Pinheirinho

O Blog do Não Salvo foi quem me fez perceber o problema do pinheirinho.  De uma forma cômica é verdade (ignorando todo aquele blá blá blá de direitos “dus manos” que vem depois, o vídeo é hilário).  Mas ali a coisa é séria.

O Pinheirinho é uma invasão de um terreno de um milhão de metros quadrados onde residiam 1600 famílias somando um total de quase 6000 pessoas.  O terreno pertence a massa falida da empresa Selecta que tinha como dono o especulador libanês Naji Nahas.  Mas parece que antes de tudo o terreno era da prefeitura de S. José do Rio Preto que o repassou para a empresa.  A empresa pretendia usar o terreno para pagar a dívida que ela tem com a própria prefeitura.  Ou seja, a prefeitura da cidade paulista receberá como pagamento um terreno que já era dela.

Para obter o terreno, invadido há cerca de cinco anos, os advogados da empresa entraram com o famoso pedido de reintegração de posse contra os moradores.  Conseguiram o pleito na justiça e esta determinou a retirada das famílias de lá.

Eu sou bastante rígido com essas ocupações de terras, acho que tem que botar pra fora quem invade mesmo e pronto.  Mas nesse caso temos que ir devagar com o andor, porque o dono das terras também não é santo (e nem o dono legítimo).  Mas não quero falar sobre os méritos da questão (eu faria uma desapropriação e dava infraestrutura para que fosse feito ali um bairro para essas pessoas.  É gente demais para reassentar em outro lugar).  Como eu gosto de estratégia militar, quero falar sobre a ação policial.

Quando esse tipo de ação acontece, sempre a polícia sai satanizada por entrar em confronto com moradores e por ela ser vista como a entidade do mal.  No entanto, se querem vilões, culpados por aquilo, não são os policiais, mas sim os políticos, juízes, empresários…  Os policiais eram os únicos que estavam fazendo seu trabalho.

As pessoas temem a tropa de choque.  E ela é para ser temida.  O choque não é a unidade para ser polícia de bairro, o “seu guarda” da esquina.  Ali estão seres humanos, pais de família, trabalhadores, mas com cacetete, capacete e escudo e junto dos seus, passam a ser uma força, temida, respeitada e intimidadora.  Isso é necessário.

Poucos civis entendem isso, mas essa suposta truculência da polícia certamente foi a responsável por salvar inúmeras vidas e impedir um massacre histórico no Pinheirinho.  Eles não entendem o uso da tática, organização, uso da assimetria e intimidação como meios de salvar vidas inclusive da outra parte.

O mais maconheiro dos hippies e o mais iludido pacifista gostaria de uma polícia que distribuísse flores, batesse de casa em casa e pedisse por favor para que eles saíssem.  Claro que isso não daria certo.

A polícia certamente viu o vídeo.  Comentaram sobre o cara com o bujão de gás cortado como escudo e o outro com a antena da Embratel.  E o pitbull.  Sabem que aquelas pessoas não são bandidos.  A vida delas precisa ser preservada.  Não é como um Carandiru em que podia entrar mandando bala.  Foi o que eles fizeram.

O choque fez aquilo que ele sabe fazer melhor:  Empregou grande contingente de forma a garantir a assimetria de forças para o seu lado, usou sua organização, contra a total desordem dos moradores, e intimidou, por meio de barulho, armas não letais e aparente brutalidade.  O resultado:  Poucos se atreveram a enfrentar a polícia, evitando muitas vítimas.

O vídeo aqui mostra que poucos enfrentaram a polícia.  Os o que o fizeram, utilizaram-se de pedras e outras coisas que encontraram, incendiaram carros, etc.  A polícia revidou com balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e efeito moral.  O homem ferido que aparece no começo do vídeo não levou um tiro de arma de fogo (o ferimento seria muito pior, provavelmente estaria morto).  Provavelmente foi uma bala de borracha.  Nenhuma arma ali utilizada seria capaz de matar.  Bombas de efeito moral apenas fazem um baita barulho.

Os policiais agiram na medida do possível de maneira correta.  A ação em si é moralmente contestável, certamente muitos policiais não gostariam de estar fazendo aquilo, mas a polícia, como um órgão militar cumpre ordens.  Desobedecê-las, seria instalar o caos.  Algo como se os soldados romanos desobedecessem Pilatos e soltassem Jesus.  Imagine a confusão instaurada.  Uma tropa militar recebe ordens e as executa.

Do aspecto humano da situação, aquela ordem foi uma vergonha.  É gente demais, sequer tinha lugar para acomodá-las obrigando-as a irem para tendas improvisadas, e pior, não havia pressa em desocupar o terreno.  Era algo que, mesmo que tivessem que retirar as pessoas de lá, poderia ser feito de outra forma mais planejada e calma.  Burrice feita, por políticos, advogados e juízes (sempre eles) a polícia que leva a culpa.

Pior ainda, segundo o Blog do Flavio Gomes o terreno era de uma família alemã que foi assassinada e não deixou herdeiros.  Logo, o terreno passou ao poder público.  Como ele foi parar nas mãos do especulador? Tem muita coisa podre aí, e não são os moradores do Pinheirinho e nem a polícia…

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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  1. Pingback: Uma idéia para a solução da cracolândia do Rio | Blog do Fernando

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