Comentarista de casamento

Tudo começou na quarta.  Embora aguardado, esse casamento me guardava inúmeras surpresas.  O convite está em minhas mãos há mais de um mês, mas até quarta a noite eu era só um convidado normal como tantos outros.  Nada mais natural.  Aí o noivo me liga.  Fui promovido a comentarista de casamento.  Que diabo é isso?  Como disse o Tiririca, vota em mim que eu descubro e te conto.

Recebi o texto na quinta.  Casamento no sábado.  Tá, não é nada complicado fazer isso, eu podia ler, não era nada difícil.  Não era pra fazer um discurso na Assembléia Geral da ONU, e eu nem precisava criar o texto, ele já estava feito.  Lógico, cheio de pegadinhas, andei brincando no Twitter, a terceira palavra do texto era “Esponsal” e eu nunca a ouvira antes.

Muda-se o esquema, vou eu separar o terno, arrumar uma gravata, torcer para que ainda tenha nó, e vamos para o casamento.  Acho bem legal esse lance de terno e gravata, eu gosto de usar, embora faltem oportunidades, e não tenha talento para conseguir me arrumar bem.  Mas, lá vou eu para o casamento.

Cheguei cedo, como todo casamento tudo atrasa, lá estou eu conversando com meus amigos que são padrinhos.  Circunstâncias externas me impediram de conversar com eles até que as coisas começassem.  Fiquei na frente da igreja.  Aguardando.  A moça do cerimonial me arranjou um lugar.  Sozinho, longe de todo mundo.  Sequer ousava olhar para trás.  Havia uma cena na retaguarda da igreja que eu não gostaria de assistir.

Não faço idéia do tempo que esperei sozinho na frente da igreja.  Deve ter sido uma meia hora.  Pra mim pareceram dias.  Me fez pensar, se pra mim o tempo passa devagar, imagina para o noivo lá na porta esperando a noiva atrasada. Finalmente a moça do cerimonial me dá o sinal.  Aí vamos nós.

Embora eu tivesse um texto muito bem elaborado, vi que faltavam algo para dar as boas vindas ao público.  Algo simples, só um sejam bem-vindos.  É bem verdade que eu ensaiei um “Stand up” cheio de piadinhas sobre casamento, mas não acho que os noivos iam gostar de lembrar que sua cerimônia foi marcada por um pseudocomediante.  Tá, o Stand up vai ficar só pra mim.  Me dirijo a tribuna, olho para o público, mando meu tradicional pigarro e… não tem microfone.

Olho a volta. Não encontro.  Olho para os músicos.  “Vai ser no gogó?”  A essa altura está todo mundo me olhando.  “O que esse cara tá fazendo aí?” Perguntam.  Surgiu um microfone.  “Senhoras e senhores…” sem som.  O microfone não funciona. Vai na marra “SENHORAS E SENHORES SEJAM BEM VINDOS…” os músicos trouxeram um microfone.  Beleza. Vamos tentar de novo.  A essa altura eu já devia estar vermelho.  Quem me viu, depois poderia contar.  Comecei mais ou menos com essas palavras:

“Senhoras e senhores, sejam bem vindos.  É uma honra para mim dar-lhes as boas vindas para o casamento de dois grandes amigos juntos dos quais e de tantos outros aqui presentes que eu vivi meus melhores dias.”

A partir daí veio a parte do amor esponsal e todo o texto bem feito pelos noivos.  O roteiro previa que o padre entrasse, havia um introdução para ele.  Por conta dos atrasos o padre já estava lá e eu anunciando que íamos receber o padre.  Ele me diz, “eu já entrei”.  Ótimo, estou falando há três minutos e já tinha dado três mancadas.  Nem sei como consegui não ficar nervoso e estragar tudo.  Pelo contrário, consegui levar a cerimônia de forma bem descontraída.

É bem verdade que quem planejou a cerimônia teve bastante bom gosto e me ajudou muito.  Por conta da bela trilha sonora, eu pude ser o primeiro a dançar no casamento com uma impagável dancinha durante a entrada dos padrinhos ao som de “Stand by me”

Com a não tão agradável surpresa que tive antes do início da cerimônia imaginei que poria tudo a perder.  Achei que os noivos tinham me pedido demais.  Mas embora tudo isso acontecesse eu estava feliz ali, podendo participar daquilo.  Estaria feliz sendo só mais um convidado, mas o fato de poder fazer algo mais, me foi surpreendente.

