Os Justiceiros I

Série nova no Blog. Qualquer semelhança com fatos é mera coincidência.

Foi como a cena clássica do cinema.  De repente um alvoroço na rua em frente ao fórum.  “Ele está saindo” comentam.  Fotógrafos preparam suas câmeras.  Cinegrafistas se aproximam.  Repórteres preparam as perguntas empunhando seus microfones.

Na frente vinha o advogado dizendo que seu cliente não falaria nada.  Atrás, pai e filho.  O filho, réu protegido pelo pai.  Ignorando a declaração do advogado os jornalistas insistiam em fazer perguntas.  Havia grande concentração de populares atrás.  Uma chuva de vaias quando pai e filho passaram.  A polícia criara um cordão de isolamento.

Já dentro do carro da família, o filho saca o celular.  Seus amigos ligavam querendo saber do desfecho.  O que estava na linha perguntou:

– E aí? Inocente?

O filho deu uma risada.

– Inocente não, peguei culposo.  O dr. Ribeiro aqui conseguiu botar pena alternativa.  Duzentas cestas básicas…  só pagar isso e pronto.  Amanhã meu pai disse que vai botar o setor de compras da firma pra resolver isso.  Depois entrega em qualquer orfanato aí e pronto.

– Ah então tranqüilo…  E o possante?

– Tá na pintura.  Demorou pra chegar as peças porque não tinha no Brasil.  Mas agora já tá instalado, só tá pintando.  Semana que vem tô com ele de novo.  Meu pai já deixou o cheque com eles lá, daí tá tudo resolvido.

Seu amigo encerrou a ligação com algumas risadas e incentivo.  O filho deu um sorriso, olhou para o pai e ambos pensaram “acabou”

Enquanto isso, do lado de fora, havia um pandemônio.  Flashes das câmeras dos repórteres, pessoas batendo nos vidros do carro, na lataria… E o motorista arrancou, deixando toda a multidão para trás.

Alguns minutos depois o veículo já se encontrava em uma via expressa da grande cidade.  Tomando o rumo da casa dos dois.  O filho, com 19 anos já escapara de ir para a cadeia por um crime.  Na cabeça dele, pensava que perdera a condição de réu primário.  Tinha que tomar cuidado na próxima.

– Agora nós vamos comemorar o fim desse pesadelo. – O pai quebrou o silêncio. – Quase seis meses! Caramba, uma batida de trânsito dar nisso tudo!  É inacreditável.

O filho respondeu:

– Pois é, coisa boba.  As pessoas não saem da frente quando eu tô passando, mas ficam com essas carroças no caminho! Agora estamos aí.  Duzentos mil de fiança mais, sei lá, uns quinze mil com essas cestas…

– Se preocupa não filhão. Importante é que você tá bem.  O que a gente vai gastar com as cestas a gente faz um churrascão pra comemorar o fim do processo.  Chama teus amigos que vai ter festa da boa.

O filho sorriu.  Quase que instantaneamente o motorista do carro que os levava buzinou alto.  Tinha levado uma fechada.  De repente um segundo carro emparelhou ao lado deles e o primeiro reduziu, obrigando-os a reduzir. Os carros os bloquearam até parar.  Logo que pararam, homens encapuzados desceram dos carros.  Fortemente armados foram diretos ao carro onde estavam pai e filho.

Os homens armados fizeram sinal para que destravasse as portas do carro, foram direto ao banco traseiro.  O pai, em pânico, dizia para os homens que podiam levar tudo, mas que os deixassem.  Era justamente o contrário do que queriam os homens.  Sob escolta eles foram levados pelos homens.  O motorista foi deixado sem um arranhão.

Dentro de um dos carros, os homens misteriosos vendaram os olhos dos dois.  O pânico os impedia de dizer qualquer coisa.  Sequer sabiam para onde estavam indo.  Andaram por um bom tempo sem saber para onde iam.  Até que pararam. Logo os puseram para fora.  Ao saírem desvendaram seus olhos.  Estavam em um local deserto.  Parecia que ali fora um ferro velho.

Logo um dos homens encapuzados que parecia ser o líder deles se aproximou dos dois.  Levantando o capuz, seu rosto ainda estava oculto por uma máscara.  Assim era também com os demais.  Ele tomou a palavra:

– Senhores, infelizmente nosso país não atingiu maturidade jurídica.  Nosso sistema protege apenas os ricos.  Aliás ele não só os protege, mas os põe acima da lei.  Há cinco meses você foi a uma festa, passou a noite toda bebendo e depois assumindo o risco, saiu com seu carro dirigindo em alta velocidade.

Sua conduta causou danos ao patrimônio de outras pessoas que lutaram para terem seus carros para facilitar suas vidas.  Pior, você feriu duas pessoas e matou um cidadão que estava indo para o trabalho, coisa que você não faz idéia do que seja.

– Mas ele pagou o que devia! – Retrucou o pai – A justiça…

– Duzentos mil reais e algumas cestas básicas trarão a vida de um pai de família de volta? – interrompeu

– Mas nada vai trazê-lo! – disse o pai

– Exato… – O homem disse, voltando a calma – Nada pode trazê-lo de volta, mas outros podem morrer se nada for feito.  Seu filho está solto nas ruas, pronto a matar de novo…  E os filhos de outros que também fazem a mesma coisa pois sabem que sairão impunes.

O homem os circundou.  Os outros encapuzados acendiam tochas.  Alguns dos que estavam armados fizeram com que o filho entrasse em um carro.  O líder deles continuou:

– Os peritos disseram que o pai de família teve seu carro atingido com violência e depois se incendiou. Sem ter como sair, inconsciente por causa do impacto, o homem ficou lá dentro, queimando.

Percebendo o que estava prestes a acontecer o filho começou a gritar em pânico de dentro do carro.  Homens mantinham armas apontadas para os dois de modo que eles não podiam fazer nada. O líder deles continuou:

– Como nosso país ainda é incapaz de prover justiça e dar um exemplo para os outros iguais a vocês, e considerando que ele jamais irá se regenerar por conta da péssima criação que teve.  Ficaremos só com o exemplo.

Gasolina foi jogada sobre o carro.  Logo os homens com tochas as atiraram sobre o carro.  O garoto dentro gritava.  Logo os homens encapuzados foram se retirando e deixaram o pai.  Este nada pode fazer além de gritar com os homens:

– Quem lhes deu o direito!  Eu vou encontrar vocês!

– Tente! – Retrucou o homem. – Pense nos filhos do homem que foi morto pelo seu.  Em uma brincadeira.

Dizendo isso, se retirou junto com os demais e sumiram.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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