Tragédia

Meu sobrinho diz que quando está chovendo, é o Papai do Céu que está chorando.  Não faço idéia de quem ensinou isso pra ele, mas depois que ele e minha mãe me contaram isso passei a encarar a chuva com outros ares.  De fato, motivos para Deus chorar, nós como humanidade damos aos montes para Ele.

Enquanto atravesso a Linha Amarela rumo Barra shopping vou pensando nisso.  Pois o que teria feito tanta chuva desabar de uma vez só sobre a Serra e causar tanto estrago?  Se era realmente o choro de Deus, ele estava em um dia realmente triste na terça feira 11/01.

Hoje não chove, na verdade faz Sol.  Hoje é um dia que vai dar uma praia daquelas.  A Linha Amarela engarrafada em um feriado municipal denuncia que os cariocas estão indo  para seu programa favorito:  Praia (Barra e Recreio tem ótimas praias).  Sigo com eles.  Vendo carros com famílias inteiras e aquele jeito indisfarçável de que estão indo para a praia, penso que no começo da semana, antes da tragédia, já tinha combinado de ir a praia nesse feriado.  Pela manhã tive que ligar para desmarcar a praia.  Ironia do destino ainda faço o retorno diante do mar.  E tantas pessoas indo para lá.

Mas dentre a divisão clássica de programas, entre praia e montanha, eu escolhi montanha.  E não pra passear ou correr para as colinas.  Estou indo para Teresópolis.  Não é passeio, é ajuda.  As notícias que chegam são de que praticamente não há mais cidade.  Vários bairros destruídos, e uma mórbida contagem que promete passar de 1000.  Estamos diante da maior tragédia climática da História do Brasil.  E aconteceu bem ao nosso lado.

Acho interessante ver a mobilização das pessoas.  Se tem uma coisa que o brasileiro tem de sobra, é solidariedade.  Quando cheguei no estacionamento do Barra Shopping e vi a quantidade de pessoas e de doações, fiquei estarrecido.  Não imaginava que veria uma mobilização desse tamanho.

Era tanta gente, e todos querendo ajudar que tudo andava bem rápido, enquanto ainda no Rio, as pessoas se organizavam rapidamente, em questão de minutos caminhões eram enchidos com as doações.  Subi em comboio com o pessoal.  Era um comboio de mais de trinta carros, alguns com 4X4 outros normais, além dos caminhões e ônibus.  Isso tudo subindo a serra.

Enquanto subo a serra, sozinho, eu e o Red 5, o pensamento sobre chuvas e lágrimas de Deus me voltam a cabeça.  E agora ele é completado por mais uma neurose.  Pensando nas agora mais de 700 vítimas imagino quem estava entre elas.  Sim, tivemos a celebridade da tragédia, como sempre, mas estava pensando nas outras pessoas.  Cidadãos comuns, que celebraram o Natal e o Ano novo, deram e receberam votos de prosperidade sem saber que seu 2011 teria apenas 11 dias.  Que tipo de gente está entre os mortos?  Pobres, ricos, gente trabalhadora, bandidos, pessoas inteligentes, drogados, velhos, jovens?  Certamente entre os mortos temos de tudo.  Por que elas morreram?  Enfim, por que elas?

Onde moro é alto o suficiente para não haver enchentes, mas também não estou em encostas.  Sou um privilegiado.  Mas por que eu?  Será que entre os mortos não há pessoas que mereciam viver mais do que eu?  Assim, enquanto eu estava a salvo no Rio de Janeiro, gostando da chuva que aliviava o calor na cidade, todos esses estavam morrendo lá em cima, por culpa da mesma chuva.  Me sinto culpado.  Afinal, por que sou melhor que eles para sobreviver ileso e eles não?  Será que ali não havia nenhum engenheiro?  Ou garotos e garotas que fizeram vestibular e estavam na expectativa da batalha pelo Sisu que nunca tiveram?  Não havia ali profissonais melhores que eu ou que se tornariam melhores, ou pessoas mais simpáticas alegres e felizes do que eu que sou chato, ranzinza e reclamão.  Por que eles?  O que eu fiz para ficar vivo?

O trânsito para.  O primeiro indício de para onde estamos indo.  A serra está em meia pista em um trecho por conta de deslizamentos, e como ela é mão dupla, funciona em “pare e siga”.  Red 5 descansa, ainda temos serra pra subir.  E quantos carros não foram soterrados, danificados irremediavelmente.  Fico pensando o que aqueles carros significam para seus donos.  Tinham nome, assim como o Red 5?  Há quanto tempo estão com seus donos? Quanto sacrifício seus donos não fizeram ou estavam fazendo por aquele carro, com financiamento, talvez a grande conquista patrimonial deles…  Estariam os donos desses carros vivos para lamentarem por isso?

