Via Dutra

Sim, lá fui eu viajar de novo, graças a Deus. E não, não trouxe fotos. Nem sequer levei a câmera.  Mas a viajem não teria muito o que fotografar mesmo, afinal viajem de um dia e a trabalho não tem muita coisa interessante.  Então vou falar da estrada.

Meu destino dessa vez foi São José dos Campos, SP. Da última vez que fui a São Paulo fui de avião.  Pouco tempo depois fui para Belo Horizonte, mais uma ver pelo ar.  Confesso que tinha perdido o costume da viajem de ônibus.  Mas fui matar a saudade dessa vez.

Quando soube que teria que ir para lá a opção natural foi o transporte aéreo.  Mas você não encontra preços razoáveis em voos para daqui a uma semana, a menos de sorte de pegar uma promoção relâmpago de cia aérea.  Como sorte é algo que eu não tenho, isso não aconteceu.  Pensei em ir com o Red 5, mas eu estaria sozinho nessa.  Confesso que a idéia da grande aventura de cruzar 400 km direto ao volante foi tentadora, o Red 5 estava em ordem, mas motivos econômicos me impediam de fazê-lo.  Só o valor gasto em pedágios pagava a passagem de ida e uma parte da volta. O gasto com combustível superaria e muito essa diferença.  Restou o ônibus.

Quem opera a linha Rio X São José dos Campos é a Viação Sampaio.  Ela não se destaca pelo serviço e nem pelos ônibus.  Digamos que ela esteja um pouco abaixo da média.  Não podemos compará-la com as empresas que operam a ligação entre as capitais, Rio e SP.  Mesmo a Viação Única tem carros melhores.  Saí do Rio as 7h da manhã.

Aliás, fica uma dica: Os taxis, sobretudo em dezembro ficam bem mais caros.  E como eu não sabia a hora que ia voltar certamente dependeria de um para voltar para a Ilha.  Valeu mais a pena ir com o Red 5 até lá e deixá-lo no estacionamento da rodoviária.  A diária sai por 24 reais, menos do que o valor do taxi.

O caminho para São José não poderia ser mais simples:  partindo do Rio, pegue a Av Brasil ou Linha Vermelha até a Dutra e siga por ela até lá.  A via Dutra inclusive é provavelmente a estrada mais importante do Brasil pois constitui principal ligação entre as duas maiores cidades do país.

Ela faz parte de uma grande estrada, a BR-116 (Vai de Jaguarão – RS na fronteira com o Uruguai, até Fortaleza – CE) que liga o Norte ao Sul do Brasil.  Aliás, o primeiro número de uma BR identifica seu sentido: Se começa com zero (como a BR-040) ela tem como destino a capital vindo de qualquer lugar do país.  Se começa com 1, o sentido dela é Norte X Sul.  Se começa com 2 o sentido é Leste X Oeste. Mas voltemos a Dutra.

Sempre considerei a Dutra uma espécie de “Route 66” até pelo seu estilo e importância.  Depois de ter assistido “Carros” da Disney, tenho certeza de que, saindo da Dutra na altura do Vale do Paraíba vou encontrar Radiator Springs (veja o vídeo).

Não lembrava mais como a viagem Rio X SP é fascinante.  Se a bordo de um avião a brincadeira está em identificar cidades e relevo, isso não é problema quando se está em um ônibus.  É divertido ver as coisas mudando.

O Rio está no Litoral Brasileiro.  São Paulo já está praticamente no planalto atlântico.  Para chegar até lá é preciso subir uma serra entre eles.  O Brasil inclusive é bem curioso quanto ao relevo, há uma grande planície litorânea, onde está o Rio de Janeiro e a Baixada Fluminense por exemplo, mas ela se estende por boa parte do Brasil, abrangendo até as capitais nordestinas.  Após esta planície encontramos praticamente contínuas, diversas cadeias montanhosas muitas serras, que formam “A Muralha” (lembram da novela?) que se extende por todo o Brasil.  Depois você cai no grande planalto Atlântico que cobre boa parte da extensão do território nacional.

