Oh Minas Gerais (3)

(Relatos da viagem a BH – Parte IV)

[Sem fotos – Por enquanto, aguardem e confiem]

Até esse momento está tudo muito bonito nos casos da viagem.  Mesmo porque tudo o que escrevi até agora foram de coisas de turistas normais, atividades que você poderia levar sua avó ou sua sogra para fazer que elas adorariam e você ganharia muitos pontos com elas.  Mas agora, tire as crianças da sala, olhe em volta, não deixe menores lerem este post.  Pois chegou a hora do Dark side of BH.

A noite de BH é famosa pelos barzinhos.  E eu sou um fã incondicional de barzinhos.  Pra falar a verdade sou um fã de álcool.  Acho que só o Red 5 bebe mais do que eu.  Mas não era barzinhos que meus anfitriões de BH tinham preparado para mim na minha excursão noturna.

Mas uma boa “night” tem que ter aventuras a partir do momento em que você sai de casa.  Senão não tem a menor graça.  Pois bem, tive que sair sozinho de onde estava hospedado para encontrar o pessoal.  O ponto de encontro era o centro da cidade na praça 7 (a do obelisco, que tinha a apresentação de Soul).  Peguei um ônibus e, como eu não sabia onde era, fiz o que todo mundo faz nessa situação:  Pede para o cobrador avisar do ponto.

Só que ele foi muy amigo e esqueceu de me avisar.  Só conheci a praça 7 por conta do obelisco (já tinham me falado dele).  Quando o vi passando, perguntei ao cobrador, eu já deveria ter descido.  Bem, tive que descer no outro ponto, que ficava bem longe.

Memorizando as ruas pude voltar tranquilamente.  A cidade está arrumada em quarteirões, portanto com um pouco de noção de posição você vai fácil para onde quiser.  Se errar em uma rua, basta consertar na próxima esquina.  E assim vou eu tentando consertar e voltar para a praça. 

Em uma das ruas transversais a principal, uma larga apenas para pedestres escuto uma gritaria danada. De repente passa por mim um rapaz aparentando uns 19, 20 anos correndo.  Atrás dele uma mulher evangélica correndo e gritando.  Não faço idéia do que aconteceu entre eles, mas o que a mulher gritava é que era engraçado.  Gritava ela:

– Em nome de Jesus, se tem um demônio nesse corpo você vai parar agora!  Em nome de Jesus para!  Demônio eu te ordeno, para agora!

Não preciso dizer que o rapaz não parou.  A mulher por sua vez, se não tivesse com aquelas saias horríveis até a canela e tênis teria grandes possibilidades de pegar o rapaz dado o que ela corria.  Um possível talento olímpico para o Brasil?

Mas o rapaz usou a tática do pivete carioca e atravessou uma rua movimentada em estilo suicida.  A mulher não foi tão louca assim e voltou.  Voltando irritadíssima ouvi ela dizendo:

– Não tem problema.  Em nome de Jesus, amanhã ele está morto!  Em nome de Jesus a desgraça vai cair sobre ele

Meus ensinamentos religiosos apontaram uma clara violação ao segundo mandamento ali e também me remeteu a passagem que João quer tacar fogo na cidade (deve ser por isso que sou fâ dele).  Mas quem sou eu para falar alguma coisa.  Uma mendiga que estava sentada na calçada é que disse:

– Que isso moça, você devia era rezar pra ele se salvar…

sabedoria das ruas.  Mas a mulher evangélica estava furiosa e em momentos de fúria falamos besteira mesmo.  Entendo a reação dela.  Não vou nem criticá-la, mas que foi engraçado, ah como foi.

Rindo disso chego na praça 7.  Sofri uma demora.  Cheguei primeiro que todo mundo.  O ponto de encontro era o Mcdonald´s, daí pensei em entrar para comer.  Ledo engano.  A lanchonete já tinha fechado (as 21h).  Me senti em Petrópolis nesse momento.  Depois de uma espera percebi que não poderia ficar com fome.  Achei um Habib´s e fiz um lanche por lá.  Foi no Habib´s que o pessoal chegou.  Tinham pego um “taxi”. 

Enfim o destino era uma boate chamada “Mary in Hell”.  O nome já dá um pouco da pinta do que vem por aí.  Mas segurem a curiosidade porque tem mais aventura para contar antes.  Embora esse destino tenha sido definido desde a manhã, ninguém sabia onde era, nem o motorista.  Resultado:  voltas e voltas no centro de BH.

Essa boate é conhecida pelos mineiros por ser GLS (chegaremos lá), então toda vez que pedíamos informações as pessoas disfarçavam risos.  O caso mais engraçado foi ao perguntar na entrada de uma outra boate onde o clima era de playboys.  Esses nem disfarçaram a risada e zuaram abertamente com a gente ali mesmo.

“Graças a Deus não sou dessa cidade” foi o que me passou pela cabeça.  Ficar marcado na cidade como frequentador de boates GLS não era uma boa idéia.  Mas enfim, o pessoal que estava comigo jurava que a boate não é GLS, é alternativa.  Enfim, tá na chuva…

Achar a Boate foi todo esse sufoco.  Chegamos lá quase a meia noite.  Havia uma promoção para as mulheres, que durava até a meia noite (não lembro qual) mas isso fez que nos dividíssemos.  As mulheres entraram e os homens ficaram na fila.

