Professores em Stalingrado

                                                                                                                                                          Não sou educador, nem trabalho na área, portanto o que vocês estão prestes a ler é a opinião de um engenheiro sobre educação.  Isso significa que vocês podem simplesmente desconsiderá-la.  O aviso está dado.

Diante do quadro das escolas e principalmente das crianças e adolescentes brasileiros eu tenho pena de quem hoje se forma em licenciatura de qualquer coisa, seja de matemática, história, educação física, filosofia ou seja o que for.  Acho que eles estão entrando em uma grande furada.

Mal comparando, cada turma de licenciatura que está lá em um salão bonito, de beca e joga o capelo para o alto e toda aquela festa parece um barco de recrutas do Exército Vermelho cruzando o Volga para defender Stalingrado do ataque nazista.  Esse ato, de jogar o capelo é quase como o desembarque na cidade.  Você teve uma travessia difícil, sob fogo, muitos de seus companheiros já ficaram e agora, a guerra simplesmente começou.

Na batalha de Stalingrado, a expectativa de vida de um recruta soviético era de um dia.  Isso porque tudo conspirava contra ele:  Os nazistas, óbvio atacavam, e seus superiores insistiam em jogá-los as metralhadoras alemãs com equipamento inferior e sem tática, em ataques suicidas para estes.  As condições de vida também não eram boa em uma cidade devastada, fria e com uma guerra acontecendo ali.  Assim as turmas de formandos em licenciatura são jogadas nas escolas.  Pobres formandos…

Senão vejamos o cenário que esses professores encontram:  A sociedade cada vez mais abandona seus valores.  Isso é muito refletido nas crianças e adolescentes.  O sentido de proibido, ilegal, errado se perde, e cada vez as pessoas acham que podem fazer tudo.  Crianças que enfrentam professores, vemos casos de professores agredidos, o respeito foi abandonado há tempos nas salas de aula.  Para um professor, lutar contra isso já se torna tão complicado quanto um soldado soviético encarar um ninho de metralhadora alemã.  Não quero, e não sei analisas as causas para chegarmos a isso, essa falta de respeito, de disciplina, de valores.  Mas quem vai sentir isso na pele primeiro são os professores.

Pior ainda, aquele que mais deveria ajudá-los faz mais é atrapalhar.  O Estado como principal fonte de fomento da educação não consegue acertar.  Seja por políticas como Estado ou por meio de seus agentes.  Já é de se revoltar a reportagem divulgada no Fantástico sobre a merenda escolar, onde o dinheiro da mesma é desviado e as crianças ficam sem o que comer, ou comem comida estragada.

Já tenho a opinião de pessoas que desviam dinheiro de merenda escolar deveriam ser postas em uma jaula e não lhes ser dada alimentação até que eles cheguem a inanição.  Como um ser desses dorme?  Acaso ele não pensa que crianças estão subnutridas, com fome até, naquela mesma noite.  Uma coisa é um vereador comprar um Jetta com dinheiro de IPTU, o que também é abominável, mas pegar dinheiro de merenda deveria dar pena de morte.

Políticos  corruptos sempre existiram, não podemos culpar o Estado por eles (na essência, a culpa é nossa), mas quando o Estado nos coloca políticas goela abaixo que sabemos que estão erradas, mas mesmo assim temos que suportar e, sem concordar sujeitar nossos filhos a elas.

A moda do politicamente correto está acabando com a Nação.  Primeiro nossos “especialistas” em educação vieram dizendo que a alta evasão escolar se dava por conta da reprovação.  A solução foi acabar com a reprovação.  O nome aprovação automática ficou mal falado, o povo descobriu o engodo, daí rebuscaram a idéia:  Progressão continuada é o nome agora.  Ao invés de atacar as causas, atacam as conseqüências.  Pronto, com reprovação zero o IDEB vai lá pra cima e fazemos um bonito na ONU.

A conseqüência da aprovação automática (permitam-me manter o nome verdadeiro, odeio máscaras) está gritante agora.  Garotos na oitava série (ou nona, sei lá) lêem tão bem quanto eu lia na segunda série.  O esforço não é necessário, se você se manter na inércia você atingirá sua meta mesmo.  O resultado?  Bem, ninguém mais quer lutar por nada.  Não precisa.  Na infância, quando se forma o caráter, não foi necessário, porque seria agora?

No jornal O Globo de segunda, 17 de maio de 2011, vinha uma reportagem sobre os alunos copistas, aqueles que sabem copiar o que está escrito no quadro mas não conseguem entender o que copiaram.  Como uma aberração dessas aparece na escola e não é detectada?  A reportagem cita casos de alunos da 5ª série com esse problema.  Tudo para não traumatizá-la com uma reprovação.  Ao descobrir este problema, simples, editem um livro que onde se diga que o errado é somente “inadequado”

A grande quantidade de informação disponível hoje, sobretudo com a internet, misturada a alunos despreparados para lidar com ela causa apenas a formação de mais ignorantes.  Senão vejamos:  Uma amiga minha de Twitter (@madysl) é uma das que foram jogadas nesse moedor de carne.  Ela é professora de filosofia.  Ela pediu um trabalho para seus alunos que era fazer uma resenha sobre algum tema.  A maioria dos alunos copiou da wikipedia ou uns dos outros, sem sequer dar o trabalho de mudar algumas palavras (talvez por serem incapazes de fazê-lo).  Um professor que passar um trabalho hoje, seja de que matéria for, encontrará 80% dos trabalhos de sua turma nos dois primeiros resultados do Google na pesquisa sobre o tema do trabalho.  E cópias fiéis, o famoso CTRL+C, CTRL+V.  É a lei do menor esforço.

Aos professores, resta a escolha do capitão Nascimento:  Ou se omite, ou se corrompe ou vai pra guerra.  Creio que, dos novatos todos escolhem ir para a guerra, mas com o tempo muitos se acomodarão e se omitirão.  Pior os que se corromperão.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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2 respostas para Professores em Stalingrado

  1. Elaine Ramos disse:

    Poxa Fernando, eu ainda ontem comentava sobre este assunto, quando na nossa época ( e não faz tanto tempo assim) tínhamos o mérito de dizer: “Nunca repeti de série.”
    Não que a reprovação, ou a repetição de uma série diminua a capacidade de uma pessoa, afinal, problemas acontecem em qualquer período da vida.
    O seu texto retrata o infeliz caminho que a nossa Educação trilha, sendo que nesta seara, alguns guerrilheiros se permitem lutar. Espero que esta luta tenha fim. Espero que a conscientização de que um mundo melhor acontece através da Educação, e que os nossos professores, nossos mestres, sejam reconhecidos, financeira e profissionalmente, pelo excelente trabalho que buscam fazer.

  2. Renan disse:

    Essa “lei do menor esforço” está em todas as áreas hoje em dia, nos jogos de videogames fáceis, filmes bobos, programas de TV idiotas, etc
    Deixo como sugestão um filme de 2006 chamado IDIOCRACIA (idiocracy), em que um casal é congelado em 2005, numa experiência secreta militar, durante 1 ano, mas algo sai errado, e eles acordam em 2505. Este filme é uma comédia de ficção científica.
    Este filme é engraçado ? Sim, ele é, mas você pensará sobre o caminho retardado que a humanidade está seguindo.
    No estado do Rio de Janeiro, oficialmente funk é considerado cultura.
    Tiririca deputado federal.
    MEC distribui livro ensinando: nós “pega” o peixe.
    Comparem os absurdos acima com o filme.

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