A Travessia da Presidente Vargas

Uma das coisas legais que tenho percebido nessa minha vida de cara de cidade pequena que vai parar em um grande centro urbano é o comportamento das pessoas e como se atravessa uma avenida movimentada e larga como a Presidente Vargas.

A Presidente Vargas destoa de todas as ruas do centro justamente por ser extremamente larga, enquanto as demais são estreitas, herança do Rio antigo.  De fato, para construí-la, muitas construções, especialmente cortiços e ruas deixaram de existir para a abertura desta avenida.  Hoje, a cidade não vive mais sem ela e não se identifica sem a mesma.

A Presidente Vargas é imensa tanto em comprimento como em largura.  Ela começa (ou termina?) na Igreja da Candelária, próximo a zona portuária e termina no Trevo das Forças Armadas, próximo a Praça da Bandeira.  De largura ela tem em média 14 faixas de rolamento, 7 para cada sentido, divididas em pista central (4 faixas por sentido) e lateral (3 por sentido).  Sendo a rua mais movimentada do Rio de Janeiro, atravessá-la é um ritual.

Primeiro que, a menos que você queira se matar, ela não pode ser atravessada com sinal aberto.  Se você conseguir atravessá-la por completo em sinal verde para os carros, você literalmente sobreviveu.  Mas não pense que atravessá-la é fácil quando o sinal está vermelho.

Primeiro que, em cada ponto de travessia tem tanta gente, que quando o sinal abre para os pedestres, parece que foi dada a largada para uma corrida de cavalos.  Mas se você quer atravessar a pista toda, melhor ser rápido, pois o tempo que um pedestre dispõe para cruzá-la é limitadíssimo, uma vez que o trânsito é como o sentimento vascaíno:  Não pode parar.

Daí é um Deus nos acuda atravessar a pista.  É cada um por si e Deus por todos.  Um dia, atravessando a avenida, no meio da travessia da pista central enquanto eu passava, apressado como todo mundo, escuto um barulho e um “ai” feminino.  Olhando para trás tinha uma mulher estatelada no chão.  A pobre tinha quebrado o salto na travessia e ido ao chão.  Ninguém parou para ajudar.  Bem, parou eu, que voltei e ajudei a moça a se levantar e levei-a até o outro lado.  Claro que perdi a travessia e tive que esperar o sinal fechar de novo para passar.  Mas fiz a boa ação do dia.

Em alguns pontos de travessia, o sinal para pedestre tem uma contagem regressiva.  E como os tempos são diferentes para cada sentido e pista (o sinal abre em momentos diferentes), a travessia da avenida parece aqueles jogos de corrida de fliperama, que você tem tempo para atravessar.  Ao terminar uma das pistas você passar pelo “check point” e ganha mais alguns segundos para continuar.  Se chegar depois, game over e você tem que esperar o sinal abrir e fechar de novo.

Acaba sendo divertido e especial atravessar essa avenida.  É legal ver o comportamento humano no coletivo, quando todos querem o mesmo objetivo, que é simples.  Quando tenho que ir para aquele lado, sempre calculo como fazer “a travessia da Presidente Vargas” como um viajante calcula o trecho de um cruzeiro, ou um general calcula a travessia de um rio.  Afinal, a principal avenida do Rio de Janeiro não pode ser tratada como qualquer uma…

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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