Ricos e dominantes

Acho curioso como o povo brasileiro gosta de segregações.  Repudiamos maciçamente a segregação racial, mas a econômica, está sempre aí.  Sempre queremos ser melhores que os outros, ter coisas melhores que os outros, se mostrar como mais capazes que os outros.  O poder econômico é a manifestação desta vontade.

Não sou contra a pessoa querer coisas extravagantes como TVs de um zilhão de polegadas, Porsches, casa de 10 hectares construído ou qualquer outra coisa que o dinheiro possa comprar.  Se a pessoa trabalhou, e tem a grana, que faça o que quiser com ela.  Na verdade uma parte de minha escolha de curso e carreira está atrelado a isso.  Eu quero ser rico, não é segredo pra ninguém.  Quem fala que não quer é hipócrita.

Mas o que me irrita é a figura dos ricos, típicos do Brasil que não ficam satisfeitos em ter tudo.  Eles precisam que exista o pobre, alguém que não tem nada que ele tem para que este fique admirado e ele possa esnobar.  É esse povinho que instituiu o elevador social para os moradores e o de serviço para os empregados há muito tempo atrás, que teve que ser combatido por lei mas, esse Apartheid certamente continua por aí.

Para esses a melhora da economia tem sido um absurdo.  Muito mais gente está subindo de classe graças ao cenário favorável, há bastante crédito na praça, o preço dos bens caiu bastante tornando mais coisas acessíveis a mais gente.  Isso é um pesadelo para esse tipo de rico.

Esse rico vê na casa do pobre a mesma TV de LCD que ele tem, vê o pobre com carro zero km, encontra ele no supermercado comprando os mesmos produtos, acaba tendo-os como vizinhos e não consegue aceitar isso.  Daí ele reage.  Reage com seu veneno, destilando-o em críticas:

“Comprou uma TV de LCD em 32 vezes.  Vai ter um carnê da Casas Bahia de companhia”, critica.  “O carro ele vai pagar até as olimpíadas 2016.  Quando ver pagou dois carros, um só para o banco”.  “Esse cara vai atrasar o pagamento do condomínio…” Entre outras.  Critica seus hábitos, se julga superior porque o pobre leva um isopor com cerveja para a praia e ele consome tudo lá, gastanto o triplo.

Para o rico a aparência é o que importa.  E ele se ver igual aos pobres mortais é uma ofensa.  Por isso a segregação nos elevadores.  Como ela caiu, eles inventaram as áreas vips que, além de ser espaço reservado para eles, ainda precisa de sinalização:  Uma camisa diferenciada, uma pulseira ou o que for.  É preciso que ele além de estar em uma área diferenciada também tenha o direito de ostentar isso no meio dos mortais.

Vemos em isso em shows de rock, micaretas, boates, qualquer evento brasileiro.  Não vou nem passar por desfiles de moda das “qualquer-coisa-fashion-week” pois lá é o templo da futilidade e dessa necessidade de aparecer.  Odeio esta futilidade idiota.

E nos aviões?  Ainda tem gente inconformada de ao ir para as férias no Nordeste ver a aeronave cheia de legítimos nordestinos que estão indo visitar seus parentes.  Brincam dizendo que o MST invadiu o avião, se irritam quando eles manifestam seu fascínio por estarem voando pela primeira vez.  Acham que o lugar deles é dentro de ônibus precários por dias nas estradas.  Pobre só deveria entrar em avião pra fazer a faxina, é o que pensam.

Mas a sociedade nos impõe isso.  Basta ver a quantidade de revistas especializadas em nada, só na vida de celebridades.  O que me importa se a Nana Gouvea tem celulite?  Ou se o pseudo-vocalista do Rebolation está ou não namorando?  em que isso muda a história do país?  Ou a minha?  Sem chance.

Essa cultura nos é imposta, até chegar a um ponto em que você não paga a mais em um show para ver melhor, você paga para usar a pulseirinha.  Você paga mais caro em uma micareta não para ficar mais perto do trio ou ter mais espaço, mas para usar um abadá de cor diferente e se hierarquizar como superior aos demais.

Tem mais:  É você ter um carro zero e não dar a vez para o fusquinha ao seu lado, ou para o pedestre ou para o ônibus porque bem, eles não tem carro e você é melhor, tem mais pressa, mais cavalos no motor, seja o que for.  Enfim, isso é ridículo, mas é atitude típica de brasileiro.

Porque no fundo, o que todo mundo quer é a pulseirinha de VIP, o camarote, o “sabe com quem está falando” esse tipo de atitude.  Queremos TVs melhores para ser melhor que a do vizinho, não para ver o jogo melhor, ou um carro melhor não para nosso conforto e segurança, mas para esfregarmos na cara dos outros.  Bem ridículo, mas é assim que é.

 

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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