Partindo do Rio você pode perceber isso.  Primeiro você atravessa a Baixada.  A proximidade dela com a capital, a desordem urbana e a superpopulação fazem que o local seja um emaranhado de casas, comércios e indústrias que margeiam a rodovia, sem falar que, em beira de estrada não poderia deixar de ter motéis.

Mas a medida que você avança pela baixada a urbanização diminui, tudo começa a ficar mais verde.  Em Seropédica já há bem menos casas.  Ali você chega ao ponto de atravessar a muralha.

Vale lembrar que eu moro na muralha.  A Serra da Estrela, onde está Petrópolis é parte dela.  Mas indo para São Paulo você a transpõe pela Serra das Araras.  Essa Serra é muito temida pelos motoristas por conta de sua pista de descida muito sinuosa e escorregadia em declive bem acentuado.  Na primeira vez que passei por lá ela estava mal conservada também, consistindo um perigo imenso aos viajantes.  Mas subindo, não há problemas.

Depois de subir a Serra das Araras você está no Vale do Paraíba.  Este vale foi escavado na terra por milhares de anos pelas chuvas e pelo Rio Paraíba do Sul que nasce em São Paulo e correrá até Campos, no Norte do Estado do Rio, sendo este o principal rio do estado.  Ele correria para a baixada procurando desaguar por ali, mas a Serra das Araras está na frente dele e ele não teve escolha senão aumentar a volta dele.  Dali ele passará por três Rios e todo o Estado, sempre contornando as Serras procurando um lugar para chegar ao mar.

Há uma intervenção humana ali.  Na Serra das Araras nasce um outro rio, o Guandu, que corta a baixada chegando até a capital e desaguando na Baía de Sepetiba.  O rio Paraíba do Sul foi transposto e parte de suas águas descem a serra por canais construídos pelo homem.  Esse ganho de velocidade na descida permite a instalação de turbinas hidráulicas e a geração de eletricidade.  O Rio é transposto em Barra do Piraí e encontra com o Ribeirão das Lajes em Paracambi, já no pé da Serra.  Cerca de 60% da água do Paraíba do Sul faz este desvio.  Isso é importantíssimo, pois praticamente toda a água potável da região metropolitana do Rio vem do Guandu e, não fosse essa obra a cidade teria sérios problemas de abastecimento.

A Dutra continua margeando o Paraíba em alguns pontos e seguindo mais afastado em outros.  Ali que eu sempre acho que vou encontrar Radiator Springs.  Após Volta Redonda e Rezende, uma infinidade de cidadezinhas passam as suas margens.  A vida lá segue pacata e simples.  Estas cidades destavam-se na produção de café, mas a maioria mudou seu foco para o Gado, isso já há bastante tempo.

A maior cidade que sobra no Vale do Paraíba após Volta Redonda do lado fluminense é Rezende.  Rezende é a Terra da AMAN onde sempre sonhei estudar e sua vizinha Porto Real possui uma fábrica da Peujeot / Citroen e uma da Volswagen (caminhões).  Por conta de abrigar duas fábricas imensas e ter um apopulação ínfima, o município de Porto Real fica com a maior renda per capita do Estado.  Já tive a oportunidade de visitar a Peugeot / Citroen no primeiro período da Faculdade.

O ponto mais alto do Estado do Rio também está ali, é o Pico das Agulhas Negras com seus 2791 metros que um dia ainda subirei.  Logo após Itatiaia você está em São Paulo.  Muda pouca coisa.  As cidadezinhas vão passando:  Queluz, Engenheiro Passos, Lorena…  Há os centros de romarias:  Cachoeira Paulista e principalmente Aparecida.  A Basílica é vista de longe pelos viajantes da Dutra e é linda.  Uma bela obra de arquitetura.  E o maior santuário Mariano do mundo.

A medida que o Vale do paraíba vai se aproximando da capital paulista as cidades crescem.  Taubaté já é respeitável nesse sentido.  São José dos Campos, minha parada tem cerca de 800.000 habitantes e destaca-se na indústria aeronática (a sede e maior fábrica da Embraer estão lá) e pelo centro tecnológico por conta da presença do ITA e do CTA.  Portanto, o centro das ciências aeroespaciais do Brasil está ali.  E esta foi a razão da minha viagem.  Mas para contar isso, só mais pra frente.

 

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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