Engenheiros com culhões

Vi a foto acima no Blog do Flávio Gomes.  O Carro é um Eagle de F1 de 1966 pilotado por Dan Gurney.  Na carona está o engenheiro Bert Baldwin.  O local é o autódromo de Goodwood na Inglaterra (segundo informações do próprio Blog do Flávio Gomes).

Quando vi essa foto, só me vi mais perto de confirmar uma suspeita que eu tenho sobre mim:  Acho que nasci na época errada.  Deveria ter vivido alguns anos atrás, mais para o começo do século XX.  Sou um admirador da segunda guerra mundial, admiro os tempos antigos onde o cavalheirismo era valorizado, a mulheres gostavam mais de caras com conteúdo na cabeça e não do primeiro bêbado que vissem em boates, em que as damas obrigatoriamente iam primeiro, abrir a porta do carro para as mulheres era obrigação, civilidade e respeito eram obrigatórios e as pessoas eram mais cordiais e educadas com as outras.  Também gosto do tempo em que engenheiros resolviam as coisas no campo.  Como o cara da foto aí em cima.

A profissão de engenheiro tem sua origem no campo.  A palavra engenheiro foi primeiramente usada no império romano, designava os “homens dos engenhos”.  Os engenhos eram armas e ferramentas destinadas a auxiliar as legiões romanas no cumprimento do objetivo (vencer a batalha).  Esses engenheiros ficavam no campo de batalha em meio as legiões combatentes elaborando e construindo os engenhos de guerra (pontes, catapultas, fortificações).  A engenharia como a conhecemos nasceu nos campos de batalha.

Os homens de engenho eram tirados em meio as legiões, eram os mais inteligentes do exército e destacados para estas funções.  Eram incorporados aos corpos do exército romano.  Até hoje os exércitos se organizam como o exército romano.  A mais temível máquina de guerra já vista no mundo.  Tinham as centúrias (100 homens) nós temos as companhias, eles tinham as legiões, nós temos os batalhões, eles os corpos, nós as brigadas ou divisões.  Mas sempre com companhias ou batalhões de engenharia integrados.  Nenhum exército no mundo é louco de ir a guerra sem os engenheiros.  Os romanos também não eram.

Até alguns anos atrás, talvez até o começo da década de 80 a maior parte do trabalho dos engenheiros ainda era no campo.  Não tínhamos muita coisa para ajudar.  A parte de cálculos era feita na mão, o uso de computadores ainda era muito limitado, existia a figura do calculista, uma pessoa cujo trabalho era fazer contas.  Os engenheiros projetavam e construíam suas máquinas, e testavam as mesmas.  No primeiro voo de uma aeronave, além do piloto de testes sempre ia um engenheiro junto, da mesma forma com carros..  Em construções de grandes prédios, o engenheiro estava lá em cima avaliando a oscilação da estrutura.  Para ser engenheiro naquela época tinha que se ter culhões.

Naquele tempo, a única forma de ver como estava o comportamento das estruturas, dos carros, dos aviões ou do que fosse, era estando lá, como nosso amigo da foto.  O relato de alguém nunca será tão fiel para que você perceba como agir do que estando lá.  Hoje, podemos espalhar sensores por todos os lados e sua interpretação por computadores nos mostrarão o comportamento do objeto de forma melhor do que se estivéssemos lá.  Os sistemas de simulação em computador acabam nos permitindo projetar coisas perfeitas antes de saírem do papel (ou do HD).  Sem a modelagem, antes, apelávamos para tudo, vários tipos de testes, modelos matemáticos, acochambrações, etc.

O avanço dos computadores e sensores tirou os engenheiros dos campos e os colocou dentro de confortáveis escritórios com ar-condicionado atrás de mesas e com computadores possantes sobre elas.  A maior parte deles prefere assim.  É mais confortável, concordo.  Mesmo eu, também não tenho do que me queixar muito sobre isso, exceto da monotonia.

Não critico meus colegas que só saem dos escritórios com ar-condicionado para ir ao banheiro, almoçar, tomar café e ir para o ar-condicionado dos seus carros.  Modelar, calcular, analisar, projetar e prever são partes importantíssimas da engenharia, as quais admiro e exerço.  Mas acho a parte mais legal, a mais desafiadora está no campo.  E essa tem sido perdida ou posta no desnecessário.  Mas está longe de desaparecer.

Mesmo porque ainda com um monte de simulações e projetos detalhados, é impossível prever a natureza, é impossível prever o comportamento das coisas com exatidão.  E, quando elas saírem do previsto uma decisão rápida, baseada em teoria e soluções rápidas são sempre necessárias.  Por isso, os engenheiros jamais sairão do seu local de origem:  O campo.  E para estar lá, é preciso ter culhões.

Em tempo, me candidatei a uma vaga de “Field Engineer” na Halliburton, no que fui imediatamente dispensado (isso num sábado).  Ah se eles me conhecessem.  Não sabem o que perderam.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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