A Represa do Rio Kwaii

[Estou procurando uma foto com a tal represa mas não estou achando, se alguém tiver por favor me mande.  Enquanto isso ilustro com essa]


Bem, o ano era 2002 e o local era a Fazenda Tubatão em São José do Vale do Rio Preto.  Estávamos em janeiro e o carnaval era na primeira semana de fevereiro.  Corríamos contra o tempo pois aquela fazenda precisava estar preparada para receber cerca de 60 pessoas durante o carnaval.  Não tínhamos nada além de uma casa abandonada há anos e um galpão.  E é assim que a história começa.

Água seria um problema.  Precisávamos garantir o fornecimento dela não apenas para o consumo, mas para o banho, limpeza do local e preparo dos alimentos para todas essas pessoas.  Dispúnhamos de uma mina, que não seria capaz de fornecer a vazão adequada para atender a demanda.  Algo precisava ser feito.  E foi.

Com esse objetivo foram mandados para lá caras como eu, o Eduardo (Dudu), o Rafael (Lambari), o Carlos Henrique (Ico – Outro lambari), Luciano (Zangief) entre outros que me falha a memória agora.  Havia um pequeno córrego que passava pelo local que apresentava água barrenta, mas sem poluição pois a nascente dele estava poucos metros acima.  Segundo os funcionários da fazenda, ele era utilizado como suprimento de água para algumas áreas da fazenda através de uma represa, que estava abandonada na ocasião.

Encontramos as ruínas da represa.  Decidimos então que aquele córrego seria nosso supridor de água.  A nossa represa seria construída 30 metros rio acima da antiga, e por volta de 100 metros da casa onde estava a nossa base, e que seria o centro do consumo de água durante o carnaval.  A primeira enxada foi lançada à terra naquele dia e o trabalho começou.

Represar água é sempre uma tarefa difícil.  Principalmente se o terreno onde você pretende construir for barrento.  A água sempre tentará passar e sempre levará o barro com ela, ainda mais aquele que você acabou de mexer.  Para mantê-la no lugar foi necessário o uso de plástico e madeira.  Mas ela estava lá.

Esta represa supriria principalmente uma caixa d’água que alimentaria a casa e também um complexo de chuveiros (carinhosamente batizado de Auschwitz) que serviria como chuveiro masculino.  A água seria levada até lá via mangueira de 1 ½”

Lançar a mangueira até o chuveiro foi uma nova aventura.  Ela atravessaria a mata fechada entre o córrego e a trilha, indo muitas vezes por dentro do próprio córrego (o que acabou proporcionando água gelada o dia todo).  Ao chegar ao seu destino, nada de água saindo.  Descobrimos então que a mangueira estava cheia de ar, e para tirá-lo era preciso cortar um pedaço da mesma e tirar o ar dali.  Depois, emendando-a novamente ela seria capaz de escoar normalmente.  Realizada a operação, tudo funcionava e a represa nos supriu durante todo o carnaval com sobras.

Em 2004 retornamos.  Mais um carnaval naquela localidade.  Ao inspecionar a represa, semanas antes descobri que ela ainda estava no lugar.  Mas, chegado o carnaval, a noite ela havia ruído, ou como diziam os alemães “kaputz”.  Quando voltei e me perguntaram dela respondi “ih, tem não”.  Começava a reconstrução dramática.

A situação de água havia melhorado.  Agora podíamos contar com um poço e bomba, e isto garantiu todo o abastecimento da casa.  O chuveiro contudo, ainda demandava da represa e esta não estava operacional.  O pessoal passou o sábado de carnaval na tarefa de reconstrução.  Eu passei o tempo entre essa tarefa, arranjar a programação e comandar as dinâmicas.  Sem contar com a equipe de apoio que estava na tarefa da represa.

No entanto, o Bope da igreja jamais desapontaria.  Missão dada era missão cumprida e as 17h daquele sábado a água jorrava pelos chuveiros.  Atrasamos o banho em duas horas, mas o prazo final que era o dia escurecer fora cumprido e as pessoas tomaram banho nessas águas.

Ainda voltamos lá em 2005 e 2006.  Em ambas as vezes tivemos que reconstruir a represa.  Isso, é claro, depõe contra meu diploma de engenheiro.  A qualidade da água também não era grande coisa.  Os chuveiros entupiam de barro durante o carnaval e sempre tirávamos folhas de dentro deles e das tubulações mais finas.  Mas acho que aquela represa significava bem mais do que apenas uma fonte de água.

Era uma síntese do que era o São Cristóvão.  Sempre em cima da hora, sempre correndo, sempre no sufoco, mas nunca fracassando.  O que mais caracterizava a gente era a união, a disposição em fazer (ninguém reclamava do trabalho pesado), e, acima de tudo o bom humor.

Eu podia perceber isso mais facilmente mas, enquanto as pessoas lá embaixo, no desenrolar do retiro estavam nervosas com essa situação e com as outras, ao subir até a represa você via todo mundo trabalhando e rindo.  A cena do Jean com a mangueira de  1 ½” na mão imitando o calendário dos bombeiros foi impagável.  E o Zangief contando a epopéia dos Warlocks contra os Máximus…  Isso sem falar do Dudu tirando o ar da tubulação tentando colocar a boca na mangueira de 1 ½”.  Você não conseguia ficar cinco minutos por lá sem dar belas risadas.

Além dos que já citei, vários outros heróis deram seu suor e tempo para aquela represa:  O Evandro, Alexandre (Dud), Seu Pedro, Davi, Marcinho, Vinícius, Lincoln…  Acho que cada um que esteve lá aprendeu com aquela represa.  Aprendeu o companheirismo, a tranqüilidade, a lealdade, a determinação, a disposição, a confiança, o trabalho de equipe…  Aquela represa marcou a todos nós.  Os que estiveram nela, não esquecerão jamais.

Acho que a única coisa que não aprendemos construindo a represa foi como construir represas, pois ela sempre caía.  Mas nunca deixamos ninguém na mão.  Exatamente como era o São Cristóvão, a elite da juventude da Diocese de Petrópolis.

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Sobre Fernando Vieira

Engenheiro Mecânico. Trabalha no Rio mas mora em Petrópolis. Fez esse blog, pra comentar sobre tudo um pouco mesmo sem entender de nada.
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5 respostas para A Represa do Rio Kwaii

  1. Elaine disse:

    oi…corrigindo…o primeiro Tubatão foi no ano de 2001. E acho que você deve citar as heroínas desta dura Guerra, nós meninas São Cristovenses (hehehe), e principalmente as tias da cozinha, porque, sem elas, nem represa, nem heróis, nem retiro nenhum….rsrs
    abraços

  2. IPHASC disse:

    Sinto muito mas os senhores estão equivocados. De acordo com os arquivos do IPHASC (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico São Cristovense, a verdadeira sequencia dos retiros é:

    1999: Retiro da BR
    2000: Tulha
    2001: Paroquial no Jaguara
    2002: Tubatão I
    2003: Sapucaia
    2004: Tubatão II – A missão
    2005: Tubatão III – O Resgate
    2006: Tubatão IV – Lethal Weapon (“Máquina Mortífera)

    A seguir veio o golpe. Mas os de verdade foram esses

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