Explico:  Os noivos fazem parte do grupo de amigos que me acompanham desde o final da adolescência ou até mesmo de boa parte dela.  Estivemos juntos em muita coisa.  Uma das coisas que mais me faziam desejar a carreira militar era justamente as amizades que se formam.  Amizades verdadeiras e autênticas não são formadas apenas em festas, em momentos felizes, durante a bonança.  Amizades verdadeiras não se formam, se forjam através de momentos tristes, duros, por meio de desafios, na dor…  amizades se formam no combate.  Por isso queria essa carreira.

De uma certa forma, tive tudo isso para forjar minha amizade com essas pessoas.  Os noivos, e os padrinhos deles.  E muitos que não eram padrinhos também (não se pode ter 90 casais de padrinhos).  Afinal o que não foram os dias em Tubatão, Sapucaia e onde mais Deus quisesse senão dias de combate?  O que enfrentamos lá não foram situações de combate?  Não estivemos juntos em tantas adversidades e passamos por elas?  Nossas amizades foram também forjadas de forma a se tornarem verdadeiras.

Claro que eu sou o único doido que compara nossas experiências a batalhas, mas o que eu penso delas é igual ao que eles pensam.  Tanto é que, quando o pessoal começou a se casar, fomos sendo padrinhos de casamento de todo mundo.  Minha conta atual está em seis.

No caso desse casamento era algo diferente.  Bem, o destino não me levou pra onde eu queria.  Me colocar de padrinho em um casamento hoje é um problema.  Por isso não me incomodaria em ser só mais um convidado, pois, como disse, quis o destino que eu não tivesse a mesma vida.

Por isso que fiquei surpreso.  Perguntando aos noivos porque eles me colocaram para fazer isso (de fato, alguém aqui já foi a um casamento com comentarista?), eles me disseram que me colocaram porque queriam que eu fizesse alguma coisa na cerimônia.  Ou seja, eles inventaram uma função só para me colocar pra fazer alguma coisa?  Vai ser difícil uma prova de amizade e do quanto você é importante para alguém.

No final, a cerimônia no fim, estão todos indo para as fotos, eu com minha missão cumprida vou tentar fazer uma saída a francesa.  Meu momento passou.  Bem, fizeram questão que eu ficasse para as fotos.  Se eles querem fotos feias, o que eu posso fazer?

Eu achei que não ia conseguir fazer meu trabalho direito.  Vi meu medo diante de mim.  Não o enfrentei como deveria, mas acho que passei no teste.  Enquanto estava sozinho ao começo da cerimônia achava que não daria.  Mas consegui me concentrar e colocar na cabeça que tudo o que eu devia fazer era ser eu mesmo.  E, no fim, foi o que fiz.  Só fui eu mesmo (com a dancinha e tudo).

Ao fim de tudo, acabei aproveitando o dia como se não tivesse amanhã e fui feliz naquele dia. Valeu por ver meus amigos de tantas batalhas, alguns que não via há anos.  Uma pena o destino não ter sido um pouco mais generoso, mas não tenho do que me queixar também.  E a festa foi marcada por um grande encontro “Jurassic Park”. Valeu cada minuto. Foi uma honra fazer parte de tudo isso.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
Esse post foi publicado em Causos e marcado , , , , . Guardar link permanente.

7 respostas para Comentarista de casamento

  1. Elaine disse:

    Aí amigão!! Está até parecendo um neo formando em História!
    Bela explanação para uma data tão especial para nós!

  2. Pingback: 2011 – Um breve balanço | Blog do Fernando

  3. Pingback: #CasamentoDoFernando | Blog do Fernando

  4. Camila Aragão disse:

    Você bão tem o roteiro que lhe deram não? Vou ser a comentarista de um casamento também kk

  5. Camila Aragão disse:

    *não

  6. Melidiane Lopes disse:

    Ola tudo bem, adorei seu texto kkkk eu preciso de um roteiro desses você teria como passar, não encontro em lugar nenhum rsrsrs

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