As Misses Tubatão

[Postado a pedido da Elaine, vide o comentário na represa do rio Kwaii]

Nunca se agrada a todo mundo.  Aí quando eu vou contar uma das maiores epopéias que eu já vivi alguém tem que reclamar.  No caso foi a Elaine, grande blogueira e minha leitora, para infortúnio dela.  Mas dessa vez ela tem razão

Não dá para considerar as nossas operações em Tubatão ou em qualquer outro lugar sem contar a participação das mulheres.  Sem os esforços delas nada das grandes aventuras que vivemos teria sido possível.

Acho engraçado que, no caso das mulheres elas podiam se dividir em dois grupos, e qualquer um dos dois seria de grande utilidade para nós.  Tinha aquele grupo das mulheres guerreiras, que entravam no mato mesmo, que faziam as coisas e que, sendo necessário, você podia dar uma enxada na mão delas que elas fariam o serviço (isso inclui construir represas).  E tinha também aquelas que não era a praia delas, mas elas faziam o que era possível.  Eram aquelas, vamos dizer, mais “mulherzinhas”.

Para os homens, isso é inconcebível.  Todos tem que trabalhar no pesado e, o que não fizer é imediatamente taxado de fresco, preguiçoso entre outros.  Há truques para escapar do trabalho, mas eu sempre vi todos com maus olhos.

Não é o caso das mulheres.  Algumas simplesmente não foram feitas para aquilo.  E não há nada que a gente  possa fazer quanto a isso.  Mas isso não as coloca como inúteis ou que não tenham feito a parte delas.  E a maneira com que cada uma encara as coisas faz com que os dois tipos sejam necessários.

O engraçado é que um dos feitos mais incríveis que eu vi uma mulher fazer nos nossos retiros não foi em Tubatão.  Foi em Sapucaia, onde a Michele matou uma barata com as mãos.  Isso para demonstrar para as demais que estavam de frescura demais.  Aquilo tornou-a famosa e o assunto comentado por anos.

Tinham aquelas que agiam na linha de frente e precisavam fazer coisas parecidas ou jamais teriam o respeito dos cursistas.  E, na situação em que nos encontrávamos isso podia simplesmente ser uma questão de sobrevivência.  Para aquelas que estavam na frente, temer bichos e sujeira era impossível pois elas estavam expostas a eles sempre.  Elas não precisavam fazer como eu que pegava sapos, mas não podiam sair correndo ao ver um.  E normalmente era eu que ia lá e pegava o batráquio.

No post anterior eu contava como a água chegava ao chuveiro.  Mas, como era esse chuveiro?  Era um barraco, montado com pernas de serra e madeirite.  Os chuveiros eram aqueles de plástico que as pessoas costumam colocar próximos a piscinas.  O chão era feito com pallets de carga sobre terra batida (fora do carnaval era um pasto).  Uma vala era aberta para escoar a água e, a saída era feita com um pedaço de madeira e depois, o chão.  E como sempre chovia, o que acontecia era que, imediatamente após você estar limpo, você já era obrigado a colocar o pé na lama de novo.

Bem, imagine isso para as mulheres?  Mas isso nem era o mais temeroso delas.  O que elas mais temiam em Tubatão era o tobolama.  O tobolama era um rasgo aberto na encosta do morro e as pessoas desciam por ali tal qual um escorrega.  A altura do morro devia ser de algo em torno de uns 40 metros até o chão do sítio e a descida era feita em uma inclinação média de 50 graus.  Mas quando você olhava para baixo de lá de cima, a sensação era bem pior.  Para muitas delas era superar um desafio e tanto encarar aquilo.  Eu vi algumas que desciam apenas após chorar muito, e desciam as lágrimas.

Quando íamos antes para a fazenda preparar as coisas, sempre algumas tinham que nos acompanhar.  Isso era pelo fato de nossa inabilidade com os serviços domésticos e também porque simplesmente precisávamos de opiniões e de alguém que pudesse organizar a casa, literalmente. Também tinha o meu teste pois, os obstáculos que eu bolava deviam ser transpostos por elas, para que eu tivesse um parâmetro se as meninas que iriam fazer o encontro conseguiriam.  Então elas eram minhas cobaias e também precisavam segurar meu ímpeto de fazer coisas muito malucas.

E elas cumpriam todas as missões que lhes eram encarregadas com louvor.  Sempre tinha uma na coordenação (variava de acordo com o ano) e sempre tinha as líderes que sofriam bastante, pois tinham que passar por todas as minhas armadilhas e ainda cuidar das meninas que estavam com elas nos times, sendo que a maioria com inúmeras frescuras cujo objetivo do encontro era exatamente tirar.

Nessa posição se destacavam algumas que eram do tipo que buscavam a ação.  Por ali entre nossas heroínas eu colocaria a Alessandra, a Dani, a Lili, que faziam um trio que tirava sempre ao menos uma foto e, mesmo sem combinar saiam sempre na mesma posição.  Tinham outras de ação que figuravam mais nos escalões mais altos por serem mais experientes, que eram a Elaine (blogueira parceira aqui) e a Michele (a da barata).  Também transitou por ali a Maxi outra figura que derramou litros de lágrimas na primeira descida do tobolama e morre de medo dele até hoje.  Mas sempre desceu.

Ainda tinha aquelas com as quais você sempre podia contar com os conselhos e companhia delas quando precisasse.  Sim, porque sempre tinha o momento em que tudo deu errado e você não sabia bem o que fazer, ou você tinha que encarar algo muito grande e ficava com medo de não dar conta.  Aí você sempre podia contar com a outra Dani (que depois seria a esposa do Zangief), com a Grazi, mesmo com seu jeito estressado de ser (deixa só ela ler isso aqui), a Elainezinha entre outras.

Merecem uma menção especial a turma de mulheres que eram popularmente conhecidas como “as tias da cozinha”.  Essa era certamente a equipe mais importante que existe no encontro.  Isso porque elas é que garantiam o rancho e, sem comida, nada funcionaria.  A equipe das tias da cozinha era composta sempre pelas nossas mães, variando conforme o encontro, as mães de quem seria.  A minha passou por lá, a mãe do Jean, da Elainezinha, e um monte de outras.  Uma das coisas que sempre me preocupava em fazer primeiro nos encontros era me tornar amigo delas, pois isso garantiria meu suprimento de café e as refeições fora de hora que tínhamos que ter pois, na hora das refeições oficiais quase sempre estávamos ocupados nas nossas atividades.

Enfim, está aí para a Elaine um post dedicado especialmente a ala feminina que combateu conosco sem as quais nada teria acontecido.  Se nós fizemos represas e botamos o povo pra ralar, o resto do encontro quem resolvia eram elas.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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  1. Pingback: O dia da Crisma | Blog do Fernando

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