Eu estava inquieto desde que a tragédia começou.  Preciso fazer alguma coisa, pensei.  Em 2002, na véspera de Natal estava no Quitandinha no meio do barro.  Fui ajudar.  E dessa vez, não estava fazendo nada.  Não podia sair, claro, tenho que trabalhar, ficou para o fim de semana.  Sábado fui doar sangue.  Não pude.  Excesso de gente.  Eles tem sangue para 15 dias lá agora.  Passei o dia procurando gente que queria ir para o Vale do Cuiabá, mas percebi que indo para lá atrapalharia mais, pois já tinha gente demais por lá.  Fico parado não sendo útil para nada.  Enquanto isso via o sofrimento de pessoas e animais nas áreas atingidas.

Já em Teresópolis um cachorro atravessa a rua.  Quantos animais estão em situação terrível pois perderam seus donos e agora estão em abrigos improvisados sem um futuro, sem nada.  Talvez seu futuro esteja em uma injeção letal para evitar “problemas sanitários”  Se eu pudesse adotaria logo uma dúzia deles.  Pobres animais que pagam pelos nossos erros e ainda são esquecidos depois.  Teve o cachorro que velou a dona, penso.  Logo depois lembro que era mentira da mídia, um equívoco, ou “barriga” no jargão jornalístico.  E daí, duvido que não haja cachorros que façam isso.  Um já fez na Inglaterra, chamava-se  Bobby.  Por que não pode acontecer aqui?  O cachorro arrastado pelas águas está vivo em um desses abrigos.  Como os animais resistem a mais coisas do que nós humanos.  O corpo humano é realmente uma droga.

Quando chego e estaciono o Red 5, sem condição de ser mais útil ali, pois off road não combina nada com Fiat Punto, calço as botas, e vamos para a guerra.  São as mesmas botas dos retiros dos dias de glória e das lajes dos amigos que se casaram.  Hora da ação.

O campo do várzea, onde é a base de distribuição só tem paralelos nas bases de suprimentos que vi em filmes de guerra.  No campo de futebol, dois helicópteros esquilo da polícia de SP (os “águias” 7 e 10), mais um Pantera da mesma polícia.  A Força Nacional também tem um Pantera lá.  Além deles o Ibama também conta com duas aeronaves.  O Exército opera suas aeronaves de um outro ponto.  Parecia mesmo uma base de filme da guerra do Vietnã.  Dentro de um galpão do clube, toneladas de donativos que ao chegar são triados, e separados.  Os alimentos compõem cestas básicas montadas ali mesmo.  Além de cestas com produtos de higiene e limpeza.  Chegamos com mais uma tropa de gente e donativos.  Mais trabalho.

O problema é ter gente demais e o famoso “muito cacique para pouco índio” as coisas meio que se desorganizam.  O pessoal com veículos 4X4 estaciona e enche seus carros com cestas básicas e água e partem.  Muitos trouxeram a família, não sei de onde vieram, se são teresopolitanos ou não, mas acho que vieram para fazer um turismo de tragédia.  Bem, o pessoal não acha bonito gringos com roupas de Safari fazendo tour de jipe pelas favelas cariocas?  É a mesma coisa.  Mas enfim…  Vida que segue.

Parado ali no posto de abastecimento não tenho utilidade.  caminhões descarregados, tudo o que se tem a fazer é carregar pick ups, coisa que é feita em minutos.  Tem muita gente.  Quem me conhece sabe que eu sou de linha de frente.  A retaguarda não é meu lugar.  Todas as pick ups que param eu peço um lugar.  Arrumo com uma Land Rover.  Agora sim, posso ser útil.

A missão é levar donativos para um local que até onde sabíamos estava quase que isolado e era um centro de desabrigados.  Chama-se campo do coelho o local e fica já em Friburgo.  Enquanto estou indo penso em porque estou ali.  Mais uma vez penso por que eu tive a sorte de nunca estar em área afetada e ter minha casa e família intactos em Petrópolis.  O que estou fazendo aqui?  Preciso tomar parte nessas coisas.  Preciso participar das coisas grandes, preciso ajudar.  Não me sentiria bem com uma tragédia desse porte acontecendo e eu só tomando cerveja na praia.  Acho que tenho um defeito de pensar sempre nos outros antes de mim.  Isso me prejudica muito na vida, mas fazer o quê?  Eu penso que, preferia morrer em missão, em campanha a morrer com uma doença qualquer.  Mas isso não cabe a mim decidir e nem quero morrer tão cedo.

A medida que avançamos pela estrada Teresópolis Friburgo vamos vendo o tamanho da tragédia e catástrofe.  Não há uma montanha sem uma ferida de deslizamento.  Toneladas de terra desceram de cada uma.  É assim, a Terra fez isso por bilhões de anos.  Só que agora nós estamos aqui.  Embora já liberada esta estrada foi interrompida pelo menos em uns 10 trechos, vendo os deslizamentos que ocorreram e que os tratores já retiram.

