Presidente Vargas.  Com o argumento que o mesmo foi um ditador e não merece homenagem, troquem o nome da avenida.  Eu sugeriria que ela passasse a se chamar Avenida Solano Lopez.  Afinal, imagine só a humilhação feita ao exército:  O túmulo de seu patrono (o grande Duque de Caxias) estaria agora localizado na avenida com o nome de seu inimigo.  O vencedor sepultado na avenida com o nome do derrotado (o pessoal que acha que fomos os vilões na guerra do Paraguai teria orgasmos com essa idéia).

Poderíamos também trocar o nome da Avenida Franklin Roosevelt (presidente do “império” americano) por algo mais politicamente correto.  Posso sugerir um?  Talvez, Fidel Castro (que nunca violou os direitos humanos de ninguém) ou talvez um paladino dos pobres e oprimidos:  Joseph Stalin?

O que sei é que esse revanchismo está indo ao ridículo.  Permitem que nossas forças armadas sejam sucateadas, apenas para dar risadas dos militares se virando para operar equipamentos da década de 70, esquecendo do dano que estão causando a Nação.

 Querem revogar a lei de Anistia (se for pra revogar uma lei, revoguem o ECA que causa danos ao país), querem punir velhos de 90 anos por tortura, mas não querem ser punidos por assalto, assassinato, terrorismo…  Na verdade eles sonham em botar esses velhos na cadeia, apagar tudo de bom que eles fizeram (as pessoas não fazem o bem o mal.  Os militares só fizeram o mal e eles só o bem), enquanto eles, governam e roubam o país, ficam impunes de seus crimes passados e presentes e ainda recebendo polpudas bolsas por isso.

Nossos políticos estão realmente com muito tempo livre para gastar com isso…

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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