Coronel Nascimento

N.A:  Apesar de eu tentar não fazer isso, é provável que este post traga spoiler de “Tropa de Elite 2”  Portanto, pode não ser uma boa idéia você ler este post antes de ter visto o filme.  No entanto, não estou contando o final ou fazendo qualquer revelação que possa estragar o prazer de ver o filme, que inclusive, eu recomendo para o Oscar.

Esse fim de semana fui ver o filme do ano:  Tropa de Elite 2.  Que o filme ia ser bom, que ia ser algo para se comentar, eu tinha certeza, mas não esperava que fosse me surpreender tanto.

Nos filmes que mais gostamos, normalmente nos identificamos com os personagens.  Vemos em um deles, ou em vários, traços de nossa própria personalidade ali em um personagem.  Normalmente é por isso que gostamos de determinados filmes.  Por nos identificar com eles.

O personagem do Capitão, agora Coronel, Nascimento provavelmente será o herói nacional da década.  Na internet ele já é comparado a Chuck Norris e Jack Bauer.  Certamente um embate entre os três destruiria o universo.  Mas, piadas a parte, o personagem de Wagner Moura faz um bem danado ao país.

Nesta década os filmes brasileiros ganharam essa temática de favela, da violência.  Mesmo porque os filmes acabam retratando um pouco da verdade de um país.  Muito foi empurrado pelo sucesso de “Cidade de Deus”  Aí veio “Carandiru” e outros filmes e séries, todos focados nestas histórias.  Mas faltava um herói de verdade.

Em cidade de Deus quem seria?  Mané Galinha ou Zé pequeno?  Seja quem fosse, era um bandido.  Em Carandiru, não precisa nem comentar, afinal um filme passado em um presídio.  Tentaram fazer de herói até mesmo o sequestrador do Ônibus 174.  O cinema brasileiro estava se tornando algo como um culto a bandidos.

Aí veio o “Tropa”.  O primeiro era um filme que mostrava aquilo que a sociedade queria.  Uma polícia eficiente.  Truculenta, mas eficiente.  Tudo o que a sociedade de bem queria ver aparecia ali.  Bandidos morrendo, a polícia se mostrando infinitamente superior em táticas, os estudantes ricos hipócritas se dando mal por sua própria culpa, e todo esse intelectualismo de esquerda sobre os bandidos das favelas jogado no lixo.  Ao mesmo tempo o filme não se furta a mostrar a corrupção dentro do aparato policial.

Mas o BOPE, e o então capitão, Nascimento são imaculados.  De fato, na vida real, até hoje talvez a única mancha séria no batalhão foi a intervenção do policial contra o bandido do ônibus 174 onde, o plano era muito bom, mas a execução foi falha.  Capitão Nascimento, seu comportamento, suas falas, seu jeito, caem na boca do Brasil.

O segundo tropa dá mais lado a humanidade do, já coronel, Nascimento.  Confesso que, ao ver o filme, me identifiquei bastante com esse personagem.  De fato, não sou nem metade do que ele é, se eu fosse do BOPE duvido ser tão bom quanto ele, mas vi meu pensamento  e muito do meu comportamento expressado naquele personagem.

É um cara que pensa que existe o lado bom e o lado ruim, que os bandidos são o lado ruim e as forças do Estado devem ser o lado bom, e ele zela por isso no escopo que ele pode alcançar.  Que acha que, quem faz o mal deve sim pagar, que não tem essa de coitadinho sem oportunidades ou de direitos humanos (ou como ele diz, esse pensamento babaca de intelectual de esquerda), que os direitos são para quem cumpre os deveres.  Ele acredita no seu batalhão, nos “caveiras”.  Ele se vê em posição de erradicar o tráfico das favelas do Rio.  E assim, ele espera poder livrar a cidade dos maus elementos, inclusive os de dentro da polícia.

Mas toda esse dureza do coronel lhe cobra um preço.  A própria mulher dele que diz que ele afasta as pessoas que gosta dele.  Seu jeito duro de certo e errado, de ou mocinho ou bandido, do “pede pra sair” lhe faz perder tudo o que ele gosta.  E de repente lá está o coronel dentro de um turbilhão onde tudo o que ele gostava se afasta dele, o que ele acredita se mostra uma grande mentira.

De repente ele percebe que o filho gosta dele mas não consegue se aproximar dele.  E é assim que ele perde tudo.  Até mesmo a polícia que era o seu trabalho e algo que ele adorava fazer de repente é quem ele deveria combater.  E aí o coronel se vê em uma luta perdida, pois parece que seu ideal maior, a justiça, não é mais perseguida por ninguém.  Todos a sua volta só pensam em si mesmo, e ele sequer tem onde se apoiar, pois as pessoas que gostavam dele, se afastaram por conta de seu comportamento.

Pobre coronel.  Ao fim do filme fiquei com pena dele.  O pior é que,  na personalidade dele  mais defeitos do que virtudes dele se identificam comigo.  Chega ao ponto do coronel usar uma frase que eu uso muito e há tempos.  Se ao menos eu tivesse a garra do coronel…  Mas, assim como ele, ao menos não perdemos a esperança ou a vontade de lutar, mesmo que tudo pareça perdido.  Faca na caveira!

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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