Acabou o caqui

Apareceu um monte de caquis por aqui.  Bem, agora é tempo.  O tempo de caqui começa em fevereiro e se estende até maio mais ou menos.  Se você gosta dessa fruta prima do tomate, que se come igual a um, é docinha e suculenta, a hora de aproveitar é agora.  Porque em maio, bem aí acabou o caqui e você vai embora.

Enfim, comendo esses caquis me lembrei de Tubatão e das gloriosas batalhas que travamos por lá.  Foram quatro carnavais por lá.  Eu e o Dudu brincávamos que era um pra cada Máquina Mortífera, em alusão a quadrilogia (pode, Arnaldo?) do cinema.  Mas enfim, me lembrei de um causo em específico pra reativar a seção de causos:

Era o Tubatão III.  Tínhamos uma crise em mãos (certo, tínhamos umas cinco crises por dia pra lidar), mas esta me afetava diretamente pois era estrutural, minha responsabilidade direta.  A fazenda estava sem luz.  Ainda era dia, mas o problema precisava ser resolvido pois ao cair da noite teríamos um problemão, fora a refrigeração dos alimentos falhando…  Enfim, era um cenário de catástrofe iminente.

Era domingo de carnaval, portanto nenhum eletricista se disporia a ir até os confins do judas para resolver o problema.  Mas pra que precisaríamos de um eletricista se tínhamos o Dudu, o maior e melhor faz tudo que já conheci.  Nos aliamos ao Sr. João Paulo, proprietário da fazenda e fomos tentar resolver o problema.

Sabíamos que o defeito era interno, pois as propriedades vizinhas e mesmo parte da fazenda tinham energia.  Chegando ao quadro disjuntor de um dos relógio vimos que o disjuntor geral estava desarmado.  Ao armá-lo, imediatamente o barulho característico de curto circuito surgiu, o que me fez desarmá-lo imediatamente.

Nossos avançados conhecimentos técnicos foram determinantes ao assumir que havia uma fiação em curto (ou tocando um fio no outro) em algum lugar de todo o conjunto da sede da fazenda.  O naipe da equipe técnica era altíssimo.  Constituia eu e o Dudu (estudantes de engenharia mecânica) O Sr João Paulo (arquiteto e exímio produtor de caqui, o segundo maior do estado do RJ), Evandro (calouro de engenharia metalúrgica e técnico em mecânica pelo Senai) e ainda reforçados pelo Zangief (instalador de antenas, portões eltrônicos e essas bugigangas e agora também técnico de máquinas de costura).  Cérebro não faltava.

Nossas ações foram:  nos dividimos em duplas para revistar toda a fiação da casa.  Enquanto Dudu e o Sr João Paulo iam na casa sede (principal), Evandro e Zangief foram para a outra casa (alojamento feminino), com o objetivo de revistar a fiação e as ligações nessas duas edificações.  Eu fiquei encarregado de revistar o galpão (alojamento masculino) e a fiação aérea que liga o quadro disjuntor (localizado no galpão) até as casas.  Além de pilotar o quadro.

Enquanto todo mundo cumpria sua tarefa, eu fui revistar o galpão.  Olhei cada tomada, cada lâmpada, cada gambiarra.  Tudo parecia em ordem.  Desci até as casas acompanhando a fiação aérea e não encontrei nada também.  O problema só poderia estar nas casas, deduzi, e fiquei no aguardo de algum pedido para ligar o disjuntor para um teste.

Durante minha espera, alguns empregados da fazenda passaram carregando caixotes de suculentos caquis.  Conversando com eles, peguei um para experimentar.  Era um tipo de caqui diferente que eu ainda não provara, o caqui chocolate.  Esse caqui se come igual a uma maçã, ele não é tão macio quanto os outros e quando você morde, por dentro ele é preto (daí o nome chocolate).  É bem doce também.

Enfim, estou eu no caminho entre o galpão e as casas saboreando o tal caqui chocolate.  Os caras pareciam não encontrar nada nas casas que revistavam também.  Daí que a tensão subia.  A tarde avançava, logo escureceria.  Como garantir deslocamentos seguros para todos na fazenda a noite toda?  Tínhamos lanternas, na verdade era item exigido, embora poucas pessoas levassem.  Em breve a crise energética se tornaria pública (sim os campistas ainda não tinham noção dela) e o caos ameaçava se instaurar.

Quando, sei lá por que, enquanto comia o caqui resolvo revistar mais uma vez a fiação.  Havia um ponto no meio do caminho com uma chave que acionava uma bomba que retirava água do riacho para serviços gerais (lavar veículos, etc).  Seguindo a fiação, na chave de acionamento da bomba, vejo algo muito errado:  Dois fios desciam do poste, um passava pela chave, como tinha que ser, e o outro estava grudado ao contato da chave.  Me aproximando, percebi que este fio estava soldado a chave.  Isso ocorreu porque, com a bomba ligada ele tocou a chave (energizada), fechou o curto e o arco elétrico formado gerou calor suficiente para soldá-lo ali.

Empolgadíssimo chamei todos de volta dizendo que tinha achado a raiz do problema.  Soltamos o fio e ao religar o disjuntor tudo funcionava normalmente.  O dia estava salvo.  Tudo graças a um caqui.  Jamais teria achado o defeito se não fosse comendo aquele caqui no caminho.  E mais uma vez, o apoio salvava o retiro, em mais uma missão que ficou desconhecida do grande público.

APOIO!  SÃO CRISTÓVÃO!  BRASIL!

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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