A localidade de Vieira só se assemelha a uma vila francesa após uma batalha da II guerra, a uma vila vietnamita na guerra do país ou a um bairro pobre de Nova Orleans após o Katrina.  O cenário é de terra devastada.  Pedaços de casas estão para todos os lados, coisas espalhadas, os moradores juntam coisas na beira da rua para jogar fora, tentam lavar suas casas.  As paredes indicam a altura das águas.  Há lugares em que a água entrou nas casas em profundidade de 2 metros.  E água carrega lama.  A mistura água com lama foi capaz de empurrar paredes.  Árvores no chão…  Uma faixa presa a um carro dá a dimensão da tragédia:  Um pano branco escrito com letras pretas as pressas “Socorro 9 mortos” O rio faz um vale atrás destas casas que estão a margem da rodovia.  O vale agora é um pântano.  casas que estavam ali se transformaram em ruínas.  Fora as que estão soterradas ou simplesmente não existem mais.

Moradores e máquinas trabalham.  O Exército está lá também.  Passo por um pelotão marchando.  Ao invés de fuzis, pás e enxadas.  É a hora da “mão amiga”  Logo descubro que eles são da artilharia.  Vieram de Niteroi.  Parece que mandaram efetivo de um batalhão para lá.  Todo mundo adora falar mal de nossas Forças Armadas.  Mas eles sempre estão lá quando precisamos.  E a população, imprensa e governos nunca lhes dão o valor que é devido.

Os deslizamentos de terra continuam.  Em um lugar foram pedras.  Vi pedras cujo peso facilmente ultrapassa as 100 toneladas.  Para serem retiradas terão que ser dinamitadas ou quebradas.  Não há máquina que a retire inteira.  Há lugares em que só sabemos que havia casas ali ou porque nos contaram ou por ver entradas que não levam a lugar algum. É sempre um cheiro ácido e forte de carniça.  Aprendi uma vez que esse cheiro é causado por uma substância chamada cadaverina, produzida por corpos em decomposição.  Nosso olfato detecta ela em concentrações de 1ppm.  Por isso ela é usada em gases inflamáveis para sabermos rapidamente se há vazamento.  Se bem que ali, sabemos a origem do cheiro:  Ainda há muita coisa morta para retirar dali.

Chegando no local, me senti entregando munições a um posto avançado de guerra.  Somos recebidos por homens do 24° GAC (os artilheiros de NIterói) e um sargento bombeiro que cuida dos desabrigados.  Há voluntários lá também.  E muitos desabrigados.  Mas tudo está bem organizado.  Estão em uma quadra de esportes, na localidade.

Conversando com o sargento bombeiro, descubro que ele é de Friburgo e foi um dos primeiros a chegar na viatura onde três companheiros dele deram a vida.  E eles tentaram salvá-los até o fim.  Friburgo foi atingida no centro da cidade.  Parece que tudo foi pior por lá.  Como se pudesse haver coisa pior do que o que vimos no caminho.  Provavelmente há.

O sargento estava com dois garotos.  Comentou comigo que estava ensinando a eles a catar o lixo.  Os adultos estavam tomando água em garrafas, copos plásticos e garrafinhas de Yakult e estavam jogando tudo no chão, mesmo havendo lixeiras.  O sargento ensinava aos garotos que aquilo é que provacava as enchentes e desabamentos.  Em resposta eles cataram todo o lixo da base.  O sargento então disse que lhes daria um chocolate.  Eles realmente ganharam um chocolate.  Comentaram com o sargento que adorariam uma bola.  O dono da Land Rover tinha uma no carro.  Deu a bola para os garotos.  Alguém sai menos triste nessa história.

Quando voltamos, encaramos o mesmo horror novamente.  Vi cenas que talvez só imaginava.  Lembrava os filmes de guerra que tantos já vi.  “Platoon” e “Band of Brothers” trazem as lembranças mais fortes.  Comento com o pessoal que está no carro sobre São José do Vale do Rio Preto.  Como está a cidade?  Aí me lembro dos bons momentos que vivi lá.  Será que a fazenda Tubatão continua lá com seus moradores intactos?  A ponte “conta comigo” suportou a violência das águas?  Me preocupo em saber que deixei lá muitas boas memórias e não sei como ficaram e nem as pessoas que lá ficaram.

Acho que só estando lá para se ter real dimensão da tragédia.  Estive lá e estou chocado até agora.  A natureza é uma força invencível.  Tudo o que podemos é sair do caminho dela.  Não sei como, mas sempre estou fora do caminho dela.  Mas não paro de pensar se, das  agora quase 800 não havia tanta gente boa que não deveria ter morrido.  E enquanto isso eu estou ileso e longe desse local.

Na viagem de volta tirei umas fotos da localidade de Vieira. em Teresópolis  Foram tiradas de celular, portanto com qualidade ruim.  Minha câmera ficou no Red 5.  Clique para ver maior

 

 

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
Esse post foi publicado em Causos, Diários de Viagem, Reflexões e marcado , , , , , , , , . Guardar link permanente.

6 respostas para Tragédia

  1. Pingback: Tweets that mention Tragédia | Blog do Fernando -- Topsy.com

  2. Amigo….
    Desta vez ví (lí) um Fernando que se mostrou, em seus um e sessenta e poucos metros, um grande homem.

    Obrigada por externar em palavras o sentimento de muitos de nós Petropolitanos de coração.

    PS.: Espero que todos da Faz. Tubatão estejam bem tb. Se um dias fores retornar lá, me chame.

    Abraços.

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