Fila de boate é uma das coisas mais engraçadas das próprias boates.  Porque os tipos que a frequentam você vai identificar é na fila.  Lá dentro, normalmente ocorrem duas coisas:  Está escuro e você já bebeu o que dificulta um pouco de se identificar o lugar bizarro que você está.

Pois bem, a fila dessa boate me fez pensar que era realmente um lugar alternativo.  Hoje em dia você descobre as tribos das pessoas pelos cabelos.  Os emos, os punks, os moicanos, os bizarros…  E era assim que eu via o pessoal na fila.  Todos homens.  As mulheres já tinham todas entrado.  Mas o clima era tão engraçado que eu estava vendo quando uma Drag queen entraria na fila.

Mas sem qualquer importunação, entrei.  O lugar lembra bastante os inferninhos da Lapa.  Mesmo porque ele é em si um inferninho também.  Você passa pelo segurança sobe uma escadaria e depois desce de novo e está lá.  O lugar é bem apertado, por isso que me lembrou os inferninhos nos sobrados da Lapa.  E bem, é um outro mundo.

Muito embora digam ainda que aquela é uma boate alternativa, acredito que as únicas pessoas heterossexuais por lá era o grupo em que eu estava.  Posso citar até algumas presenças ilustres por lá como duas vocalistas do Fat Family e a banda Restart.  Inclusive um segredo sobre a banda:  O vocalista é mulher!

Entrando na boate, a primeira coisa que vi foi um casal de mulheres em um beijo apaixonado.  Logo depois uma amiga delas chegou e o beijo passou a ser a três.  Esse povo é tão aberto…  Eu poderia escrever uma série de TV inteira só com as personagens que vi lá. 

Chamaria-se “The L-Word – Teens”.  Embora a identidade seja conferida na porta, acho que essa boate terá problemas com o juizado de menores.  Eu provavelmente estava entre os mais velhos da casa.  E as meninas em questão é difícil acreditar que tinham mais do que 18.  Mas enfim, esse não é meu trabalho.

As meninas eram de vários estilos:  Aquelas que se vestem como meninos e gostam de meninas, as que se vestem como meninas e gostam de meninas, as total flex…  Havia para todos os gostos.  Creio não haver, excessão as minhas amigas, meninas hétero por lá.  Mas o ambiente era tranquilo, as pessoas procurando sempre se divertir e sem qualquer confusão. 

Dentre os homens, não vi homens vestido de mulheres ou travestis, ou drags, nada disso.  Mas o que tinha de gays era impressionante.  E, bem, era o ambiente deles.  Estando lá entendi finalmente porque tantas pessoas riram da gente quando procurávamos por informações. 

Mas eles são um povo bastante respeitador.  Não recebi cantadas em momento algum.  Nem de mulheres (que nunca recebo mesmo) e tampouco de homens.  Parece que, não conhecendo, eles ficam na deles, ou as coisas já vão armadas para lá.  O fato é que trata-se de um ambiente mais civilizado do que muitas boates hetero.  Pelo menos os homens de lá que são gays se assumem mesmo e não precisam arrumar brigas como pretexto para agarrar homem como fazem os pit-boys por aí.

O som é o eletrônico, o pop e o dance.  E claro bem alegre.  Eu temia por algumas músicas que certamente tocariam por lá e que levariam a galera a, digamos, uma extase.  Aconteceu exatamente o que eu temia quando se ouviu o Ôoooo de “Bad Romance” da Lady Gaga.  Ela inclusive estaria em casa na boate.  A pista praticamente explodiu quando esta música tocou.  Definitivamente Lady Gaga ocupa um posto junto de Gloria Gaynor e Madonna junto as divas do público, digamos, alternativo.

Um outro ponto positivo é que o lugar é barato.  Bem, tomar Heineken a 5 reais é barato para um cidadão de Petrópolis, terra onde as boates lhe arrancam o couro.  Pude beber bastante e pagar 25 reais.  A casa é tão tranquila que a cerveja é vendida em long neck e você pode levar a garrafa para a pista.  Todos sabem que aquilo é uma garrafa e não uma arma, e mesmo assim, você não precisa de uma arma por lá.

Deu para concluir que, a noite de BH não é muito diferente da noite de outras grandes cidades.  saí de lá por volta das 5 da manhã e a diversão valeu.  Antes que pensem, não, eu não peguei ninguém por lá.  Para quem já foi à Lapa é basicamente a mesma coisa, concentrando mais um pouco os tipos.  A regra do fumo proibido na casa era incrivelmente respeitada também.  Acredito que BH tenha boates melhores, mas esta já é melhor que o Tamboatá, que é a que tem de melhor em Petrópolis (também é a única).  Portanto, eles estão bem.

O caminho de volta só reserva a aventura de errar o caminho e caminhar por várias ruas desertas e escuras de um bairro de BH.  Brincadeira de criança para quem já andou nas ruas do morro dos Prazeres e da Cidade de Deus… 

Dois parênteses:  1 – Espero que ninguém veja esse tópico como homofóbico, pois não foi esta a intenção. 

2 – O Tamboatá se esforça para ser bom, mas o povinho que frequenta é que estraga…

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
Esse post foi publicado em Diários de Viagem e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

4 respostas para Oh Minas Gerais (3)

  1. Paula disse:

    Oi Salonga!!
    Gosto muito do seu blog… sempre me divirto com as novas postagens =D
    Um grande abraço

  2. Pingback: A viagem a Belém em 16 tweets | Blog do Fernando

  3. Pingback: Quanto mais idiota melhor | Blog do Fernando

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